LORENZO FALCÃO – A vernissage da exposição “Irigaray” revela Clovis Irigaray, matogrossense de Alto Araguaia, no seu momento. Explorando e misturando temas como o indigenismo, a sexualidade e a religiosidade mas sempre chocando, provocando… parece que testando as pessoas. Assim é sua arte.

A nova tela apresentada por Clovito não deixa nada a dever. Mas os outros trabalhos de diferentes fases que estão na mostra, certamente de coleções particulares, mostram a força do conjunto de sua obra. Um artista maduro que já está (en)cravado na história das nossas artes

Irigaray
por LORENZO FALCÃO

http://tyrannusmelancholicus.blogspot.com.br/2012/08/irigaray.html

Ver e rever Clovito. O programa é inusitado, afinal foram 10 anos sem nenhuma mostra de seus trabalhos. A vernissage da exposição “Irigaray” revela Clovis Irigaray, matogrossense de Alto Araguaia, no seu momento. Clovito, como é conhecido, por aqui exilou-se de seus pincéis, tinta e telas por dois ou mais anos. Deu um tempo, agora resolveu voltar. E juntou um monte de gente, uns pra conhecer essa figura que usou o próprio corpo de suporte de sua arte contestadora, outros pra ver/conhecer sua obra, outros pelos dois ou mais motivos.

“Esse tempo em que você esteve afastado, você se comportou direitinho?”. Clovito balança a cabeça positivamente com um ar tão irônico, quanto lânguido. Parece não entender direito o significado da pergunta. E o autor da pergunta, réu confesso, também não sabe direito porque perguntou isso.

Há muitos anos Clovito circula por Cuiabá. Nos anos 70 era um símbolo vivo do movimento hippie. Imagina naqueles tempos em que as famílias cuiabanas colocavam as cadeiras nas calçadas à noitinha e mandava ver uma conversa fiada. Imagina o que falavam quando viam um cara esquálido, moreno, cabelos negros, lisos e longos andando de sandálias despretensiosamente pela Cruz Preta… Foi nesta época que ele criou a série de desenhos mais famosa e cobiçada: “Xinguana”. O hiperrealismo de seus trabalhos em pastel mostrava, como uma ficção científica o que iria acontecer num futuro próximo: a tecnologia chegando nas aldeias indígenas, os indígenas estudando, fazendo faculdade. Não, não era ficção. Era premonição.

Tempos depois Clovito começou a interferir na sua aparência. Tatuou o rosto todo, pintou os dentes com violeta genciana, andava e perambulava pelas ruas de Cuiabá em sol maior, vestido de negro, com um manto sobre a cabeça. Figurino sempre inusitado e esvoaçante. Quem mesmo ele se parece? Um arúspice do apocalipse!

Parecia um louco. E claro que sofria discriminações, embora os apreciadores das artes – falamos daqueles que têm um pouquinho a mais de senso estético, nunca negaram a qualidade de sua plástica. Explorando e misturando temas como a o indigenismo, a sexualidade e a religiosidade, às vezes abusando de tons escuros, mas sempre chocando, provocando… parece que testando as pessoas. Assim é sua arte. “O dia que um artista não puder ser extravagante é porque tem algo muito errado”, disse-lhe, e obtive sua concordância de imediato.

Na verdade… aparências, nada mais. Clovito é do bem, nunca fez mal a ninguém.

A nova tela apresentada por Clovito não deixa nada a dever. Mas os outros trabalhos de diferentes fases que estão na mostra, certamente de coleções particulares, mostram a força do conjunto de sua obra. Um artista maduro que já está (en)cravado na história das nossas artes. Revejo num canto da sala onde sua arte tomou conta uma tela pequena, antiga. Onde a feição do artista, envolta em motivos indígenas, chama a atenção pela beleza e serenidade da expressão. Sem dúvida, um autorretrato daqueles desentranhados do túnel do tempo. “Aquele é você, né Clovito?!”… e ele capricha no sotaque cuiabano: “dishque!”.

 

 

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