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Antes Arte do Nunca

EDUARDO MAHON ASSUME RACHA NA ACADEMIA: Fiquem aí com coquetéis e convescotes, ficamos cá com a literatura

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Antes Arte do Nunca

Sebastião, Sueli, Cristina e Mahon: imortais em guerra em Mato Grosso

 

Os sapos continuam coaxando

Eduardo Mahon

 

É lamentável que Lobivar de Matos ainda esteja atual ao se referir a alguns integrantes da Academia Mato-grossense de Letras. Em 1939, Gervásio Leite e Rubens de Mendonça publicaram a carta aberta de Lobivar na revista Pindorama, da qual extraio um trecho: “Por influência do meio, os imortais e os mortais do norte e do centro produzem quase nada literariamente falando. São vítimas do ambiente. Preguiçosos, indolentes e sem estímulo dos ventiladores que são as nossas ridículas igrejinhas literárias, vivem dormindo numa inércia impressionante. É claro que há exceções. Um poeta bororo, que faz parte da nova geração, há pouco tempo me obrigou a observar um fenômeno literário de grande importância para esta síntese: o atraso dos acadêmicos e dos sapos da Academia. Disse-me o poeta: ‘Menino: parece mentira, mas não entraram ainda nem no Romantismo…’ De fato, a observação do poeta é exata. Não digo que ainda não chegaram no Romantismo. Isto de chegar, já chegaram. Não conseguiram avançar mais. Nenhum milímetro. Isto sim. 

Esse ranço com o tradicionalismo estéril, guarida da improdutividade ou da mera antipatia, já tinha sido ironizado por Manuel Bandeira. No poema Os Sapos, Bandeira vale-se de seu talento para responder à insistente mentalidade conservadora que dominava as associações literárias: “Clame a saparia/ Em críticas céticas:/ Não há mais poesia,/ Mas há artes poéticas…”. Em Mato Grosso, um gênio como Wlademir Dias-Pino ficou praticamente sozinho no questionamento dessa pegajosa tradição gongórica. Na revista Sarã, deixou claro sua posição: “O passado da nossa literatura, na verdade, é quase um boato, e como todo o boato tem uma uninha de verdade, essa uninha, por certo, é Lobivar de Mattos, Pedro Medeiros e algumas vezes Antonio Tolentino que foi – é bom que se diga – a melancia da nossa literatura (82% de água – refresco em fruta). Nossa cultura é um Adão e a literatura, a folha de parra. O mais pobre e desnudo dos Adões. Adão pobre e, por isso mesmo, de braços cruzados como quem tem frio. De pernas cruzadas. (…). Pobre coitado – sombria como um corredor em caracol. É redonda como um zero. Sem pontas. Exata. Quer dizer eco. Longe, bem longe – dum? – gráfico. Frouxa, sem consolo”.

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Dias-Pino ainda continua analisando o barroquismo academicista: “uma literatura improvisada. Deitada, chocando pedrinhas. É uma espécie de artigo comprado em queima de fim de ano. De voz fina. Fica assim parada como se olhando imbecis. Em outras palavras: é conversa fiada, é velho cheio de desculpas e reumatismos.”. Portanto, não nos resta muito a falar além do que já foi dito por Manuel Bandeira, Lobivar de Matos e Wlademir Dias-Pino. Lamentável é perceber a atualidade das colocações desses grandes escritores. Do meu ponto de vista, as academias deveriam servir à sociedade e não se prestar ao elogio autorreferente. Receber estudantes, publicar livros, promover debates, ajudar gestores, incentivar novos autores, promover literatura de qualidade. O que ocorre é o contrário. No livro de um sapo que se arvora em crítico, por exemplo, há uma patética menção a ele mesmo como um dos maiores poetas de Mato Grosso. É triste. 

De minha parte – e tenho certeza, da parte dos ótimos escritores mato-grossenses que estão dentro e fora da Academia de Letras – não há coaxar que meta medo, nem se for reptos de septos bufantes. Os escritores encontraram um lugar, o seu lugar de direito. A juventude quer se apaixonar pela poesia, quer se encantar com romances, quer mergulhar nos contos. Os professores precisam do nosso apoio para desenvolver um bom trabalho em sala de aula, os gestores públicos demandam conteúdo consistente para as políticas públicas que divulguem a literatura produzida em Mato Grosso. Fiquem aí com coquetéis e convescotes, ficamos cá com a literatura. Cada um dá o que tem. Não nos peçam, entretanto, que façamos parte desse brejo iluminado de sóbrios sapos e sapas. Limitem-se com esse pântano às moscas.

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Eduardo Mahon é escritor em Cuiabá, Mato Grosso.

 
 
ENTENDA O CASO:  https://paginadoenock.com.br/racha-na-academia-mato-grossense-de-letras-depois-da-eleicao-da-nova-diretoria-imortais-estao-saindo-no-pau/

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

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Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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