No jornal A Gazeta, historiador Alfredo Menezes tenta vender os Estados Unidos como um exemplo de combate à corrupção para “repúblicas de banana” como Brasil. Em artigo no “Estadão”, professor Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, com a expertise de quem nasceu e vive na América, garante que “os EUA e os demais países “avançados” não deveriam apontar o dedo acusador para os países mais pobres, pois os responsáveis pelos problemas costumam ser as mais poderosas empresas multinacionais”

Alfredo Mota Menezes, professor aposentado da UFMT e Jeffrey Sachs, professor de Economia da Universidade de Colúmbia, situada em Nova York, nos Estados Unidos

Alfredo Mota Menezes, professor aposentado da UFMT e Jeffrey Sachs, professor de Economia da Universidade de Colúmbia, situada em Nova York, nos Estados Unidos

A VERSÃO CUIABANA-PANTANEIRA SOBRE O COMBATE A CORRUPÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS

Realidades diferentes

O prefeito terá uma pena entre 12 e 18 anos em regime fechado

Ray Nagin era o prefeito de Nova Orleans quando veio o furacão Katrina. Ele enfrentou a situação. Foi ele que chamou a atenção dos EUA para o tamanho do desastre que acorrera com a cidade.

Foi ele que colocou o governo George Bush contra a parede sobre esse assunto. Virou uma espécie de herói da cidade. Este prefeito acaba de ser condenado à prisão pela Justiça norte-americana. A história é interessante, talvez mostre como funciona a cobrança judicial em países anglo-saxônicos.

O prefeito terá uma pena entre 12 e 18 anos em regime fechado. Seu advogado, falando para a imprensa, acredita que a pena será entre 12 a 14 anos de cadeia. Para abreviar, ele pode ficar no mínimo 12 anos na cadeia.

“Ou algo como 500 mil reais. Foi provado ainda que ele viajara com a família para a Jamaica em jato privado pago por empreiteiras que tinham contratos com a recuperação de Nova Orleans”

O tamanho do crime dele? Recebeu direto da corrupção, comprovadamente, 200 mil dólares em dinheiro. Ou algo como 500 mil reais. Foi provado ainda que ele viajara com a família para a Jamaica em jato privado pago por empreiteiras que tinham contratos com a recuperação de Nova Orleans.

Também viajou para o Havaí, Nova York e até mesmo onde o Saints, time de futebol da cidade, iria jogar determinada partida. Tudo isso juntado, incluindo os 200 mil dólares em dinheiro, deu cerca de 500 mil dólares.

Ou, no câmbio atual, algo como um milhão e duzentos mil reais. Se comparado com o tamanho das coisas não republicanas do Brasil e Mato Grosso não parece piada de salão? O prefeito, espécie de herói da cidade, vai tomar aquele tamanho de cadeia por uma quantia em dinheiro que nas tantas coisas não republicanas nacionais e estaduais seria para preencher buraco no dente.

Continuo com história de outra realidade. Fora condenado um pouco antes um deputado federal pela Louisiana que tinha mais de 20 anos de Washington. Ele recebeu uma pequena quantia de dinheiro, mas sabe qual foi o motivo principal da condenação?

Num arranjo com empresa norte-americana para vender sei lá o que para país africano, ele conseguiu que ela pagasse os estudos de suas duas filhas na Universidade de Harvard. Como é curiosa a vida, hoje uma delas é médica e a outra advogada, ambas formadas em Harvard e o pai, por isso, tomará cadeia por muitos anos.

Mais um dado nesse tipo de história comparativa. Empreiteiros que participaram da corrupção também foram para a cadeia. A coisa pipocou mais para o lado dos políticos porque lá a tal de delação premiada funciona mesmo. Quando eles se viram apertados, entregaram todo mundo. Já pensou isso nestas plagas?

Outro ponto. Lá, diferente daqui, não há progressão de pena. Não existe essa de trabalhar durante o dia e ficar preso à noite. É regime fechado mesmo. Você, leitor, acha que neste assunto está correta a cultura anglo-saxônica ou a ibero-católica da América Latina?

ALFREDO DA MOTA MENEZES é historiador e articulista política do jornal A Gazeta, em Cuiabá

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A VERSÃO NORTE-AMERICANA SOBRE O COMBATE A CORRUPÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS

A onda global de crimes corporativos

Nos países desenvolvidos, a ligação cada vez maior entre políticos e grandes empresas causa uma rotina de subornos, fraudes e negociatas de dar inveja às nações mais pobres

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Jeffrey D. Sachs, do Project Syndicate – O Estado de S.Paulo
 

O mundo está se afogando em fraudes corporativas e o problema parece ser mais grave nos países mais ricos, aqueles que supostamente contam com um “governo responsável”. Os governos dos países pobres, provavelmente, aceitam mais subornos e cometem mais crimes, mas é nos países ricos – anfitriões das empresas multinacionais – que as infrações de maiores proporções são observadas. O dinheiro move montanhas e está corrompendo políticos em todo o mundo.

É difícil que haja um dia em que não venha à tona um novo caso de práticas administrativas questionáveis ou ilegais. Ao longo da última década, todas as firmas de Wall Street pagaram multas significativas por causa de algum episódio de fraude contábil, negociatas, fraude com valores mobiliários, operações fraudulentas de investimento e até apropriação indébita por parte de diretores executivos.

Uma grande quadrilha que promovia transações valendo-se de informações privilegiadas está sob julgamento em Nova York e a investigação implicou alguns dos principais nomes do mundo financeiro. Isso ocorre após o pagamento de uma série de multas aplicadas aos maiores bancos de investimento dos Estados Unidos como punição por várias violações relacionadas à negociação de valores mobiliários.

No entanto, o que mais se vê é a impunidade. Dois anos após a maior crise financeira de todos os tempos, abastecida pelo comportamento inescrupuloso apresentado pelos maiores bancos de Wall Street, nem um único comandante de uma instituição financeira foi preso.

Quando as empresas são multadas em decorrência de práticas ilegais, o preço é pago pelos seus acionistas e não por seus diretores executivos. As multas nunca passam de uma pequena fração do lucro obtido de maneira questionável e, para Wall Street, a implicação disso é que a corrupção se mostra consistentemente lucrativa. Mesmo nos dias de hoje, o lobby dos bancos demonstra pouquíssima consideração pelos políticos e pelas autoridades reguladoras.

A corrupção é lucrativa também no âmbito da política americana. O atual governador da Flórida, Rick Scott, foi diretor executivo de uma grande empresa de saúde chamada Columbia/HCA. A empresa foi acusada de fraudar o governo por meio do superfaturamento de reembolsos e acabou se declarando culpada de 14 delitos graves, pagando por eles uma multa de US$ 1,7 bilhão.

A investigação do FBI obrigou Scott a deixar o cargo. Mas, uma década depois de a empresa assumir a culpa, Scott está de volta, dessa vez apresentando-se como político republicano defensor do “livre mercado”.

Quando o presidente Barack Obama precisou de alguém capaz de ajudar no resgate da indústria automobilística americana, ele se voltou para Steven Rattner, conhecida figura de Wall Street, apesar de saber que ele era investigado por oferecer propinas a funcionários do governo. Depois de concluir seu trabalho para a Casa Branca, Rattner concordou em pagar uma multa de alguns milhões de dólares e, com isso, encerrar o caso.

Mas que motivo teríamos para nos ater apenas aos governadores e conselheiros presidenciais? O ex-vice-presidente Dick Cheney chegou à Casa Branca depois de trabalhar como diretor executivo da Halliburton.

Durante o período em que Cheney esteve à frente da empresa, a Halliburton envolveu-se na oferta de propinas ilegais a funcionários do governo nigeriano, conseguindo com isso o acesso às reservas de petróleo do país – cujo valor é estimado em bilhões de dólares.

Quando o governo da Nigéria acusou a Halliburton de suborno, a empresa preferiu chegar a um acordo fora dos tribunais, pagando uma multa de US$ 35 milhões. É claro que Cheney não sofreu nenhum tipo de consequência. A notícia quase não encontrou espaço na mídia americana.

Impunidade. A impunidade tornou-se um fenômeno generalizado – com efeito, a maioria dos crimes corporativos ocorre sem chamar atenção. Os poucos casos que são notados costumam acabar em algum tipo de repreensão formal e a empresa – leia-se, os acionistas – recebe uma modesta multa.

No alto escalão dessas empresas, os verdadeiros culpados não têm com o que se preocupar. Mesmo quando as companhias recebem multas consideráveis, seus diretores executivos permanecem no cargo. Os acionistas, de tão numerosos, veem-se em uma situação de impotência diante dos administradores.

A explosão da corrupção – nos EUA, na Europa, na China, Índia, África, Brasil e outros países – traz um conjunto de perguntas desafiadoras a respeito de suas causas e de como ela poderia ser controlada agora que atingiu proporções epidêmicas.

A corrupção corporativa fugiu ao controle por dois motivos principais.Primeiro, as grandes empresas são agora multinacionais, enquanto os governos permanecem presos ao âmbito nacional. As grandes corporações contam com tamanho poder financeiro que os governos têm medo de enfrentá-las.

Segundo, as empresas são as principais financiadoras das campanhas políticas em países como os EUA, onde os próprios políticos, muitas vezes, estão entre os sócios delas, sendo, no mínimo, discretamente beneficiados pelos lucros corporativos. Cerca de metade dos congressistas americanos é composta por milionários e muitos deles mantêm laços com empresas antes mesmo de chegarem ao Congresso.

Como resultado, os políticos, com frequência, ignoram as situações em que o comportamento corporativo ultrapassa os limites. Mesmo que os congressistas tentassem fazer cumprir a lei, as empresas têm exércitos de advogados que tentam antecipar sua próxima jogada. O resultado é uma cultura da impunidade, com base na expectativa – amplamente confirmada – de que o crime compensa.

Levando-se em consideração a proximidade entre o dinheiro, o poder e a lei, o combate ao crime corporativo será uma luta árdua. Felizmente, o alcance e a rapidez das redes de troca de informações dos tempos atuais podem atuar como uma espécie de desinfetante ou como um fator de dissuasão.

A corrupção prospera nas sombras, mas, hoje em dia, um volume cada vez maior de informações vem à luz por meio de e-mails e de blogs, além do Facebook, do Twitter e de outras redes sociais.

Precisaremos também de um novo tipo de político, na vanguarda de um outro tipo de campanha, que tenha como base a mídia online gratuita em lugar da mídia paga. Quando os políticos puderem se emancipar das doações corporativas, eles recuperarão sua capacidade de controlar os abusos corporativos.

Além disso, precisaremos iluminar os cantos mais sombrios das finanças internacionais, em especial lugares como as Ilhas Cayman e os bancos suíços mais suspeitos. Os casos de evasão fiscal, oferta de subornos, remessa ilegal de fundos, propinas e outras transações passam por essas contas. A riqueza, o poder e a ilegalidade possibilitados por esse sistema oculto têm agora dimensões tão vastas que chegam a ameaçar a legitimidade da economia global, especialmente no momento em que a desigualdade de renda e os déficits orçamentários atingem níveis sem precedentes, graças à incapacidade política – e, em alguns casos, até mesmo operacional – dos governos de obrigar os mais ricos a pagar impostos.

Assim, da próxima vez em que souber de um escândalo de corrupção na África ou em alguma outra região empobrecida, pergunte-se onde a fraude se originou e quem seriam os corruptores responsáveis. Os EUA e os demais países “avançados” não deveriam apontar o dedo acusador para os países mais pobres, pois os responsáveis pelos problemas costumam ser as mais poderosas empresas multinacionais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PROFESSOR DE ECONOMIA DA UNIVERSIDADE COLUMBIA, DIRETOR DO EARTH INSTITUTE E CONSELHEIRO  ESPECIAL DO SECRETÁRIO-GERAL DA ONU PARA AS METAS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO 

FONTE O ESTADO DE S PAULO

6 Comentários

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  1. - IP 189.59.43.95 - Responder

    Parabéns Alfredo ,vce está certo. Os americanos são um exemplo de gestão de dinheiro publico para o mundo.Lá roubou vai para a cadeia.Aqui ,roubou vai para a mídia,e para os longos embates nos tribunais,atrás das prescrições!

  2. - IP 177.221.96.140 - Responder

    O professor Alfredo tem razão, basta ver que os corruptos de lá vão para a cadeia e não tem regalias na prisão, enquanto que os mensaleiros petralhas daqui têm podólogo, feijoada, peixada, visitas em qualquer horário até de governador bajulandor.

  3. - IP 177.65.149.149 - Responder

    puxa, enock, ao nos apresentar o texto do americano, voce desmontou o discurso do alfredo. maldade, sua. isso a gazeta nem a tv centro america fariam com o nobre professor pantaneiro

  4. - IP 189.59.69.195 - Responder

    Claro, Osmir (Pontin?) e “Indignatus, El Cobardon”, tinham de mostrar sua tucanice seguindo a linha do sabe tudo Dr. Alfredo. O mesmo que em duas décadas de Gazeta, nunca (repito NUNCA! )escreveu um linha sobre a roubalheira de Riva et caterva na Assembleia. Porque será? O Dorileu mandava ele calar a boca? Ele recebia uma boquinha? Ele só não gosta de corrupto federal? Qual da opções é a mais correta?
    A dupla de comentaristas Enock, tem uma fixação com o PT, não é verdade? Coisa que só Freud pode explicar. Devem ter rido algum trauma com os que eles chamam de “petralhas….” KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!

    • - IP 201.22.173.17 - Responder

      Ademar,meu nome é Osmir Costa,não sei porque meu nome lhe causa suspeitas .Não deveria me chamar Osmir? Lamento, tbém não gosto muito dele,porém devo me conformar.Com relação ao Alfredo também acho que ele se omite covardemente no caso do Riva.Vce tem razão ,além de tudo, ele sempre foi filiado ao PSDB,então não seria isento para emitir palpites políticos,.Além de tudo ele enche o saco do eleitor com artigos cheios de perguntas,as quais ele deveria ter a obrigação de saber ou emitir sua opinião,visto que se intitula historiador e comentarista politico.Quanto a mim,sou legalista ,nem de direita e nem de esquerda.Quero que este pais bananeiro pare de ser proselitista e caminhe para o futuro com leis duras contra os corruptos de todas as matizes..Como fez a CHINA,USA,EUROPA,TIGRES ASIÁTICOS,etc.

    • - IP 177.221.96.140 - Responder

      O Ademar fica histérico se alguém lembra que os heróis dele estão condenados e presos na papuda.

      Não fique assim, não, Ademar, os bandidos estão presos, mas estão burlando o sistema e tendo muitas regalias.

      E o governador do DF está tão atrevidinho confirmando que visitou e vai continuar, na hora que ele quiser, a visitar os meliantes, que dá até para desconfiar que é tudo uma farsa para que sejam mesmo transferidos para uma penitenciária federal. É bom que o MP e o Joquim barbosa fique de olho, porque eles podem estar tramando um meio de ter ainda mais regalias.

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