MORA NA FILOSOFIA – Sobre Neruda e Brecht, poetas engajados

Ensaio
Sobre os poetas engajados

Aprendemos de uma forma elementar que arte engajada é a que se filia a alguma corrente política. Por definição, o artista engajado seria aquele que desce do pedestal para fazer uma escolha humana, mas esta descida equivale à platitude, a vulgarizar-se. Esse julgamento é um triste equívoco e uma bobagem

José Carlos Guimarães
Especial para o Jornal Opção

Pablo Neruda foi um poeta stalinista, o que para muitos equivale a acusação. Não é o único caso de grande poeta engajado: Bertolt Brecht é mais conhecido como dramaturgo, mas, ao lado de Neruda, escreveu alguns dos melhores poemas ditos engajados do século XX. Com “me­lhor” não se quer dizer melhor ideo­logicamente e pior sob critérios estéticos. São versos de estilo e de poeta genuíno. Segundo os críticos de todos os meridianos, entre os principais defeitos da arte engajada está a obsolescência: por filiação com realidades políticas efêmeras, ela necessariamente se torna datada, ao passo que as obras significativas são aquelas que resistem ao confronto inevitável com a temporalidade. Só resistem as que exprimem um grau satisfatório de liberdade de pensamento, que ninguém ousaria dizer que se trata de propaganda de algum projeto político, como perceptivelmente fazem os dois poetas mencionados: a poesia deles tem, deliberadamente, conteúdo ideológico comunista.

Outro defeito — consequente do primeiro — é que não teriam alcance universal porque filiam-se a realidades concretas, não a situações abstratas. São particulares, não universais. Por fim, implicam em juízos de valor por parte do artista. Neruda, por exemplo, exalta ou detrai uma série de personalidades históricas — tece um rosário delas na sua obra —, e é provável que nem todos concordem com ele. Sua poesia estaria manchada de parcialidade e tendenciosismo político.

Simples assim? Há quem diga que o maior de todos os poetas, Shakespeare, desconhece essas limitações, embora sua obra teatral seja a mais política de todas, da literatura universal: ninguém, como Shakespeare, colocou tantas cortes e príncipes no palco, como se a atmosfera do poder lhe interessasse mais profundamente do que as outras. É um caso realmente curioso. O mundo de Shakespeare, se é o mais idiossincrático que existe, é também, ambientalmente falando, o mais institucional de todos. Com ele, o Estado, como governo das coisas humanas, elevou-se à dignidade de personagem, como talvez nem os gregos conseguiram fazer. E seria o caso de nos lembrar ainda, para continuarmos nas mais altas esferas, que o guelfo Dante meteu seus contemporâneos no Inferno — políticos florentinos e inclusive três papas — com absoluto desprezo por nosso julgamento. Não fez ficção; cita literalmente os seus inimigos públicos, de carne e osso, contemporâneos seus. A obra por definição política, em que se empenhou, foi a “Monarquia”. Curiosamente, uma das maneiras de honrar seu mestre Siger de Brabante foi premiá-lo concedendo-lhe o direito ao Paraíso.

Nesse caso não estaria o florentino utilizando-se da poesia para o seu combate político, contra as visões da Igreja? O gesto deliberado, por si só, não reflete a crença temerária de que a filosofia não depende da teologia? Temos aqui um dos muitos golpes desferidos pelo poeta contra a Igreja Católica, sem esquecer que um golpe coerente com uma concepção intelectual eivada de terríveis consequências políticas. Uma delas o seu próprio exílio, determinado pelo papa Bonifácio VIII, a quem o poeta retribuiu lançando-o no Inferno. Nem por isto Dante mereceu a chancela de “poeta engajado”, embora sua política fosse muito clara: os pontífices cuidam da Igreja e deixam os assuntos seculares para os civis. Está certo: o raciocínio não se aplica aos poetas de outros tempos porque parece ser próprio da história contemporânea, portanto um anacronismo. Com efeito, a acusação de engajamento teria a ver com um preconceito da modernidade — o que prova o seu relativismo.

As obras “atemporais” não possuiriam nenhuma filiação político-ideológica: seu leitmotiv seria estritamente estético. O pressuposto é o de que os poetas que partilham essa concepção de arte não acreditam — e portanto não defendem nem rechaçam — as supertições criadas pelo homem em sociedade, ou, quando acreditam, não chegam a misturá-las com seu ofício purificado. Uma situação é acreditar e eventualmente militar numa causa (fariam isso como simples cidadãos), outra, bem diferente, é criar monumentos de beleza, frutos da imaginação e da angústia individual que, no fundo, é igual em todas as criaturas. Mas talvez isso não passe, também, de supertição: por assim dizer, esta seria a ideologia dos que pregam a arte pela arte. Afinal, não é nisso que acreditam? Arte pela arte não é uma entre tantas ideologias?

Os advogados da arte pela arte — penso num Flaubert, num Wilde — costumam ser céticos, quando não niilistas. Mas seria mesmo acertado acreditar que suas melhores criações não inspiram sentimentos saudáveis e mais elevados, que são também necessidades humanas? Sei que acabo de escrever uma linha polêmica, que motiva sérias controvérsias, e a escrevi escolhendo palavras num depósito escasso. O que pretendo dizer com “sentimentos saudáveis e mais elevados”? Não adianta escamotear: pretendo efetivamente dizer alguma espécie de melhora moral, que implica todos nós.

Certamente, reconhecer aquelas necessidades pressuporia admitir que os poetas possuem em qualquer tempo alguma tarefa moral e pedagógica, o que soa a muitos ouvidos equivocado e também muito antigo (apesar da ambição metafísica). Uma característica marcante da poesia engajada é o didatismo. Ela naturalmente precisa ser fácil porque teria o propósito, utópico, de ser lida e reconhecida pelas massas. Não por acaso, o fácil Neruda é o das poesias ruins: o bom é dos mais complicados possíveis, e chego a duvidar que tenha sido compreendido por certos intelectuais que o carregaram a tiracolo. Seria querer muito que sob uma atmosfera poética predominantemente simbolista — quase hermética — se pretendesse uma abundância de poetas interessados em educar a coletividade, imitando o que se fez num passado bastante remoto da humanidade. Homero, um daqueles poucos titãs que povoam os céus, deu o maior exemplo de engajamento cívico que algum poeta jamais logrou, tanto que é menos um vate do que um autêntico pedagogo. O criador de Aquiles instruiu o povo grego com sua arte, uma das maiores obras de criação humana. A pergunta que fica é se Homero — de resto como Shakespeare, como Dante — não poderia, segundo nossos critério, ser enquadrado como poeta engajado.

É uma questão de conceito: aprendemos de uma forma elementar que arte engajada é a que se filia a alguma corrente política. Por definição, o artista engajado seria aquele que desce do pedestal para fazer uma escolha humana, mas esta descida equivale à platitude, a vulgarizar-se. É uma escolha entre a vida e a morte: podendo ser imortal, o artista decide unir-se ao restante da humanidade e morrer com ela. É um sacrifício individual, em que se mata o que o artista autêntico possui de mais característico: a individualidade. Em linguagem figurada significa mais ou menos isso. Mas há uma consequência infundada nesse raciocínio: o de rebaixar a política, o espaço público, à condição de atividade menos nobre, no universo humano. É um triste equívoco e uma bobagem. Tanto quanto a arte, e apesar de todas as contradições, a política é uma das mais grandiosas atividades do espírito, encerrando finalidades sagradas. O que é o direito à vida, senão uma conquista política? Há exemplos notáveis da política como exercício de altruísmo, então não é de modo nenhum absurdo que, na origem, os reis confundam-se com os sacerdotes: o serviço de um e de outro é digno de Deus. Como assim, vulgar?

Expor-me-ei talvez a uma contradição, mas desconfio que o engajamento de um poeta não é apenas prático, militante, no sentido de misturar-se aos outros defensores de uma causa comum e assumir tarefas objetivas. É coisa mais complexa. Parece-me que o rigor com a praxis tem muito a ver com as concepções particulares do materialismo histórico de Karl Marx, e não pretendo circunscrever as possibilidades do engajamento ao materialismo histórico. O que proponho é o seguinte: ainda quando um artista filia-se apenas a ideias que têm consequências políticas, desde que sua arte reflita tais ideias, não seria o caso de reconhecer alguma espécie de engajamento? Onde se encontra, afinal, a fronteira do engajamento? Mesmo um niilista não deixaria entrever filiações políticas subliminares, e, portanto, acabaria refletindo uma pálida esperança nesse mundo? O niilista não é alguém que “perdeu” algo, no caso, a esperança? A pergunta poderia ser dirigida aos personagens mais marcantes de Dostoiévski. Otto Maria Carpeaux localizou no russo um escritor político, definindo-o como tal. Porque o pan-eslavismo era um projeto, uma espécie de doutrina coletiva entranhada na alma russa que encontrou na sua obra o mais eficiente mecanismo de difusão.

Neruda e Brecht acreditaram em outras coisas e noutros valores, além da própria estética, e parecem ser o único tipo de poeta que aposta na ideia de que a arte tem alguma utilidade prática para a sociedade. É uma discussão antiga e polêmica, mas em favor destes dois poetas pode-se alegar que não esqueceram a tradição literária, sabendo que ela não pode ser sacrificada sem que se decrete a morte pessoal do artista. Basta lê-los para saber que alimentaram-se numa linhagem poderosa, que inclui os surrealistas, poetas chineses ancestrais, Walt Whitman, para falar de temas concretos, como o sofrimento de alguns povos sob a exploração de outros. Destituídos dessa base, tanto Neruda quanto Brecht teriam feito uma poesia medíocre como tantas outras que há por aí, e certamente teriam desaparecido. Conheciam o risco, pois eram artistas acima de tudo, e basta lê-los para se convencer de que tinham perfeita consciência do seu ofício e de sua missão. São grandes poetas, mesmo. Não leram apenas Marx: cultivaram à exaustão o que há de melhor no mundo em matéria de forma poética, porque obviamente não renegaram seu papel de embelezadores do mundo.

Para entender o engajamento ideológico destes dois poetas é imprescindível ter em mente a história, especificamente as histórias chilena e alemã no último século. A vivência que tiveram não significa que essa era a única alternativa possível: outra possibilidade seria, simplesmente, o desespero por vezes suicida diante do quadro social em que viveram, acompanhando uma tendência marcante no século XX, quando a opressão gerou mais artistas descrentes do que esperançosos. Caso notório: Paul Celan, que se suicidou. Ao invés de se matarem, tanto Neruda quanto Brecht se fiaram em algum tipo de esperança, e não poderíamos condená-los pelo fato de buscarem uma luz na escuridão, ainda que, mais tarde, essa luz os abandonasse. Um de nossos compositores escreveu que “o canto não é maior do que a vida de qualquer pessoa”, e o disse sob um contexto de opressão que lhe permitiu compreender a força desta ideia: era um contexto social semelhante ao de Neruda e de Brecht. Tanto o Brasil quanto a América Latina tiveram seu momento de torpeza no século XX, nas mãos de oligarquias e de ditaduras sanguinárias. Pior ainda foi o reinado do Terceiro Reich na Alemanha, quando Hitler se pôs à sinistra tarefa de aniquilar uma nação inteira.

É delicado condenar o engajamento artístico sob o impacto de atrocidades dessa magnitude, quando a dignidade humana se viu confrontada com situações limites. A questão é: como pode alguém fazer apologia de versos sobre nuvens — ainda que isto queira dizer apenas uma metáfora elaborada — assistindo pessoas serem assassinadas em escala diante de seus olhos? Há um conflito moral, aí. Felizmente, a maioria de nós não sabe o que é a opressão política e a violência do Estado levadas às últimas consequências. Não é exatamente o clima institucional em que vivemos. Ignoramos o que é isso para arriscar julgamentos desfavoráveis e definitivos sobre a obra dos poetas engajados. Não podemos fazê-los porque não temos condições emocionais de apreender-lhe a exata extensão, e neste caso a experiência serve de último juíz. Um dos únicos meios de que dispomos para ter uma vaga ideia desses momentos de atrocidade é a poesia mesma desses dois poetas, sonora como gritos de horror e ao mesmo tempo de esperança no frágil gênero humano.

A arte tem sido um refúgio para a maioria dos artistas; paradoxalmente, um refúgio que não oferece nenhuma esperança. Esta, se deve ser buscada, é na religião ou então nas ideologias políticas (que afinal têm muito coisa em comum com as concepções teológicas). Por isto Neruda e Brecht engajaram-se no marxismo que, a bem da verdade, é um testemunho de esperança na capacidade de superação moral do homem. Muitos intelectuais o criticam por seu suposto “sentimento de ofensa” em favor dos humilhados, mas tal será sempre o dever das ideias que pretendem consertar nosso mundo conturbado – ou não? Ao contrário da arte, as teorias sociais e políticas não devem ser inúteis; devem servir à ação, e Marx não pode ser espezinhado porque forjou uma arma de ação. Por isso, não.

Outra coisa bem diferente é o que fizeram das teorias de Marx, na prática. Vista em perspectiva, a experiência comunista malogrou porque se tornou autoritária: a igualdade não incluiu os dirigentes e a liberdade do povo foi suprimida a ferro e fogo. Provou ser mais uma superstição, tal qual o fascismo, o nazismo e também o liberalismo, onde a sociedade e os governos se veem dominados por forças gigantescas de caráter privado, e os cidadãos se viram transformados em simples consumidores. Num mun­do acirradamente individualista como o atual, em que viceja um tipo de filosofia hedonista e nada de ideais cívicos (já vimos este filme e sabemos como terminou), é improvável que apareça um novo Neruda, um novo Brecht. Formalistas ou conteudistas, os artistas que merecem o honroso título de poeta são, no fim das contas, sempre coerentes com a realidade.


José Carlos Guimarães é historiador e crítico.

fonte JORNAL OPÇÃO, de Goiânia

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