JORNALISTA GIBRAN LACHOWSKI: O tipo de incongruência visto na Ucrânia também ocorreu em 2013, no Egito, símbolo da chamada “revolução árabe”. Mohamed Morsi, primeiro líder eleito democraticamente no país, após a derrota de uma ditadura de três décadas, sofreu um golpe de estado iniciado com movimentações de rua e sacramentado pelo Exército. Que revolução, hein?

Gibran Lachowski, jornalista, professor universitário e analista de midia,  avalia que a realidade na Ucrânia é bem mais dura, tortuosa e complexa do que se pode imaginar, entretanto nada justifica a relativização de regras mínimas do processo político legal num país que não está sob ditadura.

Gibran Lachowski, jornalista, professor universitário e analista de midia,
avalia que a realidade na Ucrânia é bem mais dura, tortuosa e complexa do que se pode imaginar, entretanto nada justifica a relativização de regras mínimas do processo político legal num país que não está sob ditadura.

Democracia e golpe de estado

por Gibran Luis Lachowski

Milhares de pessoas nas ruas protestando contra condutas reprováveis de governos correspondem a uma cena da esfera democrática, todavia também é fato que o desfecho deste tipo de ação pode ferir de morte sua própria essência e se configurar ao fim em golpe de estado, caso não se respeite os limites das regras do jogo político.

Nesse sentido, é possível levar em consideração a compreensão de que as legítimas manifestações de rua na Ucrânia tenham descambado para um desfecho antidemocrático, uma vez que os protestos pressionaram o parlamento a destituir o presidente Viktor Yanukovytch sem motivo consistente – abandono da função, algo imediatamente contestado pelo próprio.

França, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos têm forte participação nesse episódio, pois insuflaram diariamente o levante contrário ao governo que preferiu manter-se próximo da Rússia a caminhar para os braços da semiesfacelada União Europeia.

Portanto, o povo nas ruas questionando as atitudes dos governantes e o estímulo a esta postura constituem-se em atitudes democráticas que merecem eco, porém aplaudir a derrubada de alguém eleito pela população concerne a um gesto oposto, que põe por terra a dignidade dos atos iniciais.

Se Yanukovytch desrespeitou a constituição, fraudou eleições, cometeu atos de corrupção, que as acusações sejam formalizadas, investigadas e julgadas pelo parlamento com o mais amplo direito à participação popular. Resultará de um processo como esse um impeachment, uma renúncia, o enfraquecimento do governo para as próximas eleições ou a conclusão de que as denúncias não precediam, de que houve a tentativa de desestabilizar a administração nacional.

Obviamente que a realidade é bem mais dura, tortuosa e complexa do que isto, entretanto nada justifica a relativização de regras mínimas do processo político legal num país que não está sob ditadura. Além disso, em nada se pareceu a movimentação de rua na Ucrânia com uma revolução de massas com vistas à tomada do Estado pelo proletariado, o que, no marxismo clássico, justificaria a derrubada de uma ordem burguesa para o estabelecimento de outra, comunista.

Que revolução, hein?

O tipo de incongruência visto na Ucrânia também ocorreu em julho de 2013, no Egito, símbolo da chamada “revolução árabe”. Mohamed Morsi, o primeiro líder eleito democraticamente no país após a derrota sobre uma ditadura de três décadas, sofreu um golpe de estado iniciado com movimentações de rua e sacramentado pelo Exército. Hoje em dia seu grupo de base, a Irmandade Muçulmana, é considerado uma organização terrorista.

Onde estão os entusiastas da “revolução árabe”, que a destacavam como exemplo maior da nova forma de protestar na contemporaneidade, unindo as históricas marchas de rua, apimentadas com a rusticidade e bravura das pedras e dos coquetéis molotov, e acrescidas do envio de tweets via smartphones direto dos locais de confronto?

É bom lembrar que por meses inteiros vimos repórteres, apresentadores e comentaristas entusiasmadíssimos com essa “inovadora combinação”, entretanto as análises posteriores não foram nem de perto tão numerosas e autocríticas. E parece que a incoerência continuará, se tomarmos por base o oligopólio midiático, expresso, entre outros, por CNN, Efe, Reuters, Globo, SBT, Bandeirantes, Estadão.

E isso não é de se estranhar. Basta se recordar do golpe de estado de 1964 no Brasil, que se revestiu de força popular na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” e foi legitimado por elogiosas manchetes dos maiores jornais da época.

Então, vale a pena acessar informações e avaliações diferentes sobre a situação na Ucrânia e outros assuntos, como as da http://www.cartamaior.com.br/ e do http://www.viomundo.com.br/ . No mínimo vai criar um curto-circuito na cachola, algo fundamental para a constante construção do senso crítico.

Afinal, o choque de entendimentos serve, sobretudo, para mostrar a ineficiência analítica das generalizações e das fórmulas simplificadas, que infelizmente são matrizes do jornalismo em larga escala. Cabe a nós, se almejamos autonomia de pensamento, desconfiar, confrontar, investigar, raciocinar de modo mais inteligente.

Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor universitário

2 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 200.252.51.208 - Responder

    muito bom seu artigo Gibran.Realmente é preciso confrontar idéias e informações.

    Abraços.
    Gilda

    • - IP 189.59.55.27 - Responder

      Grato, Gilda.
      É hora de vc também escrever (risos).
      Abraços!

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

cinco × quatro =