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O melhor detergente é a luz do sol

CHRISTIANE CAETANO: É importante que se entenda que conservação não é uma barreira para o desenvolvimento

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O Meio Ambiente e o Ser Humano

POR CHRISTIANE CAETANO

O que a nossa vida tem a ver com as outras coisas vivas? Cada vez mais pessoas entendem que a sobrevivência da humanidade depende da diversidade da natureza e da coexistência em harmonia, um ponto de equilíbrio que ainda estamos distantes de alcançar.

O Brasil tem a maior biodiversidade de fauna e flora do planeta. Isso representa uma riqueza incalculável. Água, comida, remédios, energia e todos os tipos de produtos que consumimos têm sua origem na natureza. Mais do que isso: a solução de tudo o que precisamos está nela. Mas a espécie humana só pode continuar existindo se tivermos ecossistemas saudáveis e fortes que continuem nos proporcionando os mais diversos recursos.

Em Mato Grosso existem três biomas, uma multiplicidade de espécies animais e vegetais e é onde, há mais de 20 anos, o Departamento Nacional do Sesc implantou um polo socioambiental com a criação da maior reserva particular do patrimônio natural do país, a RPPN Sesc Pantanal, que ajuda a conservar uma das mais importantes áreas úmidas do planeta.

É importante que se entenda que conservação não é uma barreira para o desenvolvimento. As unidades como a RPPN, o Parque Sesc Baía das Pedras e o Parque Sesc Serra Azul, todas pertencentes ao Polo Socioambiental Sesc Pantanal, são espaços abertos, acessíveis, que podem e devem ser contemplados, estudados, visitados, porque é do turismo responsável que se dá a sua manutenção.

Nas nossas áreas de conservação, dezenas de animais ameaçados de extinção voltaram a aparecer. Esses registros são a prova da regeneração da biodiversidade nos locais. Se existe alimento, as espécies voltam a ocupar os espaços e reestabelecem o ciclo natural da cadeia alimentar que permite a manutenção do ecossistema. E isso não exclui o ser humano, porque também somos parte da natureza.

Nossas unidades proporcionam experiências que integram as pessoas aos habitats naturais e fazem das vivências uma sensibilização e estímulo a preservação, ao uso racional, ao entendimento da conexão que existe entre todos os seres vivos.

A conservação das múltiplas formas de vida e o enfrentamento aos problemas ambientais do planeta é que deu origem ao Dia Mundial do Meio Ambiente. Nós, seres humanos, precisamos encontrar um jeito de prosperar e viver em harmonia com a natureza por uma razão bem simples, porque é a única maneira de sobrevivermos.

A minha vida, a sua, a dos animais, das plantas, as florestas e as cidades, tudo está interligado, um influencia o outro, um não existe sem o outro. Quando se trata de meio ambiente e de vida, tudo está conectado.

Christiane Caetano  é superintendente do Polo Socioambiental Sesc Pantanal

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ADVOGADA KAMILA MICHIKO: A homofobia, assim como o racismo, está cotidianizada para a sociedade brasileira. Basta assistir aos noticiários, sair às ruas e manter os ouvidos atentos

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Homofobia recreativa: a dor do outro como elemento de humor

Por Kamila Michiko Teischmann*

 

A opressão vivenciada por determinados grupos historicamente inferiorizados e vulnerabilizados não encontra hierarquia, como nos ensina Audre Lorde (2019). A opressão atravessa cada um dos indivíduos na particularidade que lhes é própria. As mulheres, as pessoas negras, pessoas LGBTI, as pessoas pobres. Não se pode desconsiderar a especificidade de cada uma, passando por questões de identidade de gênero, orientação sexual, raça e classe social. Contudo, a luta, sem ignorar as peculiaridades próprias, encontra adversário único no opressor.

É partindo dessa tônica de unicidade no confronto que extraímos do conceito formulado de racismo recreativo um paralelo com a homofobia recreativa.

A homofobia, assim como o racismo, está cotidianizada para a sociedade brasileira. Basta assistir aos noticiários, sair às ruas e manter os ouvidos atentos. Certamente será possível constatar pelo menos um episódio racista ou homofóbico.

Isso porque as condutas cotidianas revelam um modo de viver estruturado sobre bases dessa natureza, como nos ensina o professor Silvio Almeida (2019) na obra intitulada “Racismo estrutural”, desenvolvendo verdadeiramente uma teoria social, como o próprio autor aduz na introdução do livro mencionado, intercambiando o conceito de raça com a filosofia, ciência política, teoria econômica e do direito, evidenciando que o racismo é um elemento que integra a organização econômica e política da sociedade ao longo dos tempos, especialmente a brasileira.

Uma das expressões do racismo é no humor que violenta, faz troça com a imagem sempre suspeita da pessoa negra quando brinca de acusar o negro da sala por ocasião do sumiço de algum bem. Quando atribui a um mal serviço executado a feitura por uma pessoa negra, o chamado “serviço de preto”, tratado no vocabulário popular como um serviço de qualidade ruim.

São infindáveis os exemplos de inferiorização através de ditos populares ou mesmo de piadas prontas atreladas à pessoa preta.

Isso encontra fundamento teórico em Thomas Hobbes (apud MOREIRA, 2019), que aludiu sobre o bem-estar sentido pelos indivíduos quando se deparam com o infortúnio do outro, emanando um sentimento crescente de autoconfiança ao realizar a comparação com àqueles que são retratados em piadas, manifestações culturais de caráter negativo, formulando a partir daí questões sobre a teoria da superioridade, que pode ser observada no caso do exercício do humor como forma de marcar os locais superiores e inferiores dentro de uma sociedade.

Sobre a utilização do humor como forma de expressão do racismo, consubstanciado no que se pode conceber por racismo recreativo, Adilson Moreira (2019) indica que o humor dessa natureza revela uma dimensão de natureza coletiva e social de dado momento histórico.

Portanto, logo de representar pura e simplesmente uma piada inocente, o humor verdadeiramente é capaz de revelar muito sobre a ocupação dos espaços, as hierarquias vigentes e admitidas em determinados momentos históricos.

Aproximando a questão para o campo da homofobia, aqui concebida como toda forma de violência física ou verbal em desfavor de pessoas LGBTI, o cenário não é nada distinto.

A inferiorização a que são submetidas as pessoas LGBTI, em especial os gays, no cotidiano nacional é explícito. Quase sempre que se deseja ridicularizar um homem heterossexual basta chama-lo de “bicha”, “veado”, para logo ouvir do pretenso ofendido algum retrucar agressivo, tamanha sua aversão em ser denominado homossexual.

E tudo isso com o intuito de fazer rir à custa da existência do outro.

Considerando ser o Brasil o país que mais mata LGBTI no planeta e que há 12 anos lidera o ranking mundial de homicídios de pessoas trans (PUTTI, 2020), é inadmissível que se possa compreender piadas atinentes à identidade de gênero ou orientação sexual das pessoas simplesmente como inocentes.

O Brasil, na verdade, perpetua um humor com o negro, gay e nordestino que não tem trégua. A impressão que se tem é que a capacidade criativa é limitadíssima a esses alvos, sempre marcados.

Não é que a sociedade tenha ficado mais chata e que antigamente se brincava com tudo isso e ninguém se ofendia. O fato é que em outros tempos essas pessoas nem imaginariam a possibilidade de ter algum local para falar e serem ouvidas. Os avanços democráticos permitiram pôr em evidência atores sociais invisibilizados, afastados do protagonismo, por exemplo, de novelas, telejornais, propagandas.

Felizmente a realidade tem sido cada vez mais plural e ela vem acompanhada de algo a que Djamila Ribeiro (2019) referencia se tratar do lugar de fala.

É inconcebível que uma pessoa branca seja quem avalie se determinado episódio é ou não racismo. O mesmo com relação a um heterossexual dizer a um LGBTI sobre o que dói ou não nesse outro.

Sobre as dores, as lutas e as cicatrizes de toda uma gente só essa gente pode dizer.

Ainda sobre a importância de atentamente reconhecer e incentivar a produção de narrativas próprias, especialmente para não se correr o risco do perigo de uma única história, nas palavras de Chimamanda Ngozi Adichie (2017), permitindo que o conto ganhe corpo em primeira pessoa, com a realidade característica e capaz de não mais ser re-presentada, mas de verdadeiramente se presentar, se apresentar, estar presente.

É necessário olhar com olhos de querer ver e reconhecer que o racismo e a homofobia recreativa não têm mais espaço dentro de uma sociedade plural, fraterna e solidária, como a que se propõe a brasileira, conforme traçam as primeiras linhas da Constituição Federal de 1988.

Ao outro cabe acompanhar a evolução de pensamentos humanistas, sensível ao outro e reconhecendo nele a si próprio. O outro sempre seremos nós, de outro ângulo.

*Kamila Michiko Teischmann é advogada, conselheira Estadual da OAB-MT, vice-presidenta da Comissão da Diversidade Sexual da OAB-MT, professora universitária e mestranda do Programa de Pós Graduação em Política Social da Universidade Federal do Estado de Mato Grosso – UFMT. Contato: [email protected]

 

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