JORNALISTA EDUARDO GOMES: Rodoanel – que a irreverência popular chama de “Rouboanel” – é herança maldita deixada pelo ex-prefeito e atual deputado estadual tucano Wilson Santos. Com um trecho de 8 quilômetros pavimentados em pista simples, essa obra já consumiu R$ 19 milhões do governo federal e agora precisa de mais R$ 700 milhões para ser finalizada em pista dupla numa extensão de 51,7 quilômetros. Segundo o Brigadeiro, opção mais prática e mais barata seria investir na Rodovia dos Imigrantes, cujou trajeto encurta a distância em 23,3 quilômetros; conta com viaduto de acesso às rodovias 364/163/070 no sentido de Brasília; não é cruzada por nenhum rio além do Cuiabá (o contorno norte atravessa os rios Coxipó e dos Couros); e não haveria necessidade de se demolir nenhum imóvel em seu percurso

Wilson Santos, deputado estadual e Eduardo Gomes, jornalista

Wilson Santos, deputado estadual e Eduardo Gomes, jornalista

CUIABÁ 297 ANOS – Rodoanel é herança maldita deixada por Wilson Santos

EDUARDO GOMES, no site MT AQUI

 

Sem nenhuma sustentação na logística de transporte, caro e inoportuno. Esses são alguns dos adjetivos que se encaixam perfeitamente bem no Rodoanel Norte de Cuiabá, que também atende pelos nomes de Rodoanel Mário Covas e Rodoanel Senador Jonas Pinheiro e está embutido no Plano Diretor da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá. Com um trecho de 8 quilômetros pavimentados em pista simples, essa obra já consumiu R$ 19 milhões do governo federal e agora precisa de mais R$ 354 milhões da mesma fonte (com valores corrigidos até outubro de 2012 – o que significa agora, algo em torno de R$ 700 milhões), para ser construída em pista dupla numa extensão de 51,7 quilômetros sendo que já existe outro rodoanel, esse em pista simples, com extensão de 28,4 quilômetros em Cuiabá e Várzea Grande, que deverá ser duplicado. A estranha opção pelo caminho comprido que tem dois nomes começou com o então prefeito Wilson Santos (PSDB – 2005/10) e se tornou uma espécie de herança maldita. Agora, das duas uma: ou se investe uma montanha de dinheiro público para concluí-la ou se cruza os braços deixando ao tempo a tarefa de transformá-la em mais uma aventura fracassada bancada pelo contribuinte. Prevendo a perspectiva de ressarcimento aos cofres da União por parte de Wilson Santos e outros responsáveis pelo projeto, a Justiça Federal bloqueou até R$ 22,9 milhões de seus bens. Em 2014 Wilson Santos foi eleito deputado estadual pelo PSDB e assumiua liderança do governador e seu correligionário Pedro Taques, que prega transformação, moralidade e transparência, e que sustenta discurso de caça aos corruptos.

Um convênio de R$ 354 milhões firmado em novembro de 2012 entre o governo de Mato Grosso e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) asseguraria repasse de R$ 318 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2) ao Estado para a conclusão do rodoanel de Cuiabá e Várzea Grande. A obra também receberia R$ 36 milhões de emendas dos deputados federais Wellington Fagundes (PR) e Homero Pereira (já falecido). O recurso do PAC seria desembolsado em parcelas a partir de 2013. O dinheiro das emendas deveria cair na conta de Mato Grosso em dezembro de 2012. A previsão era que a fita simbólica fosse cortada em três anos, mas o então governador Silva Barbosa (PMDB) disse que tinha pressa e queria concluí-la em um ano e meio. Em nome da correria, Silval lançou mão do expediente do Regime Diferenciado de Contratação (RDC), que enxuga exigências para licitação, mas em compensação abre perigosos caminhos à corrupção. Moral: ninguém mais falou na montanha de dinheiro e a obra foi enfiada debaixo do tapete.

Uma alteração no projeto original do rodoanel lhe deu os dados de agora: 51,7 quilômetros de extensão para serem construídos em pista dupla ligando as rodovias remontadas BR-364/163/070 na altura do recinto de leilões da Estância Bahia, na saída de Cuiabá para Rondonópolis, e avançará até a BR-364/163 nas imediações do Trevo do Lagarto, em Várzea Grande. Terá pontes sobre os rios Cuiabá, Coxipó e dos Couros; e viadutos em seus pontos de começo e fim, além de outros nos cruzamentos com as rodovias estaduais: Emanuel Pinheiro (MT-251 de acesso a Chapada dos Guimarães), Helder Cândia (MT-010 de acesso a Acorizal) e o antigo leito da MT-010 na região da vila Sucuri.

A construção desse rodoanel começou em novembro de 2006 por meio de uma parceria do Dnit com a prefeitura – que assumiu responsabilidade por sua execução -, mas o projeto previa pista simples e não incluía o trecho de 12 quilômetros de sua extensão no município de Várzea Grande nem a ponte sobre o rio Cuiabá no limite dos dois municípios. O cronograma previa seu término em 2013. À época seu custo foi orçado em R$ 42 milhões com recursos do Dnit e de emendas do então senador Antero Paes de Barros/PSDB e dos deputados federais Wellington Fagundes/PR e Thelma de Oliveira/PSDB (Wellington agora é senador e Thelma ex-deputada).

Três anos depois de iniciar o rodoanel e após embolsar R$ 19 milhões a empresa Conspavi, contratada para executar o serviço, fechou o canteiro de obras alegando falta de recebimento. No rastro desse projeto o Tribunal de Contas da União (TCU) e uma auditoria do Dnit encontraram um rombo de R$ 10 milhões, que teriam sido superfaturados na pavimentação de 8 quilômetros pela Conspavi.

Em fevereiro de 2011, o então presidente do Dnit, Luiz Antônio Pagot, trocou farpas pela imprensa com o dono da Conspavi, Luiz Carlos Félix, o Caxito. As acusações foram muitas. Caxito disse que Pagot tumultuou a obra para transferi-la a empreiteiros ligados a ele. Pagot rebateu criticando a qualidade e o custo do rodoanel. O fuzuê entre os dois acabou e não chegou aos tribunais.

Estranha opção pelo trajeto norte

DOCUMENTOSCuiabá e Várzea Grande têm rodoanel para o trânsito de longa distância. É a Rodovia dos Imigrantes (MT-407), que faz o contorno sul da área metropolitana da Capital mato-grossense num extensão de 28,4 quilômetros, com origem e final próximos aos mesmos pontos correspondentes no futuro rodoanel do contorno norte e com algumas vantagens: além de rodovia operando normalmente em pista simples, seu trajeto encurta a distância em 23,3 quilômetros; conta com viaduto de acesso às rodovias 364/163/070 no sentido de Brasília; não é cruzada por nenhum rio além do Cuiabá (o contorno norte atravessa os rios Coxipó e dos Couros); e não haveria necessidade de se demolir nenhum imóvel em seu percurso.

INFOGRAFIA: ÉDSON XAVIER

Em vermelho o traçado do Rodoanel Norte, bem maior que o rodoanel existente. O sentido no mapa é Várzea Grande/Cuiabá

Em termos de economia na construção, a Rodovia dos Imigrantes é a melhor opção. Para o transportador o caminho lógico também é por ela, pois um bitrem consome em média um litro de óleo diesel por quilômetro rodado, o que no comparativo entre os dois contornos dá nítida vantagem ao existente. Essas verdades não foram questionada em 2005, quando começou o projeto do contorno norte. O resultado é o investimento de R$ 354 milhões numa obra que poderia custar menos da metade, desde que construída como duplicação da Rodovia dos Imigrantes. Isso, sem falar em R$ 19 milhões torrados anteriormente e do imprevisível desfecho judicial na investida da Conspavi em busca de crédito que teria pela execução parcial da obra.

DADOS – No sentido sul-norte a Rodovia dos Imigrantes começa no Viaduto Luiz Phillipe Pereira Leite, sobre a BR-364/163/070, ao lado do Distrito Industrial e Comercial de Cuiabá e termina no Trevo do Lagarto, em Várzea Grande, onde a BR-070 segue rumo oeste em direção à fronteira, e as rodovias 163/364 prosseguem rumo norte. Esse contorno cruza uma região de topografia levemente ondulada e recebe veículos oriundos ou com destino ao Chapadão do Parecis, médio-norte, Nortão e outras regiões de Mato Grosso; de Roraima, Amazonas, Acre, Rondônia, Pará, Bolívia, Goiás e Mato Grosso do Sul; e sudeste, nordeste e sul do Brasil.

Nos picos da safra agrícola, diariamente transitam por ela, nos dois sentidos, cerca de 17 mil veículos, com 70% dessa movimentação representados por bitrens e carretas.

A fiscalização da Rodovia dos Imigrantes é feita por um posto da Polícia Rodoviária Federal no Trevo do Lagarto, em Várzea Grande, e por um posto da Polícia Militar Rodoviária, no trevo com a Rodovia Palmiro Paes de Barros (MT-040), que dá acesso aos municípios de Santo Antônio de Leverger e Barão de Melgaço.

BLOQUEIO – Pelo escândalo do rodoanel, que a irreverência popular chama de Rouboanel, no começo do ano passado o juiz  da 8ª Vara Federal em Cuiabá, Fábio Henrique Rodrigues de Moraes Fiorenza, bloqueou bens em até R$ 22,9 milhões de Wilson Santos, atendendo uma ação civil pública do Ministério Público Federal, por improbidade administrativa. O bloqueio não foi somente sobre bens do deputado e ex-prefeito de Cuiabá. Ele incluiu o ex-secretário municipal Andelson Gil do Amaral, Josué de Souza Júnior, Manoel Avalone, Luis Francisco Felix, a Conspavi Construção e Participação e a construtora Três Irmãos Engenharia.

 

1 Comentário

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  1. - IP 189.59.62.167 - Responder

    Rodovia dos imigrantes é concessão da Rota Oeste e será duplicada.

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