No campo da política, Maradona goleia Pelé

No campo da política, Maradona goleia Pelé                       

(campos opostos: Maradona com Fidel e Chávez…)
(…e Pelé com Bill Clinton)

Por Victor Farinelli

Muitos no Brasil acharam a cena pitoresca, outros a viram com os olhos cheios de ódio. Diego Maradona como figura estelar do encerramento da campanha do sucessor de Hugo Chávez, o ex-motorista de ônibus Nicolás Maduro, era a união de dois dos ícones mais odiados pela classe média nacional. Certamente, muitos “almeidinhas” (para usar um arquétipo já consagrado pelo Matheus Pichonelli) não perderam a chance de alfinetar: “É por isso que o Pelé sempre será o Rei do Futebol, enquanto esse daí é só um drogado”.

A polêmica futebolística entre Pelé e Maradona é quase tão insolúvel quanto a do ovo e da galinha, e talvez já seja igualmente antiga.

Pelo futebol, eles fizeram muito: encantaram multidões, ganharam títulos, deixaram milhares de zagueiros para trás e foram idolatrados não só em seus países. Ainda assim o contraste entre seus estilos dentro de campo é muito menos interessante do que o observado fora dele, onde suas trajetórias têm sido completamente opostas.

Não se trata de dizer quem é melhor ou pior, mas é evidente que o moderado Edson Arantes do Nascimento, que evita expor suas ideias políticas, e que soa ambíguo nas raras vezes em que as expõe, é bem diferente do ideológico Diego Armando Maradona, que tem tatuagem do Che, passa férias em Cuba quase todos os anos, chama os Estados Unidos de “ianques imperialistas”, e manifesta suas posturas quase como um ativista –e com um êxtase que também caracterizou seu estilo como jogador.

No entanto, talvez o futebol explique um pouco essas distintas personalidades. O Santos de Pelé foi provavelmente o melhor time do Brasil de todos os tempos, mas mesmo com a torcida santista crescendo muito naqueles anos, não foi suficiente para ligar sua imagem aos dos brasileiros mais humildes. E mais, há quem considere que os 11 anos de tabu que o Peixe impôs sobre o Corinthians foi um dos fatores que levou o rival a passar mais de duas décadas sem títulos, mas, ao mesmo tempo, ver sua torcida crescer, através da identificação das favelas com o sofrimento corinthiano.

Maradona jogou no Boca Juniors, clube com a maior torcida da Argentina e que historicamente representa os “descamisados”. A relação de Maradona com sua torcida “xeneize” (apelido dos boquenses, que remete à ignorância dos imigrantes que povoaram as villas de Buenos Aires; corruptela de “genovês”) o manteve sempre ligado à pobreza que enfrentou quando criança.

Pelé, que também sofreu com uma infância dura, não teve a mesma interação através do Santos, único clube pelo qual jogou no Brasil. Fora do país, o craque brasileiro só jogou no New York Cosmos, franquia criada por empresários para popularizar o futebol nos Estados Unidos. Na Big Apple, seu potencial publicitário foi tão importante quanto o seu rendimento esportivo.

Não foi o mesmo destino que teve Maradona fora da Argentina. O Pibe passou primeiro pelo Barcelona, clube identificado com a luta contra a ditadura franquista e em prol da autonomia da Catalunha com relação à Espanha. Sua curta passagem pelo clube foi marcada mais por suas declarações de respeito ao sentimento pátrio do povo catalão que pelos poucos títulos que conseguiu por lá –num deles, a Copa da Liga de 1983, o craque argentino marcou o único gol da final contra o Real Madrid, clube do franquismo e da monarquia espanhola, em pleno estádio do rival, e comemorou o gol perto da tribuna onde estavam os príncipes.

Mas foi na Itália, no modesto Napoli, que ele faria história. O futebol italiano, tradicionalmente dominado pelos ricos times do norte do país, foi sacudido, nos anos 80, por aquele pequeno clube do sul desafiando sua hegemonia. A audácia napolitana enfrentou os interesses econômicos e políticos de muitos poderosos, entre eles Silvio Berlusconi, o magnata dono do Milan.

As camisas de suas seleções ressaltaram ainda mais a disparidade dos dois perfis políticos. Um disciplinado Pelé, que não criticava a ditadura abertamente, foi ao México em 1970 e trouxe de lá o Tri. Diante do uso político que o regime fez da conquista, o craque renunciou à seleção, um protesto velado, parecido ao apelo em favor das crianças, expressado um ano antes, ao marcar o milésimo gol, no qual pediu que a sociedade “pensasse mais nas crianças carentes”, mas não expôs mais claramente os flagelos que elas viviam diariamente.

Diego, vestido de celeste e branco, não só falou e atuou politicamente. Nos mesmos gramados mexicanos, em 1986, ele efetivamente transformou o futebol em política. Porque, do ponto de vista da estética pura, seu gol contra os ingleses pode ser contestado, mas é o conteúdo político que faz dele o melhor gol da história das Copas, o mais importante, e também o mais belo, para os que conseguem entender o significado de cada um daqueles dribles, de cada inglês que ia ficando para trás, e quantos corações argentinos renasceram com aquele lance. Até mesmo a malandra jogada da “Mano de Dios” pode ser vista como a revanche à mão infernal de Margaret Thatcher, quando autorizou o bombardeio de navios argentinos já rendidos, no final da Guerra das Malvinas, matando centenas de vidas que deveriam ter sido poupadas.

Ao pendurar as chuteiras, em 1977, Pelé logo enfrentou sua primeira polêmica política, ao declarar, em plena ditadura e diante do nascimento dos primeiros tímidos movimentos de redemocratização, que “o povo brasileiro não sabe votar”. A frase, que Pelé depois alegou ter sido tirada de contexto, foi fortemente repreendida por Ulisses Guimarães, e, se bem não serve para ligar o jogador à imagem da ditadura, demonstra que ele não era tampouco um crítico dela –e por isso não figurou na campanha das Diretas Já, que eram representadas, no mundo futebolístico, por Osmar Santos e pelos craques politizados da Democracia Corinthiana, como Sócrates, Wladimir e Casagrande.

Daí por diante, o Rei passou viver de sua imagem como garoto-propaganda das Casas Bahia, da Mastercard, do Banco Santander, entre outras grandes marcas. Embora tenha procurado não se envolver com a política, sempre evitou se aproximar da imagem de Lula, mas se deixou envolver por Dilma, que tem um perfil mais “classe média”, como o dele. Além disso, aceitou ser ministro dos Esportes nos Anos 90, durante o Governo FHC. O símbolo de sua gestão foi o decreto que leva o seu nome.

(Pelé veste a camisa do Santander)

A Lei Pelé diminuiu o poder dos clubes sobre os atletas, mas não passou esse poder aos próprios atletas, e sim aos empresários da bola, antes desconhecidos, e hoje, os verdadeiros donos do esporte no Brasil. Através dela, o neoliberalismo tomou conta do futebol brasileiro, o que levou ao sofrimento de muitos grandes times (alguns sofrendo até hoje) e ao surgimento de muitos clubes de empresários, verdadeiras hordas de mercenários da bola. Todo Campeonato Brasileiro tem pelo menos dois representantes desses.

Já Maradona, depois de aposentar-se da pelota, enfrentou a morte diversas vezes, e em todas elas foi salvo em Cuba. Sua relação com a ilha é de muito mais que simples amizade. É amigo pessoal dos irmãos Castro, defende e ajuda os médicos que trabalham ao redor do mundo. Diego é quase como um embaixador informal da medicina cubana.

Sem nunca ter ocupado um cargo público, Maradona fez mais política que Pelé. Em 2005, esteve ao lado de Kirchner, Chávez, Lula e Evo, quando estes disseram, na cara de George W. Bush, que a América do Sul rejeitava a ALCA, o cavalo-de-tróia definitivo do neoliberalismo. Também foi amigo de Chávez e jogou bola com Evo Morales no topo de uma montanha, a seis mil metros de altura, quando a FIFA tentou proibir os jogos na altitude. Tornou-se o futebolista-símbolo do bolivarianismo e fala da “pátria grande” com a mesma ênfase usada pelos presidentes da região.

Na Argentina, defende enfaticamente o kirchnerismo e a polêmica Ley de Medios. Em uma ocasião, disse que “a oposição argentina mal sabe preparar um guisado, e pretende falar dos problemas dos argentinos”.

Também foi treinador da seleção argentina, mas antes teve passagens fugazes por alguns clubes do seu país, entre eles o modesto Deportivo Mandiyú, do extremo norte do país (já imaginaram o Pelé como técnico de algum time amapaense ou paraense?), e o tradicional Racing Club de Avellaneda, time de Evita e Juan Domingo Perón, identificado com o chamado “peronismo de esquerda”.

São essas diferenças que fazem com que Pelé seja um ídolo feito sob medida para a classe média brasileira. Não chega a ser um conservador, mas tampouco defende transformações sociais. Sua imagem de respeitador da lei e da ordem e sua falta de convicções o aproximam, ainda que involuntariamente, da direita e seus entusiastas, e talvez por isso seja comum tê-lo como alvo das críticas do movimento negro, que reclama que ele nunca tenha sido capaz de fazer um gesto mais significativo em favor dos problemas raciais no Brasil e no mundo, embora sempre apoie as irrelevantes campanhas contra o racismo no futebol, promovidas pela FIFA e outros organismos futebolísticos.

Já Maradona é uma figura fortemente ligada aos movimentos sociais, inclusive ao movimento gay, mesmo não sendo um homossexual –em 1997, celebrou um gol do Boca com um beijo na boca do seu companheiro Claudio Caniggia, ao melhor estilo “Marco Feliciano não me representa”, causando furor em La Bombonera.

(Caniggia e Maradona desafiam os felicianos do futebol)

O transgressor Diego será sempre a antítese de Edson. Sua história e sua pele tatuada já estão definitivamente marcadas com os signos da revolução, o que faz dele quase que um guerrilheiro do futebol –que o digam os jornalistas contra quem ele disparou, literalmente, mais de uma vez. Pelé e Maradona representam uma dicotomia sócio-política tão comum que, somada à já conhecida comparação futebolística, faz com que a disputa entre ambos esteja fadada à eternidade

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9 Comentários

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  1. - IP 177.132.244.183 - Responder

    Aí de ti Venezuela,seras agora dirigida por um motorista de ônibus.Aí de ti Cuba,dirigida por um ditador aposentado e sanguinário.O futuro os espera no sub-desenvolvimento,no atraso e na corrupção.Triste destino da AL.Felizmente Chile e Colômbia estão se despregando de nós!Fazer apologia de Maradona só porque foi comprimentar esses cafonas, explica nosso atraso!

    • - IP 189.59.69.195 - Responder

      Falou você elogiar o Pinochet, Jorge Videla e Stroesner. A América está renascendo graças aos novos governos de esquerda.

  2. - IP 189.10.24.63 - Responder

    É isso aí as esquerdotralhas ficam com a favor dos mensaleiros e contra a decisão do Supremo. O povo brasileiro está do outro lado, contra os mensaleiros.

    As esquerdotralhas preferem o viciado em drogas, Diego Maradona, e é contra o rei Pelé.O povo brasileiro está do outro lado, contra as drogas. E prefere o brasileiro Pelé.

    • - IP 189.59.69.195 - Responder

      E prefere Lula e Dilma né covardão! Pelé é traficante de imagem!

  3. - IP 189.10.9.35 - Responder

    E com quem um drogado poderia andar???
    Ora é perfeitamente normal que esse jogador herói de um copa ande com ditadores e outras más companhias .
    Se ele vier ao Brasil certamente visitará o embusteiro de 9 dedos e os mensaleiros na cadeia.
    Qual a intençÃo dessa matéria?

    • - IP 189.59.69.195 - Responder

      Voce prefere que ele visite o FHC e o “Cerra”, teus heróis né Roberto…

  4. - IP 177.64.224.170 - Responder

    Maradona se revela uma pessoa com grande sensibilidade, fora de campo, aproximando-se de líderes que propõe a autonomia dos países da América Latina em relação aos Estados Unidos. Gol de placa!

    • - IP 189.59.57.95 - Responder

      Silvia ,sua opinião ñ é corroborada pelos “lideres” venezuelanos,pois, 100% da produção petrolífera da Venezuela é exportada para o ” Grande Satã”;,Estados Unidos.Que proposta de autonomia seria essa que você se refere?Cuba recebe subsídio da Venezuela apenas para completar a informação!

  5. - IP 177.64.225.118 - Responder

    Percebe-se que o autor não entende muita coisa de futebol. Percebe-se também que o autor é esquerdista ao extremo e aplica tal viés a tudo que vê e avalia. Torcida é torcida. A gente tem que saber respeitar as paixões. É uma coisa irracional…

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