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CUIABÁ

O melhor detergente é a luz do sol

GABRIEL NOVIS NEVES: Recebi o pedido de um amigo para escrever mais sobre a minha experiência no Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte. Em 16 de março de 1966 assumi a direção do Hospital dos Loucos, como era conhecido o hospital

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O melhor detergente é a luz do sol

MAIS SOBRE O ADAUTO BOTELHO

por Gabriel Novis Neves

 

 

Recebi o pedido de um amigo para escrever mais sobre a minha experiência no Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte.

 

 

 

Fui das últimas turmas de médicos generalistas com foco em ginecologia e obstetrícia.

 

 

 

Retornei para Cuiabá na segunda metade de 1964.

 

 

 

Em 16 de março de 1966 assumi a direção do Hospital dos Loucos, como era conhecido o hospital.

 

 

 

Como diretor fiquei até maio de 1968, quando assumi a secretaria de educação do estado, sendo substituído pelo psiquiatra José Guilherme Esmela Curvo.

 

 

 

Como médico e professor de psiquiatria forense fiquei atendendo em um período da manhã, até o dia 16 de março de 1971, quando me afastei definitivamente agora do Hospital Adauto Botelho, para implantar a universidade federal de Mato Grosso, no Coxipó da Ponte, em Cuiabá.

 

 

 

Quando fui dirigir o Hospital de Alienados, não tinha condições de avaliar o quanto necessitava dos ensinamentos de uma realidade diferente daquela adquirida na minha formação universitária.

 

 

 

Mesmo na área das minhas afinidades, ginecologia e obstetrícia, era completamente diferente cuidar dessas mulheres em enfermarias de um hospital psiquiátrico.

 

 

 

A começar pela anamnese, onde a história da doença contada pelas internas eram muitas das vezes diferentes da realidade.

 

 

 

Todos que fazem medicina sabem muito bem da importância das informações dos pacientes para um encaminhamento diagnóstico.

 

 

 

O mundo dos pacientes internados é bem diferente do nosso mundo consciente.

 

 

 

Os psicóticos agudos, de personalidades psicopatas, ausências epiléticas, dependentes químicos e neuróticos graves, vivem no mundo inconsciente.

 

 

 

E o médico de um modo geral não está treinado para essas situações, onde as relações e reações dos pacientes, são as mais inesperadas possíveis.

 

 

 

Certa ocasião fui chamado por um funcionário do hospital, que naquela época era chamado de guarda, numa alusão aos soldados que guardavam os criminosos em penitenciárias, para atender a uma jovem internada.

 

 

 

Pelo relato ela me disse que havia sido incomodada por um interno.

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O lençol da cama estava com uma grande mancha de sangue.

 

 

 

Ao fazer o exame físico constatei que ela havido costurado os grandes lábios da vagina com agulha e fios de costura.

 

 

 

Passei a melhor compreender as mulheres diferenciadas e discriminadas a lidar com a sua sexualidade.

 

 

 

Gostava, apesar da dificuldade, de conversar com elas.

 

 

 

Me tornei mais humano ao mergulhar no universo feminino.

 

 

 

Fiz o parto de algumas internas, e contemplava a relação com o seu neném em um ambiente coletivo de doentes mentais.

 

 

 

A reação das outras pacientes no ambiente com um recém-nascido.

 

 

 

Uma coisa maravilhosa que não se aprende em livros de medicina, onde era comum a psicose puerperal, cujo medicamento era a aplicação do eletrochoque

 

 

 

E dos homens?

 

 

 

Percebi fumaça saindo em média quantidade pela janela da enfermaria dos homens.

 

 

 

Abri a porta e percebi um colchão de palha pegando fogo, originário de um cigarro abandonado por um interno.

 

 

 

Os outros pacientes da enfermaria a tudo apreciavam, ignorando que corriam risco de morte pela disseminação do incêndio, tendo seus corpos queimados e pulmões afetados por aspiração do gás carbônico.

 

 

 

Para os antigos funcionários do hospital aquilo era um fato normal, que me obrigou a rever esse conceito daquilo que é normal.

 

 

 

Percorrendo enfermarias, corredores, ambulatórios, refeitórios, sempre deveríamos estar preparados para situações não desejadas.

 

 

 

A maior lição de vida que recebi foi atender e ver como viviam os pacientes nas celas fortes, para “os loucos furiosos”.

 

 

 

Eles tinham uma perna amarrada em uma corrente de ferro e presa numa argola no chão.

 

 

 

O sanitário consistia em uma abertura no chão, ao lado do colchão onde o paciente dormia.

 

 

 

O banho era feito por canecas de água, e não havia higiene bucal.

 

 

 

A comunicação com o mundo exterior era por uma pequena janela, por onde o paciente recebia os medicamentos, refeições e água para as suas necessidades.

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Passados cinquenta anos, não sei como anda o tratamento dos doentes mentais do SUS, e essas recordações pertencem a um passado recente onde o diretor do hospital jogava futebol com pacientes e funcionários e um cliente crônico teve autorização para construir a sua casa fora do hospital, verdadeira obra de arte do inconsciente.

 

 

 

A antiga casa para pacientes crônicos e sem família, onde era frequente encontrar um corpo boiando no rio Coxipó, foi totalmente demolida.

 

 

 

As celas fortes foram transformadas em pequenas oficinas, a antiga cozinha passou a ser um centro de recreação, com mesa para o jogo de bilhar, sendo o médico José Guilherme nossa estrela principal.

 

 

 

Lá eram ministradas aulas práticas de Direito Forense, muito do agrado dos acadêmicos.

 

 

 

Foram construídos campo de cimento para futebol de salão, vôlei e basquete.

 

 

 

Campo de futebol de grama com dimensões oficiais para campeonatos entre pacientes e funcionários, centro de treinamento do Mixto, de Ruiter Jorge de Carvalho Neto.

 

 

 

Foi construída uma parte nova de dois pavimentos, com entrada independente, por administração direta, onde pacientes que foram abandonados pelas suas famílias participaram.

 

 

 

Foi aberta, com tratores cedidos pelo Estado, uma rua de acesso direto da parte nova ao asfalto da avenida do Coxipó.

 

 

 

As obras foram supervisionadas gratuitamente pelo engenheiro civil Luís Lotufo.

 

 

 

O hospital ampliou a oferta de leitos, que atendia a todo o Estado não dividido.

 

 

 

Melhorou a qualidade do atendimento, contratando enfermeiras de nível superior como a Geralda e Maria Remilda, farmacêutico Balbino Latorraca, dentista Silvério Correa da Costa, farmacêutica Affif Bussick.

 

 

 

Novos médicos especialistas em psiquiatria começaram a chegar.

 

 

 

Depois de 1971 nunca mais voltei ao hospital Adauto Botelho, que em 1966 tinha gestão compartilhada, onde médicos e funcionários participavam da receita das internações dos pacientes particulares.

 

 

 

Gabriel Novis Neves, 87, é médico e professor aposentado em Cuiabá. Titular do blogue BAR DO BUGRE, onde relata suas memórias.

 

18-06-2022

 

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ECONOMISTA YANIS VAROUFAKIS: Por que a inflação voltou? A questão é do tipo que não tem resposta precisa

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Por que a inflação voltou?

Por Yanis Varoufakis, no Project Syndicate | Tradução: Antonio Martins

A tentativa de encontrar culpados pela alta dos preços está cada vez mais intensa. Foi o dinheiro farto dos bancos centrais, injetado por tempo demais nas economias, que fez a inflação decolar? Foi a China, que adotou lockdows para se proteger da covid e rompeu as cadeias globais de abastecimento? Foi a Rússia, que ao invadir a Ucrânia bloqueou uma parcela importante do suprimento global de gás, petróleo, grãos e fertilizantes? Foi uma mudança brusca das políticas pré-pandêmicas de “austeridade” para liberalidade fiscal irrestrita?

A questão é do tipo que não tem resposta precisa. Todas as mencionadas acima e nenhuma delas. Grandes crises econômicas frequentemente atraem múltiplas explicações, que estão todas corretas mas não tocam no ponto central. Quando os mercados financeiros desabaram em 2008, desencadeando a Grande Recessão global, surgiram várias interpretações: A captura das instituições regulatórias pelas instituições financeiras, que substituíram a indústria na liderança da ordem capitalista. Uma inclinação cultural ao risco financeiro. O fracasso dos políticos e economias, que confundiram uma bolha gigante com um novo paradigma. Tudo isso era real, mas nada ia ao núcleo da questão. O mesmo ocorre agora. “Nós avisamos”, dizem os monetaristas, que preveem inflação alta desde que os bancos centrais passaram a emitir dinheiro em larga escala, em 2008. Fazem-me lembrar do triunfo que os esquerdistas (como eu!) experimentamos naquele ano, depois de termos “previsto” repetidamente a quase-morte do capitalismo – iguais a um relógio parado, que acerta a hora duas vezes ao dia.

É verdade: ao permitirem que os banqueiros fizessem vasta emissão de crédito (na falsa esperança de que o dinheiro emitido iria irrigar a economia), os bancos centrais provocaram uma inflação de ativos (fazendo disparar os preços dos imóveis, das ações e das criptomoedas, por exemplo). Mas a narrativa monetarista não explica por que os bancos centrais foram incapazes, entre 2009 e 2020, sequer de ampliar a quantidade de dinheiro em circulação na economia real – muito menos de fazer a inflação chegar à meta de 2% ao ano. Algo além disso desencadeou a alta dos preços atual. A interrupção das cadeias de abastecimento dependentes da China) também teve peso, assim como a invasão da Ucrânia. Mas nenhum destes fatores explica a abrupta “mudança de regime” do capitalismo ocidental — da deflação, que predominava até há pouco, para seu oposto: a alta simultânea de todos os preços. Normalmente, para que isso ocorresse seria necessária uma inflação dos salários superior à dos preços, desencadeando uma espiral incessante, com a alta dos salários retroalimentando altas dos preços que, por sua vez, levaria os salários a aumentarem também, ad infinitum. Só nesse caso seria razoável que os bancos centrais demandassem aos trabalhadores “jogar para o time” e reduzir a luta por altas de salários.

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Mas fazê-lo hoje seria absurdo. Todas as evidências sugerem que, ao contrário dos anos 1970, os salários estão subindo muito menos que os preços, e ainda assim a inflação não apenas se mantém – mas acelera. O que está acontecendo, então? Minha resposta: um jogo de poder de meio século, conduzido pelas grandes corporações, pela oligarquia financeira, pelos governos e bancos centrais, está terminando muito mal. Como resultado, as autoridades ocidentais agora defrontam-se com uma escolha impossível: ou empurram os conglomerados (e mesmo alguns Estados) para falências em série, ou permitem que a inflação suba sem parar. Por 50 anos, a economia dos EUA sustentou as exportações líquidas da Europa, Japão, Coreia do Sul; e mais tarde da China e de outras economias emergentes. A parte do leão destes lucros estrangeiros voltava a Wall Street, em busca de maiores rendimentos.

Por trás deste tsunami de capitais que se dirigia aos EUA, o sistema financeiro construía pirâmides de dinheiro privado (os mercados de opções e derivativos). O esquema financiava a construção, pelas corporações, de um labirinto de portos, navios, entrepostos, pátios de estocagem, estradas e ferrovias. Quando o crash de 2008 incendiou estas pirâmides, todo o labirinto financeirizado de cadeias de suprimento just in time balançou. Para salvar não apenas os banqueiros, mas o próprio labirinto, os bancos centrais tomaram a frente, substituindo as pirâmides do sistema financeiro com dinheiro público. Ao mesmo tempo, os governos estavam cortando gastos públicos, empregos e serviços. Não era nada menos que socialismo de luxo para o capital e austeridade estrita para o trabalho. Os salários encolheram e os preços e lucros estagnaram, mas os preços dos ativos negociados pelos ricos (e, portanto, sua riqueza) disparam.

O nível de investimentos (em relação ao dinheiro disponível) caiu a um ponto inédita, a capacidade de produção encolheu, o poder dos mercados multiplicou-se e os capitalistas tornaram-se ao mesmo tempo mais ricos e mais dependentes do dinheiro dos bancos centrais que nunca. Era um novo jogo de poder. A luta tradicional entre capital e trabalho, cada um esforçando-se para elevar a respectiva fatia na renda disponível, por meio de crescimento das margens ou elevações de salários, continuou. Mas já não era a fonte principal da nova riqueza. Depois de 2008, as políticas generalizadas de “austeridade” resultaram em baixo investimento (demanda por dinheiro), que, combinado com total liquidez assegurada pelos bancos centrais (vasta oferta de dinheiro), manteve o preço do dinheiro (taxas de juros) próximo de zero. Com a capacidade produtiva (mesmo no setor imobiliário, em termos globais) em queda, bons empregos escassos e salários estagnados, a riqueza triunfou nos mercados de ações e propriedades, que haviam se desacoplado da economia real.

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Então, veio a pandemia, que mudou algo essencial. Os governos ocidentais foram forçados a direcionar alguns dos novos rios de dinheiro dos bancos centrais para as massas em quarentena, em meio a economias que, ao longo de décadas, haviam corroído sua própria capacidade de produzir e tinham de lidar agora com a ruptura das cadeias de abastecimento. À medida em que as multidões em quarentena gastavam parte de seu novo dinheiro em importações escassas, os preços começaram a subir. As corporações com riqueza acumulada em papel responderam lançando mão de seu imenso poder de mercado (ainda garantido por sua capacidade produtiva encolhida) para levar os preços às alturas.

Depois de duas décadas de bonança de preços de ativos disparados e de dívida corporativa crescente – tudo em consequência das ações dos bancos centrais – bastou uma pequena inflação para terminar com o jogo de poder que moldou o mundo pós-2008 à imagem de uma classe dirigente revivida. Agora, o que virá? Nada de bom, provavelmente. Para estabilizar a economia, as autoridades primeiro precisariam acabar com o poder exorbitante concedido a muito poucos por meio de um processo político de produção de riqueza de papel e criação de dívida barata. Mas estes muito poucos não vão entregar poder sem luta, ainda que isso signifique mergulhar toda a sociedade num grande incêndio.

Yánis Varoufákis é economista, blogger e político grego membro do partido SYRIZA. Foi o ministro das Finanças do Governo Tsipras no primeiro semestre de 2015. Varoufákis é um assíduo opositor da austeridade. Desde a crise global e do euro começou em 2008, Varoufákis tem sido um participante ativo nos debates ocasionados por esses eventos. Publicado originalmente no saite Outras Palavras.

Varoufákis

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