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WILSON SANTOS: Pedro Taques precisa tomar cuidado porque acho que há um excesso de conhecimento jurídico que ele chega a detalhar leis, artigos, incisos e que nem todos serão cumpridos. Dois exemplos: o salário mínimo, se for levar ao pé da letra da Constituição, teria que passar de R$ 3 mil. Nenhum presidente, seja o Aécio ou a Dilma, conseguirá cumprir a lei. Em nível estadual, a Constituição Estadual estabelece que o duodécimo para a educação tem que ser de 35%, hoje é de 25%. Dificilmente, o governador Pedro Taques conseguirá cumprir. Esta legalidade é necessária, tem que ser feita. Mas, em 4 anos, é difícil se cumprir ao pé da letra. Então, vamos devagar com o andor que o santo é de barro

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Para Wilson, mais do que possível, é necessário e um dever dos novos deputados e do poder Executivo cortar o orçamento da Assembleia Legislativa

Para Wilson, mais do que possível, é necessário e um dever dos novos deputados e do poder Executivo cortar o orçamento da Assembleia Legislativa


 
Wilson: ‘Quem nos melhora é a derrota’
Eleito deputado, ex-prefeito diz que a população de Cuiabá o vê como um filho que errou e aprendeu com os erros e que agora lhe deu uma nova chance
DO DIÁRIO DE CUIABA
Quatro anos longe da vida pública, após deixar a prefeitura de Cuiabá para se aventurar em uma eleição para o governo do Estado, o ex-prefeito Wilson Santos (PSDB) está de volta à Assembleia Legislativa.
O tucano acredita que a população do Estado, especialmente a de Cuiabá, lhe deu uma segunda chance. Wilson diz que já pagou pelo erro de ter deixado a prefeitura no meio do mandato e se aventurar numa disputa pelo governo, na qual amargou o terceiro lugar.
Para o tucano, Cuiabá sempre soube reconhecer os feitos de seus seis anos de mandato e agora o presenteou com uma das vagas no Legislativo estadual.
Wilson foi eleito com 20.562 votos e já se consolida como uma das fortes lideranças em defesa do nome do governador eleito Pedro Taques (PDT) no Parlamento a partir doa ano que vem.
Sua primeira missão em prol do grupo que elegeu Taques é trabalhar pela eleição da mesa diretora da AL. O novo grupo governista quer o comando da Mesa do Legislativo. Mas, para isso, precisa de mais dois votos favoráveis ao grupo. Wilson é o responsável por essa interlocução.
DIÁRIO – O senhor retorna à vida pública depois de quatro anos. O que fez neste período?
Wilson Santos – Isso não é comum. Desde 1988, eu sou o primeiro ex-prefeito da Capital que consegue retornar à vida pública. Porque de 1989 a 92 tivemos Frederico Campos como prefeito. Em 94, ele saiu a [deputado] estadual e perdeu. Depois, de 1997 a 2004 teve o [Roberto] França (DEM), que saiu a estadual e perdeu. Agora o Galindo, o Francisco Galindo (PTB), através do filho dele [Neto Galindo], saiu a estadual e perdeu. Então eu tenho que valorizar essa vitória.
Neste período, eu fiquei cinco meses em Portugal, em Coimbra. Fiz uma pós-graduação na Faculdade de Direito da histórica Universidade de Coimbra, em estudos europeus, uma área ligada à história, sociologia e economia. Foi muito importante para a minha formação.
Retornei a Mato Grosso em junho de 2011 e permaneci aqui. Sou conselheiro da Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig), em uma das suas subsidiárias que é a Taesa [Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A.], com sede no Rio de Janeiro e sou do conselho administrativo da Taesa, por indicação da Cemig.
Montei um escritório de assessoria, onde assessoro várias prefeituras de capitais Brasil afora. Também voltei a lecionar. Leciono hoje em cursos de pós-graduações da FAAP em São Paulo, em Cuiabá para cursos preparatórios para concursos públicos, menos no Cuiabá Vest, que eu criei. Lecionei oito anos e estou impedido de lecionar no cursinho preparatório da prefeitura.
DIÁRIO – Dias atrás o senhor disse que algumas promessas de Taques seriam difíceis de colocar em prática. Por quê?
Wilson – O Taques é muito inteligente. Ele tem uma inteligência acima da média. Eu convivi com vários líderes estaduais como Padre Pombo, Carlos Bezerra, Júlio Campos, Dante de Oliveira, Jayme Campos, Antero Paes de Barros e Blairo Maggi. Eu convivi intimamente com todos eles e posso dizer que o Pedro tem um nível de inteligência e cultural igual e superior ao desses.
O Pedro vai do erudito ao popular muito facilmente. Uma capacidade muito parecida com a de Dante e do Júlio, que na minha opinião são os dois mais experts. Ele tem um feeling muito apurado.
O que eu quis dizer foi: o Pedro precisa tomar cuidado porque eu acho que há um excesso de conhecimento jurídico que ele chega a detalhar leis, artigos, incisos e que nem todos eles serão cumpridos. Dois exemplos: o salário mínimo no Brasil, se for levar ao pé da letra da Constituição Federal de 1988, segundo o Dieese, teria que passar de R$ 3 mil. Nenhum presidente, seja o Aécio Neves (PSDB) ou a Dilma Rousseff (PT), conseguirá nos próximos quatro anos cumprir a lei. Em nível estadual a Constituição Estadual de 1989 estabelece que o duodécimo para a educação tem que ser de 35%, hoje é de 25%. Dificilmente, nos próximos quatro anos, o governador Pedro Taques conseguirá cumprir. Foi neste sentido. Esta legalidade é necessária, tem que ser feita. Mas, em quatro anos, é difícil se cumprir ao pé da letra o que estabelecem as constituições, leis ordinárias e complementares. Então, vamos devagar com o andor que o santo é de barro.
DIÁRIO – O que o senhor espera deste novo governo?
Wilson – Eu estou muito animado. Eu penso que neste momento Mato Grosso não está atrás de um grande tocador de obras como foram Júlio Campos e Dante de Oliveira. O Estado precisa de um homem que faça um freio de arrumação, para reestabelecer a moralidade na coisa pública, um governo que pare com a sangria dos serviços públicos e que devolva à sociedade um pouco de credibilidade nos homens públicos. Essa é a grande tarefa do Pedro.
Assim como Dom Aquino, de 1918 a 1922, tinha como grande tarefa construir a paz em Mato Grosso; assim como Júlio Muller, de 1937 a 1945, desempenhou o grande papel de consolidar Cuiabá como a capital do Estado; assim como Dante teve o grande mérito de reformar o papel do Estado mato-grossense, o papel do Pedro é resgatar a credibilidade através de uma gestão baseada na ética e na moral.
DIÁRIO – O senhor acha que é possível cortar o orçamento da Assembleia Legislativa sem comprometer os trabalhos?
Wilson – Mais do que possível, é necessário e um dever dos novos deputados e do poder Executivo. Estive na quinta-feira (9) com o prefeito de Várzea Grande, Walace Guimarães (PMDB), em seu gabinete. Ele me disse que tirando os recursos do PAC, o orçamento de Várzea Grande é de R$ 420 milhões, que é parecido com o da Assembleia Legislativa.
Veja que a sabedoria “pai d’égua” da mesa diretora da Assembleia é tanta, que além do orçamento literal que é aprovado na LOA eles ainda têm “N” suplementações e excessos de arrecadações que em alguns anos chegam a R$ 400 milhões. Então, é inadmissível, certo?! Inacreditável que para cuidar de apenas um quarteirão e de 24 bacanas deputados o povo de Mato Grosso tenha que depositar algo em torno de R$ 400 milhões ao ano. Isso é um absurdo, um escândalo.
Quando o Pedro afirma que precisa de recursos, uma das fontes, com certeza, será a redução do duodécimo da Assembleia. Se possível, de maneira negociada com o Parlamento mato-grossense.
DIÁRIO – O senhor tem pretensões de ser do governo na Assembleia Legislativa?
Wilson – A minha única pretensão é fazer um bom mandato e representar, de verdade, a população mato-grossense. Não sou candidato à mesa diretora: passei por lá oito anos e nunca disputei cargos. Já comuniquei o Grupo dos Onze que não sou candidato.
Quero ajudar o governador Pedro Taques a cumprir os seus compromissos de campanha e a população mato-grossense reconhecer em mim um parlamentar probo, honesto, contemporâneo, fazendo política com P maiúsculo.
DIÁRIO – O chamado G-11 segue unido para a eleição da mesa. É isso mesmo? O grupo conta com Wilson?
Wilson – Eu serei fiel, leal e transparente com o meu grupo. Defendo que o G-11 vença a mesa diretora. É importante que tenhamos a mesa diretora e, para isso, temos que ampliar o número de deputados. Tanto é que, nesta semana, eu já fiz uma conversa com a deputada Janaína Riva (PSD).
Os colegas me nomearam como uma espécie de secretário das reuniões junto com o deputado Oscar Bezerra (PSB).
Temos algumas ideias para mudanças no Legislativo. A primeira é reduzir o mandato da Mesa para apenas um ano, hoje são dois; impedir a reeleição de quem estiver no cargo de presidente e primeiro-secretário, de maneira que oito deputados comandem a Mesa nos próximos quatro anos. Isso é para evitar o surgimento de pessoas que sejam maiores que o Parlamento.
Queremos dar transparência total e diária a todos os atos da Assembleia; redução do duodécimo; emendas impositivas; fim dos excessos de arrecadações e distribuir aos demais cargos da Mesa atribuições e prerrogativas.
DIÁRIO – Qual seu foco neste novo mandato?
Wilson – Será a educação! Quero participar da comissão de educação, mas não tenho a vaidade de ser o presidente desta comissão. Ainda no primeiro semestre quero andar pelos municípios-polos para saber mais sobre a escola ciclada, onde dá certo, onde não dá. Há muitas reclamações de pais de que a escola ciclada no Estado não funciona.
Também vou lutar pela valorização do profissional da educação, não só salarialmente. Mas também dando condições de trabalho. Quero trabalhar para reconstruir o MT Vest, nos moldes do Cuiabá Vest, não da forma que ele foi criado, feito para alguns bacanas ganharem dinheiro.
DIÁRIO – Após quatro anos longe dos holofotes, o senhor esperava ser eleito?
Wilson – Esperava. Eu sempre tive certeza de que voltaria. Eu tive foco. Confiava nos serviços prestados.
DIÁRIO – Como acha que o cuiabano enxerga o senhor?
Wilson – Sempre soube que a sociedade cuiabana me vê como um filho que cometeu um erro grave e que precisava ser punido com rigor. Mas ela nunca deixou de gostar daquele filho. No primeiro momento em que sentisse um aprendizado que melhorasse, ela devolveria a confiança. Eu assumo, exclusivamente, a responsabilidade por esse erro de ter deixado a prefeitura de Cuiabá precipitadamente. Fiquei quatro anos no ostracismo e isso me levou a reflexões e avaliações muito duras. Eu aprendi muito com as derrotas. Coisas que as vitórias quase não ensinam nada.
A derrota ensina quando você é bem-intencionado. A vitória só envaidece, só embriaga, nos piora. Quem nos melhora é a derrota. Hoje, eu entendo que um político só se completa quando passa por uma derrota.
DIÁRIO – O senhor faz parte do mesmo grupo do prefeito Mauro Mendes, mas em 2008 disputou o comando da prefeitura com ele. Qual avaliação o senhor faz da gestão Mauro?
Wilson – Eu quero deixar essa avaliação pra mais pra frente.
DIÁRIO – O senhor teve a ideia de privatizar a Sanecap e depois desistiu. Depois o Galindo privatizou. Qual a sua avaliação do serviço prestado pela CAB Cuiabá?
Wilson – São vários momentos. Quando eu era parlamentar, eu era contra a privatização da Sanecap. Fiz campanha: “água é vida e vida não se vende”. No primeiro ano em que eu assumi o Executivo eu vi que a cidade não conseguia nem pagar salários.
Eu herdei uma cidade que há 11 anos não conseguia nem pagar salários em dia, o servidor vivia de CDC. Eu peguei 14,5 mil servidores em greve. Quando eu sentei do outro lado do balcão – e percebi que tinha que resolver a parada -, eu vi que não tinha capital para isso. Então eu decido fazer a terceirização.
Rodei o Brasil, conheci a experiência de Niterói, conheci a experiência de Campo Grande. Achei muito positivas, me preparei para fazer a concessão, quando houve o anúncio do PAC.
Com o anúncio do PAC e o surgimento de dinheiro, então eu recuei e mergulhei de cabeça no PAC. O programa foi totalmente politizado, fez com que meus adversários se unissem e bombardearam o PAC e o destruíram.
O Chico Galindo veio e optou pela concessão. Me consultou e eu dei o meu aval. Agora, realmente a CAB está deixando a desejar. Eu vou atuar firmemente na fisc

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SEBASTIÃO CARLOS: Profeta canonizado em vida, Pedro Casaldáliga, como poucos, levou até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo

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Sebastião e Pedro18

Profeta e poeta – I

POR SEBASTIÃO CARLOS

Às mais de cem mil mortes provocadas pela terrível pandemia, que cresceu auxiliada pela desídia do poder, se junta uma que, embora não diretamente ligada, potencializa a emoção. Ao sofrimento de tantas famílias enlutadas, o manto negro da dor cobre a nossa História nacional. Às 09h40min do sábado (8) partiu em definitivo da vida terrena um profeta e poeta. Profeta canonizado em vida que, como poucos, levaram até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo. Poeta instigante, combativo, de vibrante telurismo que fez dos versos livres um canto perene em busca da Justiça e a serviço da Liberdade. Nos versos, via o Evangelho, no Evangelho encontrava a poesia. A voz era mais forte que o corpo magro e frágil e a presença física tornou-se mais imensa que a floresta em que habitava e defendia. Assim era Dom Pedro Casàldaliga. Mais que Dom Pedro, Pedro simplesmente como apreciava. Mais que bispo, irmão dos deserdados da Terra.

Pere Maria Casaldàliga i Pla nasceu na pequena localidade de Balsareny, região nordeste da Espanha, pertencente à Província de Barcelona, Comunidade Autônoma da Catalunha. Balsareny é um município com área inferior a 40 Km2 e que em 2018 tinha menos que 4 mil habitantes. De família de agricultores pobres, em 1943 ingressou na Congregação Claretiana e em maio de 1952 foi ordenado sacerdote. Nos anos seguintes lecionou e foi assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris. Em 1968, o ano do AI 5 e do inicio do endurecimento do regime militar, o padre Pedro Casaldàliga, já adaptando o primeiro nome ao português, chega ao Brasil. Vinha para Mato Grosso. Missionário, fundaria uma missão claretiana às margens do Araguaia.

E foi então que, estudante de História na Universidade Federal de Goiás e militante estudantil em Goiânia, fui conhecê-lo na Paroquia São José Operário, no Setor Oeste, na querida capital de Goiás. Eram anos de intensa movimentação estudantil e política, que a idade estimulava o idealismo e o consequente radicalismo politico. O padre espanhol, franzino e elétrico, com voz firme, falando em politica, no sofrimento dos pobres da Amazônia com os quais dividia a luta diária e brandindo poemas flamejantes logo conquistou o pequeno grupo de jovens universitários goianos com os quais começou a manter contatos. No ano seguinte, Paulo VI o nomearia bispo prelado e administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia, sendo sagrado bispo em 23 de outubro de 1971.

Daí para frente a relação com os poderosos da região e com a ditadura militar iria se tornar cada vez mais difícil e ácida. Combativo, contundente, compromissado até o cerne com os desvalidos da terra, num desafio desabrido, num permanente profetismo missioneiro e, digo, quase místico, Casaldàliga se agigantou entre as forças que se opunham à ditadura militar. Destacou-se também como defensor de índios, tendo sido um dos fundadores do CIMI – Conselho Indigenista Missionário que, mais que em anos anteriores, estavam sendo empurrados cada vez mais para o sertão imenso até serem encurralados e se encontrarem em face da doença, da miséria total, da morte. Também co-fundador da CPT – Comissão Pastoral da Terra, que atuaria destemidamente em favor dos posseiros.

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A tríade implacável constituída por latifundiários, garimpeiros, policia, sempre apoiada, acintosamente ou não, por políticos e governos presenciou a um Casaldàliga enfrentá-los com destemor. A região era de extrema marginalização social, extensos latifúndios, alto grau de analfabetismo e muitos conflitos pela terra, onde os assassinatos e os desaparecimentos de desafetos eram o instrumento usual.

O bispo do Araguaia esteve entre os militantes da Teologia da Libertação, que então dividia a Igreja, e ao lado de um grupo de padres, bispos e arcebispos, entre os quais o corajoso Dom Tomás Balduíno, bispo da antiga capital de Goiás, e a quem tive o prazer de conhecer de perto, arrostou os conservadores da Igreja, enfrentou os poderosos da região e desafiou a ditadura militar.

As ameaças de morte lhe eram constantes e não raro estiveram muito próximas da concretização. Em 11 de outubro de 1976, Casaldàliga e o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier [12/06/17 – 12/10/76] passavam por Ribeirão Cascalheira. Visitavam os moradores quando populares os procuraram para denunciar que duas mulheres estavam sendo barbaramente espancadas na delegacia de policia. Os gritos desesperados eram ouvidos na rua. Tal fato não era incomum. De imediato, os dois sacerdotes acorreram ao local.

Tem então inicio uma forte discussão com os policiais. Inesperadamente, Pedro é brutalmente empurrado e Burnier agredido com coronhadas e na sequencia alvejado com um tiro na nuca. A comoção é geral. O jesuíta é transferido para Goiânia e lá falece no dia seguinte. Terminada a missa de sétimo dia, a população segue em passeata até a delegacia, liberta todos os presos e coloca fogo no prédio. Nesse local seria erguida uma capela. Os policiais nunca foram punidos. Nenhuma novidade nesse desfecho. Com a redemocratização, o “caso do Padre Burnier” foi apresentado à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça para que o reconhecesse como crime político. Mas em abril de 1997 o requerimento foi indeferido. Somente em 25 de novembro de 2009, trinta e três anos depois, o CEMDP reconheceu a responsabilidade do Estado Brasileiro pela morte, sendo, pois definido como crime politico.

Aqueles foram os anos duros da repressão politica e social. Os anos de chumbo. A violência no quotidiano era acobertada por poderes maiores. Tudo e todos que, de alguma forma, pudesse ser apodado de “comunista” “precisavam ser castigados”. O bispo catalão – matogrossense não estava excluído desse rol nefasto. Em cinco ocasiões, o Governo, por instancia do Conselho de Segurança Nacional, abriu contra ele processos de expulsão do país. O bravo arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, em diferentes ocasiões saiu publicamente em sua defesa, mobilizou a ala progressista da Igreja e, por fim, o próprio Vaticano fez gestões diretas, o que impediu o prosseguimento da ação expulsória. A ditadura também temia um desgaste maior para a sua imagem no exterior. Ainda assim, a situação do prelado do Araguaia estava periclitante tanto que quando o pai faleceu ele desistiu de ir à Espanha para a despedida final pelo temor de ser impedido de retornar.

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A ação solidária de Casáldaliga para com os esquecidos da terra e o seu espirito intrépido e desafiador muito incomodavam os poderosos numa época em que o silêncio e o acocoramento moral a que muitos se entregaram era o mais conveniente. Não por outros motivos foi logo denominado de “subversivo”, de “padre vermelho”, enfim, de comunista. Ele se juntava então ao rol de um punhado de curas e prelados brasileiros. A verdade é que a crença profunda no Evangelho e a exigência ética existencial dessa fé originária permitia a esses bravos cristãos adotar como suas, tal como Pedro o fez, uma citação atribuída à aquele que, por muitos anos, foi o símbolo da resistência católica no Brasil. Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”. E assim era, porque não se pode confundir a verdadeira solidariedade como uma forma de caridade. Nesse conceito, não se trata de consolar a alma do caridoso, mas de buscar a Justiça dos justos.

Em 1971 fui realizar estudos em Madrid. Recebi de Casàldaliga o endereço dos Claretianos na capital espanhola e ele insistiu para que os procurasse. Lá, entre tantos, conheci e me tornei amigo do padre Benjamin Forcano, que anos depois se tornaria um importante teólogo, igualmente ligado à Teologia da Libertação. Nesse ano, Forcano havia lançado seu primeiro livro, ¿Amor y natalidad en conflicto? [Valencia, 1971], que me presentearia autografado. Era um dos articulistas mais destacados, depois diretor, da revista Missión Abierta, que acolhia os pensadores irmanados pelo Concilio Vaticano II.

Posteriormente dirigiria a revista Êxodo e anos depois o editorial Nueva Utopia. Todas publicações que se colocavam na dianteira do pensamento católico europeu, engajados na linha do aggiornamento empreendida pelo grande pontífice João XXIII. Tive a alegria de, por suas mãos, e ainda nos meus vinte e poucos anos, conhecer uma plêiade de pensadores cristãos de vanguarda. Em todos eles testemunhei uma admiração, quase reverencial, por D. Pedro Casáldaliga e enorme curiosidade em saber como ele vivia e como agia o regime militar. Os espanhóis viviam os estertores do regime franquista.

Pedro Casaldàliga não foi somente o militante do Evangelho, o homem que levou às ultimas consequências práticas as palavras do seu Salvador, porque poucos como ele souberam ser tão fieis ao lema que elegeu para seu serviço pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”. Poucos foram, como ele, um verdadeiro Homem de Cristo, na vivencia mais profunda da mística evangélica. Ele exercitou até as ultimas consequências a denúncia arriscada e temerária, deu o seu testemunho corajoso e realizou a profecia cristã aqui mesmo na Terra. A sua figura mística se agiganta e encarna uma espiritualidade que configura o verdadeiro anunciar do Sermão da Montanha.

Mas o catalão foi também poeta e, por extensão, historiador, sociólogo, antropólogo, ecólogo.

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador em Cuiabá, Mato Grosso.

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