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FILÓSOFO VLADIMIR SAFATLE: As Forças Armadas do caos no Brasil

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Bolsonaro com militares

As Forças Armadas do caos

por Vladimir Safatle*, em El País

 

Uma das maiores ilusões a respeito do Governo Bolsonaro é que ele seria composto por dois eixos em estado contínuo de antagonismo. De um lado, haveria o núcleo ideológico, com suas pautas de regressão social e isolamento internacional, enquanto no outro lado encontraríamos o núcleo militar. Se o primeiro seria impulsionado pela crença em ser o protagonista maior de uma revolução conservadora no Brasil, o segundo seria ainda pautado por certa perspectiva “moderada” e “racional”.

Na verdade, essa foi a melhor narrativa que as Forças Armadas poderiam encontrar para si mesmas. Isso lhes permitiu tomar de assalto o poder executivo, colocando milhares de seus membros da ativa e da reserva dentro da estrutura do poder, sem ter que assumir o ônus de agente fundamental do caos. Jogando a carta do corpo técnico que assume o Estado corrompido, procurando defende-lo de ideólogos que viriam de todos os lados, as Forças Armadas tentaram vender ao país a imagem de serem uma espécie de força de contenção indispensável e inevitável. Bastouuma pandemia com seus desafios reaispara que toda essa história ruísse

Na verdade, o país viu, agora em escala catastrófica, a repetição do que sempre ocorre quando as Forças Armadas tomam a frente. O que está a ocorrer no Brasil atualmente é sim a implementação consequente do ideário que anima suas Forças Armadas. Pois longe de serem uma parte da solução, elas são historicamente o eixo fundamental do problema.

Faz parte das tomadas de poder das Forças Armadas criar essa imagem de serem animadas por um conflito interno, como se estivéssemos a todo momento a lidar com uma instituição dividida entre o bom policial e o mau policial. Já na ditadura militar havia a pantomima do conflito entre o núcleo duro e os moderados. Foi isso que permitiu aos militares fazer um duplo papel, entre o Governo e a oposição ao Governo delas próprias. Se a ditadura brasileira conseguiu durar inacreditáveis 20 anos é porque tal pantomima fazia parte do modo normal de governo. Para fazer o Governo funcionar, era fundamental que os opositores encontrassem, nas próprias Forças Armadas, a esperança de uma contenção das Forças Armadas. Da mesma forma, agora estamos a ver o pretenso conflito entre o grupo ligado a Bolsonaro e os generais mais sensatos. Sensatez essa que não foi capaz de influenciar em uma ação sequer que pudesse tirar o país do caminho em direção às mais de 200.000 mortes, isso a despeito de todo o esforço estatal de desaparecimento de corpos.

Quem fizer uma pesquisa a respeito das propagandas louvando o “ideal de desenvolvimento” do regime militar encontrará essas campanhas narrando a vitória do homem (sim, eram sempre homens) sobre o “inferno verde” representado pela Amazônia. Vitória essa que se daria através da abertura de estradas como a Transamazônica ou de projeto absurdos e corruptos como o Projeto Jari. Fotos de grande troncos de árvores centenárias cortadas e empilhadas em caminhões ilustravam o canto do país que vencia suas “fronteiras internas” à base do fogo, do roubo, da posse e do desaparecimento dos corpos de ameríndios mortos. O que Bolsonaro fez foi simplesmente levar às últimas consequências o ideário que sempre moveu as Forças Armadas como ponta de lança da guerra do Brasil contra si mesmo. As chamas cuja fumaça chega agora até nossas grandes cidades não é fruto de um Nero tropical, mas a consequência lógica do espírito que suas Forças Armadas sempre representaram.

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No entanto, essa guerra do Brasil contra si mesmo foi não apenas contra a natureza. Ela foi uma guerra contra sua própria população. A história das Forças Armadas brasileiras é a história de uma guerra interna, de uma guerra civil não declarada que vai de Canudos e Contestado até o uso do Exército como “força de pacificação” nas comunidades do Rio de Janeiro. Ela foi a história do uso da força e do extermínio contra movimentos populares de toda ordem desde o Império. Ela foi ainda a história perpetua da “caça ao comunismo” desde o aparecimento do primeiro líder popular da república brasileira, Luís Carlos Prestes: um militar que escolheu o lado das lutas populares e que antecipou as táticas que seriam usadas, de maneira vitoriosa, na grande marcha chinesa. Esse fantasma da “caça ao comunismo” é a razão de existência das Forças Armadas brasileiras, e Bolsonaro sabe muito bem disso. É ele que lhe levou a dizer: “Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas”. “Comunismo” é o nome que as Forças Armadas brasileiras usam para se referir à figura de um povo insurreto.

Mas, principalmente, militares brasileiros estão associados ao uso da força para o silenciamento das consequências da miséria e do descaso. Faz-se necessário lembrar disso mais uma vez pois o que estamos a ver nessa pandemia, a catástrofe humanitária que a gestão das Forças Armadas produziu, não é um acaso. É a consequência necessária da maneira com que os militares sempre lidaram com a morte da sua própria população. Longe de procurar “proteger” as populações, suas ações sempre se deram no sentido de lembrar aos setores vulneráveis da população brasileira de que eles são matáveis sem dolo e sem imagem. É isso que as Forças Armadas estão a fazer mais uma vez com sua gestão criminosa e omissa em relação à pandemia.

Em menor escala, isso já ocorreu entre nós outras vezes. Que se lembrem dos espaços de silêncio da história brasileira. Lembremos, por exemplo, da natureza da violência estatal para confinar e deixar morrer populações em crises de seca. Foi no Ceará, entre 1915 e 1932, que o Brasil conheceu campos de concentração (sim, esse foi inclusive o termo usado à época) criados em cidades como Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim, Crato e Cariús, destinados a impedir que os flagelados da seca chegassem à capital. Campos nos quais se confinavam milhares de retirantes e se morria em massa por descaso, omissão e indiferença. E vejam que coincidência, o número de mortes é ainda hoje incerto (estimam-se só no Patu, em Senador Pompeu, até 12.000 mortes sem certidão de óbito e em vala coletiva). Ou seja, esse é de fato o modus operandi das Forças Armadas.

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Contra a revolta de setores da sociedade diante de tal descaso, as Forças Armadas agora ameaçam o país com um estado de defesa, que suspenderia certas garantias institucionais, e que seria a forma efetiva de um autogolpe de Bolsonaro. No momento em que até tal carta é colocada sobre a mesa, o país não pode mais ser leviano em relação ao impeachment daquele que ocupa atualmente a presidência da república. Há sob sua responsabilidade direta uma somatória de crimes de omissão, de responsabilidade, de incentivo a comportamento que resultaram em um verdadeiro genocídio da população brasileira. Nenhum presidente da república tem tantas razões para ser afastado, julgado e encarcerado quanto o senhor Jair Bolsonaro.

Há um ano, vários foram os que insistiram que a única saída seria o impeachment. Naquela ocasião, não faltaram os que disseram que clamar por um impeachment era colocar a política à frente das exigências imediatas de gestão. Disseram que era importante obrigar o Governo a atuar contra a pandemia, ao invés de dispersar forças em um pedido de impeachment. A história demonstrou, no entanto, que não havia possibilidade alguma de levar Bolsonaro a gerir a pandemia. Ao contrário, ele não desprezou ocasião alguma para colaborar efetivamente para a situação na qual nos encontramos agora, com a população brasileira em estado de máxima vulnerabilidade, insuflando a indiferença em relação à morte e à ausência de proteção efetiva por parte do Estado.

Tudo isso demonstra como há de se lembrar, mais uma vez, que a única saída é o impeachment. E àquelas e àqueles que esqueceram, impeachment se conquista através da ocupação das ruas e do bloqueio das atividades. Os que têm privilégios ligados à segurança fornecida pelo acesso a serviços privados de saúde deveriam usar tal privilégio e forçar o fim deste Governo através da ocupação das ruas. Essa é a única coisa realmente concreta que podemos fazer para defender o país contra a pandemia. E só a certeza da existência dessa força popular que fará as Forças Armadas ocuparem seu único e verdadeiro lugar: esse caracterizado pelo afastamento da vida política nacional, o silêncio em relação à política e o retorno aos quartéis. Um pretenso Governo Mourão, por ser fruto da pressão popular, já nasceria natimorto. Isso até que consigamos enfim uma sociedade que não precise mais de Forças Armadas, pois se defende a si mesma.

*Vladimir Safatle é professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo.

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JOSÉ ORLANDO MURARO: Vou sair e tomar  umas cervejas….um tempo fresco ameaçando chuva…… qual é o futuro de um País que esquece os seus heróis?

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Os heróis das minhas camisetas

por José Orlando Muraro

 

Eu estava muito, muito feliz mesmo. Naquele ano de 1964 eu, finalmente, iria para a escola primária.

 

Logo no início daquele ano perguntei para a minha mãe quando começariam as aulas. Ela ficou em silêncio,  mordeu os lábios e se abaixou, ficando da minha pouca altura.

 

-Você não pode ir para a escola este ano ainda…só no ano que vem, quando estiver com sete anos completos.

 

Tentou explicar que a lei exigia sete anos completos e, como eu havia nascido em outubro, só poderia ir para a escola no outro ano.

 

-Mas eu só quero aprender a ler…… para ler todos estes livros que tem aqui em casa.

 

Comecei a chorar e saí correndo. Subi na árvore e fiquei lá. Era uma Acácia Imperial, que muitos chamam de Brinco da Princesa, com seus imensos cachos de flores amarelas…

 

Sensação muito ruim. Sentia-me azarado, amaldiçoado mesmo.

 

Na hora do almoço meu pai chegou. Vinha na bicicleta Royal inglesa, que havia comprado do meu avô. Olhou para a árvore e não falou nada. Entrou em casa.

 

Depois voltou, estendeu os braços e me tirou lá de cima.

 

-Eu e sua mãe achamos um jeito de resolver teu problema…..a gente vai ensinar você a ler…

 

Passei a tarde  angustiado. Ansioso. Quando eles chegaram, minha mãe vinha na garupa da bicicleta. Trazia cartolinas e um saco com outras coisas.

 

Em casa, meu pai pegou uma régua e foi traçando quadrados na cartolina. Minha mãe cortava os quadrados com a tesoura de costura.

 

Do saco de papel ela retirou dois pincéis atômicos. Nunca entendi este nome. Primeiro não é um pincel…é uma caneta…e depois…porque atômico?

 

Deixa para lá.

 

Ela foi escrevendo as letras, e meu pai separando em duas pilhas.

 

-São letras de forma, letra de livros e de jornais. Aqui estão as maiúsculas e aqui as minúsculas.

 

Pegou jornal e uma caneta esferográfica vermelha.

 

-Este  é o a maiúsculo e este o a minúsculo. Você vai procurar estas duas letras aqui no jornal. Vinte de cada uma. E toda vez que você as encontrar você terá que dizer  em voz alta: a maiúsculo ou a minúsculo. E todo dia você vai procurar uma letra diferente e sempre falando em voz alta, para você não esquecer.

 

Logo aprendi a ler. No outro ano, quando finalmente fui para a escola, pense num garoto orelhudo e com dentes de rato, mas firme nas botinas de orelhas, como eram conhecidas. Eu sabia ler ….somente eu….ninguém mais naquela turma….

 

Uma grande lição de vida para um garoto de apenas seis anos de idade. Em todo revés, em todos os contratempos da vida, sempre é possível virar a mesa e sair no lucro. Sempre você tem que ter um Plano B, e muitas vezes, um Plano C……

 

Aqui entra a questão dos heróis das minhas camisetas. Meu pai e minha mãe têm lugar garantido nelas.

 

E isto tem a ver com ARQUÉTIPOS……este substantivo tem mais de dez sinônimos. Ê um modelo, um exemplo, alguém em quem você tenta se espelhar, aprender e retirar boas e seguras lições para a vida em geral.

 

E às vezes, os exemplos vêm dos piores lugares.

 

Na casa dos meus pais o que tinha em demasia eram livros. E  não havia censura. Eu podia ler o que queria…até mesmo Memórias de um Libertino…..

 

Mas tinha um livro que meu pai lia , ou digeria, bem devagar. Lia umas folhas e o guardava, deitado sobre outros livros, bem no fundo da estante.

 

A curiosidade matou o gato. Imagine um garoto com 13 anos.

Quando meu pai saía para o trabalho, eu ia na estante e retirava o livro. Lia algumas páginas e o colocava no lugar, bem lá no  fundo, sobre os outros.

 

CELA 2455- O CORREDOR DA MORTE!

 

Autor: Caril Chessman, que foi condenado á morte em 1948 e executado na  câmara de gás em 1960 .

 

Eu não entendia porque meu pai estava lendo aquele livro.  O sujeito foi condenado por roubo, raptos  e estupros. Lutou 12 anos contra sua condenação, até ser executado.

 

Por que meu pai estava lendo aquele tipo de livro?

 

Certo dia estava tão absorto lendo e pensando, e não vi meu pai chegar.

 

Flagrante delito. Pego com a mão na botija.

 

Passou pela mesa, olhou o que estava lendo e foi para a cozinha. Passou um café  da hora e voltou. Me avançou um copo com café.

 

-Este não é um livro para um garoto da sua idade…..

 

Tinha que me defender. Atacando

 

-E porque o senhor está lendo este livro? Este cara não era um sujeito direito…

 

Tomou o café.

 

-Não…não era mesmo. Mas veja bem….ele está condenado e no corredor da morte….e o que ele fez? Estudou Direito por correspondência, para sustentar sua própria defesa,  escreveu quatro ou cinco livros contestando o seu julgamento, a forma como as provas foram obtidas, a ata que foi reescrita depois do julgamento….e uma série de outros fatos. Ele conseguiu colocar em xeque-mate o sistema judicial americano. Quando ele estava ainda vivo, em 1955 fizeram um filme baseado neste livro…

 

Acabou o café e  colocou a mão sobre o meu braço.

 

-Ouça garoto…na vida, por pior que seja a situação, sempre tem espaço para você lutar, não se abater e nem se dar por vencido.Leio este livro para nunca esquecer desta lição….não esmorecer, continuar lutando…

Bom, minha família passava por momentos difíceis. Meu pai tinha apoiado um candidato a prefeito em Ourinhos. Domingos Camerlingo Caló, que perdeu a eleição e morreu logo em seguida. O prefeito eleito, um tal de Rossi tinha sido cassado, porque em 1960 tinha escrito uma carta para Fidel Castro, parabenizando a Revolução Cubana.

 

Assumiu Mithuo Minami e começou a perseguição política contra meu pai.

 

Dava para entender o que ele estava dizendo. Não esmorecer, não se dar por vencido….

 

-È…ele estava no corredor da morte…mas continuou lutando..

 

-Sabe garoto. A verdade é que todos nós já nascemos no corredor da morte…só não sabemos quando a sentença será executada….mas todos nascemos no corredor da morte…..acabe de ler o livro…

 

-Não pai…..acho que o que eu precisava saber o senhor já me explicou.

 

Levantei e guardei aquele livro…..

 

Não sei….mas acredito que Caril Chessman poderia, sob determinadas condições, ser um herói da minha camiseta….ou não….muitos livros, filmes e texto foram publicados sobre ele…e sempre ficou a dúvida se realmente foi ele quem praticou os raptos e os estupros….62 anos depois da sua morte…..sei não…

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Mas houve outra lição de vida.

 

O herói da camiseta do meu pai, com certeza, era o boxeador Cassius Clay, depois que saiu da cadeia, Muhammad Ali.

 

Era um dançarino no ringue. Campeão mundial dos pesos pesados….

 

E se recusou a lutar no Vietnã, contra os vietcongs comunistas.

 

-Esta é uma guerra de brancos contra os vermelhos e querem que os pretos vão lá para matar amarelos. Eu não vou, disse ele.

 

Ficou três anos preso e teve o seu registro e o título mundial cassados. Quando voltou a lutar, perdeu duas vezes…..salvo engano, para Joe Frazier e Ken Norton….

 

Este era, sem dúvida alguma, o arquétipo para o meu pai.

 

Em dezembro de 1974 voltei para Ourinhos. Férias escolares. Estava estudando na Escola Técnica Everardo Passos, em São José dos Campos.

 

Liguei e avisei que chegaria de manhã bem cedo. Como sempre , fui de trem,. Estrada de Ferro Sorocabana.

 

Minha mãe abriu a porta, conversamos pouca  coisa e fui para o quarto, onde meu pai estava com a minha menor, de apenas dois anos.

 

Veja bem como era meu pai. Quando passei pela cozinha, na cadeira dele, na cabeceira da mesa, estava um engradado com 20 garrafas de cervejas. E ele  não bebia. Abri a geladeira e conferi: 4 cervejas geladas!!!

 

O dia  transcorreu com muita conversa, dormi depois do almoço e acordei com meu pai mexendo na cozinha. Fazendo o café da tarde.

 

Sentei na cadeira  na mesa da sala, e ele trouxe os dois copos. Levantou-se, foi até a estante e de um dos livros da coleção do Bartolomeu de Las Casas,  retirou uma página de jornal dobrado em quatro.

 

-Leia pra mim, em voz alta….já li várias vezes, mas quero que você leia.

 

BATALHA NA SELVA…..texto de um inglês, correspondente de um dos jornais de lá e que o Estadão de São Paulo tinha reproduzido.

 

Uma foto: Muhammad Ali em pé , e no primeiro plano, um outro lutador desabando, indo de cara no tablado do ringue.

 

O texto contava a história desta luta pelo título de campeão mundial dos pesos pesados. George Foreman e Muhammad Ali!

 

A luta aconteceu no Zaire, hoje República Democrática do Congo. O então presidente teria pago uma fortuna, tanto para Don King, o gerenciador, quanto para os dois lutadores. Queria divulgar seu país.

 

O texto seguia narrando o embate, round após round. E ele ressaltava que Ali apanhou seis rounds seguidos. Só nas cordas, se defendendo, e provocando Foreman.

 

-É só isto? Você não sabe bater mais forte?

 

Ou então: minha mãe bate mais forte do que você…

 

Seis rounds nas cordas. Apanhando , se esquivando, se defendendo.E provocando Foreman…..um verdadeiro bate-estaca  de músculo e força…

 

No sétimo assalto, Foreman está esgotado. Vem para o centro do ringue sem conseguir levantar os pesados braços. Muhammad Ali dança e redor dele e ataca. Um direto no rosto de Foreman. Ele desaba, sem dobrar as pernas. Cai literalmente de cara no tablado. Nocaute. Ali é  novamente campeão mundial dos pesos pesados.

 

Mas o texto não pára ai. Logo depois Ali explicou porque tinha apanhado durante seis assaltos.

 

Foreman era mais novo (25 anos contra 32) era mais alto, mais forte e com a envergadura dos braços bem mais comprida do que Ali. Estes eram os pontos de vantagem do Foreman.

 

Mas Ali narrou os pontos negativos: todas as lutas de Foreman não tinham ido além do segundo round.  E Ali explicou que estabeleceu a estratégia de segurar a luta até o último assalto. Teria que cansar o Foreman. Só assim teria espaço para entrar e acertá-lo. Apanhou seis assaltos, provocando o adversário. E depois o derrubou….

 

Fim do texto.  Dobrou e guardou no livro.

 

No outro dia fomos pescar. Sempre odiei pescarias e caçadas. Ser almoço de mutucas nunca foi do meu agrado. Mas eu ia para fazer companhia. Coloquei três garrafas de cervejas dentro da caixa de isopor. Repelente, disse eu.

 

Lá pelas tantas, quando o sol do meio dia bateu duro, meu pai veio e sentou na sombra da árvore onde eu estava. Sacou um sanduíche de pão e mortadela de um saco de papel e me ofereceu ou outro. Disse que não, ainda tinha cervejas para beber.

 

-Sabe  aquele texto da luta? Eu o guardei para que você o lesse. Ali tem duas lições de vida, e que você tem que aprender. Eu espero e torço para que sua vida seja longa…..

 

-Lição de vida…em uma luta de boxe?

 

A primeira lição: conheça teu inimigo. Estude-o. Nunca entre numa esparrela sem estudar a situação, sem saber com quem você está lutando ou demandando.. Foreman era mais novo, mais alto e mais forte. Eram pontos de vantagem…mas depois do segundo round Foreman ia colocar a língua para fora. Nunca se esqueça desta lição: conheça seu inimigo. Estude-o e elabore uma estratégia para derrotá-lo….Capiche?

 

Mastigou um pedaço do sanduíche.

 

-A segunda lição: se você souber o que quer, qual é seu objetivo, você se agüenta e agüenta apanhar. O objetivo de Ali era cansar o Foreman e só tinha um jeito de o fazer. Apanhando nas cordas….se defendendo, se esquivando dos golpes…..

 

-É muito louco….o cara decide apanhar de um sujeito mais forte do que ele…até cansá-lo…. tem que ter muita firmeza de pensamento.

 

-Você é jovem….mas saiba…..em muitos momentos você terá que ter clareza do que quer, aonde você quer chegar….passar fome e frio, dormir em banco de rodoviária…..você aguenta tudo isto desde que você saiba os motivos pelo qual está passando pelos perrengues…..

 

Por estas lições eu coloco Muhammad Ali na minha camiseta….

 

Mas a minha vida seguiu adiante. E as pancadas vieram….choveram nos meus lombos, para ser mais exato. E eu me agüentando…..

 

Muitos que me conhecem pensam que meu arquétipo favorito é o argentino Ernesto Guevara de La Sierna, o CHE…..errado, nada mais longe das minhas camisetas.

 

Uma história de vida que sempre me cativou, e eu a estudei foi a do general português NUNO ALVARES PEREIRA.

 

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É uma bela história de vida.

 

Nuno era filho bastardo do prior, chefe maior da Ordem dos Hospitalários em Portugal.

 

Aos 16 anos decide ser monge, mas seu  pai não aceita esta decisão e o casa com uma viúva,  mais velha do que ele, mas que tinha algumas posses. Tentava garantir um futuro para Nuno.

 

Em 1383 surge uma questão muito séria envolvendo Portugal e o reino de Castela. Morre Dom Fernando e deixa uma filha casada com o rei de Castela.

 

A burguesia portuguesa e os judeus apóiam Dom João, mestre  de Avis. É o início  da guerra. Todos são convocados.

 

Devido ao peso econômico e político dos Hospitalários, NUNO foi indicado para ser cavaleiro, e não pajem ou serviçal. Só tem um problema: ele não possuía uma armadura !!

 

Dom João, o futuro rei, lhe empresta a sua e o jovem é consagrado como cavaleiro.

 

Com um pequeno grupo, vai espionar o exército castelhano, que marchava para Lisboa. Relata ao mestre de Avis que era um exército imenso, mas mal dirigido e que poderia ser derrotado.

 

Em 1384, com apenas 24 anos, NUNO liderou o ataque aos castelhanos, na Batalha dos Atoleiross. Pela primeira vez, a cavalaria pesada foi derrotada por soldados a pé.

 

Em todas as batalhas que se envolveu, com número bem menor de soldados, Nuno Alvares sempre derrotou os castelhanos. Em 1385, com os castelhanos derrotados, as Cortes de Portugal confirmam Dom João como rei de Portugal, o primeiro da Casa de Avis.

 

Nuno Alvares foi nomeado CONDESTÁVEL , posto militar da mais alta graduação, abaixo apenas do rei.

 

Recebeu tantos títulos e mercês em terras, que era dono da METADE de Portugal. Mandou construir um mosteiro, do Carmo e após a morte da sua esposa, repassou terras para seus soldados e foi viver como monge carmelita. Com ele só ficou um grande caldeirão de ferro dos tempos de guerra, em que ele cozinhava para os pobres.

 

Decide ir pedir esmolas nas ruas para manter a comida para os pobres. O rei entra em parafuso: o maior general português, que tinha garantido a coroa e as terras portuguesas livres dos castelhanos….um  monge mendicante…..

 

O rei manda um emissário e implora para que NUNO não esmolasse pelas ruas de Lisboa. E o rei se compromete a mandar toda esmola que ele precisasse….

 

Porque colocaria NUNO ALVARES na minha camiseta?

 

Tem muitas histórias e lendas sobre ele….. mas o que me chama a atenção é que ele não  abandonou o seu sonho de juventude. Conseguiu todos os títulos, terras e imensas  honrarias…… mas abre mão de tudo, para ser um monge mendicante… seu desejo de jovem…..

 

Sem pestanejar, pelo pouco que narrei aqui e pelo muito que li sobre ele, eu o coloco na minha camiseta. Um herói, com certeza.

 

Deixando o medievo lusitano lá para trás, e vindo para tempos mais próximos, quero encerrar este texto escrevendo sobre DOIS heróis.

 

O mineiro  João  Guimarães Rosa é aclamado como um dos maiores escritores do Brasil. Não sei quantas vezes eu li Grandes Sertões:veredas…onde ele  narra a saga do cangaceiro Riobaldo Tartarana de fogo em  busca de vingança contra o Hermógenes, o coisa ruim, o tranca ruas.Belíssimo texto….e tem um pormenor: Tartarana se apaixona por  Diadorim, um outro cangaceiro…. querem saber o final desta questão? É só baixar na internet…..

 

Mas poucas pessoas, no Brasil, ouviram falar de sua esposa: Aracy Guimarães Rosa, com outros sobrenomes pelo meio do caminho.

 

Poucos brasileiros sabem sobre ela. Mas os judeus a apelidaram de O ANJO DE HAMBURGO….seu nome está inscrito em uma imensa lápide na porta do Museu do holocausto, em Israel.Os justos da terra.

 

O nome dela está em uma lista junto com Schindler e muitos outros….o anjo de Hamburgo.

 

Mas o que ela fez para  merecer tamanha homenagem em Israel?  E silencio total no Brasil…

 

Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha os nazistas massacram, roubam, fuzilam e matam judeus em fornos e câmaras de gás nos campos de concentração.

 

João era cônsul do Brasil em Hamburgo, Cidade portuária no Norte da Alemanha.Ele tinha imunidade diplomática.

 

Aracy era simples funcionária e não tinha imunidade diplomática. Era poliglota e responsável por emitir vistos de viagem para o Brasil.

 

Eis a questão: vistos de judeus tinham que ter no canto um jota em vermelho. No porto de Hamburgo havia duas filas de embarque. Uma para os portadores de visto com o jota em vermelho e era a fila controlada pelo exército nazista.

 

A outra fila era para vistos de não-judeus e era controlada por um burocrata de plantão, que mal perdia seu tempo em verificar a documentação apresentada.

 

Consta que Aracy deixou de carimbar o jota vermelhoe em centenas de vistos, permitindo que famílias e mais famílias de judeus chegassem ao Brasil.

 

Só por isso já vale a estampa na camiseta.

 

Mas tem mais coisas. Ela desafiava tanto o poderio nazista como o próprio governo brasileiro, já que o ditador Getúlio Vargas tinha proibido a emissão de vistos para judeus!

 

Tem um documentário, com este mesmo nome, sobre o Anjo de Hamburgo…magistral. Uma mulher frágil, delicada, cm uma voz suave, colocava a própria vida em risco para salvar famílias de judeus. Dá para baixar o documentário pela internet.

 

O Anjo de Hamburgo é lembrada e homenageada em Israel…No Brasil, só silêncio. Nas aulas  de história, somos obrigados a decorar nome de traidores como o de Joaquim Silvério do Reis, da Inconfidência Mineira….mas nem uma linha de rodapé sobre esta mulher, heroína em Israel e esquecida em seu próprio País.

 

Outro brasileiro que consta deste imenso mural é o do embaixador Souza Dantas. Era embaixador na França ocupada pelos nazistas. E  ele fazia a mesma coisa que a Aracy….emitia vistos para centenas de famílias, sem os identificar como judeus!

 

Merecem uma estampa nas minhas camisetas….. dois brasileiros que colocaram as próprias vidas em risco e que não constam dos nossos livros de história…

 

Chega por hoje…..Vou sair e tomar  umas cervejas….um tempo fresco ameaçando chuva…… qual é o futuro de um País que esquece os seus heróis?

 

Chapada dos Guimarães, 15 de agosto de 2022.

 

Jose Orlando Muraro Silva, Escritor e jornalista, de Chapada dos Guimarães, MT. Fundador do jornal Pluriverso Chapadense

Portador da Síndrome de Asperger

 

Muraro, em foto de Hegla Oleiniczak

 

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