JOSÉ ANTONIO LEMOS – É hora de um técnico liderando a Secopa

Nababescas moagens
por JOSÉ ANTONIO LEMOS

A recente queda do senhor Éder Moraes, até então secretário da Secopa, lembrou-me de imediato o impeachement de Collor, então todo poderoso presidente do Brasil. Tento explicar, mas antes é bom esclarecer que não votei no ex-presidente. Aliás, fizemos na mesma escola em Brasília o segundo grau, chamado de “científico”, e já naquela época não votei nele para o diretório acadêmico. Foi talvez sua única derrota eleitoral, ainda que por um só voto, cuja autoria foi disputadíssima após a eleição. Como todos sabem, o ex-presidente Collor fez muitas coisas erradas. O que nem sempre é lembrado é que fez também algumas coisas certas. E ele caiu justamente pelas poucas, mas importantes, coisas certas que fez, como a abertura do Brasil ao mercado internacional, não negociar com o Congresso e o fantástico programa dos CAICs, inspirado em Darcy Ribeiro, escolas produzidas em série para funcionarem em tempo integral, do qual tive o privilégio de participar como arquiteto junto à sua coordenação em Brasília.

Quanto ao senhor Éder Moraes, também é bom dizer que não me é simpático como homem público e inclusive lhe critiquei diversas vezes em artigos por atitudes à frente da Secopa. Porém, durante sua gestão, e podia ser com outro, os projetos da Copa do Pantanal continuaram andando e nas últimas semanas foram abertas licitações e dadas ordens de serviços para muitas obras importantes. Sem contar as obras que virão, contando só com as que estão em andamento e mais aquelas que já estão licitadas, com ordem de serviço e recursos empenhados, isto é, prontas para iniciar, só estas obras já configuram o maior pacote de obras urbanas concentradas no tempo em Cuiabá e Várzea Grande. Por isso ele caiu. Não se trata de defendê-lo, ao contrário, quero obras e não essas nababescas moagens públicas do entra-e-sai, do seis por meia-dúzia, que assistimos e pagamos, e que sempre terminam em pizza.

Éder Moraes caiu como cairá qualquer político que ficar à frente desse extraordinário pacote de obras no maior colégio eleitoral do Estado. Nem é preciso explicar. Quem ficar politicamente à frente desse pacote de obras, e ser competente para realizá-lo, será o próximo governador do Estado. No mínimo entrará mais forte na disputa, pois terá um palanque bilionário de obras como base de sua candidatura. Convenhamos ser um risco muito grande para os demais pretendentes ao governo, que já existem e estão se preparando na surdina. Qualquer um que seja, vai que o “cara” da Secopa consiga executar as obras. E aí? Uma séria ameaça. Por via das dúvidas, pau nele, seja quem for ou quem vier. Ainda que não tenha algum “rabo-preso” – difícil! – lhes criarão um ou mais. Uns cairão antes de subir. Absurdo mas este é o preço político das obras, exacerbado neste caso da Copa com tantas obras concentradas. Mas o que esperar da antiga cultura política brasileira, não apenas cuiabana, cuja máxima é não colocar azeitona na empadinha dos outros, ainda que as azeitonas sejam obras ou serviços fundamentais para a qualidade de vida do povo?

Como político, para o governador Silval a Copa é a velha faca de dois gumes: consolidação ou fracasso. É ele quem está à frente da Copa do Pantanal para o certo ou o errado. Agora é fazer ou fazer. É hora de um técnico liderando a Secopa, em especial arquiteto ou engenheiro, um técnico que seja do governador antes de tudo, de sua confiança e bancado politicamente por ele, com muita experiência em obras públicas mesmo assim com reputação preservada, que possa ter foco exclusivo nas obras. Como foi Sátyro Castilho para Fragelli na construção do CPA. A chance da despolitização da Copa é agora, caminho único para a viabilização máxima de suas oportunidades e de seu legado.

JOSÉ ANTONIO LEMOS é arquiteto e professor universitário em Cuiabá.

Categorias:Jogo do Poder

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