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Dois pensadores brasileiros contemporâneos apresentam reflexões sobre os Black Blocs. Para historiador Lincoln Secco, contra esses lutadores de rua surge uma Santa Aliança que une dirigentes petistas e tucanos, trotskistas arrependidos e coronéis humanistas, além de velhos militantes e policiais paulistas. O pensador político Wanderley Guilherme dos Santos vê semelhanças entre os blackbocs mascarados que atormentam a cidade e os economistas da pré candidata Marina Silva: "Entre as convergências avulta a doentia incapacidade de organizar algo construtivo, são parasitas dos movimentos sociais" – escreve Wanderley

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O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos e o historiador Lincoln Secco, pensadores que se debruçam sobre o fenômeno urbano dos Black Bocs

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos e o historiador Lincoln Secco, pensadores que se debruçam sobre o fenômeno urbano dos Black Bocs


Diante dos Black Blocs, o PT escolhe Alckmin
por Lincoln Secco, especial para o Viomundo
 
 
Um fantasma ronda o Brasil. O fantasma Black bloc. Contra ele se juntam numa Santa Aliança dirigentes petistas e tucanos, trotskistas arrependidos e “coronéis humanistas”, velhos militantes e policiais paulistas. Que manifestante mascarado não recebeu a infame pecha de Black bloc?
Depois da mais recente manifestação do MPL em São Paulo, vozes da tumba se ergueram para pedir leis mais duras. O governador paulista, dizendo-se ameaçado por criminosos, reforçou seu discurso eleitoral na defesa da “indefesa” Polícia Militar e pediu que as agressões aos seus soldados fossem equiparadas ao terrorismo contra o Estado ou coisa que o valha.
Infelizmente para ele, no dia seguinte às manifestações a velha PM, ungida em defensora dos direitos democráticos, não se conteve e voltou a atacar, matando um adolescente na periferia paulista. Mas dessa vez houve uma insurreição espontânea e não foi possível culpar os blocos negros por ela.
A esquerda oficial, por seu turno, apressou-se em oferecer sua solidariedade à PM e ao Governador Alckmin. A presidenta Dilma, por cálculo eleitoral, lamentou a “barbárie” antidemocrática. Seu Ministro da Injustiça, Cardoso, ofereceu pela enésima vez ajuda à repressão policial. Mas como ele está à direita do PSDB, não tem sido acolhido com a celeridade que deseja. Já o Ministro Gilberto Carvalho ensaiou uma resposta ambígua para compreender a tática do bloco negro como sintoma de problemas sociais mais complexos. Logo foi chamada a sua atenção pela imprensa monopolista que domina o governo.
Há dois fenômenos bastante complexos que se combinam nesta reação petista. O primeiro não vale a pena explicar porque a cúpula do PT não quer entender. Basta dizer que, se os jovens mascarados abraçam uma “tática sem conteúdo” (na opinião da esquerda), no mínimo teríamos que reconhecer que o fazem porque os nossos velhos programas não lhes interessam. Creio que Paulo Nogueira explicou isto bem em seu artigo na Carta Maior.
Mas há o segundo aspecto que a direção petista deveria se esforçar por entender. Independente do que pensa do chamado “vandalismo” atual, ela se interessa por sua perpetuação no poder. Desse ponto de vista é estranho que desde junho alguns políticos do PT tenham se aproximado do governador paulista em várias ocasiões.
A resposta de Dilma Roussef tem uma explicação na ideologia lulista que orienta a maioria do PT. Segundo ela, o povo brasileiro é conservador e só aceita mudanças lentas e que não abalem a ordem. Inegavelmente a estratégia lulista de conciliação de classes tem sido referendada pelo voto. Graças a ela, outra tradição da esquerda, o petismo, ficou em segundo plano no próprio PT. Esta se orientava pela luta de classes dentro da ordem, mas conduzida por uma perspectiva socialista.
Dentro da perspectiva lulista (que nem sempre é a do próprio Lula) faz sentido recusar tudo o que perturba a ordem estabelecida. Se o jogo não muda, Dilma segura este “um a zero no segundo tempo” e vence. Mas isto é o campeonato nacional. No regional, o mesmo jogo interessa aos tucanos. E muito mais. O Estado de São Paulo é a mais formidável máquina de poder no Brasil depois do governo federal.
O objetivo público de Lula é acabar com a hegemonia tucana naquele Estado. Cada vez que o PT endossa o discurso de defesa da Ordem, a imagem do governador paulista se reforça. Simplesmente porque todo discurso conservador favorece quem já está no poder. Não parece plausível que a cúpula nacional tenha vendido fiado a cabeça de seu candidato paulista, o Ministro Padilha.
O mais provável é que o PT esteja na armadilha do lulismo. Ele garantiria a vitória nacional em troca da derrota em São Paulo. Se o PT adotasse, por exemplo, no caso Alstom uma campanha com metade da virulência que sofreu no escândalo do mensalão, ele estaria rompendo os limites do lulismo e reafirmando o petismo. Tal risco abriria um cenário eleitoral novo e incalculável.
Esta mesma timidez explica a condenação dos blocos negros. Não que pudéssemos esperar da presidenta um apoio a manifestações que podem se voltar contra seu governo. Mas decerto o PT poderia estar liberado para fritar o governador paulista e sua polícia. Mas o PT faz o contrário. Desde junho defende o governador Alckmin.
O velho petismo recusaria tanto a linguagem da extrema esquerda partidária quanto a da direita. Denunciaria que São Paulo possui oito jovens presos políticos. Por isso soa engraçado ouvir antigos dirigentes sindicais que faziam piquetes nos pontos de ônibus do ABC ou atiravam à noite bolinhas de aço com estilingues nas vidraças dos bancos, alertarem contra as manifestações violentas. Claro, nem é preciso recordar tempos ainda mais passados quando outra geração lia o general Giap e não usava máscaras e muito menos pedaços de pau, não é mesmo?
Claro, aquilo era uma ditadura e hoje estamos numa democracia, blá, blá, blá…
Com todo o respeito aos jovens lutadores das ruas, não é a sua presença que incomoda (por enquanto) a esquerda no poder. Ela se guia exclusivamente pelas pesquisas eleitorais. Seu futuro nunca passa de dois anos (quando ocorrem eleições). O horizonte dos jovens manifestantes é outro. Sem nada a perder, senão suas correntes, eles só podem pensar numa sociedade radicalmente distinta.
Lincoln Secco é professor de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da USP.
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Os black blocs sem máscara
por Wanderley Guilherme dos Santos, especial para O Cafezinho
Um leitor bem humorado de Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, sugeriu a aproximação entre os blackbocs mascarados que atormentam a cidade e os economistas da pré candidata Marina Silva. Estes seriam, pela ideologia, blackblocs sem máscara. O exagero normal de piadas não deixa de ter fundamento, neste caso, na convergência real entre ideais confessos de uns e ações delinqüentes de outros.
Mascarados e sem máscara, ou desmascarados, são contra tudo que está aí. Sendo o país altamente complexo em sua produção material, vida associativa e política, “tudo que está aí” é muita coisa para ser conhecida e avaliada no atacado. A menos, deve ser reconhecido, que os juízes estejam possuídos por estereótipos bebidos em fundamentalismos religiosos ou ideológicos. Embora rezando por bíblias diferentes, não há dúvida que blackblocs mascarados e sem máscara confraternizam no credo essencial.
Pelo passado de uns, os desmascarados, e presente de outros, os blackblocs mascarados, todos têm por objetivo o desmanche do patrimônio público, seja por destruição material direta, seja por supressão legal ou, ainda, por alienação a terceiros. A variação e bom gosto no modo de vestir dos sem máscara, em contraste com o militarizado uniforme negro dos mascarados, não disfarça a hostilidade à propriedade pública que compartilham. Com ou sem máscara são todos destrutivos blackblocs.
A mídia tradicional e as redes sociais funcionam como atraentes espelhos das manifestações de violência verbal, escrita ou de comportamento. Exibicionistas, anunciam onde vão agir pela força de paus e pedras ou pela compulsão das leis que pretendem elaborar. Discrição e modéstia não fazem parte do cardápio de moral e cívica desses autoritários em disponibilidade.
Entre as convergências avulta a doentia incapacidade de organizar algo construtivo. São parasitas dos movimentos sociais. Não se conhece uma instituição de defesa de coletividades que tenham criado. Mas estão sempre presentes no aproveitamento das atividades e organizações de construtores sociais, sugando-lhes a fama, a energia ou os propósitos. Foi o que fizeram em tempos idos, os sem máscara, com as empresas estatais criadas com os recursos e sacrifício da população. E voltariam a fazê-lo se lhes fosse concedida outra oportunidade. Não facilitaram a emergência de ações coletivas, empreitada sempre difícil e não raro cheia de perigos. Mas os mascarados se aproveitam das naturais e legítimas mobilizações dos setores mais carentes para sugá-los e macular os propósitos de suas paradas e manifestações.
Desprezam as instituições de representação popular (sindicais, políticas, pacificamente reivindicatórias) a elas dirigindo permanente crítica difamatória e humilhante, no que são coadjuvados pela imprensa blackbloc, muito mais do que marrom. Pontificam nas colunas jornalísticas os acometidos de dandismo intelectual, cheios de si pela ausência de contraditório que lhes devolveria a altura própria. Esnobes, só conversam entre si e acham lindas, exemplos de “democratização da democracia” (redundância charlatanesca), as tentativas selvagens de invasão de assembléias legislativas.
Finalmente, o anarquismo cruzado em benefício próprio. Face às tensões entre interesses populares e mercado, são radicalmente contra a regulação do Estado nos conflitos da sociedade (blackblocs mascarados) e no funcionamento a mãos livres do mercado (blackblocs desmascarados).
Há muito mais parentesco entre os blackblocs mascarados e os sem máscara do que é capaz de imaginar o inocente bom humor de observadores. Daria uma narrativa interessante fantasiar o que aconteceria em uma comunidade submetida à ideologia e à ação desses primos em barbárie. Os dois grupos, enjaulados, provariam da própria medicina.
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Presidente diploma cadetes e fala sobre governo: “aqui é mais difícil”

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O presidente Jair Bolsonaro presidiu hoje (27) a cerimônia de formatura de 391 novos aspirantes a oficial do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende sul do Rio de Janeiro. Bolsonaro fez um discurso de improviso à tropa e evitou falar de política. 

Durante a fala, o presidente relembrou os quatro anos necessários para a conclusão do curso e comparou a jornada à da presidência. “Eu até hoje guardo os ensinamentos que aqui aprendi. Nos momentos difíceis a frente da Presidência da República  eu vejo o que passei por aqui e me conformo dizendo: aqui foi mais difícil.” 

Bolsonaro também exaltou as 23 mulheres que integram a turma e que se formam “mostrando para todos nós que quem tem garra, determinação, força de vontade, coragem e fé consegue atingir os seus objetivos. Parabéns a vocês todas.”  

O presidente atribuiu ao Exército Brasileiro suas conquistas pessoais. “Esta formação marca a vida de todos nós. Essa formação nos fará vencer obstáculos. Lembrem-se de uma coisa: o que for possível nós faremos, o que não for, entregaremos nas mãos de Deus; Ele no dia a dia nos dá exemplos de superação”, afirmou.

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Jair Bolsonaro também afirmou que é papel dos formandos defender a democracia brasileira e a liberdade, além de frisar a necessidade de respeito pela Constituição. “Nós atingiremos o nosso objetivo, que é o bem estar de toda a nossa população.”

Além da defesa de valores, Bolsonaro também discursou sobre a amizade e o companheirismo entre integrantes das Forças Armadas. “Sem gratidão não chegaremos a lugar algum. Quem esquece o seu passado está condenado a não ter futuro”, frisou.

Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, também foi exaltado durante a fala. ”Um homem exemplo para todos nós. E digo a vocês: quem fará o futuro da nossa pátria não será um homem ou uma mulher. Seremos todos nós, 210 milhões de habitantes.”

Duração

Sob sol forte, a cerimônia de formatura dos 391 novos aspirantes a oficial do Exército durou aproximadamente 1h30. No moimento dos aspirantes receberem a espada de Duque de Caxias, Bolsonaro desceu do palanque das autoridades e foi cumprimentar e tirar fotos com familiares de formandos. Ele ficou cerca de 20 minutos no pátio.

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Na cerimônia também estavam presentes, o vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto e os comandantes das três Forças, além de generais.

Edição: Pedro Ivo de Oliveira

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