JOSÉ ORLANDO MURARO: Finalmente sei que sou portador da Síndrome de Asperger… estou livre do peso de mim mesmo…. Hoje, aos 57 anos, sei quem sou e porque sou assim. Sofro de uma síndrome….e tenho que conviver com isto. Não vou deixar a sociedade envolvente me destruir, como fez com Belchior…. Vou enfrentá-la, como fez Newton, o mais conhecido dos portadores desta síndrome.  

josé orlando muraro, advogado e morador da chapada dos guimarães, mtApenas um corsário cerebral

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

 

 

 

 

Quando saía do pequeno apartamento, ela me entrega  um pedaço de papel escrito: Síndrome de Asperger.

-Pronuncia-se asperguer…é um nome alemão…

Na rua, fico pensando por qual caminho volto para casa. Decido-me por um roteiro para atingir a ponte Sérgio Mota…preciso ver o Rio Cuiabá…

Meu cérebro- prisioneiro, passou 57 anos escrevendo na óssea parede interna do meu crânio a mesa palavra: por que? Por que?

Meus olhos, as toscas janelas da minha prisão, pela qual meu cérebro tudo avistava, mas nada entendia…

Prisioneiro de mim mesmo. Acuado. A mesma frase dita de duas formas; A primeira, como elogio: –  é louco, mas extremamente inteligente.

A outra forma, totalmente depreciativa: inteligente demais, mas completamente louco….

Mas a frase sobre mim, a que mais me marcou, foi dita pelo senhor Olívio Gonçalves, pai da primeira esposa. Quando disseram que eu era muito inteligente, ele retrucou. – Tão inteligente e trabalhando de saqueiro na Arcopam? Então, de que adianta dente bom em boca de cachorro???

Caminhei pela Miguel Sutil e Carmindo de Campos, e pela Jaques Brunini atingi a Beira-rio…. avistando o leque formado pelos tirantes da ponte suspensa…

De que adianta dente bom em boca de cachorro? De que te adianta ser inteligente, mas não conseguir se relacionar com a sociedade envolvente, com as pessoas, ditas, tidas e havidas como “normais”…?

Correndo, parei bem no meio da ponte e olhei em direção ao Morro de Santo Antonio, rio abaixo. Puxei o zíper do meu couro cabeludo, destampei calmamente o topo do meu crânio e dele retirei meu cérebro-prisioneiro, que pela primeira vez em 57 anos, estava livre…

Coloquei-o em uma caixa de madeira e  lancei no rio….e fiquei ali parado, sonhando por  tantos e quantos lugares em que meu  cérebro-prisioneiro haveria de navegar, até atingir o Rio Paraguai, o Paranazão e atracar suavemente nas areias claras de Punta Del Este, no Uruguai.

Finalmente sei que sou portador da Síndrome de Asperger… estou livre do peso de mim mesmo….

Calmamente retirei da mochila da infância, o outro, o de um corsário cerebral. Tampei o crânio e puxei o zíper do couro cabeludo….

Uma síndrome comportamental, com fortes traços de hereditariedade… A incapacidade de se conduzir dentro dos padrões aceitos como normais pela sociedade envolvente….comportamento inadequado…. a incapacidade de se relacionar com as outras pessoas….. sempre solitário e distante…..

Hoje é classificada como uma espécie de autismo brando…mas que pode degenerar em esquizoidia ou esquizofrenia, dependendo da pressão aplicada no portador desta síndrome….

O cantor Belchior é o caso mais típico do portador da síndrome de Asperger… e que destruiu completamente um dos maiores compositores deste país. Sem poder se relacionar dentro da normalidade, sem conseguir trabalhar e conviver com toda a pressão de um sucesso musical avassalador, ele foi sendo acuado por pessoas, compromissos e dívidas. Hoje encontra-se com dois mandatos de prisão em aberto, caçado como um animal, fugindo à todo momento, Belchior cada vez mais mergulha no precipício da loucura… é o caso mais cruel do quanto um portador da síndrome de Asperger pode ser escorraçado e maltratado pela sociedade envolvente…

Não tenho mais o cérebro-prisioneiro, eis que o mandei para Punta Del Este….hoje reassumo a condição de corsário-cerebral, livre para navegar por páginas e mais páginas de livros, sites da internet….. imaginar, estudar e pesquisar todos os assuntos, os  mais disparatados possíveis, chegando à exaustão cerebral… pois sou um asperger…. e isto é o que de melhor sabemos fazer.

Somos um fracasso no relacionamento com as outras pessoas…. desleixados, não nos preocupamos com a nossa aparência exterior…. desconexos como eu não sabem dançar e nem dirigir um carro…. um fiasco total quando se trata de dinheiro e relacionamentos amorosos…..  mas somos surpreendentemente inteligentes… somos corsários-cerebrais, navegamos por onde queremos, ultrapassando barreiras do tempo e do espaço…

Hoje, aos 57 anos, sei quem sou e porque sou assim. Sofro de uma síndrome….e tenho que conviver com isto. Não vou deixar a sociedade envolvente me destruir, como fez com Belchior…. Vou enfrentá-la, como fez Newton, o mais conhecido dos portadores desta síndrome.

Em dezembro, vou para Punta Del Este, nem que seja a pé. Vou me sentar à sombra dos imensos dedos de concreto que parecem brotar das areias na praia Brava, colocar meu cérebro-prisioneiro na mesa de um bar e dizer: ”-hoje estou livre. Volto a ser o corsário cerebral que quando criança fui…. sei quem sou, sei qual é o meu problema, sei como conviver com ele …..

JOSE ORLANDO MURARO SILVA, fundadoR do jornal Pluriverso Chapadense, é advogado em Mato Grosso

 

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3 Comentários

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  1. - IP 201.67.62.206 - Responder

    Parabéns pela expressão! Vou procurar saber mais sobre esta síndrome..

  2. - IP 200.196.117.92 - Responder

    Que bacana sua coragem, de cabeça erguida continuar a escrever recitar versos sobre sua vida de maneira clara sem dramas, verdadeiro sem hipocrisia desta sociedade que diz ser normal mas no fundo n se assume que de fato é!

  3. - IP 201.22.173.23 - Responder

    Gostaria de conhecer mais sua realidade.. pois tenho uma filha asperge..

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