O LADO BOM DA VIDA: José Orlando Muraro, 55 anos, em texto saudosista, lembra que um anjo de 20 anos, cabelos loiros, olhos verdes, jantou em sua casa, na Chapada dos Guimarães, ao som de Taiguara

taiguara, universo do teu corpoUm anjo jantou lá em casa, ao som de Taiguara

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

 

Sábado de carnaval. Casa cheia de gente, de gente que nem conheço, amigos dos amigos que vão chegando e sem cerimônia se apossando do lugar, como se já tivessem direitos consuetudinários sobre a casa, as camas e o banheiro, que deixam, invariavelmente, sujo.

É o preço que se paga por ter amigos e morar em Chapada dos Guimarães. Além da bagunça que os visitantes fazem nas casas, aí vem a rebordosa: mijam nas paredes, jogam garrafas quebradas no chão…putz, nem quando os ostrogodos de Alarico invadiram Roma, a merda foi tanta…

Mas bene, tento descolar de tudo isto, pouco me lixando para as pessoas que tentam um papo cabeça, meio que embaladas pelas caixas e caixas de cervejas, que mal consigo beber, bastante irritado com a situação que eu mesmo deixei acontecer.

Para passar o tempo, pesquiso a história de Taiguara, compositor brasileiro, nascido em Montevidéu, um dos mais censurados compositores durante a ditadura militar. Por incrível que pareça: cantava a possibilidade da síntese de amor e sexo acontecerem na vida dos simples mortais!

Eis como a Wikipédia o descreve:

Taiguara Chalar da Silva (Montevidéu, 9 de outubro de 1945 — São Paulo, 14 de fevereiro de 1996) foi um cantor e compositor brasileiro nascido no Uruguai durante uma temporada de espetáculos de seu pai, o bandoneonista e maestro Ubirajara Silva.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1949 e para São Paulo, posteriormente, em 1960. Largou a faculdade de Direito para se dedicar à música. Participou de vários festivais e programas da TV. Fez bastante sucesso nas décadas de 60 e 70. Autor de vários clássicos da MPB, como Hoje, Universo do teu corpo, Piano e viola, Amanda, Tributo a Jacob do Bandolim, Viagem, Berço de Marcela, Teu sonho não acabou, Geração 70 e “Que as Crianças Cantem Livres”; entre outros.
Considerado um dos símbolos da resistência à censura durante a ditadura militar brasileira, Taiguara foi um dos compositores mais censurados na historia da MPB, tendo cerca de 100 canções vetadas. Os problemas com a censura eventualmente levaram Taiguara a se auto-exilar na Inglaterra em meados de 1973. Em Londres, estudou no Guildhall School of Music and Drama e gravou o Let the Children Hear the Music, que nunca chegou ao mercado, tornando-se o primeiro disco estrangeiro de um brasileiro censurado no Brasil.
Em 1975, voltou ao Brasil e gravou o Imyra, Tayra, Ipy – Taiguara com Hermeto Paschoal, participação de músicos como Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Novelli, Zé Eduardo Nazário, Ubirajara Silva e uma orquestra sinfônica de 80 músicos. O espetáculo de lançamento do disco foi cancelado e todas as cópias foram recolhidas pela ditadura militar em poucos dias. Em seguida, Taiguara partiu para um segundo auto-exílio que o levaria à África e à Europa por vários anos.
Quando finalmente voltou a cantar no Brasil, em meados dos anos 80, não obteve mais o grande sucesso de outros tempos, muito embora suas músicas de maior êxito tenham continuado a serem relembradas em flashbacks das rádios AM e FM.
Morreu em 1996 devido a um persistente câncer na bexiga
Como trilha sonora, baixo a música “ Universo no teu corpo” , que me trás à lembrança minha tia, Nair Simões de Almeida, depois de casada, Nair Muraro. Tinha uns 14 anos e passei pela casa dos meus tios, e ela, sempre com um livro nas mãos (Tom Jones, se não me falha a memória) e perguntei sobre o Festival de Música, da TV record. Ela simplesmente disse que tinha ganho um fulano lá, mas que para ela, a música Universo no Teu Corpo, do Taiguara, era insuperável, e merecia ter ganho.

Levei tempos até ouví-la, mas nestes dias conturbados de um carnaval que só me irrita, a magia toda volta, verso a verso:

)

 

 

Universo no teu corpo

Eu desisto
Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
E uma gente que não viva só pra si

Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi

Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor
E é por isso que eu preciso
De você como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor
Vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem em versos à canção

Vem que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos

Vem, vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem em versos a canção
Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos

 
Toca o celular. Carol, 20 anos, 1,75 de mulher, cabelos loiros, olhos verdes, um sonho de consumo, improvável….
-Faz a janta pra mim?
-Asinhas de frango, fritas com shoyo na panela de ferro, e arroz branco…pode ser?
-só você sabe cozinhar pra mim….já chego aí…
“Eu desisto….não existe esta manhã que eu perseguia…”
Logo depois chegou…linda em um short laranja e uma blusa solta, cravejada de azul sobre o branco. Entrou ignorando todo mundo… o cozinheiro era só dela…o resto….era resto…
Beijos e sentou-se na mesa, na ponta, e recolheu as imensas e bem torneadas pernas pra cima do banco…..conversamos amenidades, coisa sem muito sentido….
Voltei-me para o fogão e Carol exercitou a maior das suas características pessoais….voar…desligar…ficar com os olhos fixados em um horizonte inexistente..
“ um lugar que me dê trégua ou me sorria…uma gente que não viva só para si…”
Como sempre, ela cai em si e começa a falar….
– Sei lá, fico bastante amargurada em saber que meu pai, para magoar a minha mãe, me despreza totalmente…sou apenas uma conta bancária em que ele deposita meio salário mínimo todo mês… hoje talvez nem quero mais, mas houve um tempo que sonhava com ele me chamando de filha…
E calou-se….
E eu disse, meio que parado entre o fogão e a mesa:
– Minha segunda ex-mulher sempre achou que eu era um caixa eletrônico, em que ela só fazia o saque para pagar as suas contas absurdas… tudo bem que sou bem gordo, mas para caixa eletrônico ainda falta um bom pedaço….
Rimos e acabei sentando-me, bebendo um copo, dos grandes, de vinho. Quando voltei a cozinhar, ela cantarolou baixinho, acompanhando a música que rolava pelo notebook:
“Só encontro… gente amarga mergulhada no passado…. procurando repartir seu mundo errado…nesta vida sem amor que eu aprendi….”
Serviu-se do arroz branco, das asinhas caramelizadas pelo shoyo na panela de ferro, e sentou-se. Carol é a melhor gourmet que conheci: primeiro ela olha o arranjo no prato, elogia, sente o aroma e só depois degusta, fechando aqueles imensos e lindos olhos verdes…
E eu sentado na mesa, com outro copo cheio de vinho até a tampa, pensava em silêncio…anjos existem na Terra…. nós, que vivemos no turbo-capitalismo, mais lingüiça que gente, é que não nos damos conta….. pessoas que nos fazem bem, que nos acalmam a alma…anjos, com certeza….
– sabe…apesar da diferença de idade, sei o que nos une…
-Hummmm
-Eu odeio ser apenas um número de uma conta corrente e você odeia ser um caixa eletrônico….
Rimos, eu já bem embalado pelos eflúvios do vinho.Um pouco mais de conversa e a buzina de um carro , lá fora…. a mãe que veio buscá-la…
-Música linda..quem canta?
-Taiguara….
-Vou baixá-lo…se esquecer o nome, te ligo…
Um beijo caliente no rosto…e o anjo se foi…
Certas coisas não deveriam acontecer na vida de um homem aos 55 anos de idade… mas quando acontece, tudo pára, como uma música de Taiguara.

Post scriptum: Caroline Stephany Tostes atualmente mora em São José dos Campos (SP) …tenho poucas notícias…não entro no facebook, pois não quero sentir saudades…as lembranças, que ficaram, são melhores…..

 

josé orlando muraro
JOSÉ ORLANDO MURARO é advogado em Chapada dos Guimarães

 

Categorias:Beleza Pura

2 Comentários

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  1. - IP 177.64.246.55 - Responder

    ah, porque não se regravam as músicas do taiguara?! era um romantico de mão cheia

  2. - IP 187.5.109.197 - Responder

    excelente artigo…fez de um momento fugaz algo eterno, poeta!

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