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O melhor detergente é a luz do sol

EDMUNDO ARRUDA JR: Há conservadores democratas da mesma maneira que há esquerda não democrática

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O melhor detergente é a luz do sol

Edmundo

Esquerda conservadora versus esquerda de direita!

Edmundo Lima de Arruda Jr*
A jornalista Cynara Menezes** contribui ao provocar uma discussão, no cenário do cotidiano político brasileiro, com um bom texto no qual sustenta que as posturas críticas de Ciro Gomes e Rui Costa em relação ao PT (a Lula, a Tiburi, a Haddad, etc) comprovam a emergência de uma esquerda conservadora. Essa esquerda parece, segundo a referida autora do artigo, como algo “paradoxal” ou “esdrúxulo” , como ser ao mesmo tempo “vegano-carnívoro”ou “ambientalista-latifundiário”.
Não sei se Ciro Gomes e Rui Costa são de esquerda. O fato de não estarem com Bolsonaro e com o establishement lulista parece conferir-lhes um lugar especial de fala. Não estou lá muito seguro, como muitos amigos e colegas, neste momento histórico, da validade e poder d’antes conferidos à dicotomia direita/esquerda. Talvez Norberto Bobbio (Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política), se vivo fosse, nos ajudasse a reatualizar esse raciocínio por polarizações em face de um mundo um tanto enlouquecido, marcado por multilateralidades e colateralidades que tornam mais complexas as condições de fazer avançar um mundo multicultural num sentido intercultural. A representação política desse mundo parece cada vez mais deslocada ou desencaixada da realidade. Ao caos real sobrepõe-se um caos no (e do) pensamento.
Direita e esquerda existem se considerarmos os gigantescos interesses antagônicos observáveis nas informações objetivas do estado do mundo. Elas são concretas e verificáveis na geopolitica do dinheiro e do poder na qual conflitos regionais (inclusive bélicos) apontam o varejo dos efeitos da concentração de renda em face do atacado de colateralidades que marcam a acumulação financeira, perversa e autofágica.
Contudo, nem tudo cabe nessa perspectiva estrutural (marxista ou não). Devem ser consideradas as variáveis culturais e interesses transversais, além do vetor indivíduo em si e em face aos dividendos do poder.
A referida dicotomia não foge às leis do fetiche no mercado, convertendo-se em moeda no jogo que escapa, não raramente, à ideologias, servindo como moeda (podre ou inflacionada) em tempos de concorrência desleal entre (des)informação e notícias falsas em progressão geométrica.
Desta maneira de ver a referida dicotomia se (des)dicotomiza ao ser atravessada por interesses menos nobres do poder, servindo desta forma, mais a confundir que a permitir visualizar comportamentos de vida (democráticos) e atitudes políticas (republicanas). A geléia ideológica é mais um óbice à normatividade espistemológica do binômio esquerda/direita.
Hoje tenho dificuldades em considerar Stálin e seus herdeiros (são muitos) como socialistas. Stálin é um Lenin possível e um Marx de algum modo é o avalista teórico, em última instância, da apropriação de ideias que, prostituídas na construção da ditadura do proletariado, não deixam de inspirar-se no ódio de classe que o filósofo de Trier cultivava. Mas vai lá, tomemo-los dentro do quadro da esquerda progressista. Mais uma prova de que no mundo prático teorias e conceitos se realizam em vários níveis, do possível ao oportunístico, passando pelo terror justificado na eliminação de resistências do ancien régime como em expurgos, assassinatos de camaradas e genocídios inconfessáveis.
O recuo histórico ajuda a situar, além do quadro de heroísmos e lutas dígnas contra poderes opressivos, o quão esquerda foi, no poder e fora, enquanto organização burocrática, quase sempre conservadora. Conservadora não somente na esfera moral, mas também na dimensão afetivo-sexual. Na política reproduziam e reproduzem a cultura dominante. Não faltam machistas e racistas nas suas fileiras, ou não? Sobretudo na política, as esquerdas tenderam e tendem a ser conservadoras, antes, durante e depois de chegarem ao poder. Mesclam desejo e realidade e muitas vezes despotencializando o primeiro em frivolidades e empoderando a segunda com retóricas de alcance pífio.
Revolucionários, como todos comunistas se apresentam e representam, sempre compuseram interesses para terem acesso a algum poder. Socialistas em geral são mais discretos na retórica da auto-promoção e mais pragmáticos nas trocas políticas. O mercado, um leão a ser abatido, acabou domesticando a ambos nos experimentos históricos. Com certo exagero a China é a síntese entre capitalismo e comunismo. Democracia? Para quê dirá um quadro da elite chinesa, apoiado por boa parte de um bilhão de chineses que hoje deram um salto na superação da miséria, com pouco menos ou pouco mais que dos dois dólares por dia para sobreviver. Quase cem milhões de chineses ainda se encontram na miséria absoluta, com menos de um dólar/dia para sovreviver. Volto ao tema do título.
Ser conservador não é em si sinônimo de coisa ruim ou símbolo do arcaísmo. Ser de direita não significa ser reacionário. Há conservadores democratas da mesma maneira que há esquerda não democrática. A direita progressista é liberal, inclusive nos assuntos mais polêmicos que incluem os costumes. Em matéria de costumes a crítica de Ciro ao identitarismo já possui imensa bibliografia quanto aos efeitos reversos que andam de mãos dadas com os legítimos reconhecimentos em curso. A autora do texto está um tanto sem centro, descentrada dos debates da crítica com algum poder de crítica válida, ou dizer, aquela que brota na condição de alguma autonomia prá pensar, distanciada, no possível, da tomada de partido por este ou aquele salvador da pátria.
A busca da unidade perdida de Cynara parece encontrar o seu Sangri-lá: o “socialismo progressista” do lulismo, fora do qual o “socialismo moreno” não existe. Então tá, né?
_____
* Edmundo Arruda JR é Prof. Titular aposentado da UFSC.

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**cf artigo de Cynara Menezes. O novo fenômeno na política brasileir: a esquerda conservadora. Blog Morena socialista. 14.9.2019.

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ECONOMISTA YANIS VAROUFAKIS: Por que a inflação voltou? A questão é do tipo que não tem resposta precisa

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Por que a inflação voltou?

Por Yanis Varoufakis, no Project Syndicate | Tradução: Antonio Martins

A tentativa de encontrar culpados pela alta dos preços está cada vez mais intensa. Foi o dinheiro farto dos bancos centrais, injetado por tempo demais nas economias, que fez a inflação decolar? Foi a China, que adotou lockdows para se proteger da covid e rompeu as cadeias globais de abastecimento? Foi a Rússia, que ao invadir a Ucrânia bloqueou uma parcela importante do suprimento global de gás, petróleo, grãos e fertilizantes? Foi uma mudança brusca das políticas pré-pandêmicas de “austeridade” para liberalidade fiscal irrestrita?

A questão é do tipo que não tem resposta precisa. Todas as mencionadas acima e nenhuma delas. Grandes crises econômicas frequentemente atraem múltiplas explicações, que estão todas corretas mas não tocam no ponto central. Quando os mercados financeiros desabaram em 2008, desencadeando a Grande Recessão global, surgiram várias interpretações: A captura das instituições regulatórias pelas instituições financeiras, que substituíram a indústria na liderança da ordem capitalista. Uma inclinação cultural ao risco financeiro. O fracasso dos políticos e economias, que confundiram uma bolha gigante com um novo paradigma. Tudo isso era real, mas nada ia ao núcleo da questão. O mesmo ocorre agora. “Nós avisamos”, dizem os monetaristas, que preveem inflação alta desde que os bancos centrais passaram a emitir dinheiro em larga escala, em 2008. Fazem-me lembrar do triunfo que os esquerdistas (como eu!) experimentamos naquele ano, depois de termos “previsto” repetidamente a quase-morte do capitalismo – iguais a um relógio parado, que acerta a hora duas vezes ao dia.

É verdade: ao permitirem que os banqueiros fizessem vasta emissão de crédito (na falsa esperança de que o dinheiro emitido iria irrigar a economia), os bancos centrais provocaram uma inflação de ativos (fazendo disparar os preços dos imóveis, das ações e das criptomoedas, por exemplo). Mas a narrativa monetarista não explica por que os bancos centrais foram incapazes, entre 2009 e 2020, sequer de ampliar a quantidade de dinheiro em circulação na economia real – muito menos de fazer a inflação chegar à meta de 2% ao ano. Algo além disso desencadeou a alta dos preços atual. A interrupção das cadeias de abastecimento dependentes da China) também teve peso, assim como a invasão da Ucrânia. Mas nenhum destes fatores explica a abrupta “mudança de regime” do capitalismo ocidental — da deflação, que predominava até há pouco, para seu oposto: a alta simultânea de todos os preços. Normalmente, para que isso ocorresse seria necessária uma inflação dos salários superior à dos preços, desencadeando uma espiral incessante, com a alta dos salários retroalimentando altas dos preços que, por sua vez, levaria os salários a aumentarem também, ad infinitum. Só nesse caso seria razoável que os bancos centrais demandassem aos trabalhadores “jogar para o time” e reduzir a luta por altas de salários.

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Mas fazê-lo hoje seria absurdo. Todas as evidências sugerem que, ao contrário dos anos 1970, os salários estão subindo muito menos que os preços, e ainda assim a inflação não apenas se mantém – mas acelera. O que está acontecendo, então? Minha resposta: um jogo de poder de meio século, conduzido pelas grandes corporações, pela oligarquia financeira, pelos governos e bancos centrais, está terminando muito mal. Como resultado, as autoridades ocidentais agora defrontam-se com uma escolha impossível: ou empurram os conglomerados (e mesmo alguns Estados) para falências em série, ou permitem que a inflação suba sem parar. Por 50 anos, a economia dos EUA sustentou as exportações líquidas da Europa, Japão, Coreia do Sul; e mais tarde da China e de outras economias emergentes. A parte do leão destes lucros estrangeiros voltava a Wall Street, em busca de maiores rendimentos.

Por trás deste tsunami de capitais que se dirigia aos EUA, o sistema financeiro construía pirâmides de dinheiro privado (os mercados de opções e derivativos). O esquema financiava a construção, pelas corporações, de um labirinto de portos, navios, entrepostos, pátios de estocagem, estradas e ferrovias. Quando o crash de 2008 incendiou estas pirâmides, todo o labirinto financeirizado de cadeias de suprimento just in time balançou. Para salvar não apenas os banqueiros, mas o próprio labirinto, os bancos centrais tomaram a frente, substituindo as pirâmides do sistema financeiro com dinheiro público. Ao mesmo tempo, os governos estavam cortando gastos públicos, empregos e serviços. Não era nada menos que socialismo de luxo para o capital e austeridade estrita para o trabalho. Os salários encolheram e os preços e lucros estagnaram, mas os preços dos ativos negociados pelos ricos (e, portanto, sua riqueza) disparam.

O nível de investimentos (em relação ao dinheiro disponível) caiu a um ponto inédita, a capacidade de produção encolheu, o poder dos mercados multiplicou-se e os capitalistas tornaram-se ao mesmo tempo mais ricos e mais dependentes do dinheiro dos bancos centrais que nunca. Era um novo jogo de poder. A luta tradicional entre capital e trabalho, cada um esforçando-se para elevar a respectiva fatia na renda disponível, por meio de crescimento das margens ou elevações de salários, continuou. Mas já não era a fonte principal da nova riqueza. Depois de 2008, as políticas generalizadas de “austeridade” resultaram em baixo investimento (demanda por dinheiro), que, combinado com total liquidez assegurada pelos bancos centrais (vasta oferta de dinheiro), manteve o preço do dinheiro (taxas de juros) próximo de zero. Com a capacidade produtiva (mesmo no setor imobiliário, em termos globais) em queda, bons empregos escassos e salários estagnados, a riqueza triunfou nos mercados de ações e propriedades, que haviam se desacoplado da economia real.

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Então, veio a pandemia, que mudou algo essencial. Os governos ocidentais foram forçados a direcionar alguns dos novos rios de dinheiro dos bancos centrais para as massas em quarentena, em meio a economias que, ao longo de décadas, haviam corroído sua própria capacidade de produzir e tinham de lidar agora com a ruptura das cadeias de abastecimento. À medida em que as multidões em quarentena gastavam parte de seu novo dinheiro em importações escassas, os preços começaram a subir. As corporações com riqueza acumulada em papel responderam lançando mão de seu imenso poder de mercado (ainda garantido por sua capacidade produtiva encolhida) para levar os preços às alturas.

Depois de duas décadas de bonança de preços de ativos disparados e de dívida corporativa crescente – tudo em consequência das ações dos bancos centrais – bastou uma pequena inflação para terminar com o jogo de poder que moldou o mundo pós-2008 à imagem de uma classe dirigente revivida. Agora, o que virá? Nada de bom, provavelmente. Para estabilizar a economia, as autoridades primeiro precisariam acabar com o poder exorbitante concedido a muito poucos por meio de um processo político de produção de riqueza de papel e criação de dívida barata. Mas estes muito poucos não vão entregar poder sem luta, ainda que isso signifique mergulhar toda a sociedade num grande incêndio.

Yánis Varoufákis é economista, blogger e político grego membro do partido SYRIZA. Foi o ministro das Finanças do Governo Tsipras no primeiro semestre de 2015. Varoufákis é um assíduo opositor da austeridade. Desde a crise global e do euro começou em 2008, Varoufákis tem sido um participante ativo nos debates ocasionados por esses eventos. Publicado originalmente no saite Outras Palavras.

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