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Com palestras e voluntariado, juiz criminal Abel Balbino, de Várzea Grande, continua defendendo que "A Justiça é a Esperança"

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O juiz Abel Balbino está há 12 anos à frente da Quinta Vara Criminal de Várzea Grande


O Poder Judiciário de Mato Grosso proporcionou uma manhã de sábado (30 de junho) diferenciada para funcionários da Escola Estadual Maria Macedo Rodrigues, localizada no bairro Mapim, em Várzea Grande. Atendendo solicitação da direção do colégio, o juiz Abel Balbino Guimarães, da Quinta Vara Criminal da Comarca, proferiu a palestra Direitos e Deveres Constitucionais, que faz parte do projeto A Justiça é a Esperança.
A atividade foi realizada dentro da própria escola e contou com a participação de aproximadamente 40 educadores, entre professores, agentes de pátio, merendeiras, responsáveis pela limpeza, coordenação e direção. A ideia é transformar os funcionários em multiplicadores das informações que devem ser repassadas aos 872 alunos da instituição, como prevê o projeto da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) denominado Sala do Educador.
Doze anos a frente da Quinta Vara Criminal, o magistrado Abel Balbino orientou os participantes sobre a sua atuação dentro do Poder Judiciário, apresentando ainda números atuais sobre o sistema prisional do Estado, Brasil e alguns países. Destacou que nos últimos anos o número de prisões aumentou e a violência também, demonstrando que a segregação não diminui a criminalidade. Por isso, aposta na educação como forma de melhorar a situação que vivemos. Lembrou que segurança e educação são direitos e deveres de todos. “A educação é a saída para minimizar os índices de prisões e violência”.
Voluntária no projeto A Justiça é a Esperança, Josilaine Dias explica que a palestra é realizada diante de convites. “Antes, tínhamos convênio com a Secretaria de Educação. Agora, vamos quando somos convidados”, afirma, apontando que a iniciativa da diretoria da Escola Estadual Maria Macedo Rodrigues é excelente, uma vez que tenta resolver o problema dentro da própria escola. “Quando o educador consegue identificar a necessidade de uma interferência e se antecipa, buscando medidas de prevenção ou solução, está a frente. Mostra que está ciente e antenado a sua realidade”.
Conforme o diretor Mauricio Manoel dos Santos, a solicitação de palestra ao Poder Judiciário teve relação com a falta de informação e conhecimento sobre direitos e deveres. “Nada melhor que uma autoridade como o juiz Abel Balbino para nos esclarecer as dúvidas. Ficamos muito felizes com a disponibilidade imediata para atender nosso pedido. Todos os funcionários da escola participam, porque independente da função, todos somos educadores e temos a missão de repassar o conhecimento aos alunos”.
A agente de pátio Maria de Fátima e Silva aprovou a iniciativa da escola e a disponibilidade do magistrado. “Muito boa a palestra. Toda qualificação mostra que estamos em busca de melhorias para o colégio, alunos e para nós mesmos. Muito interessante a preocupação do diretor em convidar o juiz e fico bem satisfeita com a presença do magistrado na escola”.
Projeto – Josilaine afirma que a proposta do A Justiça é a Esperança é apresentar mecanismos para solucionar problemas. “Nós damos a orientação para que a pessoa tenha capacidade de resolver os problemas, garantindo a independência e valorização individual. A pessoa com auto-estima resgatada e bem orientada tem a capacidade para buscar soluções”, pontuou. O projeto visa ainda despertar a consciência social e moral para praticar justiça como virtude. “Quando falamos em justiça é no sentido de ser justo com o próximo e consigo mesmo”.
fonte COORDENADORIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO TJMT

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SEBASTIÃO CARLOS: Profeta canonizado em vida, Pedro Casaldáliga, como poucos, levou até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo

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Sebastião e Pedro18

Profeta e poeta – I

POR SEBASTIÃO CARLOS

Às mais de cem mil mortes provocadas pela terrível pandemia, que cresceu auxiliada pela desídia do poder, se junta uma que, embora não diretamente ligada, potencializa a emoção. Ao sofrimento de tantas famílias enlutadas, o manto negro da dor cobre a nossa História nacional. Às 09h40min do sábado (8) partiu em definitivo da vida terrena um profeta e poeta. Profeta canonizado em vida que, como poucos, levaram até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo. Poeta instigante, combativo, de vibrante telurismo que fez dos versos livres um canto perene em busca da Justiça e a serviço da Liberdade. Nos versos, via o Evangelho, no Evangelho encontrava a poesia. A voz era mais forte que o corpo magro e frágil e a presença física tornou-se mais imensa que a floresta em que habitava e defendia. Assim era Dom Pedro Casàldaliga. Mais que Dom Pedro, Pedro simplesmente como apreciava. Mais que bispo, irmão dos deserdados da Terra.

Pere Maria Casaldàliga i Pla nasceu na pequena localidade de Balsareny, região nordeste da Espanha, pertencente à Província de Barcelona, Comunidade Autônoma da Catalunha. Balsareny é um município com área inferior a 40 Km2 e que em 2018 tinha menos que 4 mil habitantes. De família de agricultores pobres, em 1943 ingressou na Congregação Claretiana e em maio de 1952 foi ordenado sacerdote. Nos anos seguintes lecionou e foi assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris. Em 1968, o ano do AI 5 e do inicio do endurecimento do regime militar, o padre Pedro Casaldàliga, já adaptando o primeiro nome ao português, chega ao Brasil. Vinha para Mato Grosso. Missionário, fundaria uma missão claretiana às margens do Araguaia.

E foi então que, estudante de História na Universidade Federal de Goiás e militante estudantil em Goiânia, fui conhecê-lo na Paroquia São José Operário, no Setor Oeste, na querida capital de Goiás. Eram anos de intensa movimentação estudantil e política, que a idade estimulava o idealismo e o consequente radicalismo politico. O padre espanhol, franzino e elétrico, com voz firme, falando em politica, no sofrimento dos pobres da Amazônia com os quais dividia a luta diária e brandindo poemas flamejantes logo conquistou o pequeno grupo de jovens universitários goianos com os quais começou a manter contatos. No ano seguinte, Paulo VI o nomearia bispo prelado e administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia, sendo sagrado bispo em 23 de outubro de 1971.

Daí para frente a relação com os poderosos da região e com a ditadura militar iria se tornar cada vez mais difícil e ácida. Combativo, contundente, compromissado até o cerne com os desvalidos da terra, num desafio desabrido, num permanente profetismo missioneiro e, digo, quase místico, Casaldàliga se agigantou entre as forças que se opunham à ditadura militar. Destacou-se também como defensor de índios, tendo sido um dos fundadores do CIMI – Conselho Indigenista Missionário que, mais que em anos anteriores, estavam sendo empurrados cada vez mais para o sertão imenso até serem encurralados e se encontrarem em face da doença, da miséria total, da morte. Também co-fundador da CPT – Comissão Pastoral da Terra, que atuaria destemidamente em favor dos posseiros.

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A tríade implacável constituída por latifundiários, garimpeiros, policia, sempre apoiada, acintosamente ou não, por políticos e governos presenciou a um Casaldàliga enfrentá-los com destemor. A região era de extrema marginalização social, extensos latifúndios, alto grau de analfabetismo e muitos conflitos pela terra, onde os assassinatos e os desaparecimentos de desafetos eram o instrumento usual.

O bispo do Araguaia esteve entre os militantes da Teologia da Libertação, que então dividia a Igreja, e ao lado de um grupo de padres, bispos e arcebispos, entre os quais o corajoso Dom Tomás Balduíno, bispo da antiga capital de Goiás, e a quem tive o prazer de conhecer de perto, arrostou os conservadores da Igreja, enfrentou os poderosos da região e desafiou a ditadura militar.

As ameaças de morte lhe eram constantes e não raro estiveram muito próximas da concretização. Em 11 de outubro de 1976, Casaldàliga e o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier [12/06/17 – 12/10/76] passavam por Ribeirão Cascalheira. Visitavam os moradores quando populares os procuraram para denunciar que duas mulheres estavam sendo barbaramente espancadas na delegacia de policia. Os gritos desesperados eram ouvidos na rua. Tal fato não era incomum. De imediato, os dois sacerdotes acorreram ao local.

Tem então inicio uma forte discussão com os policiais. Inesperadamente, Pedro é brutalmente empurrado e Burnier agredido com coronhadas e na sequencia alvejado com um tiro na nuca. A comoção é geral. O jesuíta é transferido para Goiânia e lá falece no dia seguinte. Terminada a missa de sétimo dia, a população segue em passeata até a delegacia, liberta todos os presos e coloca fogo no prédio. Nesse local seria erguida uma capela. Os policiais nunca foram punidos. Nenhuma novidade nesse desfecho. Com a redemocratização, o “caso do Padre Burnier” foi apresentado à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça para que o reconhecesse como crime político. Mas em abril de 1997 o requerimento foi indeferido. Somente em 25 de novembro de 2009, trinta e três anos depois, o CEMDP reconheceu a responsabilidade do Estado Brasileiro pela morte, sendo, pois definido como crime politico.

Aqueles foram os anos duros da repressão politica e social. Os anos de chumbo. A violência no quotidiano era acobertada por poderes maiores. Tudo e todos que, de alguma forma, pudesse ser apodado de “comunista” “precisavam ser castigados”. O bispo catalão – matogrossense não estava excluído desse rol nefasto. Em cinco ocasiões, o Governo, por instancia do Conselho de Segurança Nacional, abriu contra ele processos de expulsão do país. O bravo arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, em diferentes ocasiões saiu publicamente em sua defesa, mobilizou a ala progressista da Igreja e, por fim, o próprio Vaticano fez gestões diretas, o que impediu o prosseguimento da ação expulsória. A ditadura também temia um desgaste maior para a sua imagem no exterior. Ainda assim, a situação do prelado do Araguaia estava periclitante tanto que quando o pai faleceu ele desistiu de ir à Espanha para a despedida final pelo temor de ser impedido de retornar.

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A ação solidária de Casáldaliga para com os esquecidos da terra e o seu espirito intrépido e desafiador muito incomodavam os poderosos numa época em que o silêncio e o acocoramento moral a que muitos se entregaram era o mais conveniente. Não por outros motivos foi logo denominado de “subversivo”, de “padre vermelho”, enfim, de comunista. Ele se juntava então ao rol de um punhado de curas e prelados brasileiros. A verdade é que a crença profunda no Evangelho e a exigência ética existencial dessa fé originária permitia a esses bravos cristãos adotar como suas, tal como Pedro o fez, uma citação atribuída à aquele que, por muitos anos, foi o símbolo da resistência católica no Brasil. Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”. E assim era, porque não se pode confundir a verdadeira solidariedade como uma forma de caridade. Nesse conceito, não se trata de consolar a alma do caridoso, mas de buscar a Justiça dos justos.

Em 1971 fui realizar estudos em Madrid. Recebi de Casàldaliga o endereço dos Claretianos na capital espanhola e ele insistiu para que os procurasse. Lá, entre tantos, conheci e me tornei amigo do padre Benjamin Forcano, que anos depois se tornaria um importante teólogo, igualmente ligado à Teologia da Libertação. Nesse ano, Forcano havia lançado seu primeiro livro, ¿Amor y natalidad en conflicto? [Valencia, 1971], que me presentearia autografado. Era um dos articulistas mais destacados, depois diretor, da revista Missión Abierta, que acolhia os pensadores irmanados pelo Concilio Vaticano II.

Posteriormente dirigiria a revista Êxodo e anos depois o editorial Nueva Utopia. Todas publicações que se colocavam na dianteira do pensamento católico europeu, engajados na linha do aggiornamento empreendida pelo grande pontífice João XXIII. Tive a alegria de, por suas mãos, e ainda nos meus vinte e poucos anos, conhecer uma plêiade de pensadores cristãos de vanguarda. Em todos eles testemunhei uma admiração, quase reverencial, por D. Pedro Casáldaliga e enorme curiosidade em saber como ele vivia e como agia o regime militar. Os espanhóis viviam os estertores do regime franquista.

Pedro Casaldàliga não foi somente o militante do Evangelho, o homem que levou às ultimas consequências práticas as palavras do seu Salvador, porque poucos como ele souberam ser tão fieis ao lema que elegeu para seu serviço pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”. Poucos foram, como ele, um verdadeiro Homem de Cristo, na vivencia mais profunda da mística evangélica. Ele exercitou até as ultimas consequências a denúncia arriscada e temerária, deu o seu testemunho corajoso e realizou a profecia cristã aqui mesmo na Terra. A sua figura mística se agiganta e encarna uma espiritualidade que configura o verdadeiro anunciar do Sermão da Montanha.

Mas o catalão foi também poeta e, por extensão, historiador, sociólogo, antropólogo, ecólogo.

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador em Cuiabá, Mato Grosso.

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