Livro de Palmério Dória revela como FHC comprou reeleição

 

LIVRO-BOMBA REVELA COMO FHC COMPROU SUA REELEIÇÃO

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Lançado por Palmério Doria, “O Príncipe da Privataria” aborda as contradições do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e desnuda um capítulo ainda obscuro da política brasileira: a compra da emenda que permitiu a sua reeleição, em 1998; o livro revela ainda a identidade do “Senhor X”, que gravou deputados e denunciou ao jornalista Fernando Rodrigues, da Folha, o episódio; trata-se do empresário Narciso Mendes, do Acre, que resolveu contar tudo o que sabia; a obra trata ainda da tentativa de privatização da Caixa, do Banco do Brasil e da Petrobras e também de como a mídia blindou a história do filho de FHC fora do casamento – que, no final da história, não era filho legítimo do ex-presidente

 

30 DE AGOSTO DE 2013 ÀS 06:38

247 – Um livro bombástico chega, neste fim de semana, às livrarias de todo o País. Trata-se de “O Princípe da Privataria”, lançado pelo jornalista Palmério Doria, autor do best-seller Honoráveis Bandidos, sobre o poder da família Sarney, e colunista do 247. Desta vez, o foco de Doria é lançado sobre um dos homens mais poderosos e cultuados do Brasil: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No livro, o autor aborda as contradições do personagem e algumas manchas de sua biografia, como a compra da emenda da reeleição e a operação pesada para blindá-lo na imprensa sobre o filho fora do casamento com uma jornalista da Globo, que, no fim da história, não era seu filho legítimo.Leia, em primeira mão, o material de divulgação preparado pela Geração Editorial, a mesma casa editorial que lançou livros-reportagem de sucesso como Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr., e Segredos do Conclave, de Gerson Camaratti:

O Príncipe da Privataria revela quem é o “Senhor X”, o homem que denunciou a compra da reeleição

Uma grande reportagem, 400 páginas, 36 capítulos, 20 anos de apuração, um repórter da velha guarda, um personagem central recheado de contradições, poderoso, ex-presidente da República, um furo jornalístico, os bastidores da imprensa, eis o conteúdo principal da mais nova polêmica do mercado editorial brasileiro: O Príncipe da Privataria – A história secreta de como o Brasil perdeu seu patrimônio e Fernando Henrique Cardoso ganhou sua reeleição (Geração Editorial, R$ 39,90).

Com uma tiragem inicial de 25 mil exemplares, um número altíssimo para o padrão nacional, O Príncipe da Privataria é o 9° título da coleção História Agora da Geração Editorial, do qual faz parte o bombástico A Privataria Tucana e o mais recente Segredos do Conclave.

O personagem principal da obra é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o autor é o jornalista Palmério Dória, (Honoráveis Bandidos – Um retrato do Brasil na era Sarney, entre outros títulos). A reportagem retrata os dois mandatos de FHC, que vão de 1995 a 2002, as polêmicas e contraditórias privatizações do governo do PSDB e revela, com profundidade de apuração, quais foram os trâmites para a compra da reeleição, quem foi o “Senhor X” – a misteriosa fonte que gravou deputados confessando venda de votos para reeleição – e quem foram os verdadeiros amigos do presidente, o papel da imprensa em relação ao governo tucano, e a ligação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) com a CIA, além do suposto filho fora do casamento, um ”segredo de polichinelo” guardado durante anos…

Após 16 anos, Palmério Dória apresenta ao Brasil o personagem principal do maior escândalo de corrupção do governo FHC: o “Senhor X”. Ele foi o ex-deputado federal que gravou num minúsculo aparelho as “confissões” dos colegas que serviram de base para as reportagens do jornalista Fernando Rodrigues publicadas na Folha de S. Paulo em maio de 1997. A série “Mercado de Voto” mostrou da forma mais objetiva possível como foi realizada a compra de deputados para garantir a aprovação da emenda da reeleição. “Comprou o mandato: 150 deputados, uma montanha de dinheiro pra fazer a reeleição”, contou o senador gaúcho, Pedro Simon. Rodrigues, experiente repórter investigativo, ganhou os principais prêmios da categoria no ano da publicação.

Nos diálogos com o “Senhor X”, deputados federais confirmavam que haviam recebido R$ 200 mil para apoiar o governo. Um escândalo que mexeu com Brasília e que permanece muito mal explicado até hoje. Mais um desvio de conduta engavetado na Era FHC.

Porém, em 2012, o empresário e ex-deputado pelo Acre, Narciso Mendes – o “Senhor X” –, depois de passar por uma cirurgia complicada e ficar entre a vida e a morte, resolveu contar tudo o que sabia.

O autor e o coautor desta obra, o também jornalista da velha guarda Mylton Severiano, viajaram mais de 3.500 quilômetros para um encontro com o “Senhor X”. Pousaram em Rio Branco, no Acre, para conhecer, entrevistar e gravar um homem lúcido e disposto a desvelar um capítulo nebuloso da recente democracia brasileira.

O “Senhor X” aparece – inclusive com foto na capa e no decorrer do livro. Explica, conta e mostra como se fazia política no governo “mais ético” da história. Um dos grandes segredos da imprensa brasileira é desvendado.

20 anos de apuração

Em 1993, o autor começa a investigar a vida de FHC que resultaria neste polêmico livro. Nessas últimas duas décadas, Palmério Dória entrevistou inúmeras personalidades, entre elas o ex-presidente da República Itamar Franco, o ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes e o senador Pedro Simon, do PMDB. Os três, por variadas razões, fizeram revelações polêmicas sobre o presidente Fernando Henrique e sobre o quadro político brasileiro.

EXÍLIO NA EUROPA

Ao contrário do magnata da comunicação Charles Foster Kane, personagem do filme Cidadão Kane, de Orson Welles, que, ao ser chantageado pelo seu adversário sobre o seu suposto caso extraconjugal nas vésperas de uma eleição, decide encarar a ameaça e é derrotado nas urnas devido a polêmica, FHC preferiu esconder que teria tido um filho de um relacionamento com uma jornalista.

FHC leva a sério o risco de perder a eleição. Num plano audacioso e em parceria com a maior emissora de televisão do país, a Rede Globo, a jornalista Miriam Dutra e o suposto filho, ainda bebê, são “exilados” na Europa. Palmério Dória não faz um julgamento moralista de um caso extraconjugal e suas consequências, mas enfatiza o silêncio da imprensa brasileira para um episódio conhecido em 11 redações de 10 consultadas. Não era segredo para jornalistas e políticos, mas como uma blindagem única nunca vista antes neste país foi capaz de manter em sigilo em caso por tantos anos?

O fato só foi revelado muito mais tarde, e discretamente, quando Fernando Henrique Cardoso não era mais presidente e sua esposa, Dona Ruth Cardoso, havia morrido. Com um final inusitado: exame de DNA revelou que o filho não era do ex-presidente que, no entanto, já o havia reconhecido.

Na obra, há detalhes do projeto neoliberal de vender todo o patrimônio nacional. Seu crime mais hediondo foi destruir a Alma Nacional, o sonho coletivo”, relatou o jornalista que desvendou o processo privativista da Era FHC, Aloysio Biondi, no livro Brasil Privatizado.

O Príncipe da Privataria conta ainda os bastidores da tentativa de venda da Petrobras, em que até a produção de identidade visual para a nova companhia, a Petrobrax, foi criada a fim de facilitar o entendimento da comunidade internacional. Também a entrega do sistema de telecomunicações, as propinas nos leilões das teles e de outras estatais, os bancos estaduais, as estradas, e até o suposto projeto de vender a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. A gente nem precisa de um roubômetro: FHC com a privataria roubou 10 mil vezes mais que qualquer possibilidade de desvio do governo Lula”, denuncia o senador paranaense Roberto Requião.

SOBRE O AUTOR

Palmério Dória é repórter. Nasceu em Santarém, Pará, em 1949 e atualmente mora em São Paulo, capital. Com carreira iniciada no final da década de 1960 já passou por inúmeras redações da grande imprensa e da “imprensa nanica”. Publicou seis livros, quatro de política: A Guerrilha do AraguaiaMataram o Presidente — Memórias do pistoleiro que mudou a História do Brasil A Candidata que Virou Picolé (sobre a queda de Roseana Sarney na corrida presidencial de 2002, em ação orquestrada por José Serra); e Honoráveis Bandidos — Um retrato do Brasil na Era Sarney ; mais dois livros de memórias: Grandes Mulheres que eu Não Comi, pela Casa Amarela; e Evasão de Privacidade, pela Geração Editorial.

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LIVRO DIZ QUE FHC “VENDEU O PAÍS PARA COMPRAR SUA REELEIÇÃO”

Eduardo Guimarães
EDUARDO GUIMARÃES, DO BLOG CIDADANIA

“O Príncipe da Privataria”, de Palmério Dória, esmiúça o escândalo da compra de votos de deputados pelo governo Fernando Henrique Cardoso, ao custo de R$ 200 mil por cabeça

 

Há mais ou menos duas semanas, fui convocado para uma reunião com a Geração Editorial, que lançou o best-seller “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que vendeu perto de duas centenas de milhar de cópias e que contou os negócios obscuros de José Serra durante a privatização de empresas públicas no governo FHC.

A editora se preparava para lançar outro livro-bomba que ainda não podia ser divulgado porque, sabe-se lá como, o PSDB havia tomado conhecimento dele e estava fazendo ameaças de processar não só a Geração Editorial, mas também o autor da obra que está sendo lançada e que conta como Fernando Henrique Cardoso conseguiu o seu segundo mandato.

O autor de “O Príncipe da Privataria” é o jornalista e escritor Palmério Dória, que já publicara, pela mesma Geração Editorial, o laureado “Honoráveis Bandidos”, que contém as peripécias de José Sarney em seu feudo eleitoral, o Maranhão.

O livro-bomba de Dória esmiúça o escândalo da compra de votos de deputados pelo governo Fernando Henrique Cardoso, ao custo de R$ 200 mil por cabeça, para votarem a favor da emenda constitucional que lhe permitiu se reeleger. O livro traz à luz um personagem que o jornal que denunciou o escândalo – a Folha de São Paulo, através do então repórter Fernando Rodrigues – nominou como “Senhor X”.

Aquela matéria da Folha de 13 de maio de 1997 tornou público fatos que seriam solenemente ignorados por toda a grande imprensa. O jornal O Estado de São Paulo só tocou no assunto uma vez e, ainda assim, para defender FHC. Abaixo, a matéria que contém entrevista do “Senhor X”, quem denunciou todo o esquema a Fernando Rodrigues.

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FOLHA DE SÃO PAULO

13 de maio de 1997

Governadores do Acre e Amazonas negociaram pagamento a políticos

FERNANDO RODRIGUES

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

As conversas do deputado Ronivon Santiago sobre a votação da emenda da reeleição foram captadas ao longo de vários meses, em diversas oportunidades. Essas conversas ocorreram todas depois da votação do primeiro turno da emenda, em 28 de janeiro passado. Segundo as gravações em posse da Folha, os governadores do Acre, Orleir Cameli (sem partido), e do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL), foram os responsáveis pela compra dos votos de cinco deputados acreanos.

Para não despertar suspeitas, a pessoa que fez as gravações falou sobre assuntos variados. São conversas pessoais, que se arrastam às vezes por cerca de uma hora a respeito de assuntos sem interesse público. Partes das gravações foram condensadas ou suprimidas. Isso foi feito porque a divulgação completa dos diálogos poderia permitir a identificação do interlocutor de Ronivon. A Folha vai preservar o nome do interlocutor de Ronivon. Ele está identificado como “Senhor X”.

A reportagem teve acesso às fitas originais das conversas. As datas e as circunstâncias em que se deram esses diálogos não serão reveladas também para preservar a identidade da pessoa que se dispôs a fazer as gravações. A seguir, a Folha selecionou os trechos mais relevantes. A ordem das declarações é cronológica. Como as conversas ocorreram em dias diferentes, os assuntos muitas vezes se repetem:

*

O negócio

Neste trecho, Ronivon é indagado sobre um suposto pagamento que o governador do Acre, Orleir Cameli, teria de fazer aos deputados federais do Estado -com alguma ligação a aprovação de projetos no Orçamento federal.

O deputado muda de assunto e diz que recebeu apenas R$ 100 mil “agora para a votação”. No final deste trecho, é possível identificar que “a votação” era a da emenda da reeleição.

Ronivon também explica que recebeu R$ 100 mil em dinheiro. E mais R$ 100 mil lhe seriam pagos por intermédio de uma empreiteira, a CM. Essa empresa teria executado uma obra para o governo do Acre e lhe repassaria R$ 100 mil quando recebesse o pagamento do governador Orleir Cameli:

Senhor X – Ele (Orleir Cameli) não pagou nada daqueles do Orçamento de 94, de 95?

Ronivon Santiago – Não. Ele me deu R$ 100 mil… R$ 100 mil agora para a votação. Deu em cheque e em dinheiro. Me deu um cheque. Aí, depois, me deu dinheiro. Eu devolvi o cheque. Me deu R$ 100 mil, em dinheiro.

Senhor X – Para a votação?

Ronivon – É. Mas, dentro daquele negócio. Aí, eu fui e acertei com ele. Eu digo, olha, faz o seguinte: aí tem uma nota para mim, quando eu receber de 400 e poucos mil de um (trabalho) que a firma fez, que é para poder me reter o meu dinheiro. Mas está lá para pagar e até hoje não pagou esse dinheiro. E esse dinheiro que dá para pagar todos esses pagamentos. Estou aguardando.

Senhor X – Mas, me diga uma coisa. Ele não deu 200 mil para cada um?

Ronivon – Mas eu peguei só 100.

Senhor X – E quem foi que pegou?

Ronivon – Não, todo mundo pegou 200.

Senhor X – Todo mundo pegou 200… pela votação?

Ronivon – E eu peguei 100. Mas eu tinha um assunto meu. Que ele ia me pagar isso aqui. Aí ficou pra CM. Aí, eu, né…? Ficou pra CM, porque a empresa que está lá, pra faturar essa nota, que é para poder me pagar tudo. Aí, ficou dentro os meus outros 100. Tô pra receber, ele vai me pagar…

Senhor X – Orleir chegou a dizer a algumas pessoas lá no Acre que os votos tinham sido pagos…

Ronivon – 200 paus.

Senhor X – 200 paus para cada um?

Ronivon – É.

Senhor X – E você, tirou 200?

Ronivon – Só um. Mas eu tenho… vou receber. Está negociado.

Senhor X – O João Maia também recebeu os 200?

Ronivon – Recebeu.

Senhor X – Os 200?

Ronivon – Todo mundo… Osmir, Zila…

Senhor X – Então quer dizer que, nesse caso, na reeleição, tudo o que se votou, isso? Hein? O Inocêncio não lhe arrumou nada de dinheiro, não?

Ronivon – Não. Inocêncio, não.

O cheque sustado

Neste trecho, o deputado explica que a primeira tentativa do governador Orleir Cameli teria sido pagar em cheque. Depois, houve a troca por dinheiro.

O dinheiro só foi entregue na medida em que os deputados se apresentavam e rasgavam o cheque recebido anteriormente:

Senhor X – E aquele cheque? Foi pago?

Ronivon – Foi. Só que veio em dinheiro.

Senhor X – O cheque não foi descontado, não?

Ronivon – Não. Rasgou.

Senhor X – Você rasgou?

Ronivon – Rasguei. Não só o meu, como o do Osmir, da Zila, de todo mundo.

Senhor X – Eu pensava que naquele episódio da reeleição você tinha arrumado mais…

Ronivon – Não. O que tem de mais aí ficou acertado. Ele ligou na minha frente para fazer a nota de 400 e poucos paus. Está lá, está feito. Está autorizado lá, está tudo prontinho lá. Saiu, aí eu pego. É meu. Então, eu não briguei por uns 100 real porque estou vendo que está embutido. A hora que sair a firma me dá, sem problema nenhum.

Senhor X – Quer dizer que o acerto eram 200?

Ronivon – 200 para todo mundo.

Senhor X – E por que que ele desconfiou daquele cheque que eles deram…?

Ronivon – Não, porque ali foi uma jogada. O Amazonino: “Você é tão infantil, rapaz? Vai dar esse cheque para esse pessoal? Pega um dinheiro e leva”. Aí, ele pegou todo mundo e deu a todo mundo em dinheiro. Eu e com o Orleir, nós fizemos um acerto lá que…

Senhor X – Mas esse cheque não foi dado na véspera da votação?

Ronivon – Mas no outro dia ele deu em dinheiro.

Senhor X – Deu em dinheiro?

Ronivon – De manhã, antes da votação aqui à tarde.

Senhor X – Arrumaram esse dinheiro como, hein?

Ronivon – Sei não. Aí você me enrolou (risos).

As dívidas (1)

Aqui o deputado fala um pouco das suas dívidas bancárias. O assunto é recorrente nas conversas.

Neste trecho, são citados o Banco do Brasil e o Banacre:

Senhor X – Mas, Rôni, aquele episódio da reeleição… Você, de qualquer maneira, diminuiu um pouco o seu sufoco, não diminuiu? Pagou os seus negócios de banco, já?

Ronivon – No Banco do Brasil. Todinho, total, não devo nada. Tenho só R$ 10 mil para o dia 10.

Senhor X – E lá no Banacre? Acertou?

Ronivon – No Banacre eu tenho lá, mandei resumir, dá tudinho dá 132. Eu recebi essa nota, entra, já tá autorizado para descontar. Eu negociei através da nota.

O acerto da empreiteira

Aqui, neste trecho, fica mais evidente que parte do pagamento do voto da reeleição seria por meio de uma empreiteira, a CM:

Senhor X – Mas quer dizer que essa nota faz parte…

Ronivon – Faz parte do acerto da CM.

Senhor X – Da CM e dos 100 que faltou lá do acerto lá da reeleição, é?

Ronivon – É. Eu vou até esperar para receber…

Senhor X – Na semana anterior da votação, já tinha ficado acertado que ia ser R$ 200 mil para cada um?

Ronivon – Levei R$ 100 mil só dele. Só isso. Entregou aqui de manhã. Pro cheque, por aquele cheque.

Senhor X – Quer dizer que os outros R$ 100 mil…

Ronivon – Tá dentro do que eu vou receber ainda.

Senhor X – Os R$ 100 mil do voto?

Ronivon – Na semana que vem. Vem dentro do outro, dos 400 e poucos. É só entrar lá, aí desconta tudo, vou descontar meu negócio do Banacre.

Os interlocutores

Ronivon explica agora que houve muita confusão na negociação dos votos. Os governadores do Acre, Orleir Cameli, e do Amazonas, Amazonino Mendes, tiveram participação ativa na montagem da operação, segundo o deputado:

Senhor X – Esse foi um assunto (reeleição) que foi tratado direto com o Orleir?

Ronivon – O caso é o seguinte. Deixa eu te contar. Houve um rolo do caralho. O Amazonino tinha uma jogada aí, pro lado do governo. Finalmente, apareceu o Amazonino. Você está me entendendo? Amazonino, você sabe que é assim, né? Eu, muito vivo, eu fui na hora da reunião -estava o Osmir, estava a Zila, estava todo mundo- eu disse, olha: Amazonino, eu não sabia que era com você a reunião, pra mim era com o pessoal do governo. Mas, já que é você que vai acertar, eu não tenho acerto nenhum com você. Eu tenho com o Orleir Cameli, porque sou fiel a ele até o final. E aqui, o resto da conversa com o Orleir eu fiquei de fora. E fui embora. Ficou Zila lá… Ele chegou… Aí foi um rolo doido: Zila, Osmir… e eu lá fora.

Senhor X – Agora, aquele cheque…

Ronivon – Para todo mundo.

Senhor X – Se vocês não tivessem trocado o cheque por dinheiro, estariam sem receber até hoje?

Ronivon – Estava. Ah, estava. Tranquilo. Não, mas eu acho que não. O Osmir disse que recebeu. Ele disse que pegou o dele.

Senhor X – E o dele foi quanto?

Ronivon – 200. O meu também foi 200.

Senhor X – E João Maia?

Ronivon – 200. Todo mundo foi 200. Só que eu só peguei 100 porque eu tenho um negócio aí. Eu falei pra ele: eu tenho lá para receber que ele vai me fazer (…) para ele passar com os 100 lá dentro.

Dinheiro de Amazonino

Segundo Ronivon, o dinheiro da compra de seu voto teria sido providenciado pelo governador Amazonino Mendes. Aqui, o seu relato:

Ronivon – Mas aí, deixa eu te contar. Quem deu o dinheiro para ele (Orleir Cameli) lá foi o Amazonino. Ele não trouxe nem dinheiro. O problema é o seguinte: o Amazonino marcou dinheiro para dar 200 para mim, 200 pro João Maia, 200 pra Zila e 200 pro Osmir. Você está me entendendo? Então ele foi e passou pro Almir, tsk, pro Orleir. Só que ele foi… Mas no dia anterior ele parece que precisou dar 100, parece que foi pro Chicão, e só deu 100 pra mim.

Senhor X – Ah, Chicão também pegou?

Ronivon – Peeegouuu! Eu não sei de nada. Pelo amor de Deus. Não sei se foi 200. Eu sei que parece que ele prometeu lá… Eu sei que ele tinha de dar 200 pra Zila, 200 por Osmir, 200 pro João Maia e 200 pra não sei quem, e, no finalmente, ele só me deu 100 porque ele teve de deixar 100…

Cehques rasgados

Neste trecho é relatado o episódio em que os cheques de R$ 200 mil foram devolvidos rasgados em troca de dinheiro vivo:

Senhor X – Mas naquela altura vocês já estavam com o cheque… E o cheque era de quem?

Ronivon – Do Eládio (Cameli, irmão de Orleir). Da firma do Eládio lá no Banco do Amazonas.

Senhor X – Mas, quer dizer que o cheque foi cancelado?

Ronivon – Rasgou.

Senhor X – Rasgaram?

Ronivon – Na hora. Aí, eu sei que eu soube depois, já a posteriori, porque ele não me deu, porque eu cheguei por último. Então, ele foi deu… ele tinha acertado um negócio com o Chicão, parece…

Senhor X – Quer dizer que o Orleir quando veio naquele dia, ele não trouxe o dinheiro?

Ronivon – Ele não tinha, não. Zerado. Não. Ele ligou e mandou chamar o Eládio: “Você vem aqui que eu quero acertar uns negócios aqui (…). Você sabe que eu não posso tirar dinheiro. Não posso fazer isso. Você sabe que lá no Acre é difícil. Vou mandar meu irmão, é pessoal. Vocês vão depositar os cheques de 200 paus e vão retirar. Ou, então, vou mandar o Eládio trocar no dia tal”.

Senhor X – E o Eládio veio com o cheque?

Ronivon – Veio. Aí o Eládio veio com o cheque e voltou.

Senhor X – O Eládio veio de Manaus para cá só para entregar o cheque?

Ronivon – Foi.

Senhor X – Aí, saiu cada um com seu cheque na mão?

Ronivon – Cada um com seu cheque na mão.

Senhor X – Aí, quando foi à noite, disseram: “O cheque não presta”?

Ronivon – É… Aí, de manhã cedo ele ligou pra todo mundo e mandou ir lá. Eu fui o único que não cheguei. E ele já tinha conversado com Chicão às 7h30. Mas aí chegou o Osmir, tava lá com a sacola assim… (risos) João Maia com a outra. Aí o Orleir: “Êpa, melhorou esse negócio!” Aí, ele me chamou lá dentro. “Não, não. Tu leva só esses 100 aqui porque depois eu te dou os 100 dentro daquele acerto que tu tem. Aí eu pago tudo dentro daquele pra você tem por lá. Aí, tô aí. O meu foi assim.

As dívidas (2)

É importante notar que esse valor citado pelo deputado (“196 pau”) não se refere apenas ao Banco do Brasil.

A pergunta do interlocutor inclui o Banco do Brasil, mas Ronivon faz um corte abrupto -isso é perceptível na fita de áudio- para dizer que pagou todas as suas contas:

Senhor X – E João Maia? Pagou também todas as contas?

Ronivon – Não sei. Aí, eu não sei. Eu só fiquei a Caixa um pouquinho.. Ah, eu tô no BRB também, mas é pouquinho.

Senhor X – Mas você pagou, você pagou, o Banco do Brasil…

Ronivon – Numa porrada só.

Senhor X – Logo? Na mesma hora?

Ronivon – Não… Na semana passada… Na semana passada (risos). Sou leso? Não, isso foi tudo na semana passada… Deixei assentar a poeira. Fui lá e negociei. Paguei 196 paus.

Senhor X – 196?

Ronivon – Pau! Os meus cheques sem-fundos tudinho. Eu tive que arrecadar esses cheques tudinho. Paguei, só de cheques aí deu 46 mil de cheques. Em Rio Branco tinha seis.

Senhor X – A reeleição lhe salvou, né?

Ronivon – Ôô!

Senhor X – A reeleição.

Ronivon – Eu me protejo, rapaz…

Os pagamentos

A seguir, mais detalhes sobre os pagamentos pela reeleição e quem seriam os deputados que receberam, segundo Ronivon Santiago.

É curioso que em um trecho anterior Ronivon diz ter sido o único a receber apenas R$ 100 mil. Os outros colegas do Acre teriam embolsado R$ 200 mil. Nesta parte da conversa, entretanto, ele afirma que o deputado João Maia (PFL) também teria recebido só R$ 100 mil:

Senhor X – Na véspera da reeleição… aquele dinheiro que foi chegando lá e seus colegas estavam saindo com ele na sacola, ali tinha R$ 800 mil. Eram R$ 200, R$ 200, R$ 200, R$ 200. E na hora ‘H’ saiu R$ 200, R$ 200, R$ 200, R$ 100 e R$ 100. Você e o João Maia que receberam R$ 100?

Santiago – João Maia só pegou R$ 100 também.

Senhor X – E ele já completou os outros R$ 100?

Ronivon Santiago – O João Maia, não.

Senhor X – Também não?

Santiago – Eu acho que não, não sei. Não perguntei. Só vi o meu… Eu não sei. Eu sei o meu.

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Voltando ao presente, o livro de Palmério Dória traz à luz o “Senhor X”. Trata-se do acreano Narciso Mendes, de 67 anos. Mendes usou um gravador emprestado por Fernando Rodrigues para gravar conversas de deputados federais que foram subornados pelo ministro das Comunicações de FHC, Sergio Motta, para aprovarem emenda constitucional que permitiu a Fernando Henrique Cardoso disputar a própria sucessão, em 1998.

Dória, dono de um estilo literário que prende o leitor da primeira à última página do livro – que este blogueiro já leu, pois recebeu um “boneco” da obra encadernado com espiral em papel tamanho ofício –, define, em uma frase, a verdadeira “grande obra” de FHC: “Vendeu o país para comprar a própria reeleição”.

“O Príncipe da Privataria”, pois, chega às livrarias nesta sexta-feira, 30 de agosto de 2013. Sugiro que você, leitor, corra para buscar o seu porque a primeira edição já está praticamente esgotada e, também, porque o PSDB já promete fazer tudo para censurar um livro que desnuda Fernando Henrique Cardoso dos pés à cabeça.

 

FONTE BRASIL 247

Categorias:Jogo do Poder

1 Comentário

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  1. - IP 177.132.242.16 - Responder

    SR PALMERIO, GOSTARIA DE SABER COMO ANDA O PROCESSO QUE A VIUVA DO GOV. DANTE MOVE CONTRA O SR.
    ANDOU OU PAROU?

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