GRANDE, COMO ERA GRANDE! – O escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu que a função libertadora da arte reside em sua capacidade singular de “sonhar contra o mundo”. Borges inventou, por meio da literatura, um mundo singular que encanta leitores de praticamente todo o mundo

Entre as obras-primas — “de la­conismo” — de Borges, Steiner destaca: “Pierre Menard”, “A biblioteca de Babel”, “As ruínas circulares”, “O Aleph”, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” (um dos preferidos de Harold Bloom) e “A busca de Averróes”. “Se tivesse escrito apenas as ‘Ficções’, Bor­ges se alinharia entre os raros sonhadores originais desde Poe e Baudelaire. Ele aprofundou, e esta é a marca de um artista de real grandeza, a paisagem de nossas memórias.”

George Steiner reafirma genialidade de Borges


Euler de França Belém
jornal OPÇÃO
Jorge Luis Borges merece 16 páginas do livro “Tigres no Espelho” (Globo, 419 páginas, tradução de Denise Bottmann). O ensaio sobre o escritor argentino leva o mesmo título do livro. O texto, de 1970, trata o autor de “O Aleph” como um gênio literário universal.

Steiner nota que, “por muito tempo”, Borges era um autor para “iniciados”. Demorou-se a perceber a genialidade do autor de “Pierre Menard, autor do Quixote” — “uma das grandes maravilhas da invenção humana”, no dizer do crítico americano (nascido em Paris). “A virada se deu em 1961.” De repente, Borges estava na moda. “O mistério é que a tática de um sentimento tão especializado, tão intrincadamente entrelaçado com uma sensibilidade que é pessoal ao extremo, tenha encontrado uma repercussão tão ampla e tão natural. Como Lewis Carroll, Borges transformou sonhos autistas — de uma condição pessoal bastante exótica e idiossincrática — em quadros, em convocatórias discretas, mas rigorosas, que os leitores do mundo todo estão descobrindo com uma sensação de pleno reconhecimento”, nota Steiner.

O leitor de primeira viagem, aquele que está entrando no, digamos, portal Borges, fica, às vezes, com a impressão de que o autor é inacessível, que há chaves complicadas para entendê-lo, daí a necessidade exasperante da crítica. Há outra faceta, pois Borges escreve fácil, aparentando mesmo superficialidade, mas é um engano, sobretudo um engano intencional. O escritor argentino brinca com a “mentira” da literatura, cria truques sutis, e enreda o leitor em seu mundo, um mundo amplo e complexo. “Cada metamorfose traz sua aura persuasiva, e no entanto todas são Borges. Ele se delicia em estender essa sensação do desabrigado, do misteriosamente conglomerado, a seu próprio passado.” Borges inventa literatura e inventa-se. Ele é literatura, é sua literatura.

Steiner afirma que “Borges é um universalista” e dono de uma “erudição fabulosa”. Mas, no escritor argentino, a erudição não é ornamento — “é em si mesma uma espécie de fantasia, uma construção surrealista. (…) Borges constrói um antimundo, um espaço totalmente coerente onde seu espírito pode fazer suas invocações à vontade. O fato de que boa parte das supostas fontes e do mosaico de alusões é pura invenção — expediente que Borges compartilha com Nabokov e que ambos talvez devam a ‘Bouvard e Pécuchet’, de Flaubert — paradoxalmente reforça a impressão de solidez”.

Em Borges o que é invenção é crível e o que é crível pode ser pura invenção. Steiner pergunta: “Quem duvidaria da veracidade das ‘Três versões de Judas’, já que Borges nos garante que Nils Runeberg — note-se a runa no nome — publicou ‘Den hemlige Frälsaren’ em 1909, mas não conhecia um livro de Euclides da Cunha (‘Os Ser­tões’, exclama o leitor incauto) onde se afirmava que, para o ‘heresiarca de Canudos, Antônio Con­selheiro, a virtude ‘era quase uma impiedade’?’ (…) Borges é um curador por natureza, um tesoureiro de miudezas negligenciadas, um indexador das verdades obsoletas e conjeturas surradas que se amontoam no sótão da história”.

Entre as obras-primas — “de la­conismo” — de Borges, Steiner destaca: “Pierre Menard”, “A biblioteca de Babel”, “As ruínas circulares”, “O Aleph”, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” (um dos preferidos de Harold Bloom) e “A busca de Averróes”. “Se tivesse escrito apenas as ‘Ficções’, Bor­ges se alinharia entre os raros sonhadores originais desde Poe e Baudelaire. Ele aprofundou, e esta é a marca de um artista de real grandeza, a paisagem de nossas memórias.”

Steiner encontra lacunas na obra de Borges. Uma delas: “So­mente uma vez, no conto ‘Emma Zunz’, Borges criou uma mulher plausível. Em toda a obra restante, as mulheres são os objetos indistintos de fantasias ou recordações masculinas”. Outro “problema”: “A estranheza concentrada do repertório de Borges explica certo preciosismo, uma elaboração rococó que pode ser fascinante, mas também asfixiante”.

O crítico estranha as influências literárias de Borges — Tho­mas de Quincey, Stevenson, Ches­terton e Kliping —, mas tenta entendê-las. Grandes autores às vezes extraem uma espécie de “sumo” de escritores menores. Os citados são, no dizer de Steiner, “mestres, mas”, ressalva, “de maneira tangencial. Borges tem toda razão em nos lembrar a prosa de De Quincey, ressoante como um órgão, e o absoluto controle e domínio da récita em Stevenson e Kipling. Chesterton é uma escolha muito excêntrica, embora se possa indagar a contribuição de ‘O Homem Que Foi Quinta-Feira” para o gosto de Borges pela charada e pela comédia altamente intelectual”.

Chico Buarque, que compunha maravilhosamente sob a censura da ditadura civil-militar, certamente apreciará o que diz Steiner, ou melhor, Borges: “Numa nota maliciosa, Borges saiu em defesa da censura [Steiner não lembra os russos, mas poderia tê-lo feito. Os russos eram craques na arte de driblar a censura]. O verdadeiro escritor utiliza alusões e metáforas. A censura o obriga a afiar, a manejar com mais destreza as ferramentas essenciais de seu ofício. (…) A função libertadora da arte reside em sua capacidade singular de ‘sonhar contra o mundo’, de estruturar mundos que são diferentes. O grande escritor é anarquista e arquiteto; seus sonhos destroem e reconstroem a paisagem provisória e imperfeita da realidade”.

(Harold Bloom, leitor apaixonado de Borges, diz que, para o escritor argentino, “o mundo é uma ilusão, uma especulação, um labirinto, um espelho que reflete outros espelhos. (…) Borges encanta-nos e transporta-nos a um mundo de forças impessoais”. No livro “Como e Por Que Ler”, lista as seis “melhores” histórias do portenho: “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, “Pierre Menard, autor do Quixote”, “A morte e a bússula”, “O Sul”, “O imortal” e “O Aleph”.

Bloom diz que “‘Tlön’ é o texto mais incrível, mais sublime” de Borges. O escritor “denuncia o que chamamos de ‘realidade’, e não Tlön, fantasia por ele criada, que pertence ao labirinto vivo da literatura de ficção”. No livro “Gênio — Os 100 Mais Criativos da História da Literatura”, Bloom escreve: “… o argentino Borges e o italiano Calvino são os gênios autênticos da ficção fantástica, propiciando uma alternativa ao predomínio de Tchekhov no conto”. Borges é bem editado no Brasil.)

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

vinte − quinze =