Historiador explica porque Hitler perdeu e quase ganhou a Segunda Guerra Mundial

Em “A Tempestade da Guerra”, Andrew Roberts dialoga com historiadores e refuta algumas de suas teses. Mostra que a Alemanha venceu a batalha durante bom período e que a invasão da União Soviética, apesar do equívoco em si, poderia ter dado resultados positivos Andrew Roberts, historiador britânico, autor do livro “A Tempestade da Guerra”, diz que Hitler não era maluco e que, apesar dos equívocos, derrotou, durante boa parte do tempo, os Aliados (ingleses e soviéticos)

Euler de França Belém
JORNAL OPÇÃO – DE GOIANIA

As editoras brasileiras são criativas ao traduzir títulos e ao inventar subtítulos que não existem nas edições originais. A Record publicou este ano o esplêndido “A Tem­pestade da Guerra — Uma Nova História da Segunda Guerra Mun­dial” (811 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), do britânico Andrew Roberts. O título em inglês, “The Storm of War”, de fato autoriza a versão patropi. Mas cadê, na língua do historiador, o subtítulo? Não há, é claro. Trata-se de uma invenção da editora para atrair a atenção dos leitores. De qualquer modo, apesar da enganação, o livro contém análises surpreendentes, ainda que não se possa caracterizá-las de “uma nova história”. O leitor não especialista ganhará muito se ler, antes do exaustivo trabalho de Roberts, “Europa na Guerra — 1939-1945” (Record, 602 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), do historiador britânico Norman Davies. Há, neste trabalho, um balanço crítico competente da bibliografia histórica, da literatura e do cinema sobre a Segunda Guerra Mundial. O tradutor Brízida, sempre competente, comete um erro básico, criticado por Davies a respeito de alguns autores: chama os “soviéticos” de “russos”. Ora, na Segunda Guerra Mundial não lutaram apenas russos, os nascidos na Rússia, e sim integrantes de todas as repúblicas soviéticas. Ucranianos, bielorrussos, georgianos, lituanos, letãos, estonianos, entre outros povos, lutaram bravamente e milhões pereceram no campo de batalha. Eles nunca se aceitaram como “russos” ou “soviéticos”, mesmo sob o tacão de Stálin. Com a queda do comunismo, há a tendência de transformar em “russos” todos os ex-integrantes da União Soviética. Como se sabe, os russos são detestados pela maioria dos outros povos que foram subjugados pelos bolcheviques de Lênin a Gorbachev.

As primeiras 655 páginas de “A Tempestade da Guerra” são do balacobaco, mas o must está nas 33 páginas da conclusão, na verdade um ensaio excepcional, com o título de “Por que o Eixo perdeu a Se­gunda Guerra Mundial?” Como se sabe, historiadores profissionais tendem a abominar o uso do “se” na elaboração de livros. Em alguns casos, porém, a utilização do “se”, desde que não resulte em conclusões ingênuas ou fantasiosas, é valioso. É o que faz Roberts, com uma fartura de dados e análises consistentes e inteligentes.

Roberts começa com um balanço: “A Segunda Guerra durou 2.174 dias, custou US$ 1,5 trilhão e a vida de mais de 50 milhões de pessoas. Isso representa 23 mil vidas perdidas por mês, ou mais de seis pessoas mortas por minuto, durante seis longos anos”. Depois, discute a responsabilidade dos generais alemães e de seu chefe, Hitler, e, finalmente, as razões da derrota do nazismo.

O general Alfred Jodl, um dos preferidos de Hitler, disse, no julgamento de Nuremberg, em 1946, que os generais alemães não queriam a guerra e não confiavam no líder nazista. Roberts admite que a maioria do alto-comando não planejava guerrear contra a Inglaterra e a França em 1939, mas não se opuseram ao ataque à Polônia. Mas enganam-se aqueles que sugerem que tudo de criminoso deve ser atribuído apenas a Hitler. “Os ‘métodos’ permitidos pelos oficiais germânicos contra populações civis, em particular na Frente Oriental, foram bem piores do que as palavras enganosas de Jodl pretenderam expor e aqueles oficiais estavam, universal e profundamente, comprometidos com as monstruosas violações de todos os cânones que regem as regras da guerra, escritos ou não. (…) Cada um dos generais alemães sabia que o conflito no leste seria de aniquilação, e não um combate militar convencional. (…) Na essência, (…) as desculpas de Jodl não convenceram: os generais germânicos prestaram serviço ‘aos poderes do Inferno’ e a ‘um criminoso’.”

Na União Soviética, como registram Richard Overy, em “Os Ditadores — a Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler” (José Olym­pio, 840 páginas, tradução Marcos Santarrita), e Roberts, Stálin punia com ostracismo, prisão e morte os generais que discordavam de seu ponto de vista; na Alemanha, era diferente. “Mesmo os oficiais que alegaram oposição, e até desobediência, a Hitler não foram particularmente maltratados, a não ser, é claro, os envolvidos no atentado a bomba [contra o Führer]. Foram exonerados, readmitidos, passados à reserva por alguns meses, mas não enfrentaram a pena capital, como foi o caso de muitos que desagradaram Stálin. Em 21 de fevereiro de 1945, Albert Speer escreveu a Otto Thierack, o ministro nazista da Justiça, oferecendo-se para depor como testemunha de defesa do caráter do general Friedrich Froom, que mantivera ‘atitude passiva’ em relação ao atentado a bomba e não alertara as autoridades sobre ele. Era inconcebível que qualquer um, salvo potencial suicida, tomasse tal atitude na Rússia soviética. (…) Ninguém foi sentenciado por se recusar a matar judeus; os oficiais arriscavam suas carreiras, e não suas vidas, quando se opunham a Hitler em termos de princípios militares. (…) Eles podiam estar ‘apenas obedecendo ordens’, porém não o fizeram por bem fundamentado receio quanto às suas vidas”, frisa Roberts.

No julgamento de Nuremberg, com Hitler morto, portanto “culpado” principal, o que de fato era, os generais nazistas procuraram responsabilizá-lo por todos os erros e crimes. Mas, como nota Roberts, “permanece o fato de que nenhum dos líderes militares e civis solicitou espontaneamente exoneração, mesmo quando ficou evidente que a guerra seria perdida”.

Ao contrário do que disseram em Nuremberg ou em livros e entrevistas, “a esmagadora maioria” dos generais prestou “serviços” a Hitler “com extraordinária lealdade”. Roberts afirma que, “individualmente, os generais tinha bons motivos para levar o conflito até o fim: Manstein ordenara o massacre de civis; Rundstedt participara do Tribunal de Honra; Guderian aceitara de Hitler pagamentos em dinheiro vivo e uma suntuosa propriedade. (…) Tampouco eles podiam pleitear ignorância dos fatos”. Roberts cita David Cesarani: “Hitler regularmente informava seus seguidores no partido, ministros e generais a respeito dos objetivos raciais que tinha em mente. Ocasionalmente, alguns faziam objeções […] mas a maioria cooperava”. O historiador inglês conclui: “Os generais germânicos foram, em sua maior parte, corruptos, moralmente degradantes, oportunistas e muito distantes dos cavaleiros não ideológicos pelos quais gostavam de se passar”.

Primeiro grande erro

Hitler e seus generais pretendiam começar a guerra, se não tivessem encontrado obstáculos à busca do que chamavam de “espaço vital”, apenas em 1942 ou 1943, quando estariam militarmente mais preparados. O registro de Roberts: “Se o conflito tivesse começado com a mesma quantidade de U-boats [submarinos] que a Alemanha possuía quando ele terminou — 463 — e não com os 26 operacionais de que dispunha em 1939, teria havido a possibilidade de asfixiar a Inglaterra, em especial se fossem concentrados esforços para a fabricação, com a maior brevidade possível, dos submarinos Walther (com propulsão a peróxido de hidrogênio e armados com torpedos guiados) e do dispositivo Schnorchel”.

Roberts acrescenta: “Se as fábricas da Luftwaffe tivessem sido afastadas dos grandes centros industriais, ou se houvesse começado mais cedo a produção em grande escala do Messerschmitt Me-262, caça a jato capaz de derrubar os Mustangs norte-americanos que se aventurassem sobre os céus da Alemanha, talvez o resultado da guerra áerea fosse diferente”.

Hitler cometeu erros, como suspender, em novembro de 1939, “o programa de desenvolvimento das bombas ‘V’ por acreditar que a vitória na Polônia demonstrara sua desnecessidade. Ele foi reativado em setembro de 1941, porém só recebeu alta prioridade em julho de 1943”.

A retirada inglesa em Dun­querque foi uma vitória alemã, mas, se Hitler tivesse sido ousado, poderia ter sido uma vitória ainda mais acachapante. Roberts avalia que, “em maio de 1940, Hitler deveria ter dado apoio aos generais que desejaram contrariar a Ordem do Alto Comando dada por Rundstedt antes de atingir Dunquerque, visto que a continuação do avanço teria significado a captura do grosso da Força Expedicionária Britânica e evitaria sua escapada do continente”. Göring, mesmo fracassando em Dunquerque, não foi substituído. “Sua fidelidade como nazista era mais importante para Hitler do que sua competência como comandante da força” (a aeronáutica).

A invasão da União Soviética, tratada erradamente tão-somente como invasão da Rússia pela tradução brasileira, foi o “erro fundamental” de Hitler na guerra. Pri­meiro, porque os comunistas eram aliados dos nazistas e haviam assinado um pacto de não-agressão. Se­gundo, os alemães tiveram de lutar em duas frentes, quando poderiam ter eliminado primeiro a Inglaterra e, depois, atacado os bolcheviques. Com “uma fração da força que foi lançada contra a Rússia”, os alemães poderiam “ter expelido bem antes os ingleses do Cairo, Palestina, Irã e Iraque. A conquista do Cairo teria aberto quatro excelentes perspectivas, a saber: a posses com relativa facilidade dos quase indefesos campos petrolíferos do Irã e do Iraque; a expulsão da Marinha Real de sua importante base de Alexandria, no Mediterrâneo; a interrupção do tráfego marítimo dos Aliados através do Canal de Suez; e a possibilidade de atacar a Índia pelo noroeste exatamente quando o Japão a ameaçava pelo nordeste. Bem posicionados no Oriente Médio, os germânicos teriam cortado o suprimento de petróleo inglês e representado perigo pelo oeste para a Índia britânica, como também para a União Soviética e para o Cáucaso, pelo sul. Mesmo que a Inglaterra continuasse combatendo a partir das ilhas do Reino Unido, do Canadá e da Índia, mediante a importação de petróleo dos Estados Unidos, não mais existiria ameaça britânica ao flanco sul da Alemanha”.

A análise de Roberts é instigante porque, apesar de apontar o erro essencial da Operação Barbarossa, afirma que Hitler poderia ter derrotado os soviéticos. Além dos erros apontados acima, houve outros: “O Grupo de Exércitos do Sul deveria ter conquistado o Cáucaso pelo sul, e não pelo oeste. Avançando entre o mar Negro e o mar Cáspio, a invasão germânica no Cáucaso e no sul da Rússia teria privado a URSS da maior parte de seu suprimento de petróleo não siberiano”.

“Foi sorte incrível para os Aliados”, afirma Roberts, “que o Eixo jamais tivesse coordenado seus esforços de guerra e falhasse até na troca de informações sobre equipamentos básicos”. O historiador avalia que, “se tivesse havido coordenação militar entre Berlim, Roma e Tóquio, os nipônicos não teria atacado os norte-americanos, e sim os russos, tão logo a Alemanha ficasse pronta para a invasão. O petróleo de que tanto o Japão precisava teria vindo da Sibéria em vez de ser conseguido nas Índias Orientais Holandesas. Contudo, Hitler não mostrou o menor interesse em que o Japão participasse da Barbarossa e os líderes desse último nem o informaram sobre o iminente ataque a Pearl Harbor; da mesma forma que Mussolini não alertou Hitler sobre o ataque à Grécia, tampouco o Führer falou ao Duce sobre a invasão da Iugoslávia”.

Segundo grande erro

O segundo grande erro de Hitler foi declarar guerra aos Estados Unidos. Roberts avalia que, se a Alemanha não tivesse declarado guerra aos americanos, “teria sido quase impossível que Roosevelt comprometesse os Estados Unidos com a invasão do norte da África, em 1942. Em vez disso e sem qualquer necessidade, o Führer declarou guerra aos Estados Unidos”. O erro foi cometido “apenas seis meses depois do primeiro”.

Numa análise tão curiosa quanto perspicaz, Roberts diz que “mandava o bom senso que o Führer denunciasse o Pacto Tripartite [Alemanha-Itália-Japão], que até então pouco o ajudara, após Pearl Harbor e que exonerasse Ribbentrop. As avaliações do ministro do Exterior sobre “as possibilidades e intenções dos Estados Unidos” foram “grotescas”.

O Lebensraum (a política de conquista e ampliação do espaço vital) e a limpeza étnica foi outros grandes erros de Hitler. “Se tivesse dado ao Lebensraum e à limpeza étnica baixa prioridade em sua agenda — a serem consumados depois da vitória —, os alemães poderiam ter se esforçado para transformar em aliados contra os bolcheviques opressores os povos subjugados pela Grande Rússia, permitindo à Ucrânia, Bielorrússia, Estados Bálticos, Crimeia e repúblicas caucasianas o mais amplo grau possível de autonomia.”

Outro equívoco de Hitler era não saber recuar. Se tivesse seguido o conselho preciso de alguns generais — pelo contrário, exonerava “aqueles que se dispunham” a orientá-lo “honestamente” —, teria recuado, pelo menos algumas vezes, e preservado tropas de excelente qualidade. Mas preferia continuar avançando, mesmo com alto custo de vidas. O cerco a Sta­lingrado foi caro em termos de dinheiro, armamentos e vidas humanas e um equívoco geopolítico. A cidade não tinha importância estratégica nem para Hitler nem para Stálin. Conquistar Moscou teria sido mais estratégico. “Além das sérias implicações para o moral russo, a queda de Moscou teria prejudicado sensivelmente a capacidade soviética de concentrar suas reservas e de suprir outras cidades na região. As distâncias, os transportes (infernizados pelos partisans), a logística, a lama, a neve e a mobilização — ainda que com monstruoso desperdício — de impressionantes contingentes humanos foram as razões para o fracasso germânico. Mesmo as­sim, se Fedor von Bock tivesse sido autorizado a continuar o avanço de seu Grupo de Exér­citos do Centro, no início de a­gosto de 1941, vigorosamente e com sua força completa, na direção da capital soviética, todos aqueles obstáculos poderiam ter sido ultrapassados.”

Uma das armas de Hitler era a surpresa, mas, com a guerra, foi acomodando-se. “Entre março e julho de 1943, adiou a Operação Zitadelle do ataque a Kursk por cem dias. (…) A total falta da surpresa foi desastrosa.” Quando atacaram, numa batalha sangrenta, os russos já estavam preparados.

Hitler apreciava ter informações precisas sobre as ações de seus adversários, mas, na Normandia, em 1944, foi enganado tanto pelos aliados — sugeriram ataque num lugar e atacaram em outro — quanto pelos equívocos de seus generais. Ele próprio errou. “A solução de meio-termo que encontrou para o desejo de Rundstedt de empregar suas forças no interior e o de Rommel de combater nas praias foi o pior dos dois mundos, ao mesclar a reação e separar irreparavelmente os comandos.”

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