MEU FILME DE FORMAÇÃO: Para o dramaturgo Sérgio Carvalho, o filme é “A noite dos desesperados”, de Sydney Pollack

 


Meu filme de formação

A noite dos desesperados, de Sydney Pollack
 

Mariana Marinho, da revista Cult

Sérgio de Carvalho, dramaturgo e encenador da Companhia do Latão

O ano era 1929. Em plena depressão norte-americana, Gloria (Jane Fonda) e Robert (Michael Sarrazin) movimentam-se na pista em
busca da vitória em uma desumana maratona de dança. Num período de fome e desespero, dançar parecia uma maneira simples de ganhar alguns trocados. Porém, os passos coreografados deslizavam pelo salão embalados por uma agressiva violência social.

Este é o enredo de A noite dos desesperados (1969), longa-metragem do diretor norte-americano Sydney Pollack baseado no romance They Shoot Horses, Don’they? (Mas não se matam cavalos?), de Horace McCoy.

“O filme retrata um concurso de dança de salão em que o último casal a seguir de pé ganha o prêmio, até o limite das forças e da sanidade. Todos bailam como mortos-vivos, numa corrida diante de uma plateia mecânica, ao som de músicas alegres. São personagens arrebentadas, no tempo da depressão norte-americana”, diz Sérgio de Carvalho, dramaturgo e encenador da Companhia do Latão, grupo teatral que há 17 anos desenvolve um trabalho de crítica à sociedade capitalista.

Sérgio, que também edita as revistas Vintém e Traulito, ligadas à Companhia, conta que, dos filmes que mais o marcaram entre a infância e a adolescência, A noite dos desesperados é o que lhe vem com mais força à memória. “Assisti na televisão, sozinho, numa madrugada. Nunca mais o revi”.

O dramaturgo relembra a beleza de Jane Fonda. “Ela vai se dissolvendo até reaparecer plena antes da última cena, brutal, violentíssima, tantas vezes relembrada por mim, em que seu parceiro a ajuda a estourar os miolos”.

Para Sérgio, tudo era perturbador: “a falta de saída, o drama impossível, a injustiça, as imagens do espetáculo grotesco, a cena a um só tempo realista e alegórica, o interesse pelos desclassificados do sonho americano.

Passei a perseguir essas questões nos filmes que via na madrugada, enquanto a casa dormia”.“Mais tarde, quando pude freqüentar cineclubes e ver meus primeiros ‘filmes de autor’, nenhuma experimentação formal, o que eu também adorava, seria legítima se não tivesse também o interesse pela vida que se desmancha demonstrado por um filme como A noite dos desesperados’”, diz.

Categorias:Quebra Torto

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