MORA NA FILOSOFIA: A dúvida, em Bacon e Descartes

Ensaio

A dúvida em Bacon e Descartes
Dois autores fundamentais merecem ser revisitados nesta época em que o racionalismo abandona seus princípios filosóficos para se entregar ao pragmatismo e cair na vala comum da lógica de resultados de curto alcance
Fotos: Wikipédia

Nei Duclós Especial para o Jornal Opção

A neve foi fatal para Francis Bacon e René Descartes. Uma experiência criogênica com carne de frango em 1627 expôs demais ao frio o ex-chanceler da corte de Jaime I, enquanto um convite da Rainha Cristina, da gelada Suécia, atraiu Descartes para a pneumonia e a morte em 1650.
Mas os dois contemporâneos têm mais coisas em co­mum do que os rigores do clima. Cercados pelo muro alto da escolástica, eles compartilharam da insatisfação diante de uma filosofia que, acreditavam, nada acrescentava à vida humana. E estimulados pelo dinamismo da sua época, de invenções e descobertas, souberam lançar os alicerces de um conhecimento sintonizado com as novas conquistas da aventura humana.
Os dois possuem também a feliz combinação entre a dura disciplina e a ousadia. A primeira provém de rígida formação religiosa e a segunda foi gerada pelas necessidades das classes a que pertenciam — a burguesia comerciante e proprietária de terras, no caso da família de Descartes, e a nobreza aburguesada da Inglaterra, no caso de Bacon. Esses fatores influíram em temperamentos decididos, que desde cedo revelaram uma vocação explosiva, a missão de servir a humanidade. Entre 1619  — quando Descartes teve o insight dessa missão num rigoroso inverno na cercanias de Ulm, na Alemanha — e 1620 — quando Bacon lançou sua principal obra, o “Novum Organum”  — o mundo começou a provar de receitas inéditas que o lançaram numa espiral de renovação.
Mas o que caracteriza a comparação entre os dois filósofos não é a identidade, mas as diferenças de seus métodos, definidos a partir de um obstáculo evidente: a percepção humana. Bacon quer libertar os sentidos dos preconceitos cevados no hábito, na tradição e na herança cultural — e por meio da experiência e da observação chegar a sínteses esclarecedoras sobre a funcionamento da natureza. O processo indutivo fica assim colocado a serviço da evolução da ciência. Descartes é também radical na sua desconfiança em relação aos sentidos, mas não abraça o empirismo e coloca todas as fichas na dedução racionalista para se chegar ao conhecimento.

A matemática do ser

Da variedade de leituras de e sobre Descartes, precisamos selecionar alguns argumentos para entender pelo menos os aspectos principais da sua proposta.
A pesquisa nos levou ao ensaio “Vida e Obra”, de José Américo Motta Pessanha, que cita o livro “Geometria”, de 1637: “Em matéria de progressões matemáticas, quando se tem os dois ou três primeiros termos, não é difícil encontrar os outros”.  Pessanha escreve que “essa ideia de uma ordem natural, inerente à progressão do conhecimento, é fundamental para o projeto cartesiano de construir uma matemática universal”.
Bastaria, portanto, criar uma cadeia de razões para desvendar um termo desconhecido. Mas para que isso aconteça, é preciso trabalhar com aquilo que for verdadeiro e só é verdadeiro o que for evidente, o que for intuível com clareza e precisão. Como ter certeza das evidências? O truque usado por Descartes foi ampliar a dúvida até o máximo, num processo radical de filtragem.
Desse processo, ele tira uma certeza — “Se duvido, penso”. Por enquanto, essa constatação faz parte apenas da subjetividade, do interior do homem, pois nada garante que ela exista no mundo objetivo. Mas já é o primeiro elo de uma cadeia de razões. O desdobramento natural é: “Se penso, logo existo”, ou seja, existo como coisa pensante. “Do pensamento ao ser que pensa”, diz Pessanha, “realiza-se então o salto sobre o abismo da objetividade”.
Como explica Burtt, o dualismo cartesiano é formado por duas entidades independentes, o mundo de corpos (res extensa) e o reino do interior (res cogitans). A essência do primeiro é a extensão e a do segundo é o pensamento. Um consiste numa enorme máquina matemática, estendida no espaço, que não depende em qualquer medida do pensamento e todo o seu mecanismo continuaria a existir e a operar mesmo que não existisse qualquer ser humano. Nela, não há espontaneidade em ponto algum; tudo continua a mover-se em concordância fixa com os princípios da extensão e do movimento. Tudo acontece de acordo com a regularidade, a precisão e a inevitabilidade de uma máquina que opera suavemente.
O outro é formado de espíritos pensantes, sem extensão. “O que Descartes pretendia dizer era que, por meio de uma parte do cérebro, uma substância desprovida de extensão entrava em relação efetiva com o reino da extensão”, escreve Burtt. Enquanto o universo da matéria estende-se infinitamente por todo o espaço, o universo da mente fica encerrado em uma série de pequenas e insignificantes localizações no interior dos corpos humanos.
Descartes foi muito bem sucedido no trabalho de estabelecer pontes entre mundos aparentemente incompatíveis. Logo depois que teve seu insight em Ulm, ele conseguiu, com a geometria analítica, descobrir uma correspondência explicita e absoluta entre os números e o espaço. Com isso, as relações espaciais poderiam ser vertidas para a aritmética e a álgebra e as verdades numéricas representadas sob o ponto de vista espacial. O reino da física ficava assim redutível a qualidades geométricas. Como a natureza é um mundo geométrico e seus objetos são grandezas em movimento, dotadas de extensão e figuração, a matemática teria condições de decifrá-la.
Descartes chegou a esses resultados depois de uma constatação. Segundo Pessanha, ele tinha descoberto que apesar da solidez e perfeito encadeamento, as matemáticas serviam de base para um campo limitado de aplicações. Ao mesmo tempo, embora dotadas de tão grande riqueza racional, elas não ensinavam nada de fundamental para os problemas da vida, que permaneciam objetos de especulações vagas. Sua ambição ia além da geometria analítica. Ele queria “unificar, com o auxílio do instrumental matemático, todo o vasto campo de conhecimentos, até então dispersos em débeis construções isoladas. Mas para isso era necessário que, antes, o terreno fosse preparado de modo a que nele não medrasse qualquer dúvida. Só então a árvore da sabedoria poderia expandir-se com o pleno viço da certeza”.
O filósofo Jean-Luc Marion, adverte que precisamos ficar atentos para evitar as ideias cristalizadas sobre o assunto, já que hoje impõe-se resgatar o autor da “escola” formatada ao seu redor, o cartesianismo. Marion atualiza a importância de Descartes em três aspectos principais: a) Ele desenvolveu seu Método para unificar as ciências em um só saber humano, a partir de então universal. Mas segue-se um paradoxo: as certezas da ciência repousam em fundamentos infinitos. Dessa questão as ciências não conseguem sair e principalmente penam frequentemente por permanecer; b) Não sabemos ainda qual a identidade do Ego de Descartes (ele nem emprega o termo “sujeito”), e é por isso que ainda o estudamos; c) Não sabemos a essência do Deus de Descartes. Ele dá vários nomes a uma ente não-conhecido. (Descartes tenta provar a existência de Deus pelo Método: como um ser limitado e imperfeito poderia conceber o infinito e a perfeição? Essa concepção divina dentro do homem seria a marca do artista em sua obra.)
Para Marion, Descartes se antecipa em formular antes e melhor do que os filósofos de hoje, as questões do nosso tempo. Mesmo lançando mão de artifícios como a teoria do vórtice — citada por Burtt, que ocultava as causas das variações físicas no meio ambiente vago e invisível — ele conseguiu contrapor-se a uma concepção teleológica e espiritual dos processos da natureza e que controlara o pensamento humano por mil e quinhentos anos.
A estagnação do conhecimento — contra o qual Descartes e Bacon se insurgiram — era provocada por um poder absolutista que opunha nobreza e burguesia para manter-se no poder e que, se estimulava a burguesia, não se dispunha a colocar todas as armas nas mãos dessa classes emergente. Isso ficou claro na França com a ascensão do cardeal Richelieu — que esteve no poder de 1624 a 1642 — e na Inglaterra com a indiferença de Jaime I em seguir as instruções de Bacon de patrocinar as ciências.
Essa pressão absolutista serviu para tolher a ação dos dois filósofos, que, cada um a seu modo, apesar de irem longe nas respectivas obras, apenas esboçaram o progresso científico. Bacon, devido à sua carreira política e Descartes, por medo da Inquisição, não exploraram ao máximo as suas propostas, mas a possível rebeldia seria suficiente para levar essa tarefa a bom termo?

O fim do desperdício
Artesãos tinham inventado a imprensa, a pólvora e a bússola sem nenhum projeto sistemático e no entanto essas descobertas revolucionaram o mundo. O que poderia ser feito se houvesse planejamento e coordenação das experiências? “Minha intenção, (escreve Bacon no livro ‘O Progresso da Ciência’), é fazer o circuito do conhecimento, observando quais as partes que estão sendo desperdiçadas, não foram cultivadas e estão abandonadas pela indústria do homem; com vistas a engajar, por um fiel mapeamento dos tratos desertos, as energias de pessoas públicas e privadas no seu melhoramento.”
Essa proposta — que é a essência da sua utopia, revelada no livro “Nova Atlântida” — serviu de roteiro para as gerações seguintes dos cientistas. Segundo C. Hill, no capítulo “Francis Bacon e os Parlamentaristas”, no livro “Origens Intelectuais da Revolução Inglesa”, ele criou um programa de cooperação e consciência de objetivos a mercadores, artesãos e filósofos e ao mesmo tempo erradicou a culpa na ciência, sintonizando com a teologia. Como a ciência era virtuosa, foi apoiada pelo Parlamento inglês e isso foi fundamental para o progresso científico no país.
Além disso, a ciência, com a proposta de Bacon, ganhou status social e coerência filosófica, afastando-se da imagem passadista da magia e da alquimia. Ele proporcionou uma teoria que conjugava dois fatores. Por um lado, o otimismo coerente sobre o futuro da humanidade. Por outro, a crítica a Aristóteles e aos escolásticos, considerados não apenas inúteis, mas malignos. A compreensão da verdade era uma maneira de reparar o pecado original. Foi uma sanção moral que livrava a ciência do mero utilitarismo.
Bacon compreendeu que a inteligência e o saber eram decisivas para resolver conflitos, numa época em que o capital libertava o indivíduo e convertia-se no grande igualador de homens, demonstrando ser mais poderoso do que o nascimento e a casta. De família aristocrática, filho de alto funcionário do governo e mãe erudita, vislumbrou na carreira política uma maneira de desenvolver seus métodos e aplicá-los para o progresso da humanidade. De rígida formação escolástica, ele achava que a filosofia tinha ficado estéril por mais de 1000 anos porque precisava de um novo método para torná-la fértil. “Passar além de Aristóteles usando a luz de Aristóteles é pensar que uma luz tomada por empréstimo pode aumentar a luz original de onde ela é tomada”, escreve ele no “Novum Organum”.
O primeiro passo é despir a mente de preconceitos e predisposições e resgatar a inocência da percepção, identificando quatro classes de erros. A primeira são os ídolos da tribo, comuns a toda humanidade. “A mente humana são como aqueles espelhos irregulares que dão propriedades suas a diferentes objetos e os distorcem e os desfiguram.” Suspeitar de tudo o que a mente capta deve ser a regra primordial para evitar essa armadilha. A segunda classe de erros são os ídolos da caverna, pois “todo mundo tem uma caverna que refrata e descolore a luz da natureza”. A terceira são os ídolos de mercado, nascidos do comércio e da associação dos homens entre si, pois “de uma inata a de uma prejudicial e inapta formação de palavras surge uma maravilhosa obstrução da mente”. E a última são os ídolos da o teatro, pois “todos os sistemas de filosofia recebidos não passam de tantas peças teatrais, representando mundos criados por elas mesmas segundo um estilo irreal e cênico”.
Contrapondo-se ao dogma e à dedução. Bacon descreve o método científico da investigação. A experiência que se manifesta por acidente é empírica, se for provocada é experimento. A hipótese arranja e delimita o experimento e desse processo infere-se axiomas. Dos axiomas estabelecidos, parte-se para novos experimentos. “Temos que colocar a natureza na câmara de tortura e fazê-la testemunhar”. Ele acha que a natureza só será dominada se for compreendida. Para Bacon, é preciso reunir elementos de toda a parte, fazer pesquisa conjunta, estreitando e fechando o campo de investigação, para capturar a presa — o conhecimento.
O método de indução não significa simples enumeração de dados, mas uma técnica de classificação e a eliminação de hipóteses. Por meio do progressivo cancelamento de possíveis explicações, só deve restar uma. O item mais útil dessa técnica é a tabela do mais ou menos que relaciona ocasiões em que duas qualidades ou condições aumentam e diminuem juntas e assim podem revelar uma relação causal entre os fenômenos que variam simultaneamente.
Unindo o desenvolvimento das matemáticas e da astronomia, a medicina paracelsana e a tradição puritana, Bacon conseguiu convertê-las num sistema intelectual que reforçou o movimento científico de maneira incalculável.

Nei Duclós é escritor e jornalista.

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