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Alguma coisa está fora da ordem

JORNALISTA JÂNIO DE FREITAS: No Brasil, a democracia e seus adeptos têm dívida impagável com a corrupção

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Alguma coisa está fora da ordem

No Brasil, a democracia e seus adeptos têm dívida impagável com a corrupção

por Janio de Freitas

Curto e fino, na duração de meia hora e na franca serenidade do depoente, um dos mais aguardados depoimentos à Lava Jato foi mais sutil e menos explorável do que o sensacionalismo jornalístico esperava. Ao falar do concubinato dos políticos com as empreiteiras, Emílio Odebrecht, decano dos acusados, qualificou-o como “o modelo reinante” no Brasil, de origem já perdida no tempo. Quase uma sugestão de lembranças remotas, que teriam ajudado a compreender melhor a Lava Jato e a poupá-la do dirigismo que lhe deixou desgastes inapagáveis, tanto éticos como judiciais.
Na longa precedência de tudo o que a Lava Jato atribuiu à criatividade petista, encontro motivo até para uma revelação pessoal: reconheço um mérito histórico na corrupção. Como pessoa e como cidadão, não tenho escrúpulo em dizer que sou agradecido à inescrupulosa transa entre poder público e empreiteiras. E creio mesmo que todo brasileiro adepto da democracia deveria ter igual gratidão, ainda que a gratidão seja pouco encontrável por aqui.
Pois é, a democracia. Figueiredo, temperamental, não sabia se desejava ir-se ou não. Seu círculo, sim, não tinha dúvida. A procura de meios para permanecer irradiava-se do ministro do Exército, Walter Pires, e seu grupo. Não havia unanimidade, com uns poucos preferindo a retirada e o alto do muro povoando-se cada vez mais. Aí estava o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, que distribuía disposições simpáticas para todos os quadrantes. Até que levou umas chamadas, sendo talvez mais agressiva a de Walter Pires.
Délio Jardim de Mattos era um dos menos presunçosos na gorilândia. Resolveu dar uma demonstração de firmeza. Soltou uma fala duríssima, ameaçadora aos políticos que abandonavam o time do governo e aos oposicionistas, sem deixar dúvida quanto à disposição do núcleo do regime de manter-se no poder, a despeito do propósito contrário que se generalizara no país. Inesperada, no primeiro momento a fala ameaçadora só teve como resposta as perplexidades e os temores. Então Antonio Carlos Magalhães encerrou o silêncio.
Antonio Carlos e Délio eram tidos como amigos. Antonio Carlos visto como amigo só podia ser força de expressão. Se não era, a amizade não sobreviveu nem como hipótese. Para os ouvidos em geral, a fala de ACM foi ríspida e exaltada defesa da “abertura”, mais valiosa só por partir de quem era uma das eminências do regime. A fala tinha caroço, porém. Venenoso.
A Aeronáutica estava contratando as reformas de aeroportos, àquela altura os de Salvador e Recife. Como se fosse apenas mais um dos pontos em sua resposta ao ministro, ACM enfatizou a necessidade de licitações limpas. A OAS, empreiteira quase desconhecida, faria parte das reformas. Baiana, tinha como um dos donos César Matta Pires. Genro de ACM, que sabia do que falava na referência às licitações.
O brigadeiro Délio não respondeu. Ninguém no governo respondeu. Uma atitude sem precedente. O continuismo começou a murchar e não se recompôs mais. Só foi brigar na eleição indireta, com Paulo Maluf como seu representante.
São insondáveis os desdobramentos possíveis, sem o episódio Délio/ACM, da contradição entre o esgotamento do regime –já perdidos os seus sócios civis– e a pretensão militar de reter o poder. Mas é certo que, sem a fala de ACM, a resistência militar não murcharia como murchou. E sem as denunciáveis condições de contratação da empreiteira OAS pela Aeronáuitica, ACM não responderia a ameaças com ameaça.
No Brasil, a democracia e seus adeptos têm dívida impagável com a corrupção.
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LÚDIO CABRAL: 5 mil vidas perdidas para a covid em Mato Grosso

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CINCO MIL VIDAS

Lúdio Cabral*

Cinco mil vidas perdidas. Esse é o triste número que Mato Grosso alcança hoje, dia 26 de janeiro de 2021, em decorrência da pandemia da covid-19.

Cada um de nós, mato-grossenses, convivemos com a dor pela perda de alguém para essa doença. Todos nós perdemos pessoas conhecidas, amigos ou alguém da nossa família.

A pandemia em Mato Grosso foi mais dolorosa que na maioria dos estados brasileiros e o fato de termos uma população pequena dificulta enxergarmos com clareza a gravidade do que enfrentamos até aqui.

A taxa de mortalidade por covid-19 na população mato-grossense, de 141,6 mortes por 100 mil habitantes, é a 4ª maior entre os estados brasileiros, inferior apenas aos estados do Amazonas (171,9), Rio de Janeiro (166,2) e ao Distrito Federal (147,0). O número de mortes em Mato Grosso foi, proporcionalmente, quase 40% superior ao número de mortes em todo o Brasil. Significa dizer que se o Brasil apresentasse a taxa de mortalidade observada em Mato Grosso, alcançaríamos hoje a marca de 300.000 vidas perdidas para a covid-19 no país.

Lembram do discurso que ouvimos muito no início da pandemia? De que Mato Grosso tinha uma população pequena, uma densidade populacional baixa, era abençoado pelo clima quente e que, por isso, teríamos poucos casos de covid-19 entre nós?

Lembram do posicionamento oficial do governador de Mato Grosso no início da pandemia, de que o nosso estado não teria mais do que 4.000 pessoas infectadas pelo novo coronavírus?

Infelizmente, a realidade desmentiu o negacionismo oficial e oficioso em nosso estado. Não sem muita dor. O sistema estadual de saúde não foi preparado de forma adequada. Os governos negligenciaram a necessidade de isolamento social rigoroso em momentos cruciais e acabaram transmitindo uma mensagem irresponsável à população. O resultado disso tudo foram vidas perdidas.

Ao mesmo tempo, o Mato Grosso do sistema de saúde mal preparado para enfrentar a pandemia foi o estado campeão nacional em crescimento econômico no ano de 2020. Isso às custas de um modelo de desenvolvimento que concentra renda e riqueza, de um sistema tributário injusto que contribui ainda mais com essa concentração, e de um formato de gestão que nega recursos às políticas públicas, em especial ao SUS estadual, já que estamos falando em pandemia.

Dolorosa ironia do destino, um dos municípios símbolo desse modelo de desenvolvimento, Sinop, experimentou mortalidade de até 100% entre os pacientes internados em leitos públicos de UTI para adultos em seu hospital regional.

Nada acontece por acaso. Os números da covid-19 em Mato Grosso não são produto do acaso ou de mera fatalidade. Os números da covid-19 em Mato Grosso são produto de decisões governamentais, de escolhas políticas determinadas por interesses econômicos, não apenas agora na pandemia, mas por anos antes dela. E devemos ter consciência disso, do contrário, a história pode se repetir novamente como tragédia.

Temos que ter consciência dessas injustiças estruturais para que possamos lutar e acabar com elas. A dor que sofremos pelas pessoas que perdemos para a pandemia tem que nos mobilizar para essa luta.

Lutar por um modelo de desenvolvimento econômico que produza e distribua riqueza e renda com justiça, que coloque pão na mesa de todo o nosso povo e que proteja a nossa biodiversidade. Lutar por um sistema tributário que não sacrifique os pequenos para manter os privilégios dos muito ricos. Lutar por políticas e serviços públicos de qualidade para todos os mato-grossenses. Lutar pelo SUS, por um sistema público de saúde fortalecido e capaz de cuidar bem de toda a nossa população.

São essas algumas das lições que precisamos aprender e apreender depois de tantos meses de sofrimento e dor, até porque a tempestade ainda vai levar tempo para passar.

*Lúdio Cabral é médico sanitarista e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso.

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