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CUIABÁ

O melhor detergente é a luz do sol

EDUARDO MAHON: Nada impede que os poderes públicos abracem os grafiteiros. E financiem a atividade. Aliás, frente à verdadeira brutalidade ocorrida nas obras públicas, tudo recomenda a arte. O que não pode acontecer é confundi-los com vândalos. A pior depredação ao patrimônio público é o desvio de verba em esquemas organizados de corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha. Os grafiteiros estão reagindo, a sociedade vê no grafite essa reação tatuada no sentimento autêntico de frustração e de indignação.

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O melhor detergente é a luz do sol

EDUARDO MAHON ADV MATO GROSSOO que é arte?
Eduardo Mahon
A recente condução de grafiteiros à delegacia de polícia ocorrida na capital mato-grossense levantou um debate profícuo que vale a pena.
As opiniões dividem-se, basicamente, em duas: pela repressão aos autores das intervenções uma vez que não contavam com autorização prévia do poder público e pela liberação da manifestação artística sem qualquer repercussão judicial.
Dessas duas bandas opinativas, outros subgrupos, a saber: os que acreditam que é necessária a regulamentação, como autorizações, projetos, alvarás – um viés moderado de liberação consentida; os que defendem a intervenção artística, desde que seja “bonita”, aceitável no padrão estético dos próprios analistas.
Essa discussão é semelhante à liberdade de imprensa: liberar a opinião pública sem restrições, regulamentá-la ou simplesmente permitir a censura prévia. Ou se pode noticiar ou não se pode. Não há meio termo para o jornalismo; tampouco para a arte.
É impossível conceituar arte por ela mesma. Deve ser tomada sob o prisma sociológico, antropológico e histórico, além de tantas outras variáveis que podem vir a se somar à análise artística.
A arte é manifestação humana e, como tal, reage às circunstâncias momentâneas, carrega admiração e horror, apoio e crítica, esteticamente é palatável ou reflete as próprias inconformidades sociais.
O problema não é conceituar arte. A questão é saber quem pode (e se pode) pautar a discussão e se intitula qualificado para avaliar “o bom”, “o mau”, “o belo” e “o feio”. Entram em questão as percepções individuais que não podem e nem devem pautar o artista.
Este não tem compromisso com a simetria, com a beleza convencional e nem tampouco com a aceitação pública de natureza plebiscitária. É impossível ao poder constituído, por exemplo, convencionar com artistas que pintem um determinado tema, com uma determinada cor. Isso é decoração, mas não é arte.
O que aconteceu em Cuiabá é paradigmático, sob muitos aspectos. Primeiro, uma manifestação artística espontânea que ainda é considerada marginal e prossegue sendo rechaçada pela autoridade pública, além de ser vista com reservas pela própria sociedade; o movimento cultural ativo solidarizou-se com os artistas surpreendidos pela polícia, promovendo o enfrentamento público do debate e das eventuais consequências jurídicas do evento; as autoridades foram obrigadas a reconhecer a validade, a legitimidade, o conteúdo e a conveniência do grafite como manifestação cultural contemporânea.
No entanto, o que mais incomoda a todos os artistas são as avaliações “do belo” e “do feio”. Vários comentaristas vieram a público condicionando a arte: é bem-vinda “desde que”. Essa condicionante é insuportável ao artista.
Há quem não saiba. Mas o grafite não nasceu numa tela convencional. Ele foi criado da espontaneidade das ruas. Sendo bem claro: das intervenções artísticas urbanas “não autorizadas”. Se os grafiteiros fossem cadastrados e tivessem os muros públicos mapeados, loteados, regulamentados, não seria grafite com toda a espontaneidade que essa manifestação carrega.
Não convém, nessa altura da civilização, determo-nos em questões primárias: isso é arte?; aquilo é grafite; isto é pichação; não gostei da frase; concordo; discordo, entre outras colocações absolutamente vazias de significado. O fato é que o grafite é uma manifestação urbana revitalizadora, provocadora, não convencional.
Essa expressão nasceu e cresceu pelo mundo no caos urbano, enfrentando a dureza do cimento com irreverência. Ao passar por ele, é impossível não apresentar reação, um sentimento genuíno da sociedade, seja qual for. Mais: não cabe “moldura” no grafite e nos grafiteiros, seja quantas e quais molduras estejamos entendendo.
Nada impede que os poderes públicos abracem os grafiteiros. E financiem a atividade. Aliás, frente à verdadeira brutalidade ocorrida nas obras públicas, tudo recomenda a arte. O que não pode acontecer é confundi-los com vândalos.
A pior depredação ao patrimônio público é o desvio de verba em esquemas organizados de corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha.
Os grafiteiros estão reagindo, a sociedade vê no grafite essa reação tatuada no sentimento autêntico de frustração e de indignação.
Se isso não for arte, o que será?
EDUARDO MAHON é advogado em Cuiabá.

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JORGE YANAI: Tem umas coisinhas que nós, médicos experientes, nunca vamos abrir mão: os exames clínicos e a boa e velha prosa com o paciente

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50 anos de Medicina

POR JORGE YANAI

 

 

Ano que vem completo 50 anos de Medicina mas quero hoje dividir um pensamento com você.

Nós médicos, somos notáveis pela mão de Deus e com o uso da ciência,  para prevenir, curar, intervir e salvar. Isso merece, sim, uma data e ela tá prontinha, 18 de outubro.

Mas e o dia do paciente, quando comemorar? Sem ele, não tem médico, enfermeiro, técnicos, recepcionistas, hospital, laboratório. É dele que depende o nosso sucesso e é por ele que trabalhamos, isso não pode ser esquecido. Jamais.

Então, todos os dias são dias dos pacientes, inclusive o 17 de setembro, Dia Mundial da Segurança do Paciente, algo mais amplo, conceitual mas ainda pouco pessoal, pouco humano, de verdade.

Na medicina moderna, andamos meio distantes desse protagonista. A internet, os exames, a tecnologia, nos tiram um pouco da proximidade, da intimidade, do toque e do abraço.

Nos últimos anos a pandemia também fez com que essa relação se tornasse mais “europeia” e o bom e velho tempo,  a tal  correria que usamos como desculpa, encurtam as consultas. Infelizmente.

Considero que o médico moderno, deve sim, usar todos os recursos para ser melhor, para fazer o  melhor. Só que tem umas coisinhas que nós, experientes, nunca vamos abrir mão: os exames clínicos e a boa e velha prosa com o paciente.

Muitas coisas são descobertas, ouvindo histórias, observando o tom de voz, gestos, olhares, postura, carências, excessos… porque, afinal, ser médico, também é: ler as pessoas.

Que a tecnologia, o tempo e o respeito aos bons métodos sejam uma forte corrente para que os atuais e futuros médicos possam unir-se às causas que vão além das datas comemorativas.

Um abraço do amigo,

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Jorge Yanai, médico desde 1972… e eterno aprendiz das necessidades humanas.

Jorge Yanai

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