PREFEITURA SANEAMENTO

No Bar do Polaco, ao lado do Córrego do Barbado, em Cuiabá, José Orlando Muraro acompanha uma missa, pela TV, bebe cerveja e reflete sobre a vida, e se emociona quando o Papa Francisco resume a sua história: ” -Sou apenas um pecador em que o Senhor colocou os olhos e disse: siga-me!”

papa francisco-e-josé-orlando-muraro

 O Papa Francisco, da Argentina, e o cronista Muraro, da Chapada dos Guimarães

 

 

Páscoa de Fancisco: onde está o meu coração?

POR JOSÉ ORLANDO MURARO
Um local dos mais improváveis; o Bar do Polaco, na rua Tancredo Neves, ao lado do Córrego do Barbado, em frente ao hospital São Judas Tadeu.

Aqui sempre tem um burburinho de gente; jogando sinuca, discutindo futebol, e a cerveja mais gelada e barata da cidade de Cuiabá. O dono é um porre… mas o que não se faz por uma cerveja barata e bem gelada?

Um dia dos mais improváveis: domingo de decisão dos campeonatos estaduais. O Polaco é torcedor do Santos, que enfrentará o Iituano, pela decisão paulista. Quando o Santos joga, o dono do bar, que já é um casca grossa, então, vira um siri na lata. Bravo, não aceita comentários sobre o seu time, xinga os fregueses…um pampeiro só.

Uma cena improvável: o bar com somente dois clientes, um silêncio sepulcral, e na TV a cabo, a transmissão da Missa de Domingo de Ramos, celebrada no Vaticano.

Tudo improvável, mas estava tudo ali. Sentei e derramei a cerveja gelada no copo, quando o Papa Francisco começou a sua homilia. E muitos fatos me vieram à cabeça.

Quando foi sagrado papa eu estava na sede da Clinprev da Pax, esperando ser consultado pelo dr. Roberto Calix. Uma dor infernal, que para mim era apendicite, e ele diagnosticou corretamente como pressão absurdamente alta.

Na TV ,no saguão, dezenas de pessoas fixavam os olhos em uma imagem: uma janela ou uma porta. Como voz de fundo, um locutor informava que um novo papa havia sido eleito, e todos esperavam que o mesmo aparecesse na sacada.

Quando informou que o papa era ARGENTINO, foi um quiprocó danado. Houve até gente revoltada: argentino? Não, não pode ser…. a Igreja está perdida de vez….

Mas os atos de Francisco cativaram o mundo: a simplicidade, o desapego, a crítica ao fausto e ostentação dos bispos….

Li, pelo El Pais, uma entrevista concedida à uma das revistas editada pelos jesuítas. Longa entrevista com mais de 30 páginas. Mas a pergunta crucial foi: como você se enxerga, agora que é o papa?

-Sou apenas um pecador em que o Senhor colocou os olhos e disse: siga-me!

Não se definiu como um soldado de Cristo, como sempre se auto-proclamaram os jesuítas ( pior ainda os dominicanos; cães do Senhor – domini cannis….)

Mas não parou por aí: citou a pintura denominada São Mateus, de Caravaggio, onde o Cristo aponta para o cidadão e este, desesperado, segura um saco de moedas. Sou um pecador em que o Senhor colocou os olhos e disse: siga-me!

Um papa assumindo-se como pecador? Elogiando uma pintura de Caravaggio, que foi um baita vida torta: bissexual, beberão, assassinou um cara por dívidas de jogo….. e um pintor iluminado!

Encostei-me na cadeira, sorvi a cerveja gelada e acompanhei a homilia: quem sou eu, no drama de alguém que sofre injustamente?

“……Escutamos muitos nomes, muitos nomes. O grupo dos líderes, alguns sacerdotes, alguns fariseus, alguns doutores da lei, que decidiram matá-Lo. Esperavam só a oportunidade boa para O prenderem. Sou eu como um deles?……”

E a reflexão continuou:

“…….Ouvimos também outro nome: Judas. Trinta moedas. Sou eu como Judas? Escutamos outros nomes: os discípulos que não entendiam nada, que adormeciam enquanto o Senhor sofria. A minha vida está adormecida? Ou sou como os discípulos, que não compreendiam o que era trair Jesus? Ou então como aquele discípulo que queria resolver tudo com a espada: sou eu como eles? Sou como Judas, que finge de amar e beija o Mestre para O entregar, para O trair? Sou eu um traidor? Sou eu como aqueles líderes que montam à pressa o tribunal e procuram testemunhas falsas: sou eu como eles? E, quando faço estas coisas – se é que as faço –, creio que, com isso, salvo o povo?…..”

Quem sou eu, frente àquele que sofre?

Você pode perder tudo, menos a capacidade de se indignar com as injustiças, escreveu outro argentino: Ernesto Guevara, El Che.

“……Sou eu como Pilatos? Quando vejo que a situação é difícil, lavo as mãos e não assumo a minha responsabilidade, condenando ou deixando condenar as pessoas?

“……Sou eu como aquela multidão que não sabia bem se estava numa reunião religiosa, num julgamento ou num circo, e escolhe Barrabás? Para ela tanto valia: era mais divertido, para humilhar Jesus.

“…….Sou eu como os soldados, que batem no Senhor, cospem-Lhe em cima, insultam-No, divertem-se com a humilhação do Senhor?….”

E aos humildes que têm coragem de lutar frente aos escarnecedores:

“…..Sou eu como Simão de Cirene que voltava do trabalho, cansado, mas teve a boa vontade de ajudar o Senhor a levar a cruz?

“…….Sou eu como aqueles que passavam diante da Cruz e escarneciam de Jesus:«Era tão corajoso! Desça da cruz e nós acreditaremos n’Ele!». Escarnecem de Jesus…

“….Sou eu como aquelas mulheres corajosas, e como a Mãe de Jesus, que estavam lá e sofriam em silêncio?

“……Sou eu como José, o discípulo oculto, que leva o corpo de Jesus, com amor, para Lhe dar sepultura?

“…..Sou eu como as duas Marias que permanecem junto do sepulcro chorando, rezando?

“…..Sou eu como aqueles líderes que, no dia seguinte, foram ter com Pilatos para lhe dizer: «Olha que Ele afirmava que havia de ressuscitar. Não queremos mais enganos!» e bloqueiam a vida, bloqueiam o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não irrompa?….”

Não tem como ser indiferente : ….sou como aqueles que bloqueiam a vida, bloqueiam o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não se irrompa?

A vida é um rascunho que você escreve de próprio punho. E não comporta correções. Fez e está feito…. e quem fui…quem sou, frente àqueles que sofrem?

Tomei decisões duras: metalúrgico, quando poderia ter ido para uma boa faculdade. Depois Rondônia: 15 malárias e duas leishmaniose…advogado de sem-terra, índios, seringueiros e quilombolas… chutei a defensoria pública e voltei para a estrada….

Não enriqueci. Consigo viver em uma honesta pobreza. Mas meus olhos contemplam a minha descendência: seis filhos ( e quatro netos) e duas ex-esposas que nunca entenderam as decisões que tomei, mas eu as amo e respeito.

Quando o caminho fica duro, só os duros continuam caminhando. Obrigado mano Brown, dos Racionais. A cerveja ficou doce. Não era a auto-justificação de uma vida. Era ter a consciência tranqüila de que, o que foi possível, eu fiz…

E o final da homilia:

“…..Onde está o meu coração? Com qual destas pessoas me pareço? Que esta pergunta nos acompanhe durante toda a semana….”

Passei a régua e fechei a conta. E que se dane o Santos do Polaco: quero é que a vida irrompa, que mil flores floresçam…. e quando se cerrarem meus olhos, sorrindo quero pensar: fui um louco, mas não vivi em brancas nuvens…. fiz valer cada dia da minha vida…..

 

Jose Orlando Muraro Silva é advogado e mora em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso.

 

2 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 201.88.46.121 - Responder

    Grande Chicao!…

  2. - IP 177.221.96.131 - Responder

    Ô Muraro
    Faça o favor de voltar pra Chapada. Tá faltando tu aqui pra ajudar a incendiar as rodas de papo e reeditar o Pluriverso Chapadense…
    abraço

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

um × 2 =