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O melhor detergente é a luz do sol

ELESBÃO MORENO: Quando se fundamenta toda a política em dinheiro, há um menosprezo agressivo à inteligência do eleitor. Coloca-o na posição generalizada de venal, sem opinião. E, como participar da construção de uma nação, estado ou cidade generalizando a todos como sem princípios?

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O melhor detergente é a luz do sol

angeli e ai
A democracia igualando os diferentes
por ELESBÃO MORENO DA FONSECA
Um grupo de uns seis cavalheiros discutia política e dizia que o grupo do agronegócio deve vencer as eleições porque detém, este grupo, substancioso valor do PIB mato-grossense. Contrapus dizendo que dinheiro, como tempo de televisão, ajuda, mas não resolve. Argumentei que Brizola ganhou uma eleição no Rio contra a mais poderosa rede de televisão do país e Ulisses Guimarães, mito da política brasileira, perdeu uma eleição com o maior tempo dentre os candidatos. É triste ouvir opiniões que aprofundam mais as distorções sociais e que retratam um país profundamente descolado de projetos de inclusão de seus cidadãos que não tenham poder financeiro no processo político. Se os trabalhadores que chefiam o agronegócio contarem tão-somente com o dinheiro para estruturar suas campanhas, e oferecerem tão-somente a opulência da sua produtividade agrícola para o debate político, percamos as esperanças. O debate político necessita das mais variadas análises sobre os mais diversos assuntos. Há que se discutir até mesmo o agronegócio e seus impactos na vida dos cidadãos. Melhora ou piora a concentração de rendas? Qualidade de vida dos trabalhadores envoltos com a atividade, como está? Como é? A famosa adversidade com o meio ambiente, aí destaque de mestre-sala para a atividade pecuária. Qual a perspectiva de equacionamento entre as duas posições? É o manejo Voisin, resposta ambiental e econômico-financeira para a atividade? O caminho é longo, melhor, os caminhos são longos e com diversas, oportunas e necessárias ramificações. Há que se jogar luz sobre esses problemas para que não haja sentenças e ações como a do ex-ministro Delfim Neto, que apregoava que o bolo econômico havia de primeiro crescer, para só depois haver a distribuição. O bolo cresceu, meia dúzia de gatos o comeram e se aprofundou ainda mais a concentração de rendas. O agronegócio reproduz esse problema? O aprofunda? O resolve? Aguardamos, pelos debates, respostas para essas e outras perguntas.
Quando se fundamenta toda a política em dinheiro, há um menosprezo agressivo à inteligência do eleitor. Coloca-o na posição generalizada de venal, sem opinião. E, como participar da construção de uma nação, estado ou cidade generalizando a todos como sem princípios? Abúlicos. Aliás, uma das principais funções de um comandante seja político ou em outra atividade qualquer é estimular os seus comandados a encontrar soluções para problemas comuns e dar-lhes condições para a implementação dessas soluções. Noticia-se que detentores de grandes fortunas em países como os EUA criam fundações beneficentes para ajudar jovens e profissionais sem condições financeiras, além de aportar valores para universidades para aprimoramento das mesmas e ofertas de bolsas de estudos para que alunos alcancem seus objetivos. Talvez aí o dinheiro faça a diferença ao buscar jovens perdidos nas periferias das cidades e estimulá-los com métodos apropriados, em contraponto aos linchamentos, para que estes, ao acordarem, vislumbrem objetivos e condições para atingi-los. Talvez, em dia futuro, não muito distante, tenhamos candidatos advindos dessa camada social oferecendo alternativas de administração e contribuindo para o debate político. Bem-vinda a política que contemple todos os setores da sociedade, independentemente de serem, em suas atividades, grandes ou pequenos, independentes de serem votados ou votantes, de serem pés-rapados ou milionários, detentores ou não de cargos em todas as esferas de administração, federal, estadual e municipal. Estamos esperando a democracia que inclui; que, apesar das diferenças sociofenotípicas, trata a todos como iguais em direitos e deveres. Vivamo-la, pois!
* ELESBÃO MORENO DA FONSECA, engenheiro civil e músico 
[email protected] 
 
angeli voto

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RAI: Vacinemo-nos uma vez por todas! Vacinemo-nos também para expulsar de nós o mal maior, que vai muito além do agente infeccioso microscópico. Fora Bolsonaro! Caso contrário, nos tornaremos a nossa própria peste

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“A Peste” brasileira

por Raí

Que me perdoem Camus, seus estudiosos e milhões de admiradores, peço licença para repetir aqui algumas de suas palavras, do clássico “A Peste”, de reivindicar tua audácia, uma ousadia à imagem das tuas, para me ajudar neste momento de súplica rebelde, deste espasmo de “combat” e de “combattant”, diante de atos desumanos e suas terríveis consequências.

Como brasileiro, como tantos outros e perante o mundo, assumo aqui que estamos habitados, sitiados, nestes tempos sombrios de nossa história, por mais de uma terrível peste. Este duplo flagelo, cujas devastações são apenas o acréscimo de nossos próprios erros coletivos, que pode contaminar muito além de nossas fronteiras.

Além da “Peste” biológica, epidemia pessimamente gerida, causadora da maior crise sanitária da história do Brasil, temos outro mal, que no longo prazo pode deixar terríveis sequelas ainda mais profundas. A peste antidiplomática que nos isola, a peste que corrói a Amazônia, o meio ambiente e persegue os que a protegem, o mal que distancia a vigilância e permite passar a boiada, aceita garimpos em reservas indígenas, que prefere troncos deitados a vê-los em pé, vivos, pragas cúmplices dos responsáveis por estes crimes. Também a peste que castra liberdades, ameaça a democracia e resgata a censura, a peste preconceituosa que promove a intolerância, a homofobia, o machismo e a violência.

Enfim, a Peste que nos destrói, destrói a razão e o bom senso, que perturba nossa essência, nossa consciência e nega a ciência. A Peste que promove o ódio é inimiga das artes e da cultura. Ela, que tem suas próprias variantes, é obra de um clã. Associada ao distanciamento, ao negacionismo, a desinformação, a mentira, acaba por reprimir, mesmo que temporariamente, nossa revolta, resistência e indignação.

Citamos Camus: “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ‘Não vai durar muito, seria estúpido’. Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e nós a compreenderíamos se não pensássemos sempre em nós”

Sim, aqui do outro lado do Atlântico, este oceano que nos separa e nos aproxima, amigo francês, vemos de tudo. Da “ocupação” de boa parte de nosso espírito, até ideias muito próximas de um nazismo medíocre, ao menos de um ideal genocida de poder, que se pretende genocida de ideias, mesmo que para isso a morte de concidadãos enteja no caminho, nem que para isso aconteça um massacre humanitário, desnecessário, com centenas de milhares de mortes evitáveis.

O mal está espalhado: meio ambiente, relações internacionais, Fundação Palmares, direitos humanos. Chegamos ao cúmulo de assistirmos um certo secretário de Cultura parafraseando em rede nacional o discurso de Joseph Goebbels, ministro de Adolf Hitler antissemita, maldita alma da pior das ideologias.

“Tinham visto morrer crianças, já que o terror, há meses, não escolhia, mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziam desde essa manhã”.

No nosso caso (que revoltaria ainda mais os personagens de Camus), morrem inocentes por falta de oxigênio, e/ou por falta de leitos.

É preciso então, mais que resistir. Contra este peste brasileira que veste um terno sombrio com seu sorriso astuto, ataca seus adversários com repressão, agressão e perseguição, resgatando “sobras legais” herdadas da ditadura, como a lei de segurança nacional. Nosso Brasil, depois de ter passado por 20 anos de torturas, assassinatos, censuras, pensávamos nunca mais sofreríamos deste mal.

Ainda Camus: “O padre dizia que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribuído, que não se tratava da banal resignação, nem mesmo da difícil humildade”. “Era por isso – e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – preciso querê-la, porque Deus a queria”.

“O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” Este era o slogan da última campanha presidencial, esta que acompanhou a vitória do inominável. Alguns de nós já imaginávamos que por detrás destas palavras, se escondia a carne do mal coberta pela fake pele de um fake salvador da pátria, uma clara tentativa de iludir cidadãos de boa-fé, evangélicos, fiéis e crentes de Deus, já feridos e traídos em sua cidadania, querendo fazer crer que toda e qualquer atitude de seu governo segue princípios divinos.

Pois me diga, que Deus seria este que destrói e coloca a vida humana em um plano tão desprezível?

“Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”.

E me permita completar, e em meu país, perigosamente distraído.

O Brasil que queremos e que o mundo precisa, também negou o horror que se aproximava. E, portanto, há décadas os ratos já estavam aqui mostrando seus rostos e dentes, de olhos revirados, afiando suas unhas. E não nos atentamos. Será que nós, concidadãos, e sobretudo nosso parlamento, também somos negacionistas/cumplices, ao não querer enxergar o tamanho do perigo, ao nos sujeitarmos a este poder já manchado de sangue e de crimes?

Eu sei que longo prazo, e seja qual for o país, o homem corajoso, o cientista, o resistente conseguirão juntos derrotar o mal. Aqui, não será tão simples assim, porque carregamos nas nossas costas a histórica extrema desigualdade, econômica, social e educacional que esteriliza alguns comportamentos e aniquila a vontade de ruptura.

Toda Peste causa separações profundas e dolorosas. E olhem nós aqui, já isolados, tratados como pária do mundo… mas, sobretudo, separados de nós mesmos, desviados do Brasil que viemos para ser, do nossa essência, da nossa natureza, do país do futuro e de um mundo mais humano e justo. Do país exuberante, da alegria de viver que faz sonhar, que dança, brinca, canta e encanta. Porém, ao nos rendermos ao mal, passivos, mostramos o que temos de pior. O país da miscigenação não pode ser o da negação do seu próprio destino!

“O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam?”

Como fazer para se livrar deste pesadelo? Sobretudo não fiquemos anestesiados, amordaçados por esta “angústia muda”. Fora com este mal maior, fora a estupidez que desencoraja o uso de máscaras, que dificulta o combate ao vírus, que mata e deixa morrer, e ainda insiste!

Vacinemo-nos uma vez por todas! Vacinemo-nos também para expulsar de nós o mal maior, que vai muito além do agente infeccioso microscópico, que gangrena nosso “corps social”.

Porque não basta identificar o sequenciamento do vírus que nos impõe suas leis e viola nossos direitos, devemos agora encontrar o antídoto. Vacina sim! Ele não! Ele nunca mais! Fora Bolsonaro! Caso contrário, nos tornaremos a nossa própria peste.

*Raí Souza Vieira de Oliveira, mais conhecido apenas como Raí é ex-jogador de futebol, campeão do mundo e ativista/empreendedor social. Atualmente, dirige uma entidade filantrópica de ajuda às crianças chamada Fundação Gol de Letra. ao lado de seu ex-colega de São Paulo e Paris Saint-Germain, Leonardo. Em 2006, junto com outros atletas, criou a organização Atletas pela Cidadania, que se dedica a defender causas sociais. Texto publicado originalmente no jornal francês Le Monde

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