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O melhor detergente é a luz do sol

ANTERO PAES DE BARROS: Se o feriadão precisava passar pela Assembleia, o lockdown não precisa e passou da hora de decretá-lo em Mato Grosso

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O melhor detergente é a luz do sol

Assembleia se alia ao vírus

POR ANTERO PAES DE BARROS

Um pacto com a morte, ou para ser menos drástico, um pacto com o vírus. Esta decisão da Assembleia Legislativa ontem que rejeitou o feriadão proposto pelo governador Mauro Mendes, como forma de fazer um distanciamento social, com um prejuízo menor para empresários e trabalhadores e preservando vidas.

Os deputados não se sensibilizaram com isso. Até parece que a Assembleia não sentiu nada por ter perdido um dos seus pares recentemente para a covid. Nem a morte do deputado, nem o fato do deputado Barranco ter ficado alguns dias intubado em São Paulo. Nem as 95 mortes de ontem em Mato Grosso. Nem o fato de termos atingido a triste marca de sete mil mortos no Estado. Nem as mais de três mil mortes ocorridas ontem em território nacional. Nem os quase 300 mil mortos no Brasil. Nada, nada disso sensibilizou os parlamentares.

As alegações de alguns parlamentares – conversei com alguns deles e li as declarações da deputada Janaina Riva de que o feriadão possibilitaria aglomerações e isso não seria bom. Mentem nas explicações, não se sabe para esconder quais argumentos. Os argumentos dos parlamentares são inconsistentes.

Vejamos:

Com o feriadão haveria o distanciamento social por 10 dias. Só o fato das pessoas não precisarem mais utilizar o transporte coletivo já diminuiria bastante a circulação do vírus. Não é necessário ser nenhum cientista para prever isso.

O feriadão geraria aglomerações. Então os deputados consideram que o liberou geral – que é como ficou – não causa aglomerações. Não existe aglomeração quando se utiliza o transporte coletivo? Ou os ilustres deputados não sabem disso?

É preciso ter sinceridade na relação com a população. Os deputados atenderam a pressão de comerciantes e empresários inescrupulosos e também a política de morte do presidente Bolsonaro. Foi uma adesão quase total da Assembleia ao bolsonarismo. A exceção foi o deputado Lúdio Cabral que ironizou os colegas: “o único a votar com Mauro Mendes é quem lhe faz oposição”. Lúdio é médico e sabe da gravidade da votação da AL.

Nas próximas semanas, quando algum conhecido ou parente não conseguir ser atendido nos hospitais, pois não há mais vagas, lembrem-se dessa votação que ocorreu na Assembleia,

Percebam que na semana passada, empresários, economistas, banqueiros, enfim os que conhecem o comportamento e as necessidades da economia fizeram uma carta aberta à nação, pedindo o lockdown. Eles afirmam na carta uma verdade que os deputados de Mato Grosso preferiram ignorar: sem a contenção do vírus, sem a vacinação acelerada não haverá a recuperação da economia. A paralisação e o distanciamento propostos pelo governo seria bom para a economia e para a vida.

Inexplicavelmente, a maioria esmagadora dos deputados ignorou completamente essas possibilidades e sem propor nenhuma alternativa ao Estado, como se esse não fosse o papel deles.

É preciso reconhecer que muitos trabalhadores precisam dos seus empregos. Também é necessário reconhecer que as pequenas e micro empresas do Estado precisam do apoio do governo para que possam sobreviver na crise.

Nesse sentido, a AL perdeu a grande chance de dizer ao Estado: temos R$ 9,5 bilhões para investimentos, pois chegou a hora de diminuir os investimentos – que sejam R$ 8 bilhões apenas e o restante aplicado para apoiar os setores mais carentes da sociedade.

Os deputados teriam ficado bem com as empresas que realmente necessitam, com os trabalhadores e não seriam coadjuvantes nessa política da morte desenhada pelo presidente Bolsonaro.

Nas próximas semanas, quando algum conhecido ou parente não conseguir ser atendido nos hospitais, pois não há mais vagas, lembrem-se dessa votação que ocorreu na Assembleia, onde a recomendação da ciência foi completamente ignorada.

Com certeza os deputados pensaram na próxima eleição. Tomara que todos cheguem vivos até lá. E que os eleitores que conseguirem sobreviver saibam fazer bem as suas escolhas.

A reação do governador Mauro Mendes à derrota também não foi boa: “isso mostra que não temos poder absoluto e agora esperamos a boa consciência de todos”. É por isso que não foi boa. Uma reação conformista em um momento que os líderes precisam ter coragem. Se o feriadão precisava passar pela Assembleia, o lockdown não precisa e passou da hora de decretá-lo em Mato Grosso.

É hora de pensar na vida. Não é hora de se preocupar com a próxima eleição. Para governar bem é preciso ter coragem. O governador que teve a coragem de fazer um bom programa de ajuste precisa agora se aliar à ciência e decretar o isolamento social por 10 dias, renovando-o se necessário.

Entre o lucro e a vida é hora de optar pela vida. Já!!

 

Leia Também:  SOCIÓLOGO EMIR SADER: Nas eleições brasileiras, com a provável vitória de Dilma – no primeiro ou no segundo turno –, o segundo mandato deve ser distinto do primeiro. A promessa de baixar as taxas de juros aos patamares internacionais deve ser um objetivo central, para poder concretizar o que ela anuncia como um novo ciclo expansivo da economia. Quanto à oposição, caso não triunfe agora, enfrentará muitas incertezas. Os tucanos devem sofrer sua pior derrota, mesmo que logrem manter São Paulo, diminuindo sua bancada e ficando sem um nome presidenciável. A morte de Eduardo Campos deixa a oposição sem alternativa, já que a candidatura de Marina não cumpre os requisitos para essa difícil função

 

ANTERO PAES DE BARROS é radialista, jornalista e advogado em Cuiabá.

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SAÍTO: Como ser feliz na comédia contemporânea? Ser ou não ser não é mais a questão

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Modernidade implacável

POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO

 

Existe uma máxima que anda por aí bastante difundida, circunspecta que só – não julgueis ou da forma que julgais, será julgado. É muito interessante adaptá-la à razão. Por exemplo, como a pessoa se reconhece? Poderíamos afirmar que seria conhecendo a si próprio, ou mesmo através de um complexo processo de autoavaliação constante ou reflexão profunda sobre o “eu” individual. Poderíamos, mas não sem errar.

Sabemos, a partir do pensamento moderno, em especial o de Lacan, que o ser se reconhece no outro; sim, na alteridade, na comparação dialética entre aquilo que sou – de comportamento, atitude, forma de posicionar frente às vicissitudes da vida – e o que tudo isso representa no outro ou de como esse outro se manifesta. Vejamos, então: o reconhecer-se no outro não é um processo de julgamento? Pois bem. Nos acertos e erros do outro é que descobrimos a nós em acertos e erros, também. Assim, a partir daquilo que julgamos acertado ou errado no outro é que definimos e caminhamos solitariamente para a própria subjetivação.

Neste exato momento, lendo estas palavras iniciais, já estamos concordes ou discordes; julgando, portanto. Talvez o pregador queira se referir a um julgamento mais puro, sem os pecadilhos da maledicência, inveja e outros sentimentos tão ou bem menos nobres. Seria desta forma: não julgueis por preconceito, sem razoabilidade, senão… O julgamento dos amigos, do vizinho, dos colegas de trabalho, da família, enfim, todos e dos mais variados tipos, estão no dia a dia de cada qual e para cada qual.

Leia Também:  HISTORIADOR MAURO IASI: O presidente dos EUA, Barack Obama, disse que se solidariza à França, pois era uma de suas mais antigas aliadas e que os atentados em Paris foram contra “as ideias e valores que constituem a base de nossas sociedades”, enfim, um ataque “contra a humanidade”. O que nos chama a atenção é um paradoxo reiterado em situações como essa, isto é, se o ataque foi contra a humanidade, quem os realizou não faz parte da humanidade?

Nas redes sociais, os julgamentos são mais abertos, transparentes, à exceção é o anonimato, deste o sufixo já diz tudo. Consideremos o Facebook – das curtidas ou não, já que a ferramenta está a um “clic” do interessado, se pode sentir a reprovação ou aprovação de seu texto ou comentário; ou ainda, a teimosia ou mesmo a indiferença a ele, que não é surda, mas eloquente. Julgou-se eletronicamente e em tempo real, e o autor pode avaliar os “amigos”.

O anonimato se relaciona mais com os sites de notícias, nos comentários. Tirando o conteúdo que de cara se percebe a veia da vingança ou de falta de cultura e conhecimento, têm-se verdadeiras lições a tirar. Os teóricos sociais deveriam debruçar mais sobre isso. Há uma coerente participação popular neles. Antes, os comícios e reduzida plateia; agora, uma corresponsabilidade no produzido e no resultado. A máscara cai ou lhe é devida dependendo da argumentação dos comentaristas, anônimos ou não. Contra eles se tentou até regulamentação. Suas potestades permaneceram incólumes.

O recato, a paz dos inocentes, não prevalece mais, foi-se embora, impotente. Está-se a criar novas tolerâncias. Se seu nome aparece no Google, e de forma injusta, a justiça dos novos julgamentos te servirá como redenção. Para analisar todo esse material histórico, somente os historiadores não bastam, tornamo-los. Nisso somos bacharéis e sem qualquer certificado universitário ou ético, muito menos dos necessários referenciais teóricos e da disciplina acadêmica. O grito de Fidel – “condenem-me, não importa, a história me absolverá” – ecoa livremente na consciência, mais ou menos crítica, de seus amigos ou detratores, tudo a depender dos julgamentos modernos, de tempo real, e da “generosidade” postada nos bancos de dados eletrônicos. A profundidade dos acontecimentos não importa mais, todos queremos participar. A capacidade é detalhe dos desavisados.

Leia Também:  ADVOGADO E EX-PROCURADOR ROBERTO TARDELLI DENUNCIA TRECO AUTORITÁRIO MONTADO PELO GOVERNADOR E EX-PROCURADOR ZÉ PEDRO TAQUES: "Tem um balaio de nulidades na operação Sodoma e afirmo que este processo é um cadáver jurídico. Alguém vai ter que ter autonomia e independência para assinar esse atestado de óbito. Houve um decreto que criou uma matilha, uma alcateia furiosa que é o Cira (Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos). Isso é algo que jamais vi na vida. O governador do Estado, do alto do seu poder imperial, assina um decreto, se proclama presidente como se fosse Napoleão Bonaparte e determina que desta comissão faz parte o procurador-geral de justiça cujo cargo é marcadamente independente. O procurador-geral de justiça abdicou de sua independência atingindo a instituição inteira para participar de um treco que vai perseguir opositores políticos ao governador. Se alguém ler este decreto é de assustar. O governador designa as funções das pessoas e escolhe quem é alvo de investigação. E alguém consegue defender uma operação dessas? Cadê a consciência jurídica de Mato Grosso? Isso é ilegal, imoral e inconstitucional. É a primeira vez que vejo um político do porte do governador definir quem vai perseguir"

E diante disso, como ser feliz na comédia contemporânea? Ser ou não ser, que desculpemos a Shakespeare, não é mais a questão. É outra a inquietação: de sobrevivência, de dramaturgia. De minha parte, creio no julgamento divino e na   misericórdia de Seu Filho primogênito. Àquele que não o procurou durante a vida, posto seus honorários não se pagar com qualquer vintém, o que terá? O julgamento dos iguais e anônimos, de sentença arquivada no Google. Ou não?

É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, o SAÍTO, tem formação em Filosofia e Direito, autor do Bedelho.Filosófico no Facebook e Instagram

 

(e-mail: [email protected]).

 

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