ADVOGADO LENINE PÓVOAS: “No que tange a cultura local, basta passear pelas cidades mais tradicionais de Mato Grosso que restará perfeitamente evidenciado que essa foi esquecida, abandonada e menosprezada, mesmo porque ou a atual classe política desconhece-a ou, simplesmente, têm interesses estranhos ao da população mato-grossense”

Lenine Póvoas é advogado, neto de Lenine Póvoas, que marcou a história de nosso Estado como professor na Universidade Federal de Mato Grosso, membro do Instituto Geográfico e Histórico de Mato Grosso, deputado estadual por dois mandatos, inclusive constituinte, fundador, ministro (hoje conselheiro) e presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso,e vice-governador do Estado de Mato, Chefe da Casa Civil, Secretário de Administração, fundador e presidente da Fundação Cultura (hoje Secretaria de Cultura),  membro da Academia Mato Grossense de Letras, casa esta que presidiu por mais de 10 anos, onde ocupou a cadeira n.° 33, historiador e autor de mais de 30 obras em que documentou a História de Mato Grosso

Lenine Póvoas é advogado, neto de Lenine Póvoas, que marcou a história de nosso Estado como professor na Universidade Federal de Mato Grosso, membro do Instituto Geográfico e Histórico de Mato Grosso, deputado estadual por dois mandatos, inclusive constituinte, fundador, ministro (hoje conselheiro) e presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso,e vice-governador do Estado de Mato, Chefe da Casa Civil, Secretário de Administração, fundador e presidente da Fundação Cultura (hoje Secretaria de Cultura), membro da Academia Mato Grossense de Letras, casa esta que presidiu por mais de 10 anos, onde ocupou a cadeira n.° 33, historiador e autor de mais de 30 obras em que documentou a História de Mato Grosso

Falecimento cultura anunciado

POR LENINE PÓVOAS

 

Ao darmos uma visualizada geral no cenário político mato-grossense notamos que um grande número de pessoas que ocupam os cargos de maior relevância no Poder Legislativo e no Poder Executivo pertencem a outros Estados. A razão do artigo se deve ao fato de se querer abrir um diálogo para compreender, refletir e avaliar os efeitos culturais e sociológicos desse fenômeno.

Nas décadas de 60 e 70 o Estado de Mato Grosso sofreu enorme migração, principalmente de pessoas oriundas da região sul do país, sendo que boa parte desses indivíduos adquiriram terras no Estado, o que acabou culminando na explosão do agronegócio anos depois.

Há muito mérito na visibilidade de grandes empresários que conseguiram enxergar o enorme potencial da nossa região, não se olvidando ao enorme trabalho que tiveram para iniciar esforços de grande envergadura nos rincões do Brasil.

Hoje em dia é sabido que o que sustenta a economia local é o agronegócio, que, aliás, tem a maioria de sua propriedade restringida nas mãos de pessoas sulistas.

Ao se analisar política num cenário amplo, é perfeitamente “normal”, no atual grau de percepção e maturidade da sociedade, que após um grupo dominar a economia de determinado local, o próximo (e natural) passo é a conquista do Poder Político, ainda que esses cidadãos sejam desprovidos de formação histórica, política, filosófica, sociológica e outras bases que preparam o individuo com o perfil adequado parar exercer a função de líder na atividade pública. A história da humanidade está repleta de exemplos neste sentido.

Nessa toada, não se pode perder de vista que frequentemente esses candidatos não têm o mínimo de capilaridade com a população e cultura local, sendo que muitas vezes sequer têm serviços prestados a sociedade.

De outra banda, diante do enorme poderio econômico desse grupo para a realização de campanhas eleitorais (inclusive comprando a elite intelectual), o que, indubitavelmente, desiquilibra qualquer certame, acaba-se gerando um ciclo vicioso no corpo político do Estado, mesmo porque as mesmas figuras ou os seus prepostos acabam por serem eleitos e/ou ocupam os mais importantes cargos de confiança, razão pela qual cada vez mais a população local fica afastada do Poder Público e dos propósitos dos misteres da política, deslegitimando a representação popular e agravando o já tão calamitoso divorcio entre a atividade política e a participação popular.

“ uma vez (…) se tenha tornado dominante, todo o poder público passa para a suas mãos; os seus amigos particulares ocupam todos os empregos e dispõem de todas as forças organizadas.
[ ALEXIS DE TOCQUEVILLE – A Democracia na América – p. 149 ]

Em outro cenário, de grande relevância destacar que parte da população mato-grossense deu abertura para isso, razão pela qual possuí parcela de responsabilidade, sobretudo diante da sua inércia, ausência de preparo, informação e malícia das virulências do jogo político.

No que tange a cultura local, basta passear pelas cidades mais tradicionais do Estado que restará perfeitamente evidenciado que essa foi esquecida, abandonada e menosprezada, mesmo porque ou a atual classe política desconhece-a ou simplesmente têm interesses estranhos ao da população mato-grossense.

Neste ponto, não poderia deixar de arrematar os grandes valores culturais que preenchem de brilho os olhos de quem conhece a história de Mato Grosso, aqui me refiro as personalidades ilustres que mesmo saindo de um Estado isolado ganharam repercussão, dos hábitos marcantes que registram as dificuldades, honradez e cotidiano do nosso povo, das nossas lutas e conquistas irrigadas com muito sangue e suor, enfim, de tudo aquilo que nós faz sentir verdadeiramente orgulho de sermos oriundos dessa terra tão acolhedora e carismática.
Infelizmente não tenho vislumbrado um quadro favorável para a mudança deste cenário, na medida em que boa parte do povo mato-grossense se omite na disputa de certames eleitorais por inúmeras razões, sendo um dos grandes e relevantes motivos a inviabilização de se enfrentar o enorme poder econômico e uso da máquina administrativa, ambos já dominados por pessoas estranhas a cultura do Estado, o que acaba por gerar desespero (ao conscientes) e tristeza (aos que amam a nossa terra e cultura).
Noutro giro, tem-se visto personalidades que jamais pisaram em Mato Grosso receberem homenagens em nosso Estado. Ouvimos gritos ululantes da cultura local quando pessoas que dedicaram a vida ao nosso povo não terem os seus nomes e feitos sequer registrados em singelas placas, o que indelevelmente levará ao desaparecimento da verdadeira história e vultos importantes desse rincão brasileiro. Há ainda inúmeros nomes da cultura e política mato-grossense que jamais foram contemplados em Ruas, Monumentos e outras obras, à mercê de fenômenos como “Rua 1”, “Rua A”, dentre outros vários exemplos.
Neste tópico, insta salientar que a ausência de investimento em educação, incentivos a programas culturais, desejo de mudança e enfretamento da população local acabam por enterrar qualquer alternativa de retorno do nosso povo as rédeas do Estado ou ainda que de pessoas com propósitos atrelados ao do povo mato-grossense. Neste sentido, já dizia meu saudoso avô, de quem tive a honra de herdar o nome:

Lenine Póvoas, historiador cuiabano

Lenine Póvoas, historiador cuiabano

Se fizermos uma análise na história política do país vamos ver, com clareza meridiana, que o poder econômico sempre se fez sentir de maneira decisiva nas eleições que se processaram no país, em todos os níveis e em todos os tempos.
(…)
Se investigarmos a história da política de Mato Grosso vamos ver que o mesmo fenômeno aqui se repetiu. A Constituinte estadual de 1891 foi marcada pela presença de vários magnatas da borracha; a de 1935 pelos usineiros de açúcar e a de 1947 pela dos criadores de gado, mau grado ainda a presença de alguns remanescentes da força eleitoral dos industriais do açúcar.
Essa influência do poder econômico, que se manifesta como uma constante na vida política brasileira, tende a se tornar mais profunda nos futuros pleitos.
Já vaticinei, há alguns anos passados, que a política nacional iria se tornar, dentro em breve, uma réplica perfeita da dos Estados Unidos da América do Norte (…) ali estão Senadores e Deputados eleitos sob uma ou outra dessas legendas (republicanos ou democratas), mas que são, de fato, representantes do ‘Grupo do Aço’, do ‘Grupo do Petróleo’, do ‘Grupo dos Frigoríficos’, do ‘Grupo do Carvão’ etc.
Para isso é que o Brasil está caminhando, se não tomarmos urgentes providências para mudar o rumo dos acontecimentos do país.”
[ LENINE PÓVOAS – Na Tribuna da Imprensa – .p. 29, 30 e 31 – Cuiabá/MT]
Não há nenhum problema no fato do Poder Público ou instituições serem dirigidas por cidadãos de outros estados, desde que esses indivíduos tenham comprometimento com a população local, sobretudo no que tange a cultura.
Neste cenário, é inegável a premente necessidade de resgatarmos os nossos ricos valores culturais, que sangra, e parece-me que o nosso povo se nega a visualizar isso…
A mistura de hábitos pode gerar perspectivas promissoras, mas isso não pode ocorrer de maneira excludente e segregacionista com o povo primitivo, mesmo porque parece-me que uma nova cultura está nascendo, todavia, é inadmissível que isso signifique o desaparecimento dos costumes e histórias dos nossos conterrâneos.
Em último tópico, ao comentar com amigos o teor do presente artigo, fui indagado se não tinha receio de possíveis represálias, respondi que o medo e ausência de enfrentamento foram fatores que nos levaram a marchar nesta direção, e deveriam ser superados, tendo ainda alertado que na minha concepção a vida só vale a pena se for para brigarmos por aquilo que acreditamos e achamos correto, sendo que se for para nos omitirmos, talvez seja ora de refletirmos, mesmo porque ela passa, e passa muito rápido, e o que restará serão apenas as reminiscências culturais.
Como cuiabano de família de outrora, aqui vai um dever com a minha consciência.
LENINE PÓVOAS é advogado.
[email protected]

2 Comentários

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  1. - IP 187.24.237.65 - Responder

    Permita-me algumas considerações. Quanto aos atributos que V.Sa. reputa adequados ao exercício da função pública (formação histórica, política, filosófica, sociológica), importa dizer que o legislador constituinte não fez qualquer exigência nesse sentido, e justamente aí reside, a nosso ver, a maior virtude da Democracia, qual seja, propiciar que os menos favorecidos, que não tiveram acesso à educação, sejam alçados à condição de representantes da sociedade, pela vontade popular. Num país que não investe sequer em educação de base, ecoa surreal e discriminatório exigir que pretensos candidatos ostentem o currículo eleito por V.Sa. como legitimador do exercício de mandato. Demais disso, o que dizer de Demóstenes Torres e outros tantos graduados, titulares de brilhantes currículos?!!! Probidade e liderança política não se adquire em bancos de caras faculdades, são atributos que prescindem de histórico escolar; pertinem muito mais à boa índole, à simpatia, à humildade e à vontade de trabalhar, do que ao discurso polido. Relativamente à nossa rica cultura, também vejo com tristeza a falta de investimentos no resgate de nossa história. Ilustres personagens, cujas vidas se confundem com a própria história de Mato Grosso, serão possivelmente desconhecidos de gerações futuras. No entanto, atribuir essa deficiência à naturalidade de uns poucos políticos afigura-se-nos demasiadamente equivocado. Nos últimos anos ocuparam as pastas de cultura estadual e municipal pessoas que, a despeito de naturais de outros Estados, não são em absoluto indiferentes – ou como prefere, estranhas – à nossa história. Cito como exemplo Mario Olimpio, Clovis Rezende, dentre outros. A propósito de sua constatação sobre “as cidades mais tradicionais do Estado”, necessário registrar que os municípios de Poconé, Livramento, Barão de Melgaço, Cáceres e outros tantos, foram, nas últimas décadas, administrados, em sua grande maioria, por mato-grossenses, muitos deles, inclusive, correligionários de atuantes Deputados Federais, Senadores, Governadores, Dantes de Oliveira e Anteros Paes de Barros, e igualmente avançaram pouco no resgate de nossa história. Nossa cultura pede socorro. Todavia, a problemática envolvendo esse empobrecimento de raiz, penso eu, demanda uma análise menos simplista e livre de paixões que apenas promovem a segregação. Nesse particular, aliás, vejo em V.Sa. um exemplo singelo, porém inequívoco do abandono – as vezes involuntário – das próprias origens: num passado não muito distante V.Sa. se identificava como Lenine P. de Abreu; passados os anos dourados, sua assinatura passou a contemplar apenas seu nome do meio, o conhecido “Póvoas”, sua meia-história de vida. Que tal começar o resgate primeiro em sua própria identidade?!!!

  2. - IP 177.4.189.130 - Responder

    “É fácil fazer o quadro geral da janela de um arranha-céu”

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