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Assim caminha a Humanidade

ESCRITOR PASCAL BRUCKNER: A prostituição deve ser vista como um serviço público. Se a prostituição permanece, a despeito da liberação sexual, é porque o mercado do amor é extremamente desigual e não admite os velhos, os feios, os pobres, os doentes

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Assim caminha a Humanidade

 

Pascal Bruckner: “A prostituição deve ser vista como um serviço público”

O escritor francês critica as feministas puritanas e a lei aprovada em seu país, que criminaliza a prostituição

GUILHERME EVELIN, da revista Época
LIBERAL O ensaísta francês Pascal Bruckner. Para ele, a mais velha profissão  do mundo cumpre uma função social (Foto: Eric Fougere/Corbis/Latin Stock)
Premiado ensaísta, Pascal Bruckner foi um dos signatários do manifesto dos  “343 safados” que causou furor, no ano passado, na França. No manifesto, intelectuais protestavam contra a lei que torna a prostituição um crime, aprovada em dezembro pela Assembleia Nacional francesa. Seu lema, “Touche pas ma pute” (“Não toquem na minha p…”), um trocadilho com um slogan antirracista, não era a única provocação. A petição dos “safados” fazia alusão a outro manifesto célebre – o das “343 vadias”, escrito por Simone de Beauvoir e publicado em 1971 pela revista Le Nouvel Observateur. Nele, mulheres assumiam publicamente ter feito aborto, então um crime na França, e reclamavam o direito de dispor de seus corpos. Nesta entrevista, Bruckner fala da polêmica e de seu livro Fracassou o casamento por amor?.
ÉPOCA – Não é machismo dizer: “Não toquem na minha p…”?
Pascal Bruckner 
– Essa lei representa uma nova estigmatização das prostitutas e uma diabolização dos clientes. Com esse manifesto, tocamos no sacrossanto tesouro da esquerda oficial. Estamos de retorno a tempos muito puritanos. A esquerda, que era porta-voz da liberdade, se tornou porta-voz de uma certa repressão. É uma esquerda moral, punitiva, autoritária, que gostaria de enquadrar os comportamentos dos indivíduos e decretar: essa é a boa sexualidade, essa é a má sexualidade. Se a prostituição permanece, a despeito da liberação sexual, é porque o mercado do amor é extremamente desigual e não admite os velhos, os feios, os pobres, os doentes. A prostituição serve justamente de válvula de escape para os excluídos do sistema, aqueles que não têm acesso aos encantamentos do amor oficial. Os autores dessa lei fazem da prostituição uma abominação, a expressão perversa de um machismo que não ousa dizer seu nome, enquanto ela deveria ser vista como um serviço público.
ÉPOCA – A prostituição exerce então uma função social?
Bruckner –
 Estou certo disso. Nas ruas, onde estão as prostitutas, a maior parte dos clientes são imigrantes, que não têm dinheiro, têm poucas relações, têm poucas chances de seduzir as mulheres francesas e cuja vida sexual é reduzida à possibilidade de virar clientes pagantes. Para os homens e mulheres que se prostituem, a prostituição é uma forma de fechar as contas no fim de mês. Para os clientes, é uma forma de encontrar um pouco de atenção e de intimidade. Isso sem falar da assistência sexual às pessoas portadoras de deficiências, que é autorizada nos Países Baixos, mas proibida na França. Há uma grande hipocrisia nessa lei, porque, na França, um dos maiores proxenetas é o Estado, que cobra impostos das moças que trabalham. Mas isso ninguém ousa dizer.
ÉPOCA – Não foi muita provocação com as feministas fazer uma ironia com o  manifesto das 343 vadias, a favor do aborto e escrito por Simone de Beauvoir?
Bruckner – 
Simone de Beauvoir é a grande figura tutelar do feminismo no mundo. De uma forma filosófica, ela o fundou. Ela foi uma pioneira, era muito inteligente e é infinitamente maior que a maioria de suas herdeiras. Há muitas feministas que estão contra a lei também. O feminismo não é mais um bloco como era há alguns anos. Há um feminismo diferencialista à americana, há um feminismo universalista à francesa, há um feminismo puritano, há um feminismo libertário, há um feminismo do bem-estar.

ÉPOCA – As feministas que criticaram o manifesto são puritanas?
Bruckner – 
Sim, elas são tradicionalistas. Há um feminismo idealista em excesso, que consiste em dizer que toda a maldade da humanidade está do lado dos homens. As mulheres seriam seres angelicais, pacíficos, simpáticos, que simplesmente obedecem às ordens do coração e do amor. Evidentemente, isso é uma bobagem absoluta. As mulheres têm suas impulsões sexuais, exatamente como os homens. A mulher não é melhor do que o homem. Ela deve ser tratada como uma igual, mas não como melhor, porque as mulheres podem ser tão cruéis e abomináveis como os homens.
ÉPOCA – Seu último livro publicado no Brasil lembra que os progressistas do século XIX sonhavam que era possível acabar com a prostituição, graças ao casamento por amor romântico. Por que eles falharam nesse propósito?
Bruckner – 
Os progressistas diziam que o casamento burguês era fundado na desigualdade entre homem e mulher e conduzia ao adultério, à prostituição, aos filhos ilegítimos. Para mudá-lo, era preciso reconciliá-lo com o amor. A esperança investida no casamento romântico dizia que, finalmente, iríamos realizar a verdadeira monogamia, menos fundada na obrigação do que na livre escolha. E que o amor iria entrar no casamento como um aliado que cimentaria relações antes arranjadas pela família ou pelas conveniências. Essa esperança  aparece nos textos do século XVIII e do século XIX e passa a ser verdadeiramente aplicada nos anos 1960 e 1970. Não teve os resultados desejados. O casamento perdeu a metade de seus efetivos – e o divórcio aumentou. Ou seja, pretendeu-se aprisionar o amor dentro dos laços do casamento. E o que ocorreu de fato foi que o casamento anterior afundou e o amor continua a ser essa paixão que nós não controlamos. O amor é sempre um filho da boemia, como canta Carmen (na ópera de Georges Bizet).
ÉPOCA – O senhor diz que as culturas ocidentais caíram num círculo vicioso ao estimular a busca incessante por  felicidade e o casamento por amor, que fogem ao controle dos homens. Tentar institucionalizar o amor sempre será um fracasso?
Bruckner – 
A dificuldade hoje é que o amor foi liberado de todas as correntes, de todos os entraves. Nunca se tornou tão difícil viver as histórias amorosas. Uma das razões é que vivemos num mundo romântico – e não porque vivemos numa era consumista ou em que o amor é líquido. Nós nos tornamos muito mais amorosos do amor.
 
ÉPOCA –  O aumento do número de divórcios é um sinal dessa força do amor na sociedade moderna?
Bruckner –
 Há dois critérios para o casamento: o desejo e a paixão. Hoje, quando eles desaparecem, isso leva quase  automaticamente  à dissolução do casamento. Antes, as pessoas permaneciam juntas, em nome das conveniências, da moral, para preservar os filhos. Hoje, os homens e as mulheres – sobretudo as mulheres – não hesitam em divorciar-se, desde que eles não se entendem mais. Ou seja, a intolerância ao tédio e ao desamor se tornou muito forte.
ÉPOCA –  Como a busca pelo casamento romântico se associa com o que o senhor chamou de “euforia perpétua”, o dever da felicidade na sociedade moderna?
Bruckner –
 Erigimos o amor e a felicidade como valores absolutos e nos desesperamos de não vivê-los absolutamente. No fundo, há uma desmesura nas sociedades ocidentais no desejo de ser feliz e de ser apaixonadamente amoroso. A felicidade e o amor são dois valores do cristianismo. É intrigante observar como em nossas sociedades modernas, largamente descristianizadas, sobretudo na Europa, os valores do cristianismo continuam a ser dominantes. Há uma bela expressão de G.K. Chesterton (escritor inglês do começo do século XX): “O mundo moderno é repleto de antigas virtudes cristãs, tornadas loucas”. Isso é totalmente verdade no que se refere ao amor e à felicidade.
ÉPOCA –  Esses excessos na busca da felicidade e do amor são características da vida moderna nas sociedades ocidentais?
Bruckner – 
Uma das grandes conquistas das sociedades modernas é o direito de realização enquanto indivíduo. Há então uma ideia de que não temos o direito de fracassar nessa manifestação individual. Essa desmesura, que antes se aplicava aos projetos políticos, às expedições militares, hoje se aplica ao desenvolvimento pessoal. Gostaríamos de sentir o fogo da paixão e a satisfação de uma felicidade permanente – e frequentemente fracassamos nessa tentativa.
 
ÉPOCA –  É por causa disso que as pessoas são mais angustiadas do que eram no passado?
Bruckner –
 Hoje, somos bem mais angustiados por uma razão simples: é porque a liberdade é angustiante. Quando os homens viviam sob a tradição da religião, a vida era bem mais simples, porque era suficiente se conformar às ordens transmitidas. Hoje, a grande dificuldade do homem contemporâneo é que ele próprio deve criar seus próprios valores. Ele se tornou seu único guia na existência. Essa angústia, ao mesmo tempo, também é entusiasmante, porque ninguém gostaria de voltar a viver em sociedades patriarcais que nos parecem, com justiça, sociedades monstruosamente opressivas.
ÉPOCA –  Temos mais liberdade, mas também mais angústias. Como viver com essa contradição?
Bruckner – 
É preciso, notadamente na vida amorosa, aceitar viver com as próprias imperfeições e com as imperfeições dos outros. Não podemos pedir ao outro para tornar-se um herói ou uma heroína em tempo completo. Quando aceitamos nossas imperfeições podemos chegar a uma espécie de harmonia com o outro.
ÉPOCA –  Na vida moderna, é possível atingir esse equilíbrio?
Bruckner – 
É possível, depois de certo tempo, a partir de certa idade. Há uma sabedoria do amor. Na felicidade amorosa, somos divididos entre o desejo de estar bem com a pessoa que nós temos e o desejo de ir além. Principalmente nas grandes cidades, somos submetidos a numerosas tentações. A vida amorosa vive no dilema entre a satisfação com o que vivemos e a nostalgia do que poderíamos viver, se conhecêssemos uma existência diferente.
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Leia Também:  Alfredo Menezes diz que Silval tenta inovar, como bom moço da política, sem dá chute na canela de nenhuma das lideranças que reuniu sob o chapéu de seu governo. A incógnita é saber até quando este esquema sobreviverá neste MT de tantos egos inflados.

PONDÉ: SEM PROSTITUIÇÃO, MUNDO SERÁ MAIS VIOLENTO

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Colunista condena a repressão à prostituição que vem sendo proposta em países como a França. “Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações”, diz ele
 
16 DE DEZEMBRO DE 2013 ÀS 07:30

247 – Na França, uma lei que criminaliza os clientes da prostituição, considerada uma violência contra a mulher, ainda que consentida, vem causando polêmica.
No Brasil, o polemista Luiz Felipe Pondé condena a iniciativa e afirma que um mundo sem sexo pago será mais violento. É o que ele defende no artigo “A deliciosa nudez castigada”.
“Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo (de modo direto e sem rodeios), a violência no mundo será ainda maior. Sexo e amor sempre custam dinheiro, além de outras coisas. Aliás, a garota de programa é a mulher menos cara do mundo, custa só dinheiro”, diz ele.
Pondé critica diretamente Hollande. “Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações”.
Ele afirma ainda que a iniciativa tende ao fracasso. “Mas, graças a Deus (que nos entende melhor do que esses santinhos de pau oco), essa lei não vai adiantar porque quanto mais se castiga a nudez paga da mulher, mais deliciosa ela fica. Ao final, a mulher que troca sexo por dinheiro, sempre é mais desejada quando encontrá-la fica ainda mais caro.”
LEIA, NA INTEGRA, O ARTIGO DE PONDÉ

Leia Também:  HISTÓRIA SINCERA DA REPÚBLICA: Jornalista Palmério Dória, entrevistado pelo blogue de Paulo Henrique Amorim, explica para o neto de FHC como foi a reeleição de seu avô, em 1998. E repete Paulo Brossard: "Reeleição de Fernando Henrique foi uma bofetada na cara na nação"

LUIZ FELIPE PONDÉ

A deliciosa nudez castigada

Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo, a violência no mundo será maior

A repressão ao sexo mudou de lugar, agora ela está ali onde se situa o discurso “por um mundo melhor”. As antigas “freiras” e senhoras protestantes de preto, que falavam de pecado e babavam de ódio das mais gostosas, agora propõem a extinção do sexo pago em nome da “justiça social”. Ou seja, a puta, a garota de programa, deve deixar de existir. Antes era o pecado, agora é a “exploração do corpo”.
O conceito de pecado implica em desejo reprimido (o que dá tesão), o de “exploração” não pressupõe o desejo, mas sim o papo-furado do “capital malvado”. Gente chata essa que fala de “controle político do corpo”.
Meu Deus, quando é que nos tornamos tão incapazes de entender um mínimo da natureza humana? Já sei: desde que criamos essa noção autoritária de “lutar por um mundo melhor”.
Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo (de modo direto e sem rodeios), a violência no mundo será ainda maior. Sexo e amor sempre custam dinheiro, além de outras coisas. Aliás, a garota de programa é a mulher menos cara do mundo, custa só dinheiro.
Outras relações custam vínculos, jantarzinhos, longas conversas, “DRs”, incertezas quanto à retribuição do investimento de desejo, tempo e dinheiro. Entre essas meninas que trocam dinheiro por sexo, as melhores são aquelas que o fazem porque gostam do que fazem. Aliás, como em toda profissão.
Na Antiguidade, em muitos lugares, essas mulheres generosas faziam parte do processo de transformar um menino num homem. Mesmo em rotinas religiosas e espirituais. Na Bíblia, o numero de personagens prostitutas importantes é razoável. Dirão algumas pessoas mais nervosas que isso é “machismo”, mas elas não entendem nada de sexo nem de mulher.
Nelson Rodrigues falava de “uma vocação ancestral”. Diria eu, um arquétipo. O mundo fica mais pobre cada vez que esta vocação se torna muda. Tranque-a num quarto e seu perfume atravessará as paredes. Seu desejo escorrerá por debaixo da porta. Esconda-a sob véus, ela ressurgirá nos olhos, nos lábios, nos fios de cabelo. Seja nas roupas, na maquiagem, no modo de andar, de se sentar, de cruzar as pernas, de pensar, de sonhar, as melhores mulheres exalam cheiro de sexo como um dos modos de se relacionar com o mundo. Na filosofia se chama isso de erotismo.
A psicologia evolucionista considera a mulher que troca sexo por dinheiro um salto adaptativo. Elas mantêm o poligenismo masculino sob controle porque não exigem investimento afetivo em troca. Antes uma delas do que uma colega de trabalho. Não se pode falar isso, mas todo mundo sabe disso. Com a colega vem o risco da semelhança de interesses, da convergência de gostos, e o pior, a possível sensibilidade compartilhada.
Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações.
Mas, seguramente, vai aumentar a arrecadação do Estado, única coisa que socialista entende de economia. No resto, são analfabetos que só atrapalham o mundo. O que alimenta o socialismo como visão de mundo é a inveja dos que não conseguem ganhar dinheiro contra os que conseguem. De novo, o pecado (a inveja), ilumina melhor nossa natureza do que o blá-blá-blá da política como redenção do mundo.
Os “corretos” falam em “profissional do sexo”, porque consideram a expressão puta ou garota de programa um desrespeito com essas mulheres. Pura hipocrisia, como sempre, quando se fala de pessoas que querem “um mundo melhor”. Como dizia o filósofo Emil Cioran, vizinhos que são indiferentes são melhores do que vizinhos que têm uma “visão de mundo”.
Mas, graças a Deus (que nos entende melhor do que esses santinhos de pau oco), essa lei não vai adiantar porque quanto mais se castiga a nudez paga da mulher, mais deliciosa ela fica. Ao final, a mulher que troca sexo por dinheiro, sempre é mais desejada quando encontrá-la fica ainda mais caro.
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Assim caminha a Humanidade

JUACY SILVA: A grande maioria das cidades mundo afora, inclusive no Brasil, mais se parecem com áreas segregadas

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CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS

JUACY DA SILVA

Todas as pessoas, com raríssimas excessões, gostariam de viver em cidades limpas, sem esgoto correndo a céu aberto, com ruas, avenidas, praças, parques e quintais totalmente arborizados; com inúmeros parques, áreas verdes, margens de córregos e rios cobertos de vegetação e com águas limpas; cidades sem poluição oriunda das chaminés das fábricas ou de imensas frotas de veiculos que lançam diariamente milhões de toneladas de gases tóxicos na atmosfera; sem favelas e habitações que não atendem aos requisitos da dignidade humana, com sistema público de transporte, eficiente, seguro, movidos por fontes de energia limpa e renovável; com calçadas que permitam que idosos, crianças, pessoas com deficiência ou mulheres empurrando os carrinhos de seus filhos possam se locomover com segurança; sem lixões onde amontoam dezenas ou centenas de milhares de pessoas buscando no lixo seu sustento e sua comida do dia-a-dia, misturando-se com urubus, ratos, cobras e outros animais peçonhentos ou rejeitos tóxicos, onde a educação ambiental seja parte dos curriculos escolares em todos os niveis, para que as criancas, adolescentes, jovens e adultos possam despertar para a consciência ecológica/ambiental e melhor cuidarem do planeta.

Enfim, isto e muitos outros aspectos é o que fazem das cidades lugares aprazíveis para se viver, com qualidade de vida, com segurança e com saúde ou o que podemos denominar do BEM VIVER. Cidades assim são denominadas de CIDADES VERDES ou então CIDADES SUSTENTÁVEIS. Este deve ser o sonho de consumo de milhões e bilhões de pessoas que jazem `a margem da sociedade, excluidas econômica, social, ambiental e politicamente.

A grande maioria das cidades mundo afora, inclusive no Brasil, mais se parecem com áreas segregadas, verdadeiros apartheids sociais e econômicos,  onde convivem, as vezes lado a lado, uns poucos bairros ou residenciais de alto luxo, com características de uma cidade verde ou sustentável, e a maior parte do espaço urbano com as características que bem conhecemos e, as vezes, principalmente os governantes, fingem não perceberem que mais de 80% da população de algumas cidades vivem na mais precária e degradante situação e condição de vida.

Diante de tantos desastres e degradação ambiental que vem ocorrendo em diversas países, em todos os continentes, inclusive no Brasil, em todos os Estados e municipios, diante da constatação de que as mudanças climáticas estão se tornando uma ameaça `a vida no planeta e a própria sobrevivência da humanidade, parece que, a duras penas o nível de consciência ambiental vem ganhando espaço paulatinamente, mas, em minha opinião, ainda de forma muito vagarosa. Parece que ainda não acordamos deste sono letárgico, desta alienação que, de forma passiva nos impõe um olhar desvirtuado desta triste e cruel realidade.

Todavia, além desses aspectos, outro fator que também tem contribuido para este despertar vagaroso da consciância quanto `a gravidade da situação ambiental é que a população mundial, em praticamente todos os países está cada vez mais concentrada no meio urbano, onde é gerada a maior fatia do PIB mundial e também onde são produzidos os maiores volumes de gases de efeito estufa, oriundos, basicamente, dos diversas tipos de poluição, principalmente da poluição do ar e que são os maiores causadores do aquecimento do planeta e a maior causa das mudanças climáticas.

Diante do avanço da urbanização que tem ocorrido, principalmente nos paises do chamado terceiro mundo e também dos países emergentes, que, por ironia são os mais populosos, a preocupação com o desenvolvimento sustentável e com a presença do verde, tem se tornado um elemento crucial no que concerne ao planejamento estratégico e sustentável das cidades. Daí, o surgimento do conceito de cidades sustentáveis e de cidades verdes.

No contexto da sustentabilidade e, principalmente, das cidades sustentáveis, o verde é condição necessária, mas não suficiente, para que as cidades possam, de fato, serem consideradas sustentáveis. No entanto, podemos afirmar, sem sombra de dúvida , de que sem o verde, abundante, sem arborização dos espaços públicos e privados, sem áreas verdes, sem áreas de proteção ambiental, sem quintais verdes, sem florestas urbanas, uma cidade, mesmo que tente atender `as demais dimensões da sustentabilidade, jamais poderá ser considerada uma cidade sustentável.

O verde é essencial para proteger as nascentes, as margens de córregos, dos rios e lagos, para sequestrar carbono e outros  gases tóxicos que são lançados diariamente e se acumulam na atmosfera, para embelezar a cidade, para dar sombra e frutos, para propiciar a existência da biodiversidade, para manter o regime das chuvas, para a valorização dos imóveis, para garantir saúde para todos e para melhorar ou garantir uma boa qualidade de vida.

O conceito de sustentabilidade como é conhecido e utilizado atualmente, surgiu em 1987, quando da apresentação do Relatório “NOSSO FUTURO COMUM”, produzido, a pedido da ONU, pela Comissão Brundtland, quando a idéia de desenvolvimento sustentável passou a ser uma preocupação e um dos mais importantes pressupostos do planejamento urbano e, também de cientistas e líderes mundiais.

Por decisão da Asssembléia Geral da ONU aquela Comissão tinha como missão e objetivo analisar os impactos que as atividades humanas tem ou tinham sobre os recursos naturais do planeta, ou seja, sobre o meio ambiente.

No entanto, mesmo antes do Relatório da Comissão Brundtland, nos EUA, em 1969, quando da aprovação da primeira legislação nacional de proteção ao meio ambiente, o conceito de desenvolvimento sustentável foi formulado/definido como sendo o desenvolvimento econômico que beneficie a atual geração (daquela época ou de cada época considerada) e também  sem prejudicar as futuras gerações e, ao mesmo tempo, sem causar danos (degradação ambiental) aos recursos do planeta, incluindo seus recursos biológicos/biodiversidade, as águas, o solo e o ar.

Daí surge a certeza, baseada em estudos, pesquisas e constatações científicas, de que os recursos naturais não são infinitos, mas sim limitados e não podem ser explorados de forma predatória, mas com parcimônia e no contexto do bem comum e da justiça ambiental.

Desde meados da década de 1960, com ênfase nos anos seguintes e com mais vigor na atualidade, em todos os centros de estudos, pesquisas e universidades a questão da sustentabilidade passou a ser objeto de análise em diversas disciplinas acadêmicas e, aos poucos surgiu a certeza de que apenas na interdisciplinariedade, em uma perspectiva holística, podemos pensar, planejar e gerir as cidades, tendo como foco central o que hoje conhecemos como CIDADES SUSTENTÁVEIS, CIDADES VERDES ou sustentabilidade urbana. Isto está muito próximo do que o Papa Francisco tem enfatizado na Encíclica “Laudato SI”, quando fala de ECOLOGIA INTEGRAL.

O ano de 2015 é um marco significativo para as relações da humanidade e a natureza. Naquele ano o Papa Francisco apresentou ao mundo a Encíclica LAUDATO SI (a chamada Encícilica Verde), enfatizando as idéias e conceitos de que tudo neste planeta terra, que é a nossa CASA COMUM, está interligado nesta teia de relações, de que os recursos naturais devem ser usados para o bem comum e a melhoria da qualidade de vida da população inteira e não apenas como um bem privado ou de apenas alguns países ou grupos dominantes, que visam única e exclusivamente a exploração irracional dos recursos naturais e o lucro, que é o motor de uma economia insana e desumana, razão pela qual o Santo Padre tem também insistido quando fala da NOVA ECONOMIA ou a ECONOMIA DE FRANCISCO.

Foi também em 2015 que a ONU, ao se encerrar o periodo do que eram considerados os OBJETIVOS DO MILÊNIO, foram substituidos pelos 17 OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENÁVEL e suas 161 metas, como forma de balizar o desenvolvimento dos países até o ano de 2030, a chamada AGENDA 2030.

Mais de 190 países firmaram o compromisso de atingir tais objetivos e metas até o ano 2030 em diversas áreas, a quase totalidade delas que tem uma estreita relação com o meio urbano, com as cidades, onde a cada ano uma maior proporção de pessoas fazem seu local de residância/moradia e trabalho.

Apesar de já terem se passado cinco anos desses marcos internacionais, muitos paises ainda ignoram, inclusive o Brasil, os Estados e municípios a importância desses objetivos e suas metas como bússulas para planejarem, definirem politicas, estratégias e ações para que os mesmos sejam conquistados.

De forma semelhante, apesar da ênfase contida na Encíclica Laudato Si e das constantes exortações do Papa Francisco, a grande maioria dos católicos, incluindo fiéis, sacerdotes ou mesmo membros da alta hierarquia da Igreja em diversas países, inclusive no Brasil, simplesmente continuam ignorando o conteúdo da Encíclica Verde, as exortações e apelos do PAPA e pouco ou quase nada existe em termos de atuação nas paróquias, dioceses e arquidioceses que demonstram que existe um empenho real da Igreja na defesa e cuidado com o meio ambiente.

Mesmo que praticamente todos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável direta ou indiretamente estejam relacionados com o meio ambiente e com as cidades, onde vivem os maiores contingentes populacionais, alguns tem um significado maior para a sustentabilidade urbana.

Alguns estudiosos, tentam classificar ou agrupar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) em quatro grupos, a saber: Dimensão social: 1) erradicação da pobreza; 2) fome zero e agricultura sustentável; 3) saúde e bem estar; 4) educação de qualidade; 5) igualdade de gênero e 10) redução das desigualdades; Dimensão ambiental: 6) água potável e saneamento básico; 7) energia limpa e acessível; 12) consumo e produção responsável; 13) ação contra as mudança global do clima; 14) vida na água; 15) vida Terrestre; Dimensão econômica: 8) trabalho decente e crescimento econômico; 9) indústria, inovação e infra-estrutura e 11) cidades e comunidades sustentáveis e, finalmente, Dimensão institucional: 16) paz, justiça e instituições eficazes e, 17) parcerias e meios de implementação.

Como em todas as classificações, não existem limites rígidos entre os grupos de objetivos, muitos ou todos estão inter-relacionados e os efeitos das ações ou omissões em relação aos mesmos também tem caráter holístico.

Por exemplo o Objetivo número 11 estabelece: “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”,  está intimamente relacionado com os seguintes objetivos:15 “Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade”, bem como o Objetivo 13. “Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos” e tambem os demais objetivos inseridos no contexto da dimensão ambiental e, intimamente interligados com o de numero 2. “fome zero e agricultura sustentável”, principalmente com a agricultura urbana e periurbana e também com o objetivo 12. “consumo e produção responsável”, que se assim não acontecer estaremos produzindo a cada dia e a cada ano um volume muito maior de residuos sólidos/lixo, principalmente plásticos, que irão aumentar a poluição das águas (córregos, rios, lagos/lagoas e os oceanos).

Também é importante destacar que na elaboração e aprovação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável é feita uma referência explícita ao Acordo de Paris, que estabeleceu uma série de compromissos de todos os países com medidas e ações que consigam reduzir as emissões de gases de efeito estufa de tal maneira que a temperatura média do planeta fique entre 1,5 e 2,0 graus centigrados a mais, considerando o marco temporal dos niveis pré-industriais.

Com certeza, o terceiro marco importante na questão ambiental foi, sem dúvida, a aprovação do ACORDO DE PARIS, também em 2015, estabelecendo que “Reconhecemos que a UNFCCC [Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima] é o principal fórum internacional e intergovernamental para negociar a resposta global à mudança climática. Estamos determinados a enfrentar decisivamente a ameaça representada pela mudança climática e pela degradação ambiental.”

Apesar deste compromisso solene, alguns paises, como os EUA deixaram o Acordo e outros, como o Brasil, pouco fazem para de fato, cumprirem integralmente os compromissos assumidos naquele Forum Ambiental Internacional.

Em 2018, o IPEA publicou um documento bem extenso (546 página) intitulado “AGENDA 2030 ODS – Metas Nacionais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”,  detalhando cada objetivo, suas metas e indicadores e quais são os compromissos firmados pelo Brasil para que em 2030, passamos dar a nossa contribuição para um mundo melhor, com melhor qualidade de vida, economicamente menos injusto, socialmente mais solidário,  ambientalmente mais sustentável e democraticamente mais transparente e participativo. Estamos muito longe de atingirmos aqueles objetivos e metas, apesar dos discursos falaciosos de nossas autoridades.

O que seria razoável é que tanto o Governo Federal quanto os governos estaduais e municipais incluissem, de forma explícita, tais objetivos, metas e indicadores em seus respectivos planos, politicas, estratégias e ações de governo, visando, de fato, um desenvolvimento sustentável, integrado, articulado, enfim, uma agenda cujo horizonte deve ser o ano de 2030, de acordo com a ONU e todos os paises, inclusive o Brasil, que se comprometeram com a AGENDA 2030.

No entanto, todas essas instâncias governamentais não conseguem sequer planejar os períodos de seus mandatos/gestões e nunca, ou praticamente quase nunca, uma adminstração/gestão governamental consegue dar continuidade `as ações de seus antecessores, acarretando paralização de obras e serviços públicos, desperdício de recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos escassos, o que significa um verdadeiro crime contra a administração pública, a população e o país.

Quando falamos em cidades e comunidades sustentáveis, não podemos perder de vista que a primazia das ações deve ser dos poderes/organismos públicos, afinal, a população está a cada dia mais sujeita, no caso do Brasil, a uma das maiores cargas tributárias do mundo e pouco ou quase nada recebe em retorno na forma de obras e serviços públicos essenciais e de qualidade, incluindo servicos ambientais.

Todavia, existe um grande espaço para a ação voluntária, em todas as áreas relacionados com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) onde participam cada vez mais as pessoas, as organização não governamentais (ONGs), os clubes de serviços e entidades sindicais representativas dos trabalhadores e do empresariado e, também, alguas Igrejas de diferentes credos e denominações.

Se houver conjugação de ações, tendo os ODS como referenciais, com certeza, poderemos contribuir sobremaneira para que as CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS, sejam, de fato, uma nova face da sustentabilidade urbana. Sem isso, continuaremos vivendo em cidades que representam um verdadeiro caos, onde a violência, a exclusão social e econômica, a corrupcao, a marginalização social e a degradação ambiental estão presentes no dia-a-dia de milhões de brasileiros.

Na tentativa de identificar as características de uma CIDADE SUSTENTÁVEL OU CIDADE VERDE, mencionadas em diversas estudos e pesquisas disponíveis ao grande público e também aos gestores públicos e empresários, podemos mencionar alguns desses requisitos, a saber: 1) promover a agricultura orgânica urbana e peri-urbana (agroecologia, hortas domésticas, escolares e comunitárias); 2) encorajar dietas alimentares saudáveis, através da educação alimentar, com preferência para consumir alimentos orgânicos produzidos localmente; 3) reduzir o consumo e o desperdício de água, de energia e de alimentos, contribuindo para a redução da geração de lixo; 4) promover o re-uso, a RECICLAGEM e a economia circular; 5) estimular o VERDE, através de amplos programas de arborização dos espaços públicos e privados, estimular a criação de QUINTAIS e moradias VERDES; 6) recuperar e preservar nascentes e cursos d’água (córregos, rios etc) arborizando essas áreas; 7) estimular o cultivo de plantas medicinais e árvores frutíferas e promares  principalmente em áreas urbanas e peri-urbanas desocupadas (incluindo verdadeiros latifúndios urbanos); 8) reconectar a cidade (área urbana) com seu entorno (áreas rurais), estimular os cinturões verdes; 9) criar corredores ecológicos dentro das cidades e entre cidades de uma mesma região fortalecendo a biodiversidade; 10) criar, ampliar e manter ciclovias, estimulando a substituição do transporte motorizado individual e coletivo, uma das maiores fontes de poluição urbana; 11) estimular e incentivar o uso de fontes alternativas de energia limpa, como a energia solar e eólica abundantes no Brasil; 12) construir e manter calçadas verdes e ecológicas, que favorecem o escoamento das águas de chuva e o deslocamento seguro de pedrestres, pessoas com deficiência e mulheres com criancas de colo; 13) universalizar o abastecimento de água potável e esgotamento sanitário para todos os moradores, contribuindo sobremaneira para a melhoria da saúde pública e a qualidade de vida urbana; 14) promover a universalização da coleta e tratamento adequado dos resíduos sólidos/lixo; 15) promover a reciclagem de forma ampla, reduzindo signficativamente o volume de lixo que não tem destinação correta e contribui para aumentar os niveis de poluição urbana; 16) reduzir e controlar os niveis de poluição urbana (poluição do ar, das águas e do solo); 17) estimular a redução do consumo de energia e estimular a eficiência energética em todos os setores e atividades urbanas; 18) estimular práticas sustentáveis na indústria, no comércio, nos serviços públicos e privados, na agropecuária e silvicultura, que conduzam a uma economia verde, uma economia circular de baixo carbono; 19) estimular e promover sistemas de transportes urbanos sustentáveis, facilitando a mobilidade urbana, reduzindo os niveis de poluição urbana e as mudancas climáticas; 20) universalizar e garantir moradia dígna para todos os moradores das cidades, reduzindo drasticamente as habitações sub-humanas (favelas, casas de cômodo, palafitas e congêneres).

Com certeza, todos esses aspectos devem estar presentes no que poderiamos denominar de uma NOVA URBANIZAÇAO e em uma AGENDA URBANA SUSTENTÁVEL, sem o que se falar em cidades verdes e sustentáveis pode soar como apenas um reforço de discursos demagógico por parte das autoridades e gestores públicos.

Oxalá todos os municipios possam construir uma AGENDA URBANA SUSTENTÁVEL, para que até o ano de 2030 possamos ter milhares de CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS em nosso país.

Este desafio é de cada pessoa e de todos os brasileiros, é uma verdadeira cruzada da cidadania em prol da SUSTENTABILIDADE URBANA, ningém pode se omitir, nem durante as eleições e muito menos após a posse dos novos eleitos. A cidade pertence, não aos seus governantes, que são transitórios, mas sim a todas as pessoas que nela vivem, lutam, trabalham, reclamam de suas mazelas e sonham com dias melhores!

JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia.

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