Meio ano. Foi o que durou a passagem do professor e filósofo Renato Janine Ribeiro no Ministério da Educação. Enfim, prevaleceu a ética da política. Foi derrotada, uma vez mais, a ética da convicção

Adeus à Pátria Educadora?

por Wagner Iglecias, no GGN Jornal

Meio ano. Foi o que durou a passagem do Professor Renato Janine Ribeiro no Ministério da Educação. Estou entre aqueles que comemoraram a sua indicação, ocorrida no final de março. Afinal teríamos a frente de um ministério estratégico como a Educação um intelectual de formação sólida, postura política independente, capacidade de diálogo e nenhuma mácula relativa a mau uso de dinheiro público. Àquela altura, com Dilma mal completando três meses de segundo mandato, a nomeação de Janine foi comemorada também por ser uma das poucas boas notícias que o governo dava à sociedade. E como se sabe, de lá pra cá as más notícias só pioraram.

A ida de Janine para o Ministério foi reconhecida como boa medida até por alguns adversários. Ou ao menos por aqueles que pensam mais no país do que nos seus próprios interesses. E foi um fio de esperança em todos nós, que imaginamos que com aquela sinalização Dilma estivesse começando a se livrar das tantas amarras que lhe foram e lhe têm sido postas por seus inimigos e por alguns de seus aliados. Com Janine imaginamos que Dilma estava começando a mudar a direção de seu governo, indo ao encontro da agenda progressista que as urnas haviam pedido poucos meses antes.

Sua demissão é compreensível. Janine dará lugar a Mercadante, político que mesmo desgastado conta ainda com relativa força e tem uma longa ficha de serviços prestados ao petismo. A imprensa diz que Mercadante volta para a Educação porque à frente da Casa Civil era motivo de criação de muitas arestas com o PMDB. De novo, compreensível, diante de uma situação em que ou Dilma entrega mais anéis aos aliados e recompõe sua capacidade de governar, ou cai. Pelas mãos deste mesmo PMDB e dos inimigos de sempre, aqueles que a esta altura já se postam sem veleidade alguma em sua aposta no quanto pior, melhor. A situação é tão delicada que dois outros ministérios estratégicos, como Saúde e Ciência e Tecnologia, também entraram na barganha. Uma lástima.

Enfim, prevaleceu a ética da política. Foi derrotada, uma vez mais, a ética da convicção. Janine chegou a ser ironizado nas redes sociais ontem, por conta de post em que afirmou que mandou publicar no site do MEC a informação sobre sua saída. Provavelmente seu último ato, num momento em que já não mandava mais. Mas as ironias a ele foram mais que desnecessárias. Afinal Janine mal assumiu o Ministério e já foi recepcionado por um brutal corte de orçamento. Sim, ele não é um político e tampouco tem uma experiência de décadas como gestor público. Mas fez o que esteve ao seu alcance a frente do Ministério. Janine provavelmente volte para a sala de aula em breve. O que provavelmente não volte mais, infelizmente, é o lema com o qual este governo imaginava se consagrar e ficar marcado na História: Pátria Educadora.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. 

 

—–

ANÁLISE

Ética da Convicção x Ética da Responsabilidade

     Segundo o doutrinador Max Weber, a ética tem duas vertentes: a ética da convicção e a ética da responsabilidade.
     A ética da convicção condiz aos princípios inerentes de cada indivíduo, e podemos traduzir como um ato exógeno, de dentro para fora, que o ser humano crer, acredita, seja em valores, seja politicamente (ideais), seja religiosamente. Manifesta-se nas situações da seguinte forma: independente do resultado, seja uma benesse ou um malefício, a pessoa sempre deixará prevalecer os seus princípios, até muitas vezes não mensurando a própria situação.
     Na ética da responsabilidade, as atitudes são baseadas com mais “coerência”, prevendo as consequências do resultado, buscando um posicionamento favorável, preocupando-se em atender a maior quantidade possível de interesses, inclusive do próprio agente da ação. Uma ética “maquiavélica”, os fins justificam os meios, utilitarismo entrelaçado à finalidade.
     Um exemplo que tipifica as duas éticas é uma adolescente grávida, que deseja o aborto. De um lado está a mãe, uma “cristã assídua”, que logo impõe os princípios católicos, nos quais está a preservação da vida, e consequente, contrária ao aborto. Do outro está o pai, pensando na filha, nos resultados que provocará a maternidade na filha, na “futuro” dela, da precocidade da maternidade, então coloca tudo numa balança, e conclui que a melhor opção é o aborto. A mãe representa a Ética da Convicção, e o pai a Ética da Responsabilidade.
FONTE  BLOGUE DO RAFAEL FOLÓSOFO

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

12 + 13 =