MARIELLE RAMIRES E RAFAEL VILELA DEFENDEM FORA DO EIXO: “Críticas são sempre bem vindas. Mas que sejam feitas com o respeito que merecemos.Sobre Pablo Capilé, um dia vão entender que ele “aparece” como “aparece” não é porque ele “adora se mostrar”, ou é “um mandão-ditador” como tentam a todo o custo desqualificar. Pablo Capilé é uma grande liderança da nossa geração. É um cara que consegue despertar muita gente do transe da descrença”

Marielle Ramirez, Pablo Capilé e Rafael Vilela: os três integram o coletivo da Casa Fora do Eixo, fundado em Cuiabá e que hoje tem presença nos quatro cantos do Brasil

Marielle Ramirez, Pablo Capilé e Rafael Vilela: os três integram o coletivo da Casa Fora do Eixo, fundado em Cuiabá e que hoje tem presença nos quatro cantos do Brasil

Críticas são sempre muito bem vindas. Mas que sejam feitas com o respeito que merecemos

por Marielle Ramires

https://www.facebook.com/marielle.ramires/posts/519117661495364

Meu nome é Marielle Ramires, tenho 33 anos, e ajudo a construir o Fora do Eixo desde sua fundação. Vi e vivi a fundação e lançamento de tantos projetos que para nós foram zonas autônomas temporáreas importantes e que nos fizeram a chegar até aqui.

Para a rede, a cultura é e sempre foi comportamento. A maneira de “fazer, viver e criar” dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, ou em outras palavras, a maneira como articulamos nossas formas de se relacionar e fazer políticas; as formas que optamos em gerar e administrar abundâncias; as múltiplas possibilidades de formação e produção de conhecimentos; a comunicação e suas múltiplas maneiras de se comunicar; a arte e as multifacetas do fazer simbólico.

Quando o Fora do Eixo iniciou suas atividades no início de 2006, eu estava lá. Vi e debati o nascimento das três premissas que seriam as políticas originárias da rede: a circulação de artistas, produtores e jornalistas; a distribuição de produtos culturais; e a produção de conteúdo com metas de promover a divulgação. Era um tripé de ações simples, em que o objetivo era desenvolver os arranjos que compunham a cadeia produtiva das culturas locais com metas de promover processos autogestionários, em que os envolvidos nessa cadeia pudessem viver de um circuito autoral, e sobretudo, que pudessem “viver daquilo que gostavam” de fazer. Sempre foi, desde sua gênese, a busca pelo “trabalho desalienado”, em que o ofício não precisa necessariamente ser sofrimento, sacrifício, e sim construção autoral em que o instrumento trabalho é usado para transformar realidades. Foi assim que soluções e tecnologias genuínas foram criadas. Assim surgiu, por exemplo, o card, por exemplo.

“Desmonetizar” a economia foi a forma como a cultura encontrou há anos, antes do Fora do Eixo, para criar processos viáveis de produção. É prática comum no setor cultural o mutualismo, a relação de trocas a partir de escambos de serviços e produtos, ou mesmo a ajuda ao outro – a tal “brotheragem” (vem da palavra brother em inglês, termo comumente usado no setor da música independente).

A riqueza desse novo olhar sobre a questão é racionalizar a relação, evidenciando a capacidade que essas forças de cooperação tem em gerar e distribuir riquezas, sem, na maior parte das vezes, o envolvimento de dinheiro. A capacidade que os projetos possuem em estimular esses escambos ou levantar doações a partir das trocas ou práticas voluntárias é a “moeda complementar” existente nessa economia, que movimenta inúmeros processos culturais dentro do setor. Sem ela, ouso dizer, a cultura brasileira, em sua abrangência, se moveria numa velocidade muito menor. Pensar nessa perspectiva, pelo menos ao meu ver, é motivo de plena esperança: primeiro porque a história oficial contada sobre a economia da escassez cai por terra como falácia diante dessa matemática, como bem já conceituou a ‘Economia Solidária’.

Foi assim que surgiu o nosso card: tínhamos meios de produção criados na “sevirologia” (fazer se “virando”, mesmo sobre condições de precarização) – estúdios de gravação, ensaio, serviços de assessoria de imprensa e uma gama ampla de serviços para trocar por outros na ausência do Real. Estrutura simples, por vezes precária, sim, mas que realizava e ainda hoje realiza e gera produtos e processos, e milhares de laboratórios, incontáveis, que forma tecnicamente e emocionalmente uma geração de jovens que poucas opções tinham frente aos modelos de produção e consumo que o mercado hegemonicamente oferece.

O avanço da experiência econômica sistematizada pelos coletivos culturais foi trazer o elemento novo de considerar e narrar que nessas relações de troca existiam uma economia potente, pujante e da abundância, que sublinho, ao contrário da lição que todos os dias a “economia formal” nos ensina.

O curioso nisso tudo é que diante dessa lógica, desde o começo do processo, convivemos incessantemente com pessoas das mais diversas fazendo “troça” da moeda. “Dá um card aí pra eu comprar um galão de água”, li numa timeline dia desses em tom de deboche; “Quero ver o card pagar luz ”. Quantas vezes fomos forçados a sublinhar que o Card era moeda complementar! Complementar! Os envolvidos, por exemplo, ao fazer uso da moeda, não páram de gerar Real $ de outras fontes de recursos. Eles passam só a ter outras opções para fechar a conta da autogestão no fim do mês. E quer saber? Nunca gostamos de ter que ressaltar isso. Sempre achamos que ter que explicar desse modo, que era moeda complementar, era jogar o projeto para um campo mais de “direita”, afinal, como bem já falou o Capilé, complementar para gente é o Real (R$). Para nós e grande parte do setor cultural do nosso país.

Só sei que se chegamos até aqui foi por conta dele. Foi ele que possibilitou com que cada um de nós, construtores dessa parada, estivésses aqui, apostando vidas nessa construção. E não me refiro só ao card movimentado a partir de trocas não, mas sobretudo, o card fruto de um financiamento colaborativo que muitos parceiros injetaram e injetam com poucas a muitas horas de trabalho solidário investido: seja trocando ideias e ajudando na ampliação de repertórios; seja divulgando a rede; ou mesmo doando roupas, comida; apoiando moralmente nos mais diferentes momentos duros que já vivemos em nossas trajetória, entre tantas outras coisas. Tudo isso é recurso nessa economia.

E antes que falem que sou eu sou uma maria ninguém sem personalidade (com todo respeito às marias), desqualificações (no plural sim) com que me vejo obrigada a lidar há anos, reforço aqui que não é do Fora do Eixo que estou falando, ledo engano de quem pensa isso. O Fora do Eixo foi só um eventual nome necessário pra simbolizar esse projeto multifacetado que criamos, e que do mesmo modo que optamos por abrir mão de salários, apê, carro do ano, etc, em prol de uma vida comunitária, desapegar dessa marca é coisa de “dois tempos”. Não é atoa que falamos há anos em pós marca.

Continuando, estou falando aqui de projeto político de transformação de sociedade. Eu sonho em viver um mundo justo desde os 10 anos de idade. Vi e acompanhei o Lula perder a eleição de 89, me emocionando junto ao meu pai, sem nem entender direito os meandros políticos do que aquele momento representava. Só queria, dentro de uma visão até cristã, que fosse possível vivermos num mundo mais de todo mundo. O que me motivou a estar junto nesse conjunto de coletivos foi acreditar que como outros muitos de outras gerações, que poderia também dar o meu quinhão também nessa rEvolução história.
Vale sublinhar, para que ninguém venha se vitimar de “desavisado”, que NUNCA escondemos que a política era a nossa motivação. A rede nasce como uma atitude política, se articula a partir de desejos políticos de criar rotas alternativas de produção cultural que gerasse sustentabilidade a um circuito até então invisível no país. Em acreditar no óbvio, que o Estado tinha o papel de co-formular junto com a sociedade, políticas culturais abrangentes. E a política, a que me refiro aqui, é aquela bradada pelo Bertolt Brecht em seu memorável “Analfabeto político”: “(..) O analfabeto político é tão burro que Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil, Que da sua ignorância nasce a prostituta, O menor abandonado (…)

Sobre os erros e acertos, esse é outro importante a falar aqui. Nós NÃO SOMOS UMA EMPRESA. Nossos LABORATÓRIOS, como desde os nossos primórdios sempre fizemos questão de classificar, é realizado em cima de erros e acertos. E a partir disso é que se constrói tecnologias sociais a partir dessa proposta empírica. No é atoa que vivemos num ritmo de caldeirão de pressão todos os dias: porque para um processo que ousa tanto, errar pode significar perdas muito grandes. No mínimo, muitos dedos-apontados-na-cara, como estamos acostumados a lidar. Mas o fato inegável é que em uma rede de muitos, meu amigo, sinto informar, errar é algo que vai estar presente na matemática. Esse é o preço do processo colaborativo (vida a entrevista do Paes para o NINJA). Ser só é realmente mais fácil. Mas sou do tipo que prefiro estar junto a uma multidão, que recursa o medo. Vale dizer também que ter um monte de casamentos (cada pessoa com quem você divide uma casa é alguem com quem se é casado) é algo que demanda disciplina, comprometimento, coragem, firmeza e culhão. Porque vou te contar, para conviver com 30, dormindo e acordando todos os dias, tem que ter muito boa vontade: para querer avançar nas limitações pessoais, tem que ter disposição para ser paciente, e sim, aprender a comprar desgastes, aprender a franco (coisa difícil para a maioria, viu?), “abrir os códigos” para permitir a interação orgânica com o outro; avançar; ser generoso; etc. Dentro do Fora do Eixo, não existe fofoca, e cito isso, para sublinhar que o efeito dessa política laboratorial não é pouca coisa, pelo menos eu acho.

Sobre o Pablo Capilé, um dia vão entender que ele “aparece” como “aparece” não é porque ele “adora se mostrar”, ou é “um mandão-ditador” como tentam a todo o custo desqualificar. Pablo Capilé é uma grande liderança da nossa geração. É um cara que consegue despertar muita gente do transe da descrença, do medo e cinismo que todos os dias nos servem em doses homeopáticas de notícias na tevê, páginas nos jornais e em tantos outros meios. Já disse isso em outra ocasião e repito: medo e descrença são formas de dominação. E sinceramente, para mim, além do Fora do Eixo, esses são elementos que na nossa sociedade precisamos desconstruir. “Otimismo” é ato subversivo. Quem me conhece sabe que acredito piamente nisso.

No mais, eu sinceramente fico pensando que no meio dessa agenda de Brasil que estamos vivendo, pós junho/2013, porque não estamos debatendo essas formas de economia sem criminalização? Porque não somamos esforços para o debate da democracia de comunicação, para superar essa máquina de construção de paranóia que nossa sociedade se meteu? Porque não debatemos qual a Reforma Política queremos? Porque não ousamos separar o debate mesquinho do debate construtivo? Entre tantas outras agendas importantes. Será que vai demorar tanto tempo assim para compreenderam o que representou aquele Roda Vida da última segunda-feira (05/08)?

Daqui a pouco, quem aparece para dar as caras e contribuir para ajudar a “aclarar” esses pseudos-escândolos é a Veja, a Folha e outros tablóides que se apropriam muito bem de pautas das quais eles tem amplo interesse. Afinal, desqualificar inclusive iniciativas como o Ninja, em pleno ano de pré-eleição, em que precisam anular forças progressistas (sim, o Fora do Eixo é uma delas), pode ser um bom negócio, certo?

Tem tanta coisa que ainda preciso falar, mas se continuar me alongo demais e corro o risco de ninguém ler. Deixo aqui a promessa que esse será só primeiro artigo de uma série que farei sobre essa ‪#‎VidaFdE‬. Sei que temos um debate longo pela frente à enfrentar, e sempre tivemos muita disposição para ele. Espero que para o bem do avanço de vários processos coletivos, que nos pautemos mais no debate sobre metodologias e conceitos, e menos em passionalidades, “paixões mal resolvidas” e visões mesquinhas. Críticas são sempre muito bem vindas. Mas que sejam feitas com o respeito que merecemos. Avante! Continuemos conversando

 

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Conheci a Beatriz Seigner em uma viagem…
POR RAFAEL VILELA

 

https://www.facebook.com/piravilela/posts/684090298272627
Conheci a Beatriz Seigner em uma viagem que fiz para Belo Horizonte em 2012. Mas na verdade isso não importa muito..

Meu envolvimento com a Rede Fora do Eixo começou em meados de 2010, ainda quando morava em Florianópolis, capital com cara de interior, cidade pacata com bons amigos mas poucas atividades. Participava do DCE da Universidade Federal há quase 3 anos, estudava fotografia por conta própria e empurrava com a barriga meu curso de design para me dedicar a atividades que me interessavam mais, em geral todas fora da sala de aula – a faculdade atrapalha nossos estudos, é o que dizem. Era um momento interessante da minha vida, não posso negar. Tocava djembe – um tipo de tambor africano – tinha estágio “fixo”, dinheiro do papai, fotografava uns freelas e usava horas e horas da minha vida em dedicação exclusiva ao meu ego. Muito espelho, muito papo furado, muito eu, eu , eu.

Como muita gente que tá na rede, comecei com a música. Quando tava no DCE percebemos a enorme necessidade de uma cena independente em Floripa, falta de espaco pra bandas independentes e um público universitario sedento por conhecer novos sons e artistas. Resolvemos resgatar uma iniciativa bacana dos anos 2000, o festival UFSCTOCK.
Em poucos meses organizamos estrutura, comunicação e logística pra que dezenas de bandas pudessem se apresentar de forma livre nas praças da UFSC, tudo de graça, cerveja barata, todos contentes. Na sequencia fundamos o coletivo Cardume Cultural, eu com mais dois, e resolvemos convocar alguns nomes e experiencias culturais do país para debater e pensar nossa atuação na cidade.

Entre os convidados, um representante do Fora do Eixo, mais especificamente Talles Lopes, de minas, que passou 3 dias comigo e com a galera do Cardume, entusiastas do paradigma coletivo, conversando e tirando todas nossas duvidas inocentes de um coletivo em formação. Depois dele ainda passaram Atilio, Claudia e mais várias cabeças interessantes do circuito pela nossa casa. Uma frase do Talles me marcou profundamente nessa epoca: “A vida em coletivo é a fórmula da juventude” – acho que não envelheci um dia sequer depois disso.

O encontro acabou e seguimos nossas vidas, agora oficialmente como um ponto Fora do Eixo em Florianopolis, máximo respeito. Já chegava pra conversar com as pessoas sendo parte de uma das maiores redes de cultura da América Latina. Pra quem não sabe o que é capital simbolico ou acha que apenas que uma pessoa se capitaliza de uma construção em bloco como essa, afirmo: cresci em dias o que grupos demoram anos pra crescer em um lugar como Floripa. Capital simbolico é a capacidade de se empoderar, ser feliz e confiante sem precisar de dinheiro.

Passamos a receber inputs, tecnologias e formas de lidar com o coletivo e com a gestão da música, o que nos fez muito rapido repercutir – e incomodar – na cena local. Imagina, eu, que nunca fui um musico sério ou produtor ou qualquer coisa desse tipo, em menos de um ano agia e falava em nome de um coletivo que passou a ser um dos protagonistas da musica no estado de santa catarina. Com meses de trabalho duro a gente foi acessado até pela merda da Globo pra fazer a curadoria do palco independente de um festival coxa deles. E não falo isso como uma farsa orgulhosa, acredito que a capacidade de absorver o conhecimento coletivo e permanecer em um estado mental de que “tudo é possível” contamina e inspira todos em nossa volta. Participei de incontáveis papos e articulações onde o objetivo único era ter o interlocutor mais estimulado, empolgado, e disposto a seguir com os seus ideais, sonhos e projetos.

Nessa epoca ainda tinha poucas informações sobre a Casa Fora do Eixo São Paulo, mas logo senti a mística que a envolvia. Desde sempre rolavam os boatos que nela moravam pessoas bitoladas, que trabalhavam loucamente sem saber pra onde estavam indo. Ainda bem que nunca segui conselho de gente assustada. O que sentia na prática como um membro de coletivo novo da rede, nesse tempo, era um acompanhamento responsa da galera da casa, sempre muito próximos nas horas mais difíceis. Aí já dava pra começar a sacar os valores que pautavam o grupo: solidariedade, colaboração, dedicação ao proximo, formação. Aprendi a respeitar mais o corre alheio, e olhar menos pra o meu umbigo. Aprendi que não é o “onde” que importa tanto, mas o “como” – os valores e dinamicas que levamos adiante na construção do comum.

Do cardume pra Casa Fora do Eixo foi um processo. Passamos por uma imersão em julho de 2011 com umas 10 pessoas do coletivo. Foram dias intensos, módulos mil de todas as áreas, comunicação, música, banco, partido, universidade.. tantas loucuras inimagináveis se não fossem tão paupáveis. A imersão faz com que os coletivos se vejam em uma dinâmica alucinante de produção e trocas dentro da casa em fluxo, aprendendo no tete a tete as multi habilidades pra se gerenciar e construir a vida em rede. Nesse período fiquei muito marcado pela experiência e paciencia da Mariele, da Carol, da Lenissa e da Driade em dedicar horas e horas a cada um dos módulos, passando adiante todo seus acúmulos sem pedir nada em troca.

A imersão também faz sentir a dureza do processo de se transformar. Assim como a lagarta deve sofrer para fazer o musgo empoeirado virar aquelas asas coloridas, sair da lógica “escola-faculdade-emprego-carro-casamento-casa-filhos-netos-caixão” é dolorido. Migrar pra vida coletiva, sem salário, sem “carreira”, sem uma escola formal, com caixa e armário coletivo é pular fora do seu mundo e mergulhar de cabeça no novo mundo possível, que é nosso, de todo mundo.

Me orgulho de cada segundo imerso, já são quase dois anos fora do eixo e fora da zona de conforto, viajando pelo mundo e me questionando a cada dia como testar todos os limites do que já foi criado.

Vazei de Floripa como quem vai comprar um cigarro e não volta mais. Nada pessoal, tinha encontrado um novo rumo na vida, larguei faculdade, ex-namorada, tambor, movimento estudantil, praias, baladas. Amigos e familiares tiveram um delay de alguns meses, mas no fim me entenderam. Algumas semanas morando na casa fora do eixo sao paulo e assumi a frente de Poéticas Visuais do circuito, que antes de mim era tocada por uma designer incrível da rede, a Laura Morgado. Comecei a trabalhar com tudo quanto é fotógrafo, designer e artista visual, num processo completamente colaborativo que conectava coletivos pelo país inteiro em varias ações que envolviam lançamento de novos cds, ações de movimentos sociais, criação de identidades para projetos solidários espalhados pelo interior, cartazes, flyers, e tudo que é possível imaginar. Não lembro de usar valores nem cifrões em praticamente nenhum material.

Passei a fazer parte do famoso Caixa Coletivo. É tipo mudar de combustível – de um poluente pra um biodegradável. Você continua se alimentando, tomando banho, tendo os equipamentos que precisa, as roupas que gostaria de usar mas o que te move já não é mais o mesmo. A ânsia por ter cada vez mais e ser cada vez menos já não nos alcança. É trocar um modelo de salário, de acúmulo e de fetiche pelo pertencimento por uma vivencia comunitária, compartilhada em bens, serviços e afetos, onde o medidor máximo de sucesso é o FIB – a Felicidade Interna Bruta.

É impossivel imaginar alguem vivendo em uma casa fora do eixo que não confie naqueles que o cercam ou que não tenha tesão extremo no que faz. Não é o dinheiro, definitivamente, que segura alguém nesse processo. Também não é o medo porque qualquer um que absorve um pouco do que se passa ali dentro sabe muito bem que essas experiências são bem valorizadas no mercadão, ávido e necessitado de autenticidade e coragem.

Desde o segundo colegial tenho a fotografia como tesão e um dos grandes objetivos em minha vida. A fotografia de contar histórias, aquela que expõe, levanta temas e debate o mundo. Nada contra a fotografia contemporânea, o topo borrado da árvore, a abstração dos padrões já abstratos, podem ser até dar boas imagens, mas nunca me interessaram por sua capacidade narrativa ou intencionalidade política. Respiro fotografia documental, enfim, há mais de 7 anos.

Misturar essa linguagem com a bomba aceleradora de partículas que é o Fora do Eixo sempre me levou a experiencias incríveis. Não digo que foram espontâneas em todos os momentos, muitas vezes fui puxado pelo coletivo a me abrir mais, a ser mais humilde, a escutar, a aprender, a observar. Nunca fotografei tanto na vida até me aproximar do FdE. Passei a fotografar tudo que via, contar toda e qualquer história, cobrir festivais, circular com bandas em turnê, a fazer ensaios, retratos, editorial, institucional, moda, documentar colunas e viagens infinitas pelo interior do país.

A intensidade da vivência coletiva apurou minha leitura crítica do mundo, fiquei mais rápido, atento, sensível. Com o avanço da mídia fora do eixo para o laboratório do NINJA comecei a me defrontar, dia após dia, com a épica jornada humana. Viajei por dias nas aldeias indígenas do Mato Grosso do sul conhecendo histórias horripilantes da ação dos fazendeiros, pude ver de perto o terrorismo de estado no Pinheirinho, fui pro interior da Amazônia investigar a morte de um casal de ambientalistas, documentei o carnaval de rua de dezenas de cidades, fotografei em dedicação exclusiva cada uma das manifestações de junho e julho com toda sua intensidade, conheci o norte e o nordeste do país, conheci a Argentina, Venezuela, Bolívia, tantos outros países da Latino America, conheci a Espanha. Ainda acabei indo pro Egito: em missão especial fotografei a queda de um presidente eleito por 30 milhões de pessoas nas ruas, uma das maiores manifestações humanas da história. Aprendi alguma coisa de árabe, gastei meu inglês, me virei pra caraleo e nunca passei tanto medo na vida.

Tenho 24 anos. Não tenho dúvida de que fazer parte do fora do eixo foi fator decisivo pra estar aqui, escrevendo pra quem quiser ler, essas linhas tortas e sinceras. Assim como me possibilitou desenvolver uma linguagem própria na fotografia, aprender a antecipar situações, me envolver com contextos e personagens, conquistar confiança daqueles que fotografo e retribui-la com meu trabalho. Em suma, o fora do eixo encurtou meu caminho entre querer e poder viver fazendo o que sempre quis.

Nesse bolo todo assumimos um processo radical de autoria coletiva das imagens, por entender que não é impossivel, no processo criativo da fotografia e do jornalismo, entender qualquer atividade como ação individual. Quando estamos documentando qualquer pauta, chegamos com um ponto de vista que é fruto de nosso contexto, de nossos acúmulos, pesquisas, das relações e raciocínios que desenvolvemos em coletivo a partir de muito debate. A empatia com os fotografados, suas histórias e suas vidas é sempre um encontro de dois mundos, dois grandes indivíduos em diálogo, cada retrato tem 50% do fotógrafo e 50% do fotografado. Ainda, a edição, escolha do material final e difusão envolvem dezenas de outras pessoas. Toda estrutura e sistemas que criamos para financiar esse tipo de empreitada só existe porque muita gente se doa pra aquilo acontecer. Como, então, imaginar uma fotografia, fruto do nosso encontro com o mundo, pertencente a uma pessoa só, sozinha?

Quando nada é de ninguem, tudo é de todos e a gente voa. Parei de assinar individualmente as imagens que fazia e elas começaram a duplicar e triplicar sua capacidade de replicação.

Em 2013 estamos sendo convidados pelos principais festivais de fotografia do País, de norte a sul, para participar ativamente nas mesas e debates com nossa visão, assim como expor nossa produção nas exposições oficiais dos eventos. No longínquo 2011 eu era um frequentador anônimo, desconhecido e acuado desses mesmos espaços.

Mas o que diabos tem a Beatriz Seigner com isso tudo? Em minhas memórias lembro dela assustada, assim como bem descreve em seu post-longa-metragem baseado em fatos reais e em percepções distorcidas. Assustada com a autoria coletiva, assustada com pessoas que preferiam escutar ao invés de sair vomitando opiniões, assustada com gente que não precisa ter um salário pra ser feliz, com um projeto que não tem o artista como um gênio indomável, assustada, enfim, com os diversos paradigmas que um processo forte e necessário como o Fora do Eixo nos obriga a questionar.

Se ela pode vir a publico fazer um relato pessoal sobre o que é o Fora do Eixo eu também posso, com muito mais propriedade de causa. E que se confrontem nossas integridades e lastros de confiança. Desde que entrei nessa sempre coloquei tudo que tenho no processo de forma aberta, todos que me conhecem sabem a seriedade e dedicação que nutro pela rede e tudo que desenvolvemos até hoje. O texto de Beatriz é uma trama roteirizada com inúmeras inverdades – que deixo para serem pontuadas pelos mais analíticos em momento posterior. Cabe aqui a mim uma impressão do lado de dentro, de quem escolheu se envolver e se implicar no processo sem medo de ser feliz ou de se assujeitar.

O papel de vilão que Beatriz cria pra Pablo Capilé é covarde e desonesto. O drama que tenta imprimir ao Fora do Eixo só pode se supor real se partimos do princípio que todos que fazem parte da rede, com excessão de Pablo, são vítimas. Zumbis, mortos-vivos, insensíveis, que não admiram arte, que não tem bom gosto musical e são impedidos por um ente supremo de tocarem seus tambores.Tia, se liga, a gente troca o cineminha de quarta-feira pela incrível sensação de não saber onde vamos estar amanhã. Isso que você chama de previdência social e aposentadoria a gente chama de companherismo, confiança, construção comum, não é uma brincadeirinha de coletivo da faculdade, é uma escolha de vida. E, sinceramente, se tem gente que tá vendo pouco filme porque entende que mudar o mundo exige muito mais do que isso, é porque assim escolheram.

E que a cultura da publicidade lhe seja cara, Beatriz. Porque não dá pra olhar um ataque como esse, com timing perfeito – dois dias depois do maior pico de visibilidade do Fora do Eixo em sua história – com os olhos inocentes de um coletivo em formação. Fora do Eixo e Midia Ninja viraram temas de debate nacional. É certo e esperado que muitos dos que já estiveram perto queiram agora reacender sua luz a partir do brilho que reflete no suor de nossas testas. Faz parte do jogo. Nunca nos importamos em dividir.

E que coragem não falte para que venham mais relatos, e que todos busquem quebrar as máscaras do consenso, como fazemos todos os dias.

#vidaFdE
#midiaNINJA

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