GUSTAVO CERBASI – Antes de migrar para outro produto de renda fixa, o poupador deve avaliar bem todos os custos da mudança

Vantagens da poupança
Gustavo Cerbasi

Antes de migrar para outro produto de renda fixa, o poupador deve avaliar bem todos os custos da mudança

Na última quarta-feira, o Copom reduziu a taxa Selic para 8,5% ao ano, como esperava o mercado. Ainda antes do anúncio, membros do próprio governo já sinalizavam a expectativa de juros abaixo de 8% no segundo semestre.

Com isso, acionou-se o “gatilho” para a nova regra de remuneração da caderneta de poupança, que, no atual nível de juros, passa a render 70% da taxa Selic, ou seja, 5,95% ao ano. No curto prazo, não é uma queda significativa ante os 6,17% ao ano que rendia até então, mas muitos especialistas já se adiantaram em recomendar a escolha de outros produtos de renda fixa, supostamente mais rentáveis.

Minha recomendação, entretanto, é de cautela antes de realizar qualquer mudança. Na sexta-feira passada, o CDI, que é a taxa de empréstimos entre bancos, estava em 8,33% ao ano. Realmente, se aqueles que investem em poupança passarem a optar por investir em produtos que rendem o equivalente a 100% do CDI, como uma letra de crédito ou um CDB com prazo de resgate de dois anos, ficarão com rendimento líquido de 7,08% ao ano, o que justificaria a recomendação dos especialistas.

Vale lembrar, porém, que rentabilidades próximas a 100% do CDI ainda são privilégio de quem já desfruta de um pacote de serviços bancários e conta com algumas dezenas de milhares de reais investidos ou então já abriu conta em corretoras ou em butiques de investimento para acessar produtos mais rentáveis. Esse tipo de poupador, com maior acesso à informação, provavelmente já não investia na poupança ou investia pouco.

A maioria dos brasileiros ainda limita seu relacionamento bancário à conta-salário ou à conta-poupança, que não tem custos, mas limita as possibilidades de investimento. Isso não impõe, necessariamente, uma remuneração menor aos recursos poupados.

Digamos que um trabalhador tenha saldo de R$ 5.000 na caderneta e poupe regularmente R$ 100 ao mês. Contando que o saldo de R$ 5.000 continuará rendendo 6,17% ao ano e que os R$ 100 mensais renderão 5,95% ao ano, em cinco anos o saldo será de R$ 13.718,59. Se, para acessar um produto hipotético que pague 100% do CDI, o trabalhador tiver de abrir uma conta que lhe custe R$ 10 por mês, mais uma tarifa de R$ 7 a cada DOC enviado (abatendo esses custos do valor que seria poupado), o saldo após cinco anos será de R$ 12.993,85. Nessa conta, descontei somente 15% de Imposto de Renda, supondo que nenhum saldo será resgatado antes de completar dois anos de aplicação.

Conclusão: antes de migrar para outro produto de renda fixa, o poupador deve avaliar todos os custos da mudança, incluindo as tarifas para acessar o produto, a taxa de administração, a taxa de custódia (no caso de títulos públicos), a taxa de carregamento (no caso de planos de previdência) e a tabela regressiva do IR. Nesse último caso, é preciso estimar a data em que o dinheiro será resgatado, ou seja, é preciso planejar -algo que o poupador médio não está acostumado a fazer.

Passam a ser ainda mais atraentes os CDBs de bancos pequenos, os títulos públicos, os planos de previdência sem taxa de carregamento e os fundos com taxa de administração inferior a 0,5% ao ano. Para novos depósitos, essas alternativas devem ser consideradas, principalmente se continuar a tendência de queda nos juros.

Aliás, se em algum momento a Selic chegar a 7,25% ao ano, qualquer produto com desempenho igual ou inferior a 100% do CDI estará rendendo menos do que a antiga regra da poupança.

Isso faz de qualquer saldo depositado até 4 de maio uma grande preciosidade, pois, se não houver mais mudanças nas regras, a antiga poupança passará a ser o produto de renda fixa mais rentável do mercado. Portanto, pense duas vezes antes de resgatar seu saldo.

Se a queda nos juros acontecer, aposte suas fichas em qual será o próximo remendo que o governo vai fazer nas regras da renda fixa. Quebrar as regras da antiga poupança? Reduzir o IR sobre a renda fixa? Forçar os bancos públicos a praticamente zerar as taxas de administração? Se a economia não tremer, um dia saberemos.

GUSTAVO CERBASI é autor de “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” (ed. Gente) e “Como Organizar sua Vida Financeira” (Elsevier Campus).

www.maisdinheiro.com.br
@gcerbasi

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