Negociação dos jornalistas de MT com seus patrões. Uma verdadeira sessão de horror.

Sessão de horror. A presidente do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso, Keka Werneck, descreve em artigo especial como foi a negociação dos profissionais de imprensa de Mato Grosso com os seus patrões, comandados por Zilmar Melate, da Tv Centro América, Gustavo Capilé, do Diário de Cuiabá. A vida profissional como ele é em Mato Grosso, neste início de século 21. Um registro para a história que vale a pena conferir:

 

Tem que ter estômago
Por Keka Werneck

Antes mesmo da diretoria do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT) e outros jornalistas acabarem de assentar na refrigerada e polida sala de audiência, dentro do Ministério Público do Trabalho (MPT), na última terça-feira, dia 2 de junho, advogados representantes dos meios de comunicação e alguns patrões em carne e osso já desencadearam uma série de golpes psicológicos, em tom agressivo, esfomeados por nos patrolar, na tentativa clara de desestabilizar a categoria, ali, diante deles, a fazer a luta que nenhum trabalhador pode deixar de fazer sob a égide desse famigerado capitalismo: a luta de classes.

Quando assisto novela, muitas vezes nem penso no que está por trás disso. Parece tão ingênuo o delicioso e apaixonado beijo que o cara mais lindo do mundo, um Gianecchini da vida, desfere em uma sortuda atriz, que caio em devaneios. Mas é o olhar agressivo do diretor executivo da Centro América, a Globo em Mato Grosso, Zilmar Melate, que me tira imediatamente do transe. Na mesa de negociação, ele mostra a serviço de quem esta empresa está, o poder econômico. É Melate quem defende, com toda convicção, que jornalistas devem dirigir carros de reportagem. E quem pagaria a multa? O jornalista, claro. “Eu pago as minhas”, insiste Melate. E talvez, quiçá, quem sabe, o jornalista possa pagar com a própria vida, como o fez o repórter Bruno Kauffman Abud, que Deus o tenha. Ele morreu em acidente de trânsito durante o trabalho. Em que empresa? Rede Globo. A mesma que acaba de ser condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo a pagar indenização de R$ 109 mil, mais multa por litigância de má-fé, à família do moço. A relatora da ação, juíza Jane Granzoto Torres da Silva, manteve a indenização por dano moral e a multa determinadas pela primeira instância. “Os pais entraram com a ação de indenização com o argumento de que sofreram com a perda do filho e que a culpa pelo acidente foi da empresa, que não fornecia motorista profissional para transportar o repórter.” Não sou eu que estou falando. Deu na revista Consultor Jurídico, dia 3 de outubro de 2007.

Desvia daqui e dali, dos muitos golpes desferidos, os jornalistas presentes na sessão de horror ameaçavam perder a calma e a saúde. O advogado do Diário de Cuiabá, (Célio Garcia, que pelos arquivos do Sindicato, é o advogado de sempre do grupo, metódico como sempre, tacanho, frio), disse que é idêntica à dos garis a responsabilidade dos jornalistas. É certo até que, na verdade, alguns jornalistas valem menos que muitos dos garis. Mas é fato também que o representante do Grupo DC queria ali, com aquele comentário, desqualificar a intelectualidade exigida para o exercício do jornalismo, o acúmulo, etc e tal. Não sendo possível vivermos em outro mundo, o jeito é então mesmo conviver com este tipo de lixo social.

Na mesma audiência fatídica, o diretor do Grupo Diário de Cuiabá, Gustavo Oliveira, mentiu. Mentiu quando disse que o Diário contrata jornalistas por R$ 1,1 mil. Só se for na carteira. E pagando por fora. Porque é fato, e todo o mercado reconhece, que jornalistas entram no DC com a promessa mínimo de um salário não inferior a R$ 1,5 mil. Aliás, é assim que o Diário de Cuiabá, a empresa Diário, se gaba de ser a que melhor remunera entre os três maiores jornais de circulação na capital e interior de Mato Grosso, quais sejam, junto com o DC, A Gazeta e Folha do Estado. Teve, no entanto, Oliveira que ouvir da diretoria do Sindicato que paga sim R$ 1,5 mil, mas isso quando paga, sendo apontado como aquele que gere o Grupo onde atrasos salariais são históricos. Teve que ouvir também que os trabalhadores do Diário já nem mais suportam cobrar pelos direitos garantidos em leis. Porém, porém, o DC não respeita decisão judicial. Ou seja, é condenado e tudo fica por isso mesmo. Jornalistas processantes saem então numa cruzada para encontrar algum bem que esteja em nome do DC e não de terceiros, se é que isso seja fato.

A Folha do Estado: não mandou representantes. Mas não sei se teria voz ali.

O Grupo Gazeta: ouviu calado, não interferiu muito, de modo que ficou claro que quem está puxando esse carro são TV Centro América e DC.

Entre eles, é fato, há desavenças, são concorrentes no dia-a-dia, todos estão correndo atrás da mesma bala disparada: o lucro. Diferente de nós, jornalistas, que, apesar de desorganizados, enquanto classe, estamos no mesmo barco.

Tem que ter estômago, companheiros, para estar num ambiente tão insano. E deve ter sido o que a procuradora Eliney Bezerra pensou, ao terminar a sessão, já que sobrou até para ela, como mediadora, agressividade e desrespeito. Talvez a procuradora tenha sido dessa forma atacada por ser mulher. Ou talvez por ser negra, ou quase negra. Ou talvez pelo simples fato dos empresários entenderem que é um acinte questioná-los, enfrentá-los, chamá-los para o debate, seja quem for.

É bom que não se esqueçam, principalmente os detentores de TVs e rádios, que essas são concessões públicas e quem manda em concessões públicas é o povo brasileiro, embora somente aos poucos esteja tomando conhecimento disso.

Cenário desolador? Que nada !! Não é à toa que a principal tarefa do sindicato é mobilizar. Por que sabemos que muitos de nós, jornalistas, temos sim vergonha na cara, honestidade, dignidade, trabalhamos duro, muitos nós somos mães, pais de família, somos honestos, e só não militamos, muitas vezes, por falta de tempo e de compreensão sobre a força do capitalismo, como uma mão invisível a arrancar até o último níquel dos nossos bolsos. E pior, a arrancar nossos direitos garantidos por lei. E pior, arrancar nossos sonhos.
NÃO ESMOREÇAM. Se precisarem, o Sindicato está aqui. E o Sindicato somos todos nós.
Próxima rodada da campanha salarial: quarta-feira, dia 11 de junho, 10 horas, no MPT. Vai lá, jornalista. E confira com os próprios olhos.

Keka Werneck, assessora de imprensa da Adufmat e professora substituta na Faculdade de Jornalismo da UFMT é presidente do Sindicato dos Jornalistas de MT

Categorias:Cidadania

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