MÁRIO SERGIO CONTI: Nos 80 anos do assassinato de Trótski, as ideias do arauto da revolução

Trotsky

Nos 80 anos do assassinato de Trótski, as ideias do arauto da revolução

Mario Sergio Conti

Na próxima sexta-feira, dia 21, será o 80º aniversário do assassinato de Leon Trótski, o líder do soviete de Petrogrado na Revolução Russa. Depois ele dirigiu o Exército Vermelho, venceu a guerra civil e consolidou a União Soviética, que criou um partido mundial da revolução, a Internacional.

Aí foi caçado como um cão pelos seus ex-companheiros e novos inimigos. Vagou pelo mundo sem ter pouso até ser morto, no México, pela picaretada de um agente de Stálin —o ditador do Estado sem patrões nem propriedade nem democracia do qual ele, Trótski, foi essencial na criação.

Sua obra soçobrou no funesto maremoto onde se atropelam o passado e a derrota. A União Soviética naufragou. O comunismo foi a pique. O marxismo mal se mantém à tona em botes esburacados. Trótski morreu para sempre?

Talvez continue mortinho da silva até que a revolução deixe de ser uma ideia anacrônica e vire de novo algo palpável. Agitações, motins e até insurreições ocorrem hoje com sofreguidão frenética: gilets jaunes, Chile, Argélia, Hong Kong, Estados Unidos, Líbano, Belarus.

São revoltas contra aquilo que ele também lutou: a exploração, a desigualdade, a opressão, o racismo, a casta política podre. Mas não são revoluções. Estas se definem pela derrubada, violenta e popular, de uma ordem social e sua troca por um novo sistema político e econômico.

Trótski participou de duas revoluções. Elas lhe definiram a vida e renderam seus melhores livros. Em 1905, ele era o que o Brasil bem pensante chama de extremista. Tinha 26 anos e estava fora de partidos quando começou o quebra-quebra.

Viu o movimento de trabalhadores que, para pasmo da esquerda, criou espontaneamente os sovietes —os conselhos populares eleitos diretamente. Com a derrota da revolução, foi banido para a Sibéria; fugiu e se exilou.

Publicou “Balanço e Perspectivas”, uma síntese da revolução com uma ideia formidável, a do desenvolvimento desigual e combinado. O capitalismo é um sistema mundial, disse, mas contraditório e assimétrico. O progresso se alimenta do atraso e vice-versa.

A escravidão, ou a servidão, ou a condição colonial, são momentos presentes da sociedade do capital. Os países periféricos não são quistos do passado nem estão fadados a seguir etapas retilíneas no rumo do progresso. Poderiam passar direto do arco e flecha para a dinamite.

Trótski concluiu da tese que as conquistas das revoluções burguesas —igualdade perante a lei, república, reforma agrária, independência nacional, industrialização— só poderiam ser obtidas pelos trabalhadores, e apenas no quadro da construção do socialismo: a revolução permanente.

Veio 1917 e ele voltou para a Rússia e liderou a tomada do poder. A experiência lhe valeu sua opus magnum, “História da Revolução Russa”. O livro não tem equivalente. Seria como se Robespierre narrasse o 1789-1794 francês.

É um afresco de 1.200 páginas que circula entre o geral e o particular. Expõe o período, mas flagra um cossaco a cavalo piscando para um operário rebelde. Usa economia, história, sociologia e jornalismo para captar a coletividade trabalhadora em movimento.

Seu mote é o de Spinoza: não rir nem chorar, mas compreender. Nesse espírito, aceita e até elogia pontos de vista dos conservadores. Seus parágrafos comportam perspectivas antagônicas e buscam uma síntese que as supere.

Assim, diz com ironia que, na derrubada do czar, os liberais eram convincentes, “mas como é lamentável que o liberalismo, que conhecia tantos remédios infalíveis para salvar a monarquia, não encontrou meios de salvar a si mesmo”.

Afirma que é enganoso comparar figuras históricas —e logo esmiúça a personalidade de Luis 16 e Maria Antonieta, contrastando-as com as de Nicolau 2º e da czarina Alexandra. Diz que a revolução foi feita pelas massas, mas demonstra que sem Lênin ela não venceria.

História da Revolução Russa” foi escrito num novo exílio, depois de Trótski ter perdido o poder. Era o início de uma série de derrotas políticas cujos motivos se reduzem a um só: a revolução permanente não vingou na Rússia nem em lugar algum.

Já o desenvolvimento desigual e combinado ainda descreve a marcha destruidora do capitalismo triunfante. Só que agora numa situação mais complexa. A velha concentração da riqueza convive com hecatombes ambientais; vagas de migrantes; reclamos identitários; crises da democracia; armas nucleares.

É uma crise permanente. Revoluções, se e quando vierem, serão bem diferentes das que Trótski viveu.

Mario Sergio Conti, jornalista, é autor de “Notícias do Planalto”. Artigo publicado na Folha de S.Paulo

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