MARCELA GARCIA: Retomada escolar não pode ser jogada política

Retomada escolar não pode ser jogada política

Marcela Garcia

A temática mais falada atualmente sobre educação é o retorno das aulas presenciais, independente dos altos índices de contaminação e morte pelos casos de COVID 19 em nosso país.

Fazendo uma breve retrospectiva deste caminhar, em meados de março desse ano todas a entidades escolares fecharam as portas para as aulas presenciais, mantendo orientações e aulas remotas, a fim de oferecer alguma forma de amparo aos alunos e familiares.

Neste momento, havia muitas mortes, medo e insegurança de todas as partes por não saberem como seria o futuro. Por falta de opção, as escolas precisaram flexibilizar suas finanças, professores tiveram que tornar-se expert em EAD do dia para a noite, alguns pais além de assumirem a responsabilidade escolar, tiveram que acolher pela primeira vez um ser desconhecido 24h por dia, já que a grande maioria vivia apenas recortes dos filhos em casa.

O segmento que mais sofreu economicamente com essa “crise escolar” de origem pandêmica foi o das escolas particulares de Educação infantil. Inúmeras delas foram obrigadas a fechar as portas devido ao aumento de inadimplências e evasões escolares.

Agora, no inicio de setembro, após sete meses do primeiro decreto estadual orientando a pausa nas atividades presenciais em nossa região (Cuiabá-MT), a prefeitura municipal gerou o decreto 8084 de 02/09, autorizando a abertura gradativa de unidades escolares privadas, seguindo as orientações do “Protocolo sanitário de retorno às aulas”.

Este decreto liberou o retorno de 50% das crianças do berçário I, berçário II e maternal I das escolas particulares. Postergando por mais um mês a retomada das séries restantes, tanto da rede privada, quanto da rede pública.

Outras cidades do Brasil já retomaram as atividades, como a cidade de Manaus, que ficou conhecida por ser uma das primeiras a usarem o termo “educação híbrida“, oferecendo serviços online, semipresencial e presencial. Aderindo aos boxes acrílicos, como uma das medidas de proteção, para garantir o distanciamento social das crianças desde a Educação infantil.

A Unicef, preocupada com a situação atual, emitiu recentemente um documento com dicas de apoio, para auxiliar os responsáveis por essa delicada tarefa de zelar pela saúde mental das crianças e adolescentes, neste momento crítico de retorno em meio a tantas exigências, cuidados e mudanças no cotidiano escolar.

Em uma parceria entre a UNESCO, OPAS/OMS e UNICEF, foi gerado um protocolo chamado “Considerações para a medida de saúde pública relacionadas às escolas no contexto do COVID19” no qual constam recomendações de como e quando reabrir as escolas de acordo com cada contexto regional, bem como quais os procedimentos de segurança a serem adotados para que este retorno seja o mais seguro possível para alunos, professores, servidores e familiares.

Outro dado quantitativo apontado pela UNICEF é que meio bilhão de crianças não tiveram acesso a nenhum tipo de educação à distancia.

A ONU traz ainda que 1,6 bilhões ficaram sem a sala de aula em 192 países e que, hoje, 900 milhões ainda estão longe das escolas. Ressalta que nada é mais importante do que a reabertura das escolas, já que esse afastamento prolongado pode causar um impacto devastador na vida de algumas crianças suscetíveis à exploração infantil, prostituição, abusos ou algum tipo de violência emocional ou física.

Mas afirma que, para uma retomada segura, faz-se necessário um alto investimento, por parte dos órgãos responsáveis, buscando desenvolver ações de organização, e, principalmente, repensar novas formas de aprendizado.

Em meio a dados, cobranças, protocolos sanitários e sérias decisões a serem tomadas, estão nossas crianças!

Se essa situação toda já causa desconforto e ansiedade nos adultos, pensem vocês o que nossas crianças estão sentindo, já que suas emoções estão inteiramente ligadas às emoções do seu entorno.

Um dos maiores argumentos de famílias que decidem levar uma criança pequena, de até 4 anos, para a escola é a necessidade de socialização. Se essa necessidade é real, como uma criança que é “puro (con)tato” pode se socializar mantendo distanciamento social dos seus amigos na escola? Como ela se sentirá segura se os próprios professores não estão se sentindo assim?

Alguns índices mostram que uma média de 40% dos professores estão ou convivem com alguém do grupo de risco. Existem, ainda, profissionais classificados nestes grupos, que estão perdendo seus empregos. Quais são as prioridades da escola? Quais são as prioridades das famílias? Qual é a prioridade do governo?

A retomada às atividades escolares não poderia jamais ser uma jogada política ou econômica. Estamos falando de crianças e adolescentes, estamos falando de vidas!

E é justamente por defender a vida e a humanidade que eu, particularmente, não acredito ser o melhor momento e nem o formato adequado para a retomada das atividades escolares. Principalmente para as crianças da Educação infantil, por ainda não terem desenvolvido maturidade para lidarem com as exigências do protocolo de retorno.

Agora, se realmente não houver outra escolha e a família precisar recorrer à escola, é necessário que exista muita responsabilidade e acima de tudo muita transparência entre a escola e a família, a fim de monitorar as possibilidades de contágio. Não basta só a estrutura física estar preparada, a estrutura humana plena de honestidade também precisa estar.

E aqui chegamos no ponto principal dessa conversa, a necessidade urgente de uma reformulação educacional baseada no autoconhecimento, na autoeducação, na autoresponsabilidade e no autodesenvolvimento.

Essa onda ainda nem baixou e a existência de outras já são previstas. Por isso, as escolas terão que considerar a possibilidade de abrir e fechar em determinados momentos. E como nos preparar para esse novo desafio? Como faremos para otimizar nosso tempo com as crianças na escola?

O COVID19 trouxe muitas verdades à tona, dentre elas, a clara percepção de um sistema educacional convencional brasileiro completamente defasado e conteudista. Só que dessa vez online.

Crianças e adolescentes sendo obrigados a ficarem estaticamente frente às telas. E para que?

O que acontece com aqueles que não tiveram acesso às aulas? Existirá reprova mesmo nesse contexto? Como essa desigualdade na aprendizagem será recuperada?

São tantas perguntas que me afligem, e ao mesmo tempo a resposta está mais perto do que imaginamos. Mas, para ter acesso a ela, é preciso desconstruir práticas educacionais limitantes, dando abertura à criatividade, à arte de educar, em sua essência, acolhendo e amparando os sentimentos dos educandos. E, para isso, nós adultos precisamos ter muita coragem!

Escutando o som dos pássaros, ao ar livre, aproveitando a sombra das árvores, a extensão dos parques e praças é que acontece uma das propostas que acredito ser possível para o retorno das aulas de modo saudável.

Essa ideia de “escolas ao ar livre” surgiu em alguns países entre as guerras mundiais, e ainda existem até os dias de hoje, mas agora buscando associar o protagonismo dos educandos com o contato à natureza.

Alguns países já vinham investindo nesse novo horizonte educacional, e agora estão fortalecendo ainda mais essas práticas, que destoam completamente das heranças fabris, observadas em nosso sistema escolar nacional.

Sim! Podemos fazer diferente! As crianças merecem e clamam por isso!

Um dos papéis da escola é promover a saúde dos educandos, acolhendo suas emoções, oferecendo alimentação de qualidade, olhando cuidadosamente para as crianças e adolescentes.

Lembrando que a aprendizagem não se resume aos exercícios e materiais impressos em apostilas ou livros didáticos. Eles de nada valem se tivermos jovens desassistidos emocionalmente e desmotivados para aprender.

Outra possibilidade é o ensino por épocas, separando um determinado número de crianças por educador de matérias específicas, este grupo ficará junto por 4 semanas, só então terão contato com outros professores. Além de limitar o rodízio humano, diminuirá a possibilidade de contágio, já que o grupo se fortalecerá, criando um vínculo de confiança e comunicação. Também vale apontar a preciosa imersão na matéria vida em cada época.

Uma coisa é fato, não dá para continuar acreditando que conseguiremos fazer mais do mesmo só que agora à distância.

Os professores estão desmotivados e alguns adoecendo ao encontrarem pouquíssimas crianças nas aulas remotas, após terem passado horas planejando e produzindo conteúdos online a eles exigidos. O que essas crianças estão desenvolvendo como aprendizado de vida neste cenário? O que estão fazendo essas outras tantas crianças que viraram meros números?

Esse tempo perdido pelos professores deveria ser otimizado preparando atividades direcionadas, criativas, amorosas e vivas. Olhando para as individualidades humanas existentes no grupo, estimulando que as crianças e adolescentes saiam das telas para realizarem as atividades propostas.

Ahhh, meus amigos, são tantas possibilidades que passam pela minha cabeça.

Gostaria de ressaltar o quão valiosa foi essa pausa educacional causada pelo COVID19, já que, por meio dela, diversos temas como “educação e natureza”, “reinvenção das práticas de ensino”, os quais eram pauta entre profissionais que defendem a oferta de uma educação humanizadora, ganharam um holofote considerável, inclusive pela própria UNICEF, que apontou como urgência a “reinvenção da Educação”.

Se pensarmos a construção da Educação como a de uma casa, percebemos que o alicerce chamado Educação Infantil está sendo cada dia mais negligenciado não só pela família, com a terceirização da infância, como também pela escola, promovendo desde cedo uma corrida incansável rumo ao vestibular. E isso vem causando rachaduras nas paredes, as quais podemos denominar de TDAH, TOC, TOD, Autismo, TDA e outras tantas siglas que cada dia mais se fazem presentes no desenvolvimento escolar. Além da desmotivação em estudar, crescente nos educandos desde os anos iniciais.

Para que essa tal reinvenção seja possível, precisamos urgentemente que os educadores se olhem, se encontrem e se empoderem da autonomia de sua prática.

Precisamos de professores que tenham coração sensível, voz ativa e ação fundamentada.

Precisamos de famílias presentes, com consciência, responsabilidade e protagonismo no caminho educacional dos filhos.

Precisamos conversar mais sobre a Educação como caminho para a humanização!

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Marcela Garcia é mãe do Tiê, professora, orientadora pedagógica com base em práticas humanizadoras, como a Pedagogia Waldorf e a Abordagem Emmi Pikler. Publicado originalmente no Blog do Mauro

Categorias:Mora na Filosofia

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