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SAÍTO: Como viver sem poesia?

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Dia da poeta e do poeta
Por Gonçalo Antunes de Barros Neto
 
É comemorado no dia 20 de outubro o dia da poeta e do poeta. Quando pequeninos e pequeninas aprendemos nos ensinos escolares sobre masculino e feminino.
Pois bem. Poeta, naquela época, seria o gênero masculino, sendo poetisa o feminino. Com o passar do tempo, a linguagem mostra muito mais e de forma efetiva sobre o enfrentamento, especialmente sobre a condição humana (diferente de natureza humana) das mulheres.
O termo poeta muito bem representa tanto as mulheres quanto os homens. Inclusive, o artigo definido ‘a’ ao final da palavra mostra ser palavra feminina. Então, qual o motivo da flexão? A palavra ‘poeta’ pode, perfeitamente, ser reconhecida como substantivo comum de dois gêneros. E assim deve ser.
Segundo a leitura feminista, poetisa demonstrou ser pejorativo, com carga semântica a diminuir a literatura produzida por elas, já que o sufixo ‘isa’ oferta conotação de diminutivo.
Quanto à forma gramatical de uso das palavras, as duas formas se encontram corretas, segundo a insistência vernácula. Mas o que diz a palavra, sua extensão e conteúdo, ‘carga’ a impregnar, fácil perceber que se deve afastar de um ainda presente e inapropriado viés patriarcal, portanto, do tempo da existência de uma autoridade autocrática. Longe disso já nos encontramos.
A par disso, nestes 20 de outubro, comemora-se o dia do e da poeta. Como viver sem poesia? Como estar ‘aquecido’ sem os versos de Dom Aquino Correa, Barnabé de Mesquita, Rubens de Mendonça, Manoel de Barros, Maria de Arruda Müller, Silva Freire, Lucinda Persona, Luciene Carvalho, Aclyse Mattos, Lorenzo Falcão, Cristina Campos, Isaac Ramos, Eduardo Mahon, João Bosquo Cartola, Fábio Guimarães, Airton Reis, Sueli Batista, Marli Walker, Marta Cocco, Divanize Carboniere, Ryane Leão, e tantos outros e outras (só citando os do Estado)?
De Lucinda para o mundo: ‘Mais uma vez escrevo/o que não tem sentido:/interessante foi a atenção/que me prestaram/aqueles pombos em Veneza/desenho animado/em torno de meu corpo/como se fossem pombos mesmo/(e não pombos)/e eu talvez/como se verá sempre/uma existência entregue/a um programa de inércia/mas não como se fosse torre//Aonde quer que eu vá/me levo como sou’ (Aqueles pombos).
Agora, aquecidos, logramos descansar: ‘Nada é tão mãe/(depois da mãe)/do que a sombra da mangueira’ (Èdipo Preguiçoso, Aclyse Mattos).
Neste mundo de boas vindas, termino aqui a lembrar de quantas viagens sem partidas! Apenas lendo, nas linhas, toda a vida; de nascimento e cria, pra ida já sem mais bilhete, apenas ilusão de quem foi emoção, por dias.
É por aí…
 
GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, o SAÍTO, tem formação em Filosofia e Direito pela UFMT, autor da página Bedelho.Filosófico no Face, Insta, Twitter e YouTube

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

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Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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