Hildegard Angel sobre Zé Dirceu: “Nunca um homem sofreu tal linchamento e se manteve de pé”. Mas quando Hildegard Angel diz que teria sido “por obra, empenho, articulação e graça de José Dirceu que Luís Inácio Lula da Silva chegou a Presidente da República”, ela fala uma enorme bobagem, um verdadeiro sacrilégio diante do processo de construção do PT que, na verdade, é obra coletiva, de milhares e milhares de dedicados militantes

Exageros à parte, reproduzo abaixo o depoimento de Hildegard Angel sobre Zé Dirceu, em artigo no Jornal do Brasil. Quem acompanha está PAGINA DO E sabe que nos posicionamos ao lado daqueles que entendem que são muitas as manipulações que marcam o chamado Julgamento do Mensalão. A PGR e o STF não conseguiram reunir, por exemplo, provas que relacionassem Zé Dirceu com os malfeitos a ele atribuídos. Sua condenação foi arranjada graças à utilização da teoria do domínio do fato segundo a qual quem ocupa posição de liderança necessariamente deve responder pelos malfeitos atribuídos a seus subordinados. E que malfeitos foram esse? Utilização de recursos públicos para a compra de parlamentares? Essa tese também tem sido duramente questionada, a partir da apuração criteriosa desenvolvida por jornalistas como Raimundo Pereira, Paulo Moreira Lima, Miguel do Rosário e tantos outros. Me parece que falham os juristas que atuaram na defesa de José Dirceu e outros mais ao não darem destaque às teses que o jornalismo investigativo tem apresentado de forma tão ampla. A tese do domínio do fato deveria ter sido combatida, nos autos, com mais vigor, mais argumentações e maior embasamento. Registrar e documentar o erro jurídico não autoriza, todavia, este blogueiro a compartilhar do entusiasmo de Hildegard Angel para com José Dirceu enquanto líder político, enquanto sombra de Lula em sua atuação como presidente da República e enquanto dirigente do PT. Dizer, como diz Hildegard Angel que  teria sido “por obra, empenho, articulação e graça de José Dirceu que Luís Inácio Lula da Silva chegou a Presidente da República” é uma enorme bobagem, um verdadeiro sacrilégio diante do processo de construção do PT que, na verdade, é obra coletiva, de milhares e milhares de dedicados militantes. Avalio que nem Zé Dirceu, em seus momentos de delírio, diria uma idiotice dessas. Mas Hildegard Angel, minha gente, é uma jornalista reconhecida nacionalmente, de grande sucesso no colunismo social. Não vamos esperar dela que vá às raízes desta questão, guiada pelas ferramentas do materialismo dialético. Não é essa a pretensão dela, ela se manifesta, antes de mais nada, como amiga de Zé Dirceu. Nem eu mesmo me sinto habilitado para um tal mergulho na alma do José Dirceu. Mas gostaria de testemunhar que Dirceu merece a minha solidariedade como vítima de um julgamento visivelmente manipulado mas sua liderança política não me entusiasma nem um pouquinho. Não há provas dos seus crimes administrativos mas seus erros políticos são mais do que evidentes no processo de burocratização do PT, de fortalecimento do lulismo em detrimento do petismo, de transformação do PT em partido que ameaça repetir, tristemente, a mesma performance do PCB – Partido Comunista Brasileiro na história contemporânea de nosso País. Quem vê, muito recentemente, as estrepolias impunes do deputado Vacarezza em torno da reforma política e as suspeitas de inchamento do número de filiados petistas credenciados para a votação no PED 2013 sabe que nestes dois fatos, sim, está refletida a triste herança da trajetória que José Dirceu impôs ao partido, sempre preocupado em impedir a hegemonia dos grupamentos de esquerda dentro da agremiação. Felizmente, o PT não se resume a Zé Dirceu e representa a soma de milhares e milhares de cidadãos brasileiros que, fazendo uma opção por este partido de esquerda, acreditam estar contribuindo para conduzir o Brasil por caminhos de dignificação do seu povo trabalhador. Há muito mais a ser dito sobre isso tudo, é claro. Só queria deixar registrado que, respeitando a opinião de Hildegard Angel, solidário com o petista José Dirceu diante das manobras que tem sido vítima no julgamento da AP 470, não posso deixar, também, de lamentar que os erros políticos das lideranças do chamado “Campo Majoritário” (atual Construindo um Novo Brasil) nos tenham arrastado para essa conjuntura de tanto desgaste para o PT e para bandeira vermelha que os militantes petistas sempre procuraram manter altaneira em meio às lutas de nosso povo. Mas bem sabemos que estas idas e vindas dos partidos de esquerda, essas falhas de tantos e também minhas dentro do processo de construção do PT, esses erros e escorregadelas sob as mais variadas formas, expressam nossa condição humana. Lembram-se do poeta Fernando Pessoa a se perguntar, no Poema em Linha Reta: “Arre, estou farto de semideuses!/Onde é que há gente no mundo?!” Certamente que no PT há gente em demasia, homens e mulheres tentando viver em mundo em termos de esperança.  Confira o que Hildegard Angel escreveu. (EC)

“NUNCA UM HOMEM SOFREU TAL LINCHAMENTO E SE MANTEVE DE PÉ”

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Texto da jornalista Hildegard Angel aborda o drama do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. “Nem mesmo o mais reles criminoso foi satanizado de tal forma ou sofreu linchamento tão perverso”, diz ela, que batizou o chamado “mensalão” como Mentirão; cineasta Tata Amaral prepara documentário sobre os últimos meses de Dirceu, chamado “O grande vilão”

 

 

247 – Colunista do Jornal do Brasil, a jornalista Hildegard Angel publicou ontem um desabafo em defesa de José Dirceu. Segundo ela, nunca uma pessoa foi tão acatada, humilhada e linchada na história do País. Leia abaixo:

JOSÉ DIRCEU: NUNCA, ANTES, NA HISTÓRIA DESTE PAÍS, UM HOMEM SOFREU TAL LINCHAMENTO

Ao fim da transmissão, quinta-feira, da sessão no STF, Maria Alice Vieira, a colaboradora braço direito de José Dirceu, anunciou que todos os presentes ali reunidos no salão de festas do prédio do ex-Chefe da Casa Civil estavam convidados para retornar na próxima quarta-feira e, juntos, assistirem novamente à próxima sessão, que provavelmente deverá julgar os Embargos Infringentes, assim todos esperam.

Havia no ar uma certa sensação de alívio. Alguém atrás de mim comentou: “Mais uma semana!”. O que entendi como “mais uma semana de esperança”.

O irmão de José Dirceu, Luís, que naquela manhã teve um mal estar cardíaco e precisou ser atendido numa clínica, veio me cumprimentar e agradecer o apoio, “em nome da família”. Gesto inesperado e tocante, de quem estava claramente emocionado.

José Dirceu é o que a literatura define como “homem de fibra”. Impressionante como se manteve e se mantém de pé, ao longo de todos esses anos, mesmo atacado por todos os lados, metralhado por todas as forças, todos os poderosos grupos de mídia, os políticos seus detratores, todas as forças da elite do país, formadores de opinião de todos os segmentos e matizes, de forma maciça e ininterrupta, massacrante.

De modo como jamais se viu uma pessoa nesta Nação ser ofendida, ele vem sendo acossado, desmoralizado, num processo de demolição continuada, sem deixarem pedra sobre pedra, esmiuçando-se cada milímetro de sua intimidade, devassando, perseguindo, escarafunchado e, sem qualquer evidência descoberta, juízes o condenam proferindo frases do tipo “não tenho prova cabal contra Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Nem mesmo o mais reles criminoso foi satanizado de tal forma ou sofreu linchamento tão perverso.

Com tal carga a lhe pesar sobre os ombros, ele não os curva. Às vezes mais abatido, outras aparentemente decepcionado, contudo sempre em combate, preparando-se para o momento seguinte. Não se queixa, não acusa, não lamenta, nem cobra a ausência de apoio daqueles que, certamente, deveriam o estar respaldando. É discreto. Não declina nomes. Nunca deixa transparecer quem está próximo dele, quem não. Um eterno militante de 68, que jamais despiu a boina.

“Família”, antes da reunião daquela tarde, em seu prédio, com os companheiros que o apoiam nessa via crucis penal, para juntos assistirem à transmissão da TV Justiça, ele almoçou em casa com suas três ex-mulheres, filhas, irmãos, uma confraternização familiar necessária para quem poderia, dali a algumas horas, escutar o pior dos resultados.

E lá estávamos nós, aguardando sua chegada, falando baixo, sem grande excitação no ambiente, enquanto um técnico ajeitava, no laptop, o projetor das imagens da TV que seriam exibidas na parede.

A diretora de cinema Tata Amaral fez uma preleção sobre seu filme “O grande vilão”, um documentário sobre esse período da vida de Dirceu, “o homem mais perseguido da história da República”, e distribuiu termos de autorização de uso de imagem para que os presentes, que assim o desejassem, assinassem. Pelo que percebi, todos assinaram.

Dirceu cumprimentou um por um, agradecendo a presença de todos. Parecia calmo ao chegar. E calmo permaneceu até o final. Quando se despediu de mim, José Dirceu disse, elogiando: “O ministro Barroso estava certo, quando defendeu a suspensão da sessão até a próxima semana”.

Ele se referia à argumentação do ministro Luis Roberto Barroso, que, para garantir aos advogados plena defesa dos réus, usou a  frase “seria gentil e proveitoso dar aos advogados a oportunidade de apresentar memoriais”. Ponderação que o presidente Joaquim Barbosa acolheu muito a contragosto.

Na próxima semana, estaremos lá todos com você de novo, José Dirceu. Acredito em sua inocência. Acredito em Mentirão, não em Mensalão, que para mim existe muito mais para desqualificar a luta dos heróis e mártires da ditadura militar do que para qualquer outra coisa. Mais para justificar o apoio dado pela direita reacionária de 1964 – as elites e a classe média manipulada – ao totalitarismo que massacrou nosso país, tolheu nossa liberdade e nosso pensamento, dizimou valores, destruiu famílias, acabrunhou, amedrontou, paralisou, despersonalizou e tornou apático o povo brasileiro por duas décadas.

E como alvo maior desse processo de desqualificação reacionária, que ressurge como um zumbi nostálgico assombrando o país, foi eleito José Dirceu, o qual, como bem analisa o cineasta Luiz Carlos Barreto, cometeu o grave delito de colocar no poder um sindicalista das classes populares, o Lula.

Pois foi por obra, empenho, articulação e graça de José Dirceu que Luís Inácio Lula da Silva chegou a Presidente da República. E chegou com um projeto político de sucesso, bem estruturado, com um discurso certo, que alçou Luís Inácio não só a um patamar diferenciado de Estadista em nossa História, como também a um conceito internacional jamais alcançado por um Chefe de Estado brasileiro.

Grande parte disso tudo pode ser creditada (ou, segundo interpretação de alguns,debitada) a José Dirceu.

Motivos não faltaram nem faltam para essa obsessão de tantos por destrui-lo.

1 Comentário

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  1. - IP 177.221.96.140 - Responder

    LInhas e linhas de esperneio e sapateio.

    Fico admirado de ver que até o Enock acredita na suposta inocência do chefe da quadrilha, pois até o Zé Dirceu já demonstrou ter dúvidas dizendo que “estou cada vez mais convencido da minha inocência”,.

    Ou seja se nem ele acredita plenamente na própria inocência, como é que uma pessoa racional como o Enock pode acreditar nessa lenga-lenga.

    Por outro lado, há petistas que acreditam na inocência até do João Paulo, apesar dele ter recebido dinheiro vivo da empresa que cuidava da publicidade da Câmara, sob a sua presidência.

    Como dar crédito a essa gente???

    Não tenham dúvidas, eles querem nos enganar com essa estória da carochinha, para continuar com os seus projetos totalitários, a começar pelo controle da mídia.

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