HISTORIADOR VALTER POMAR: Aspecto importante da tática: o golpismo decidiu esfriar a batalha nas ruas e concentrar-se na frente institucional, o que inclui articular abertamente o pós-impeachment: a montagem do novo governo e a ofensiva jurídico-policial contra Lula, o PT e o conjunto da esquerda. Embora certa confusão seja parte inevitável do ambiente que prevalece em qualquer derrota, a maneira precoce e atabalhoada com que algumas lideranças, parlamentares e organizações conduziram o debate sobre como enfrentar o cada vez mais provável futuro governo golpista acabou contribuindo para complicar um quadro que já seria ruim devido ao refluxo. O mais grave, contudo, é que este atabalhoamento revela que continua presente entre nós a crença em saídas mágicas e em acordos salvadores. A verdade é outra: não haverá saída rápida, fácil nem indolor. A contraofensiva conservadora iniciada há anos está neste momento atingindo seus objetivos em toda a América Latina. No caso do Brasil: afastar a presidenta Dilma, mudar o conjunto da política e neutralizar por um longo período a esquerda. O que inclui impedir Lula de disputar as eleições de 2018 (via condenação e/ou prisão e desmoralização) e inviabilizar o funcionamento do PT (via multas e/ou processos e demonização).Faremos de tudo para impedir o êxito dos golpistas, agora, no julgamento e depois. Mas exatamente para termos êxito na luta contra os golpistas, não devemos embelezar a situação, subestimar os perigos nem superestimar nossas forças. A situação é muito grave e isto deve ser dito abertamente e com todas as letras. É preciso abandonar a postura paternalista segundo a qual o realismo analítico desmobiliza

Lula e Dilma, principais lideranças do PT

Lula e Dilma, principais lideranças do PT

Palpites de quinta-feira

POR VALTER POMAR, no dia 5 de maio de 2016

  1. Entre o dia 17 de abril e o dia 1º de maio, a correlação de forças entre os golpistas e o campo popular se alterou significativamente em favor dos primeiros.
  1. O golpismo venceu com ampla margem a votação da admissibilidade na Câmara dos Deputados, tem clara maioria no Senado e tranquilidade no Supremo Tribunal Federal.

(É um escárnio ter deixado para julgar Cunha depois da votação da admissibilidade. Todo mundo sabia que o cara é um bandido. Mas ele foi deixado solto para fazer o serviço sujo, comandar a assembleia de bandidos. Serviço feito, aí vem o “esquadrão da limpeza”. Mas as decisões tomadas sob direção do bandido, estas continuam valendo? É preciso exigir imediatamente a anulação da sessão que aprovou a admissibilidade do impedimento. Até para bloquear a tentativa de abrir caminho para um presidente da Câmara mais funcional à nova etapa do golpe, assim como para impedir que a punição tardia de Cunha sirva de pretexto para tentar atingir alguém do lado de cá.)

Desde há muito os setores golpistas tem apostado na judicialização da política, na partidarização da justiça e na criminalização dos movimentos sociais. O golpismo conta, ainda, com uma sólida barragem nos meios de comunicação, fundamental para neutralizar e até mesmo ganhar o apoio passivo de amplos setores populares. Tem supervisão & apoio internacional, bem como financiamento empresarial. Sobre a composição da coalizão golpista, suas origens, estratégia e táticas, ler mais em:http://valterpomar.blogspot.com.br/2016/04/roteiro-para-fala-na-mesa-redonda-de-29.html

  1. Aspecto importante da tática: o golpismo decidiu esfriar a batalha nas ruas e concentrar-se na frente institucional, o que inclui articular abertamente o pós-impeachment: a montagem do novo governo e a ofensiva jurídico-policial contra Lula, o PT e o conjunto da esquerda.
  1. O campo popular, depois das intensas mobilizações que precederam a votação de 17 de abril, entrou numa fase de refluxo. Isto ocorre por diversas razões, entre as quais a opinião generalizada de que vamos ser derrotados na votação da admissibilidade pelo Senado, que a presidenta será afastada e que o golpista assumirá as rédeas do governo, tornando ainda mais difícil a batalha do julgamento no próprio Senado. A discutir melhor a relação dialética entre o refluxo e a compulsão derrotista de alguns setores (síndrome de Hardy Har Har).
  1. Apesar do refluxo, seguem ocorrendo mobilizações e cresceu a convicção internacional e nacional – inclusive entre camadas populares antes neutras ou favoráveis ao afastamento– de que estamos diante de um golpe parlamentar-judicial. Mas o debate político pouco a pouco deixa de ser como impedir o golpe e passa a ser como enfrentar o cada vez mais provável governo golpista.
  1. Embora certa confusão seja parte inevitável do ambiente que prevalece em qualquer derrota, a maneira precoce e atabalhoada com que algumas lideranças, parlamentares e organizações conduziram o debate sobre como enfrentar o cada vez mais provável futuro governo golpista acabou contribuindo para complicar um quadro que já seria ruim devido ao refluxo. O mais grave, contudo, é que este atabalhoamento revela que continua presente entre nós a crença em saídas mágicas e em acordos salvadores.
  1. A verdade é outra: não haverá saída rápida, fácil nem indolor. A contraofensiva conservadora iniciada há anos está neste momento atingindo seus objetivos em toda a América Latina. No caso do Brasil: afastar a presidenta Dilma, mudar o conjunto da política e neutralizar por um longo período a esquerda. O que inclui impedir Lula de disputar as eleições de 2018 (via condenação e/ou prisão e desmoralização) e inviabilizar o funcionamento do PT (via multas e/ou processos e demonização).
  1. Faremos de tudo para impedir o êxito dos golpistas, agora, no julgamento e depois. Mas exatamente para termos êxito na luta contra os golpistas, não devemos embelezar a situação, subestimar os perigos nem superestimar nossas forças. A situação é muito grave e isto deve ser dito abertamente e com todas as letras. É preciso abandonar a postura paternalista segundo a qual o realismo analítico desmobiliza.
  1. O Capital está empurrando a classe trabalhadora, a direita está empurrando a esquerda para um período de defensiva estratégica. Este fato ainda não foi compreendido adequadamente e as implicações dele ainda não foram “processadas” pelo conjunto da militância, nem mesmo pelos principais dirigentes. Deriva desta incompreensão tanto a insistência nas ilusões com o lado de lá, quanto a superestimação de nossas forças (e, por decorrência, a aposta em soluções esquerdistas, dependentes da vontade da vanguarda, desconsiderando o ânimo das massas populares).
  1. Para sair da defensiva estratégia será necessária reconquistar o apoio da classe trabalhadora, mudar a linha política (programa e estratégia), adotar táticas muito precisas, alterar o funcionamento e o comportamento organizativo, assim como elevar a capacidade dos coletivos dirigentes. Será necessário também um pouco de tempo e uma boa pitada de sorte. E nada disto será “a frio”. Pelo contrário, teremos que fazê-lo sob ataque inimigo, num ambiente de recriminações e com diferentes orientações disputando corações e mentes da militância.
  1. É por isto que ganha imensa importância o que faremos nos próximos dias. Uma coisa é sair derrotado, desmoralizado e desorientado. Outra coisa é sairmos derrotados, mas não desmoralizados nem desorientados.
  1. Neste sentido e do ponto de vista tático é preciso considerar um conjunto de aspectos:
  1. a) o objetivo/potencial real das mobilizações previstas para a véspera da votação no Senado;
  2. b) a tática na sessão final do Senado;
  3. c) como será a cada vez mais provável “descida da rampa”;
  4. d) a orientação para os integrantes do governo, em caso de derrota na votação do Senado;
  5. e) a tática/objetivos no processo de julgamento no Senado;
  6. e) o que significa, concretamente, não reconhecer a legitimidade do governo golpista (e o que se fará para encerrar o mais rápido possível o mandato para o qual o golpista não foi eleito e através de que meios se devolverá ao povo a decisão que lhe compete por direito);
  7. f) como enfrentar as medidas práticas do governo golpista e do parlamento reacionário, o que implica em discutir não apenas seu programa, mas também sua (deles) tática, que pode oscilar entre “fazer o mal todo de uma vez” e “abrir pouco-a-pouco o saco de maldades”;
  8. g) como defender Lula, lideranças e militantes, assim como os partidos e movimentos sociais, frente aos ataques jurídico-policiais que estão em curso e os que ainda virão.
  1. Para além destas definições táticas, é preciso reafirmar a necessidade de debatermos as questões estratégicas e programáticas, num ambiente que sirva para reforçar a unidade popular, em particular consolidar a Frente Brasil Popular. Neste sentido será muito importante que se marque a data e se definam os critérios de participação na segunda conferência da Frente Brasil Popular.
  1. O ideal seria a divulgação, ainda na sexta-feira, de uma “ordem do dia”:

– conclamando a cidadania democrática, os lutadores do povo, os trabalhadores e trabalhadores, a juventude, os movimentos sociais, os defensores dos direitos humanos, os negros e negras, a comunidade LGBT, os povos indígenas, os ambientalistas, os trabalhadores da cultura e da comunicação a manifestar-se intensamente nos próximos dias, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance no sentido de alertar o povo brasileiro contra a marcha golpista, que pretende afastar a presidenta entre os dias 11 e 12;

– convocando o acompanhamento da votação no Senado, estimulando o escracho dos golpistas e preparando a homenagem popular aos senadores e senadoras que defendam a democracia, os direitos sociais e a legalidade;

– convidando para uma vigília defronte ao Palácio do Planalto, para acompanhar a presidenta da República, todos e todas que participaram do governo e que dele serão afastados por decorrência do golpe;

– propondo a constituição de um “governo paralelo”, que analise e denuncie os atropelos do governo golpista, que subsidie a defesa da Presidenta e que contribua na mobilização popular;

– sugerindo uma reunião nacional da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, aberta a outros setores, para fazer um diagnóstico e tentar definir uma tática comum e concreta de enfrentamento contra o governo golpista;

– avaliando as diferentes propostas existentes sobre como impedir que o golpista conclua o mandato para o qual não foi eleito e como devolver a decisão ao povo;

– alertando o conjunto de lideranças, organizações populares, sindicatos e partidos, para o fato de que a direita já desencadeou nova ofensiva criminalizante contra Lula e contra o conjunto da esquerda. E mostrando como isto faz parte de um movimento mais amplo, que visa impedir que se repita/retome o ciclo iniciado em 2003.

  1. Se o processo de julgamento for concluído com condenação ou se ficar publicamente evidente que o julgamento será uma farsa com resultado previamente conhecido, será imprescindível defender que se devolva ao povo o direito de decidir. As várias propostas sobre como fazer isto (plebiscito, antecipação das eleições, eleições presidenciais, eleições gerais, constituinte) supõe aprovação prévia pelo Congresso. Portanto, sua materialização dependeria da própria maioria congressual de direita querer aprovar alguma delas ou de uma imensa campanha democrática que tenha mais sucesso do que as Diretas. Fora estes dois casos, o papel de cada uma destas palavras de ordem é de propaganda e agitação.
  1. É absolutamente didático que a ação da PGR contra Lula e Dilma esteja baseada nas declarações do senador Delcídio do Amaral. Por outro lado, que o “partido aliado” considerado por alguns até há pouco como “prioritário” esteja no centro da armação golpista. E, por fim, que só recentemente amplos setores tenham percebido que para termos êxito na defesa da democracia era fundamental mudar imediatamente a política econômica. Em certos momentos, dar cavalo de pau é a atitude menos perigosa. Os exemplos confirmam o fracasso de uma determinada linha política (programa, estratégia, táticas).
  1. Os que desde há muito alertavam para a tempestade que estava se armando, não necessariamente serão capazes agora de propor uma linha adequada para o que vem por aí. O que podemos e devemos é tentar contribuir:
  1. a) estimulando a compreensão da situação: estamos diante de uma difícil equação, que pode ser resumida em defender uma radicalização na estratégia num ambiente de refluxo tático;
  2. b) estimulando a organicidade, fortalecendo as organizações coletivas, a auto-sustentação militante, as redes de comunicação;
  3. c) preparando o espírito e adotando medidas práticas para enfrentar a ofensiva econômico-social, político-ideológica e jurídico-policial que se abate sobre o conjunto da esquerda;
  4. d) estimulando a convicção de que esta contraofensiva conservadora será dura, mas pode ser derrotada e será derrotada a medida que reconquistemos o apoio da classe trabalhadora, especialmente da juventude, para um programa de transformações democrático-populares e socialistas.
  1. No caso especifico do Partido dos Trabalhadores, esperamos que o Diretório Nacional convoque um Congresso extraordinário do Partido, para aprovar outra linha política e para discutir como fortalecer a direção nacional do Partido.
  1. Não se confunda isto com a discussão acerca da eficiência, qualidade e representatividade política individual dos atuais dirigentes nacionais. Colocar a discussão nestes termos desvia o foco do central: a linha política da maioria dirigente. Não se trata, portanto, de debater indivíduos; mas sim de debater a renovação e fortalecimento de um coletivo dirigente capaz de implementar uma nova linha política.
  1. Não será fácil mudar a linha política, nem será fácil renovar/fortalecer a direção partidária. Mas é isto que devemos fazer, se realmente compreendemos o tamanho dos nossos problemas e a profundidade das mudanças necessárias para preservar o PT. E sejamos claros: preservar o Partido dos Trabalhadores, manter a coesão da energia social acumulada pela classe trabalhadora desde os anos 1980, é condição essencial para atravessar com mais rapidez e menor custo os tempos bicudos que temos pela frente.

 

valter pomar dirigente ptVALTER POMAR é historiador, professor da Universidade Federal do ABC e militante do PT

FONTE BLOGUE DO VALTER POMAR

 

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