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GRANDE, COMO ELE É GRANDE – Fidel Castro, aos 86 anos, escreve sobre sua morte, divulgada pelo PIG internacional. "Aves de mau agouro! Não recordo nem sequer o que é uma dor de cabeça" – escreve o líder da revolução cubana

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Cansado de ler e ouvir falar de sua própria morte, anunciada praticamente toda semana nas redes sociais, Fidel Castro resolveu publicar ele mesmo um artigo no jornal Granma com este título: “Fidel Castro está agonizando”. Devemos reconhecer que o homem tem senso de humor. No texto, o “comentarista-em-chefe” cubano aproveita para fazer uma crítica contundente à mídia e ao capitalismo.
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Fidel Castro está agonizando
Por Fidel Castro
Bastou uma mensagem aos graduados do primeiro curso do Instituto de Ciências Médicas Victoria de Girón para que o galinheiro da propaganda imperialista se alvoroçasse e as agências informativas se lançassem vorazes atrás da mentira. Não só isso. Em suas transmissões adicionaram ao paciente as mais insólitas idiotices.
O jornal ABC da Espanha publicou que um médico venezuelano, que mora nem se sabe onde, revelou que Castro havia sofrido uma embolia em massa na artéria cerebral direita. “Posso dizer que não vamos voltar a vê-lo publicamente”. O suposto médico, que se o é abandonaria primeiro a seus próprios compatriotas, qualificou o estado de saúde de Castro de “muito próximo do estado neurovegetativo”.
Embora muitas pessoas no mundo sejam enganadas pelos órgãos de informação, quase todos em mãos dos privilegiados e dos ricos, que publicam estas imbecilidades, as pessoas acreditam cada vez menos nelas. Ninguém gosta de ser enganado. Até o mentiroso mais incorrigível gosta que lhe digam a verdade. Todo mundo acreditou, em abril de 1961, nas notícias publicadas pelas agências dando conta de que os invasores mercenários de Girón ou Baía dos Porcos, como queiram chamar, estavam chegando a Havana, quando em realidade alguns deles tentavam infrutiferamente alcançar em barcos os navios de guerra ianques que os escoltavam.
Os povos aprendem e a resistência cresce frente às crises do capitalismo, que se repetem cada vez com maior frequência; nenhuma mentira, repressão ou novas armas poderá impedir a derrocada de um sistema de produção crescentemente desigual e injusto.
Há poucos dias, muito próximo ao 50º aniversário da “Crise de Outubro”, as agências de notícias assinalaram três culpados: Kennedy, recém chegado à chefia do império, Kruschev e Castro. Cuba nada teve a ver com a arma nuclear, nem com a chacina desnecessária de Hiroshima e Nagasaki, perpetrada pelo presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman, estabelecendo a tirania das armas nucleares. Cuba defendia seu direito à independência e à justiça social.
Quando aceitamos a ajuda soviética em armas, petróleo, alimentos e outros recursos foi para nos defendermos dos planos ianques de invadir nossa Pátria, submetida a uma suja e sangrenta guerra que esse país capitalista nos impôs desde os primeiros meses, e que custou milhares de vidas e mutilados cubanos.
Quando Kruschev nos propôs instalar projéteis de alcance médio, similares aos que os Estados Unidos tinham na Turquia – ainda mais próxima da URSS que Cuba dos Estados Unidos – como uma necessidade solidária, Cuba não vacilou em assumir tal risco. Nossa conduta foi eticamente imaculada. Nunca pediremos desculpas a ninguém por aquilo que fizemos. O certo é que decorreu meio século e ainda estamos aqui, de cabeça erguida.
Eu gosto de escrever e escrevo; gosto de estudar e estudo. Há muitas tarefas na área dos conhecimentos. Nunca as ciências, por exemplo, avançaram a uma velocidade tão espantosa.
Deixei de publicar Reflexões porque, certamente, meu papel não é o de ocupar as páginas de nossa imprensa, consagrada a outras tarefas que requer o país.
Aves de mau agouro! Não recordo nem sequer o que é uma dor de cabeça. Como prova de quão mentirosos são, lhes deixo de presente as fotos que acompanham este artigo.
(Publicado originalmente no jornal Granma em 22/10/2012)
FONTE SOCIALISTA MORENA, blog de Cynara Menezes
 

 
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MAIS INFORMAÇÃO
A Revolução cubana é uma obra evangélica, afirma frei Betto, em encontro com Fidel Castro
“Muitas vezes nossos movimentos falam pelo povo, querem ser vanguardas do povo, escrevem para o povo, mas não se comprometem com o povo”, disse Frei Betto, em Havana, na presença de Fidel Castro.
O discurso é de Frei Betto, publicado no sítio cubano Cubadebate, 11-02-2012. A tradução é do Cepat.
Comandante, com profunda tristeza para os inimigos deste país – e enorme alegria para nós, os amigos deste país – constata-se seu excelente estado de saúde e brilhante lucidez. Você disse que Chávez se preocupa com cada detalhe e eu gosto do sistema cubano de divisão social do trabalho: o povo cuida da sua produção econômica, Raúl da política e Fidel da ideologia, como todos (apreciamos) nesta tarde que passamos aqui. Talvez dois temas ainda não foram tratados aqui ou não foram tocados. Vou começar pelo primeiro, que foi mencionado brevemente por Pérez Esquivel: Quando me perguntam como consegui conhecer bem a Revolução cubana, eu digo: Não basta conhecer a História de Cuba, não basta conhecer o Marxismo, é necessário conhecer a vida e a obra de José Martí. Para entender Fidel como fez Katiuska (Blanco) é necessário conhecer a pedagogia dos jesuítas.
Muitos aqui, como Santiago Alba, o companheiro de Túnez, experimentou o que significa uma prova oral na escola dos jesuítas. É difícil. Daí vem Fidel. Eu não sou jesuíta, não estou fazendo nenhuma propaganda. Sou dominicano, mas como sou amigo de Fidel, nós colocamos em acordo dominicanos e jesuítas. Na tradição jesuíta existe um costume que se chama exame de consciência, que se faz neste país, com outros nomes.
Houve um tempo – venho aqui há mais de 30 anos -, que se falava de Emulação, depois de Retificação, agora de Lineamento. Se Stalin estivesse vigente, as pessoas aqui de Cuba seriam chamadas de reformistas. Porém, muitas pessoas não se dão conta que aqui não se faz mudanças no estilo de Lampedusa – mudar para deixar que fique tudo como está -, as mudanças são feitas para melhorar esta obra social da Revolução, que é uma obra, do meu ponto de vista, não somente política ou ideológica, é uma obra Evangélica.
O que significa evangelismo de Jesus? Significa dar comida a quem tem fome, saúde a quem está enfermo, amparo a quem está desamparado, ocupação a quem está desempregado. Isso está na letra do Evangelho. Por isso, digo que esta é uma obra transcendente.
Nós, muitas vezes, nos movimentos progressistas, nós estamos fazendo o que faz a Revolução cubana, nosso exame de consciência ou nossa autocrítica. Por que não existem movimentos progressistas no mundo, com exceção da América Latina? Diante da crise financeira na Europa, que proposta temos? Fala-se da ocupação de Wall Street, que é um movimento de indignação, mas muita gente não se dá conta de que Wall Street significa a rua do muro, e enquanto este muro não vir abaixo, nossa indignação não irá resultar em nada. Será bom para nós, não para o povo.
Duas coisas são fundamentais, e essas duas coisas foram praticadas na história da Revolução cubana. Primeiro: ter um projeto e não somente a indignação. Ter uma proposta, metas. E, segundo, raízes populares, contato com o povo. Gramsci dizia: O povo tem as vivências, mas muitas vezes não compreende sua situação. Nós, intelectuais, compreendemos a realidade, porém não a vivenciamos.
Aqui, falou-se muito de internet, e creio que há ali uma trincheira de luta muito importante, mas eu tenho 13.000 seguidores no twitter, e confesso que me sinto muito mais feliz trabalhando com 13 camponeses, 13 desempregados, 13 trabalhadores. Muitas vezes nossos movimentos falam pelo povo, querem ser vanguardas do povo, escrevem para o povo, mas não se comprometem com o povo. Deveríamos fazer certa higienização política. O povo não tem bom odor para nós os intelectuais, os artistas, os inteligentes, os cultos. Se o povo não vem até nós, não vamos a parte nenhuma.
Cuba é o único país da América Latina que teve uma revolução exitosa. Recentemente, houve outras revoluções na Nicarágua, e demais, porém a mais exitosa é esta. Porque não é uma revolução como a que houve na Europa, que era um socialismo peruca, que vinha de cima para baixo. Aqui não, aqui é o cabelo, de baixo para cima – eu estava seguindo um pouco a equação do cabelo, porque Zuleica (Romay, presidenta do Instituto Cubano do Livro) tem um cabelo curto, Abel um cabelo longo e Fidel tem equilíbrio -. E a virtude está no meio.
A hora se adianta e eu sei que o Comandante ainda tem três delegações esta noite, fazer oito chamadas internacionais, ler três livros e mais ou menos 200 telegramas, porque a receita desta capacidade de trabalho é um segredo de Estado de Cuba. Não esperem saber, porque nunca vamos saber.
Chamo a atenção sobre isto: devemos fazer uma autocrítica, perguntar-nos como está nossa inserção social para a mobilização política e que projeto de sociedade estamos elaborando junto com este povo, junto com os indignados, camponeses, desempregados.
O segundo assunto do que não se falou:
Pela convocação do presidente Lula da Silva e agora pela acolhida da presidenta Dilma, de 20 a 22 de junho, deste ano, vão se reunir no Rio de Janeiro a (reunião) Rio +20, lugar em que esteve o Comandante, em 1992, e fez seu mais breve discurso, sete minutos, uma surpresa internacional porque todos pensavam que ele ia falar bastante, mas disse uma frase que ficou consagrada: É preciso salvar a principal espécie em extinção, o ser humano.
O que nós temos que fazer de agora para frente? Convencer nossos governos a estarem presentes no Rio de Janeiro. Não podemos permitir que todos esse chefes de Estado virem as costas para a questão ambiental, porque não se trata de salvar o meio ambiente, trata-se de salvar todo o ambiente. O grupo do G-8 não tem nenhum interesse nisso. Obama foi a Copenhagen porque recebeu equivocadamente o prêmio Nobel da Paz – para a vergonha de Esquivel – e tinha que passar por Copenhagen para chegar a Oslo, tinha que fazer uma escala técnica. Foi à conferência para fazer uma demagogia, mas não está comprometido com isso.
Então, nós temos duas tarefas: mobilizar os Chefes de Estado de nossos países e convencê-los a estarem presentes no Rio de Janeiro, porque estar presente ali é apoiar um projeto de preservação ambiental efetivo, de salvação da humanidade, de salvação deste planeta que perdeu 30% de sua capacidade de se regenerar. Ou há uma intervenção humana ou será o apocalipse.
Lá vai se realizar a Cúpula dos Povos e a presidenta Dilma nós disse em Porto Alegre, no Fórum Social temático, que esta reunião é mais importante que a reunião dos Chefes de Estado. Então, nossos movimentos têm que se fazerem presentes para que esta cúpula possa ressoar muito alto no mundo todo e cada vez conscientizar mais pessoas neste projeto ambiental, que por sua urgência tem também uma dimensão política muito curiosa. O tema da ecologia, de todos os temas curiosos, é o único que não faz distinção de classes. A ecologia é como os aviões comerciais, que tem duas classes, executiva e econômica, mas, quando vem abaixo, todos morrem da mesma forma. Não há privilégios.
E finalizo, Comandante, agradecendo por sua paciência, seu diálogo com todo esse grupo e pela sua capacidade de escutar. Agradeço também a Abel, Zuleica, a todos os companheiros e companheiras de Cuba, ao povo que nos escuta, que se interessa pelo nosso debate, por nossa conversa. Peço que Deus abençoe este país e que cuide da vida de Fidel e de sua saúde.
 

O encontro de Fidel Castro com o papa Bento 16

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SEBASTIÃO CARLOS: Profeta canonizado em vida, Pedro Casaldáliga, como poucos, levou até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo

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Sebastião e Pedro18

Profeta e poeta – I

POR SEBASTIÃO CARLOS

Às mais de cem mil mortes provocadas pela terrível pandemia, que cresceu auxiliada pela desídia do poder, se junta uma que, embora não diretamente ligada, potencializa a emoção. Ao sofrimento de tantas famílias enlutadas, o manto negro da dor cobre a nossa História nacional. Às 09h40min do sábado (8) partiu em definitivo da vida terrena um profeta e poeta. Profeta canonizado em vida que, como poucos, levaram até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo. Poeta instigante, combativo, de vibrante telurismo que fez dos versos livres um canto perene em busca da Justiça e a serviço da Liberdade. Nos versos, via o Evangelho, no Evangelho encontrava a poesia. A voz era mais forte que o corpo magro e frágil e a presença física tornou-se mais imensa que a floresta em que habitava e defendia. Assim era Dom Pedro Casàldaliga. Mais que Dom Pedro, Pedro simplesmente como apreciava. Mais que bispo, irmão dos deserdados da Terra.

Pere Maria Casaldàliga i Pla nasceu na pequena localidade de Balsareny, região nordeste da Espanha, pertencente à Província de Barcelona, Comunidade Autônoma da Catalunha. Balsareny é um município com área inferior a 40 Km2 e que em 2018 tinha menos que 4 mil habitantes. De família de agricultores pobres, em 1943 ingressou na Congregação Claretiana e em maio de 1952 foi ordenado sacerdote. Nos anos seguintes lecionou e foi assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris. Em 1968, o ano do AI 5 e do inicio do endurecimento do regime militar, o padre Pedro Casaldàliga, já adaptando o primeiro nome ao português, chega ao Brasil. Vinha para Mato Grosso. Missionário, fundaria uma missão claretiana às margens do Araguaia.

E foi então que, estudante de História na Universidade Federal de Goiás e militante estudantil em Goiânia, fui conhecê-lo na Paroquia São José Operário, no Setor Oeste, na querida capital de Goiás. Eram anos de intensa movimentação estudantil e política, que a idade estimulava o idealismo e o consequente radicalismo politico. O padre espanhol, franzino e elétrico, com voz firme, falando em politica, no sofrimento dos pobres da Amazônia com os quais dividia a luta diária e brandindo poemas flamejantes logo conquistou o pequeno grupo de jovens universitários goianos com os quais começou a manter contatos. No ano seguinte, Paulo VI o nomearia bispo prelado e administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia, sendo sagrado bispo em 23 de outubro de 1971.

Daí para frente a relação com os poderosos da região e com a ditadura militar iria se tornar cada vez mais difícil e ácida. Combativo, contundente, compromissado até o cerne com os desvalidos da terra, num desafio desabrido, num permanente profetismo missioneiro e, digo, quase místico, Casaldàliga se agigantou entre as forças que se opunham à ditadura militar. Destacou-se também como defensor de índios, tendo sido um dos fundadores do CIMI – Conselho Indigenista Missionário que, mais que em anos anteriores, estavam sendo empurrados cada vez mais para o sertão imenso até serem encurralados e se encontrarem em face da doença, da miséria total, da morte. Também co-fundador da CPT – Comissão Pastoral da Terra, que atuaria destemidamente em favor dos posseiros.

Leia Também:  Matéria-bomba do Estadão provocou a carta de Temer. Os repórteres do Estadão Andreza Matais e João Villaverde levantaram sete decretos de pedaladas fiscais com assinatura de Michel Temer. Esses decretos abriram crédito suplementar de R$ 10,8 bilhões. Ao procurá-lo para que explicasse seu lado nessas assinaturas de decretos iguais aos que são utilizados como base para um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer tentou jogar a bomba no colo da presidente. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) disse que, se o TCU confirmar que o vice-presidente cometeu os mesmos ilícitos de Dilma, ele será “envolvido” no processo de impeachment

A tríade implacável constituída por latifundiários, garimpeiros, policia, sempre apoiada, acintosamente ou não, por políticos e governos presenciou a um Casaldàliga enfrentá-los com destemor. A região era de extrema marginalização social, extensos latifúndios, alto grau de analfabetismo e muitos conflitos pela terra, onde os assassinatos e os desaparecimentos de desafetos eram o instrumento usual.

O bispo do Araguaia esteve entre os militantes da Teologia da Libertação, que então dividia a Igreja, e ao lado de um grupo de padres, bispos e arcebispos, entre os quais o corajoso Dom Tomás Balduíno, bispo da antiga capital de Goiás, e a quem tive o prazer de conhecer de perto, arrostou os conservadores da Igreja, enfrentou os poderosos da região e desafiou a ditadura militar.

As ameaças de morte lhe eram constantes e não raro estiveram muito próximas da concretização. Em 11 de outubro de 1976, Casaldàliga e o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier [12/06/17 – 12/10/76] passavam por Ribeirão Cascalheira. Visitavam os moradores quando populares os procuraram para denunciar que duas mulheres estavam sendo barbaramente espancadas na delegacia de policia. Os gritos desesperados eram ouvidos na rua. Tal fato não era incomum. De imediato, os dois sacerdotes acorreram ao local.

Tem então inicio uma forte discussão com os policiais. Inesperadamente, Pedro é brutalmente empurrado e Burnier agredido com coronhadas e na sequencia alvejado com um tiro na nuca. A comoção é geral. O jesuíta é transferido para Goiânia e lá falece no dia seguinte. Terminada a missa de sétimo dia, a população segue em passeata até a delegacia, liberta todos os presos e coloca fogo no prédio. Nesse local seria erguida uma capela. Os policiais nunca foram punidos. Nenhuma novidade nesse desfecho. Com a redemocratização, o “caso do Padre Burnier” foi apresentado à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça para que o reconhecesse como crime político. Mas em abril de 1997 o requerimento foi indeferido. Somente em 25 de novembro de 2009, trinta e três anos depois, o CEMDP reconheceu a responsabilidade do Estado Brasileiro pela morte, sendo, pois definido como crime politico.

Aqueles foram os anos duros da repressão politica e social. Os anos de chumbo. A violência no quotidiano era acobertada por poderes maiores. Tudo e todos que, de alguma forma, pudesse ser apodado de “comunista” “precisavam ser castigados”. O bispo catalão – matogrossense não estava excluído desse rol nefasto. Em cinco ocasiões, o Governo, por instancia do Conselho de Segurança Nacional, abriu contra ele processos de expulsão do país. O bravo arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, em diferentes ocasiões saiu publicamente em sua defesa, mobilizou a ala progressista da Igreja e, por fim, o próprio Vaticano fez gestões diretas, o que impediu o prosseguimento da ação expulsória. A ditadura também temia um desgaste maior para a sua imagem no exterior. Ainda assim, a situação do prelado do Araguaia estava periclitante tanto que quando o pai faleceu ele desistiu de ir à Espanha para a despedida final pelo temor de ser impedido de retornar.

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A ação solidária de Casáldaliga para com os esquecidos da terra e o seu espirito intrépido e desafiador muito incomodavam os poderosos numa época em que o silêncio e o acocoramento moral a que muitos se entregaram era o mais conveniente. Não por outros motivos foi logo denominado de “subversivo”, de “padre vermelho”, enfim, de comunista. Ele se juntava então ao rol de um punhado de curas e prelados brasileiros. A verdade é que a crença profunda no Evangelho e a exigência ética existencial dessa fé originária permitia a esses bravos cristãos adotar como suas, tal como Pedro o fez, uma citação atribuída à aquele que, por muitos anos, foi o símbolo da resistência católica no Brasil. Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”. E assim era, porque não se pode confundir a verdadeira solidariedade como uma forma de caridade. Nesse conceito, não se trata de consolar a alma do caridoso, mas de buscar a Justiça dos justos.

Em 1971 fui realizar estudos em Madrid. Recebi de Casàldaliga o endereço dos Claretianos na capital espanhola e ele insistiu para que os procurasse. Lá, entre tantos, conheci e me tornei amigo do padre Benjamin Forcano, que anos depois se tornaria um importante teólogo, igualmente ligado à Teologia da Libertação. Nesse ano, Forcano havia lançado seu primeiro livro, ¿Amor y natalidad en conflicto? [Valencia, 1971], que me presentearia autografado. Era um dos articulistas mais destacados, depois diretor, da revista Missión Abierta, que acolhia os pensadores irmanados pelo Concilio Vaticano II.

Posteriormente dirigiria a revista Êxodo e anos depois o editorial Nueva Utopia. Todas publicações que se colocavam na dianteira do pensamento católico europeu, engajados na linha do aggiornamento empreendida pelo grande pontífice João XXIII. Tive a alegria de, por suas mãos, e ainda nos meus vinte e poucos anos, conhecer uma plêiade de pensadores cristãos de vanguarda. Em todos eles testemunhei uma admiração, quase reverencial, por D. Pedro Casáldaliga e enorme curiosidade em saber como ele vivia e como agia o regime militar. Os espanhóis viviam os estertores do regime franquista.

Pedro Casaldàliga não foi somente o militante do Evangelho, o homem que levou às ultimas consequências práticas as palavras do seu Salvador, porque poucos como ele souberam ser tão fieis ao lema que elegeu para seu serviço pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”. Poucos foram, como ele, um verdadeiro Homem de Cristo, na vivencia mais profunda da mística evangélica. Ele exercitou até as ultimas consequências a denúncia arriscada e temerária, deu o seu testemunho corajoso e realizou a profecia cristã aqui mesmo na Terra. A sua figura mística se agiganta e encarna uma espiritualidade que configura o verdadeiro anunciar do Sermão da Montanha.

Mas o catalão foi também poeta e, por extensão, historiador, sociólogo, antropólogo, ecólogo.

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador em Cuiabá, Mato Grosso.

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