PREFEITURA SANEAMENTO

Mino Carta, Demétrio Magnoli, Fábio Pannunzio e Rodrigo Constantino: prossegue debate sobre a relação entre a imprensa brasileira, alguns de seus jornalistas de destaque, e a ditadura dos generais no Brasil

O sociólogo Demetrio Magnoli, o jornalista Mino Carta e a ditadura militar: ainda há muito o que saber, ainda há muito o que explicar

O sociólogo Demetrio Magnoli, o jornalista Mino Carta e a ditadura militar: ainda há muito o que saber, ainda há muito o que explicar

Embarco na canoa que Euler de França Belém, no jornal Opção, colocou para navegar, reproduzindo artigos do sociólogo Demétrio Magnoli e do jornalista Mino Carta que retratam uma polêmica em torno das práticas e das ideias de articulistas que pontificam no jornalismo contemporâneo brasileiro. Fábio Pannunzio e Rogério Constantino também escreveram sobre a questão e reproduzo suas opiniões, para a reflexão dos leitores. No centro do debate, a carreira e a militância jornalistica de Mino Carta, atual editor da revista Carta Capital e dos mais ativos nesses anos tão conflitivos. Mas o importante mesmo são as revelações sobre as relações entre a ditadura militar e a grande imprensa brasileira e as lições que esta experiência pode nos trazer em meio à atual expectativa quanto ao aprofundamento desse outro debate fundamental que é o debate em torno da regulação da mídia no Brasil. Confira o noticiário. (EC)

Eu sei o que você escreveu ontem

Demétrio Magnoli

“Os senhores escravocratas do século 21 ainda se movem ao sabor das crenças de 50 anos atrás (…)”, escreveu Mino Carta na revista “CartaCapital” do dia 2/4, para concluir: “Daí a oposição sistemática aos governos Lula e Dilma”. Na política, o passado é uma massa de modelagem sempre disponível para servir aos interesses do presente. Sugerir que os críticos do lulismo são reencarnações dos golpistas de 1964 já se tornou um clássico da “imprensa” chapa-branca. Quando, porém, a fábula emana do teclado de Carta, um cheiro de queimado espalha-se no ar.

Nos idos de 1970, Carta ocupava o cargo de diretor de Redação da revista “Veja” e assinava os editoriais com suas iniciais. O que M.C. escreveu em 1º de abril de 1970, sexto aniversário do golpe, está no acervo digital da revista:

“Propostos como solução natural para recompor a situação turbulenta do Brasil de João Goulart, os militares surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção (…). Mas, assumido o poder, com a relutância de quem cultiva tradições e vocações legalistas, eles tiveram de admitir a sua condição de alternativa única. E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair da sua humilhante condição de subdesenvolvido. Perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção –e pensaram no futuro.” Fofo?

Enquanto Paulo Malhães lançava corpos em rios, M.C. batia bumbo para Médici. A censura não tem culpa: os censores proibiam certos textos, mas nunca obrigaram a escrever algo. Os proprietários da Abril não têm culpa (ou melhor, são culpados apenas pela seleção do diretor de Redação): segundo depoimento (nesse caso, insuspeito) de um antigo editor da revista e admirador do chefe, hoje convertido, como ele, ao lulismo, Carta dispunha de tal autonomia que os Civita só ficavam sabendo do conteúdo da “Veja” depois de completada a impressão.

Carta foi quercista quando Orestes Quércia tinha poder (e manejava verbas publicitárias). Hoje, é lulo-dilmista até o fundo da alma. Na democracia, não é grave ter preferências político-partidárias, mesmo se essas (mutáveis) inclinações tendem quase sempre na direção do poder de turno. Mas aquilo era abril de 1970, bolas! As máquinas da tortura operavam a plena carga –algo perfeitamente conhecido, não pelo povo, mas por toda a imprensa. A bajulação condoreira a Médici não deve ser qualificada como um equívoco de avaliação: era outra coisa, que prefiro não nomear.

“CartaCapital” de 2 de abril publicou, também, um ensaio histórico sobre as relações entre a imprensa e a ditadura no qual –surpresa!– não há menção aos editoriais da “Veja” assinados por M.C. em 1970. A revista de Carta faz coro com os arautos do “controle social da mídia”, eufemismo de censura em tempos de democracia. Cada um a seu modo, os grandes jornais acertaram as contas com o próprio passado, oferecendo desculpas (“O Globo”), reconhecendo erros (Folha) ou produzindo revisões circunstanciadas (“Estadão”). Carta optou por um caminho diferente: a camuflagem.

O artigo de Carta na “CartaCapital” é uma catilinária contra os “reacionários nativos” que, “instalados solidamente na casa-grande” e “com a colaboração dos editorialistas dos jornalões”, perpetraram o golpe de 1964. De tão santa e barulhenta, a indignação editorializada induzirá algum desavisado leitor estrangeiro a imaginar que o autor denuncia, corajosamente, um golpe militar em 2014. Mas, no fim, é mesmo do presente que trata o grito rouco, o adjetivo sonante e o chavão escandido: por meio dessas técnicas, Mino Carta esconde M.C.

Acervos digitais são uma dessas maravilhas paridas pela revolução da informação. A França do pós-guerra não tinha algo assim, para sorte dos colaboracionistas de Vichy. O Brasil de hoje tem. Sorte nossa.

Demétrio Magnoli, doutor em geografia humana, é especialista em política internacional. Escreveu, entre outros livros, ‘Gota de Sangue – História do Pensamento Racial’ (ed. Contexto) e ‘O Leviatã Desafiado’ (ed. Record). O artigo foi publicado na “Folha de S. Paulo”, no sábado, 5 de abril

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Editorial

A tentativa de ser víbora

A pergunta é a seguinte: por que alguns recalcados insistem em me caluniar?

Mino Carta

Afirmo com absoluta tranquilidade que procurar deslizes morais na minha carreira de jornalista é como se Moisés pretendesse separar as águas do Mar Vermelho com uma britadeira. Muitos cometi, e se quiserem pecados, como indivíduo, e me perseguem até hoje. Como profissional de imprensa, não.

Há, porém, pretensos colegas que não desistem dessa busca, obsessivamente, por razões insondáveis. E nem falemos dos esforços despendidos para apontar em CartaCapital uma publicação que sobrevive por obra da publicidade governista. A preocupação dos porta-vozes da casa-grande em relação a este semanário nos valoriza, está claro, mas falo aqui das aleivosias assacadas contra a minha modesta pessoa.

Foram inúmeras. Recordo, entre 1970 e 1974, Amaral Neto, no vídeo da Globo, e Lenildo Tabosa Pessoa, em matéria paga no Estadão, unidos na acusação que me situava como agente, ao mesmo tempo, do Kremlin e da Máfia siciliana. É apenas um exemplo, embora retumbante. Não faz muito tempo, um dos meus acusadores contumazes soletrou que, em 1964, quando eu dirigia a revista Quatro Rodas, organizei uma festa na redação para celebrar o golpe civil e militar. Entre atônito e perplexo, encaro a revelação como sinal de uma forte vocação ficcional, de resto nada incomum nos domínios da mídia nativa.

A redação de Quatro Rodas, pequena e valente, contava com repórteres da competência de José Hamilton Ribeiro e Paulo Patarra, e, como diretor de Arte, com George Duque Estrada. Não se tratava de empedernidos reacionários. À tal festa, além do mais, faltaria quórum. O redator-chefe, Vitor Antonio Gouveia, este sim, tinha pendores direitistas, e eu não tive maior dificuldade em sentir que, a depender dele, perpetrado o golpe, assistiríamos a uma caçada às bruxas.

Procurei o patrão, Victor Civita, e disse a ele que qualquer gênero de ação punitiva teria de passar sobre o meu cadáver. Mais, que a ação seria a minha, preventiva. Foi Gouveia o primeiro jornalista que despedi, depois dele só foram mais três ao longo de toda a minha vida de diretor de redações.

O último dos detratores escreveu faz escassos dias, ao retomar as acusações de outro do mesmo naipe, que ninguém, senão eu, deitou loas tão desbragadas a favor do ditador Garrastazu Médici e da famigerada Oban, que mais tarde se tornaria DOI-Codi, masmorra dos torturadores. Deve ser por causa disso que Veja, o semanário que dirigia naquela quadra plúmbea, mereceu a censura feroz da ditadura, bem ao contrário do jornal onde assina suas bobagens o acusador em questão.

Deve ser por causa disso que Ernesto Geisel, por intermédio de Armando Falcão, seu ministro da Justiça (justiça?), exigiu minha cabeça para autorizar um empréstimo de 50 milhões de dólares, pela Caixa Econômica Federal, à Editora Abril. Karlos Rischbieter, então presidente da CEF, contou essa história no seu livro de memórias, publicado há poucos anos, sem omitir a menção ao ódio que o ditador me devotava. Muita honra para um modesto escriba.

Antes de repetir o fim de São João Batista, eu me demiti: não queria um único centavo dos donos da Abril, o que se daria se fosse demitido. Houve quem sugerisse que fazia jus a uma justa comissão sobre o empréstimo enfim recebido pela Editora. Com a devida e exaltante ironia. Mandei-me, e se foi também a censura, obviamente. Sobrou um belo enredo para impressionar meus netos. Óbvio, também, que nunca escrevi a favor da Oban.

Quanto a Garrastazu Médici, convém relembrar que algumas vezes, em anos de Veja, pareceu conveniente adotar a retórica golpista para ludibriar seus autores e censores. Explico com um exemplo. Quando o terceiro ditador foi empossado, saiu-se com um discurso pretensamente poético, em que se declarava vindo do minuano, o indomável vento dos Pampas. Ghost-writer, o coronel Otavio Costa, que sete anos após, promovido a general, proibiria minha participação em um debate sobre jornalismo organizado por Ruth Escobar no seu teatro paulistano.

Geisel mandava e havia quem executasse a ordem suprema. Estávamos em 1976. Três meses antes do debate, Armando Falcão proibira um programa de televisão que na Tupi me escalava como âncora, programa quinzenal razoavelmente anódino, do qual já haviam sido gravados dois capítulos. No dia da estreia, Falcão bicou seu niet.

Volto a 1969, quando em Veja decidimos cometer uma ousadia. O plural não é majestático. Havia um colegiado para reunir os dois redatores-chefes, os editores e o chefe de reportagem, e debater abertamente os rumos a serem tomados. Muitos dos participantes estão vivos, felizmente. Uma equipe de oito repórteres, incluído o chefe Raimundo Pereira, desenvolvera um trabalho capilar sobre tortura. Tratava-se do levantamento completo, detalhadíssimo, de três casos de assassínio, e de mais 150, arrolados um a um, juntamente com as informações principais. Trabalho encerrado, pareceu-nos ter chegado a hora de tentar publicá-lo nas barbas “do homem que veio do minuano”.

Tratado, porém, de forma que pretendíamos astuta, o terceiro ditador. Baseados no tom moderado do seu pronunciamento de recém-empossado, logo saímos com uma capa de chamada positiva, “O presidente não admite tortura”. Antes que uma informação, era ilação audaciosa. Feliz, no entanto, estranhamente: a mídia desta feita veio atrás da gente, os jornais falaram de tortura dias a fio.

Cresceu nosso ânimo. Graças a uma condição apresentada por mim para aceitar a direção da redação de Veja, eu gozava de notável autonomia: os donos da casa não tinham acesso à pauta e saberiam de cada edição depois da publicação, na manhã das segundas. Na noite de sexta-feira daquela semana agitada, recebemos a informação de que estava proibida qualquer referência às torturas. O fechamento então dava-se aos sábados.

Já passara das 22 horas, mandei a telefonista cortar de vez as comunicações da Abril para impedir que um chamado repentino obstasse nosso plano. A revista foi às bancas, e lá foi apreendida em todo o País. Não era um fato novo, repetira-se várias vezes desde uma edição de outubro de 1968, a de número 5, que trazia na capa a prisão das centenas de participantes do congresso da UNE em Ibiúna. Acrescento que, como diretor de Veja, tive de prestar cerca de 40 depoimentos aos esbirros da Polícia Federal e dois anos após a publicação da capa sobre tortura passei mais de uma hora à frente de um inquisidor de luxo e mestre em tortura, o delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Encerrado o capítulo Veja, para levar adiante minha vida de jornalista tive de inventar meus empregos, dos 42 aos atuais 80 anos. Não me queixo, pelo contrário, agradeço aos fados. O último detrator conta com espaço nas páginas de um jornal que no momento faz mea-culpa por ter apoiado o golpe e o regime de exceção por algum tempo para assumir, alega, postura oposta ao meio do período ditatorial. Será por causa desta destemida guinada que em setembro de 1977 Claudio Abramo, finalmente chamado três anos antes a dirigir o jornal para lhe conferir a qualidade até então letra morta, foi afastado da direção?

Valia na ocasião agradar ao general Silvio Frota, candidato à sucessão de Geisel, e seu cabo eleitoral, Hugo Abreu. Queriam uma Folha mais submissa. Octavio Frias de Oliveira, com quem sempre mantive ótimas relações e para quem trabalhei como colaborador em duas diversas oportunidades, apostava na ascensão de Frota, o qual foi demitido de ministro do Exército exatos 26 dias após o afastamento de Abramo. Quanto ao filho do fundador, Otavinho, em data recente defendeu a ideia de que foi ditabranda um regime disposto a assassinar e torturar.

De minha parte, estou farto de ataques: a partir de agora, processarei os caluniadores. Ao cabo, evoco o mito empolgante de Perseu, aquele que enfrentou a Górgona, com sua cabeleira de serpentes, víboras creio eu. Bastava encarar o monstro para ficar de pedra. Perseu, coberto pelo escudo, voltou-lhe a outra face sabiamente polida na direção da Górgona, e esta, espelhada inexoravelmente, padeceu os efeitos de sua própria maldição. Não pretendo ser Perseu, e os meus detratores não me parecem qualificados para a tarefa de petrificar quem quer que seja. Mas às víboras da Górgona talvez se assemelhem. Sugiro, de todo o modo, que se mirem no espelho de suas próprias medíocres vidas de recalcados.

Mino Carta é diretor de redação da “CartaCapital”. Texto transcrito da revista “CartaCapital”, de sexta-feira, 4 de abril.

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Mino Carta diz que vai processar quem remexer seu passado profissional

Fábio Pannunzio, em seu blog, em 6 de abril

“De minha parte, estou farto de ataques: a partir de agora, processarei os caluniadores”. Com essa frase, Mino Carta, dono da revista Carta Capital, abre o último parágrafo de um texto em que, mais uma vez ,tenta se livrar da responsabilidade por textos que escreveu e orientou em Veja durante o início do seu potentado como diretor de jornalismo.

No texto, escrito em resposta a um artigo do Professor Demétrio Magnoli, Carta se gaba de ter mais autonomia sobre a o conteúdo da revista do que seus donos: “Eu gozava de notável autonomia: os donos da casa não tinham acesso à pauta e saberiam de cada edição depois da publicação, na manhã das segundas”. Mas se esquiva de toda a responsabilidade pelo apoio deslavado que a publicação, sob sua excelsa gestão,  emprestou não apenas ao golpe, mas também a algumas ações do DOI-CODI e até à famigerada OBAN.

Na réplica a Magnoli, Carta, como de costume, põe o ponto inicial da história no período que se seguiu à eleição de Geisel, de 74 em diante, quando de fato Veja inicia um movimento de distanciamento do governo dos generais. Sobre tudo o que se passou no período mais obscuro e cruento da ditadura militar, Mino Carta se cala para não ter que explicar as loas que ele e a Revista Veja teceram ao regime.

A reportagem sobre a tortura que ele cita como prova de sua independência — e até mesmo repulsa — dos generais é, na verdade, um exercício explícito de sabujice. Não era a revista denunciando. Era Veja dizendo que Geisel não aceitava a tortura. Não era uma matéria sobre a tortura. Era uma matéria enaltecendo o ditador. Ainda assim, falava sobre a tortura, como de resto falavam jornais como o Estadão, que já haviam revisto sua posição explícita de apoio ao golpe em 1964.

Em sua ode a si mesmo, Carta transforma submissão em astúcia e audácia para explicar os afagos explícitos ao penúltimo general-presidente: “Tratado, porém, de forma que pretendíamos astuta, o terceiro ditador. Baseados no tom moderado do seu pronunciamento de recém-empossado, logo saímos com uma capa de chamada positiva, “O presidente não admite tortura”. Antes que uma informação, era ilação audaciosa””.

Mino Carta diz que vai processar “caluniadores” que revirarem seus textos. Aquele período da história que transcorreu entre 1964 e 1969 simplesmente não existiu na biografia do homem que se pretende o Gutemberg da ‘mídia nativa’. Escrever sobre o que ele escreveu, como fez Magnoli — e como eu mesmo fiz no começo dessa polêmica —  pode transformar um escriba de boa-fé em caluniador.

Ofereço a Mino Carta este texto como matéria-prima para sua investida judicial contra os ‘detratores’ de sua biografia. Não creio que ele irá adiante na empreitada porque é ridiculamente fácil provar que Mino escreveu o que escreveu. Embora ele negue, está tudo no arquivo digital de Veja, que é público e está à disposição de todos — até dele próprio, Mino Carta, que bem poderia nos ajudar a encontrar  qualquer texto de sua lavra com críticas à ditadura militar brasileira anterior à reportagem sobre a tortura .

Mino não as fez porque, como boa parte da imprensa brasileira, mudou ao longo do tempo. Enquanto os chamados ‘jornalões’ já fizeram a sua autocrítica — aliás, tão criticadas pelo ex-editor de Veja — falta a Mino grandeza para fazer o mesmo: pedir desculpas pelo que escreveu quando o Brasil mergulhava no período mais obscuro de sua história recente.

Mas não creio que Mino Carta irá fazê-lo. Porque dispõe de um pequeno exército de funcionários par defendê-lo, funcionários que, como ele mesmo diz, “chamam patrão de colega”. Não creio porque ele jamais admitiu que prestou todo tipo de apoio a Orestes Quércia, um dos mais notórios corruptos pós-64.

Não creio porque, de resto, Mino Carta continua manipulando fatos, expurgando do noticiário o que não lhe convém ou não interessa a seus patrocinadores (oficiais, quase todos). Quer um exemplo disso ? Fácil! Entre no site de Carta Capital e procure alguma coisa sobre André Vargas, o petista salafrário que se associou ao pior da burocracia e a uma rede de lavadores de dinheiro sujo para roubar o contribuinte. Não há nada, nenhuma menção ao larápio que dominou o noticiário brasileiro esta semana. Por que será ?

Para que não digam que sou injusto na crítica, há um único registro, um ‘esforço de apuração’ materializado numa referência à reportagem de capa de Época neste fim-de-semana. Só isso. É assim que se faz o jornalismo com ‘controle social’ da mídia.

Agora, que venha o processo!

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Editorial

Uma ideia genial

Porque há um lado positivo no ataque de um certo Magnoli
por Mino Carta — publicado 12/04/2014, na Carta Capital

Quando cheguei em São Paulo, com pai, mãe e irmão, tinha 12 anos e a cidade 1 milhão e meio de habitantes. Vínhamos de um país ferido por uma longa guerra que a certa altura se tornara civil, ao cabo de uma ditadura de 21 anos. Tínhamos passado por bombardeios e até batalhas entre os guerrilheiros da resistência e os soldados nazistas e fascistas. Meu irmão Luis e eu assistimos à prisão do nosso pai, Giannino, em abril de 1944, e ficamos marcados para sempre pela coragem com que havia enfrentado seis esbirros mussolinianos, enchapelados, e de fuzis em riste.

A guerra foi uma experiência decisiva, nos ensinou a encarar as vicissitudes da vida com tranquilidade, sem contar que naquele período li muito e alguns autores me impressionaram fortemente. Dickens, Sterne, Swift, Svevo, bem como Shaw, Pirandello, Tchecov, dos quais li várias peças. Mestres da ironia, cada qual a seu modo. Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, meu pai temia a eclosão da terceira e, embora chamado a dirigir o principal jornal de Gênova, minha cidade de nascimento, Il Secolo XIX, preferiu mudar-se para o Brasil, que víamos como o país do futuro sem alimentar a mais pálida dúvida a respeito.

Enxergávamos bem. O País justificava plenamente a retórica daquele tempo. A casa-grande e a senzala estavam ainda de pé, mas os dons que o Brasil recebera da natureza, incontáveis, faziam dele o candidato inescapável a paraíso terrestre. Se quiserem, a grande potência. Em política o populismo dominava e a imprensa servia ao poder, mas havia jornalistas que lidavam brilhantemente com o vernáculo e pensadores habilitados a profetizar um país contemporâneo do mundo. A sociedade era provinciana e se deleitava com colunas sociais, havia, porém, escritores, arquitetos, escultores, pintores de notável qualidade. São Paulo era uma cidade pacata que começava a erguer o maior parque industrial da América Latina. Até as marchinhas de carnaval eram pequenas obras-primas de humor.

O País pretendia ser uma democracia racial de fato inexistente, sofríamos a aridez de um Nordeste submetido a feudatários chamados coronéis. Problemas e mazelas não faltavam. Mesmo assim, esperanças de redenção e correções de rota pareciam perfeitamente acessíveis. No Brasil estudei e tive filhos e netos, levei vida de cidadão correto e de praticante do jornalismo honesto, aquele que não se arvora a objetivo, mas registra a verdade factual.

Como jornalista, tive a ventura de me encontrar no lugar certo na hora certa diversas vezes, de sorte a ser diretor de redações desde os 26 anos de idade. Depois de sair da revista Veja em fevereiro de 1976, e comigo também se foi a censura imposta pela ditadura desde 1970, tive de inventar os empregos que a chamada grande imprensa jamais ofereceria a um profissional tido, além de subversivo, perigosamente encrenqueiro.

Em relação aos patrões, só não me indispus com a família Mesquita, que me tratou com o respeito e o carinho antes reservados a meu pai, falecido em 1964. Rompi com todos os demais, pretendiam usar a publicação que dirigia em proveito exclusivo dos seus interesses em lugar daqueles dos leitores. Até com Domingo Alzugaray, ex-caríssimo amigo.

A partir de maio de 1976, fundei IstoÉ e o Jornal da República, fracasso retumbante. Dirigi a Senhor da Editora Três, voltei à direção de IstoÉ. Enfim, CartaCapital, a remar contracorrente faz 20 anos. No período, tive dois programas de televisão cassados, um por Armando Falcão, outro por Antonio Carlos Magalhães já em tempos da chamada redemocratização. Ao fim de uma existência dedicada ao jornalismo, sempre a favor da liberdade e da igualdade, tenho de sofrer o ataque desvairado, velhaco e hipócrita de alguns perfeitos representantes da mídia nativa, que inventa, deturpa, omite e mente. Em vez do jornalismo honesto, pratica a desonestidade, simplesmente.

Pergunto aos meus desalentados botões: por quê? Respondem sem hesitações: porque o Brasil não cumpriu a promessa de 67 anos atrás. De inúmeros pontos de vista, é muito mais primitivo e atrasado do que então. Porque em muitos sentidos, não houve redenção. Porque somos o quarto país mais desigual do mundo. Porque os serviços próprios do Estado, educação, saúde, transporte público, são de péssima qualidade. Porque 40% do território nacional não é alcançado pelo saneamento básico. Porque a Justiça não existe no País que vê, sem indignação, José Genoino na prisão e Daniel Dantas às soltas.

 

Vou adiante. Porque não há um marco regulatório para coibir os crimes que a mídia nativa diariamente comete ao sabor de um português de arrabalde. Porque tudo vale e não há limites para coisa alguma. Porque, segundo o último Pisa, os estudantes brasileiros de 15 e 16 anos sequer conseguem raciocinar: pergunto-me que será do Brasil quando estes adolescentes estiverem com o dobro da idade. Porque a larga maioria vive ainda no limbo, na mais abissal ignorância, impedida de atingir a consciência da cidadania. Porque os privilegiados reagem, se for o caso com extrema violência, à mais remota ameaça de mudança. E leem colunas sociais. Porque 55 mil brasileiros anualmente morrem assassinados, mais do que os tombados da guerra civil na Síria.

E por aí afora, quantos, infindáveis porquês. Sim, o globo terráqueo emburrece progressivamente. O Brasil, contudo, bate recordes. Uma das provas surge, imperiosa, ao comparar um dos nossos jornalões com os grandes diários da Europa e dos Estados Unidos, editados e publicados em países democráticos e civilizados onde enredo igual a este a me envolver não seria possível. Ocorre que o senhor Demétrio Magnoli, o mais recente entre meus caluniadores, confia na ignorância dos seus leitores, filha da falta de estudo e de memória gerais.

 

Carrego uma história escrita com todas as letras e basta percorrê-la com isenção para saber quem fui como jornalista. O senhor Magnoli louva o progresso tecnológico porque permite trazer à tona o que escrevi no passado. Concordo: ora, viva, vasculhem à vontade, reconstituam este meu passado de fio a pavio, a despeito do risco de revelarem seu próprio pendor masoquista. Não solicito honestidade, equilíbrio, inteligência, nada além da reprodução fiel. Como se deu com o texto assinado M.C. ao celebrar o sexto aniversário do golpe de 1964, escrito debaixo dos olhos do censor de farda. Quem viveu comigo aquele momento e conservou a boa-fé, quem me conhece e à forma da minha escrita, sabe que se trata de uma manifestação de pura ironia. Lê-se, lá pelas tantas, “pátria amada”, e desde quando escrevo a palavra pátria sem lembrar a definição de Samuel Johnson, “a pátria é o último refúgio dos canalhas”? E tanto mais amada… Talvez, um bom lugar para abrigar o senhor Magnoli e os demais do seu naipe.

Raymundo Faoro, amigo fraterno e companheiro de algumas aventuras, recomendava: “Não exagere em ironias, eles acham que você fala sério”. Eles, os privilegiados rudes e ignaros. Digamos, os Magnolis e quem acredita neles, e quem os divulga. Tenho uma história, e não há como apagá-la. Não é que a rapaziada não tenha se esforçado para sujar, mesmo com seu português capenga, passagens da minha vida de jornalista, segundo eles sempre na bissetriz do poder. Deve ser por causa disso que Ernesto Geisel me detestava, ou que abri espaço em Veja para uma coluna semanal de Plínio Marcos quando Armando Falcão proibiu sua peça Abajur Lilás, ou que dei emprego a Luis Weis, quando saiu da Cultura e da equipe comandada por Vlado Herzog no começo de outubro de 1975. Deve ser por isso que o então cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, me chamou para participar da tentativa de salvar Herzog da tortura e da morte.

 

Na IstoÉ mantive a oposição ferrenha à ditadura. Na Senhor fomos contra Sarney e Collor, sem trégua. A nova IstoÉ foi decisiva para derrubar o caçador de marajás. Na CartaCapital, com apego à verdade factual, apontamos os incríveis deslizes e mazelas do governo de Fernando Henrique Cardoso. Sim, a Senhor apoiou a candidatura de Orestes Quércia ao governo de São Paulo em 1986, como afirma o senhor Magnoli em tom de denúncia. É fácil explicar por quê. Manda o jornalismo honesto, comumente praticado em países democráticos e civilizados, que um órgão de imprensa se defina em relação às candidaturas do próximo pleito. Senhor respeitava o PMDB de Ulysses Guimarães, e Quércia era o indicado do partido, na nossa opinião melhor que Antonio Ermirio de Moraes, infinitamente melhor que Paulo Maluf, os outros dois principais candidatos.

Nunca me filiei a partido algum, embora minha visão do mundo e da vida me aproxime politicamente de Antonio Gramsci e Enrico Berlinguer, horribile dictu. Sou amigo de Lula, e me orgulha sê-lo, há 37 anos, e ainda em 1977 vaticinava sua inevitável ascensão. CartaCapital o apoiou em 2002 e em 2006, e Dilma em 2010, por considerá-los os melhores candidatos. Dizer, como o senhor Magnoli, que somos lulodilmistas seria como se algum afoito escriba americano definisse obamistas as publicações que apoiaram o atual presidente dos EUA.

Aos meus leitores peço perdão por ter-me alongado nos editoriais da semana passada e desta. Parece-me, agora, ter desperdiçado tempo precioso ao responder a um pessoal disposto a caluniar não somente a mim, mas também às redações que dirigi, e incapaz de responder à pergunta central: por que eu? E tem mais: já que o senhor Magnoli escreve para um jornal que durante a ditadura fornecia à repressão as suas peruas, para transportar, em lugar de jornais, brasileiros destinados à masmorra, surpreende-me crítica tão feroz a um texto dotado de todos os requisitos para agradá-lo. Claro, refiro-me a alguém que não conhece a ironia. Anoto, de passagem, que em certa ocasião fui carregado em uma perua da Oban, primeiro até a sede da PF no bairro de Higienópolis, depois ao próprio QG do II Exército. Talvez o veículo pertencesse à frota da Folha de S.Paulo.

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Demétrio Magnoli para Mino Carta: “Eu sei o que você escreveu ontem”

Mino Carta

Há certos “jornalistas” que adorariam poder apagar o passado. Como não podem, e como existe a tecnologia dos acervos digitais disponível, resta-lhes tentar controlar a imprensa hoje. Se tudo fosse chapa-branca, então o passado incômodo poderia permanecer oculto nas profundezas da ignorância do público.

Felizmente, ainda não vivemos sob a censura do governo e o conseguinte monopólio da imprensa chapa-branca. Aproveitando-se dessa brecha, dessa lufada de ar da liberdade de imprensa, Demétrio Magnoli resolveu resgatar, em sua coluna de hoje na Folha, alguns trechos assinados por Mino Carta (M.C.) na época do regime militar.

M.C., como sabemos, faz-se hoje de paladino da democracia e acusa suspeitas de “golpe” para todo lado, defendendo com a obediência de um cão o governo – como faziam com o porco Napoleão os temíveis cachorros da Revolução dos Bichos de Orwell. Mas o que Mino Carta pensava e escrevia á época? Algo bem diferente, como mostra Demétrio:

“Propostos como solução natural para recompor a situação turbulenta do Brasil de João Goulart, os militares surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção (…). Mas, assumido o poder, com a relutância de quem cultiva tradições e vocações legalistas, eles tiveram de admitir a sua condição de alternativa única. E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair da sua humilhante condição de subdesenvolvido. Perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção –e pensaram no futuro.” Fofo?

Enquanto Paulo Malhães lançava corpos em rios, M.C. batia bumbo para Médici. A censura não tem culpa: os censores proibiam certos textos, mas nunca obrigaram a escrever algo. Os proprietários da Abril não têm culpa (ou melhor, são culpados apenas pela seleção do diretor de Redação): segundo depoimento (nesse caso, insuspeito) de um antigo editor da revista e admirador do chefe, hoje convertido, como ele, ao lulismo, Carta dispunha de tal autonomia que os Civita só ficavam sabendo do conteúdo da “Veja” depois de completada a impressão.

Alguns “jornalistas” parecem sempre girar em torno do poder, como moscas em volta do mel. Atualmente, a revista de Mino Carta tem tentado (há pouca audiência) bater o bumbo em defesa do governo e de suas bandeiras mais autoritárias, como o próprio controle da mídia. Para fazer coro às acusações de que toda crítica ao PT não passa de anseio golpista da “elite”, Mino Carta precisa adotar a tática da camuflagem e fingir que não existia nas décadas de 1960 e 1970.

Já mostrei aqui a hipocrisia e o duplo padrão adotados por Mino Carta e sua equipe em outros casos, como na questão das cotas raciais. É o velho “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. São pessoas assim que mancham a imagem do jornalismo brasileiro. Em vez de correr atrás de notícias e dar opiniões sinceras, há apenas proselitismo e partidarismo da pior espécie.

Com tudo isso em mente, paira apenas uma pergunta no ar: quem é que ainda leva a sério Mino Carta e sua revista?

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