GRANDE, COMO ERA GRANDE: Morre Joelmir Beting, lenda do jornalismo econômico. Leia o que escreveu sobre ele seu filho, Mauro Beting

Beting trabalhava na Bandeirantes, no “Jornal da Band” e no “Primeiro Jornal”. Teve uma longeva carreira na imprensa televisual (e escrevia artigos em jornais). Joelmir Beting era uma espécie de Paulo Francis do jornalismo econômico

Euler de França Belém
JORNAL OPÇÃO

Morreu nesta madrugada de quinta-feira, 29, à 0h55, uma lenda do jornalismo econômico do Brasil, Joelmir Beting, aos 75 anos. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e havia sofrido um acidente vascular encefálico.

Beting trabalhava na Bandeirantes, no “Jornal da Band” e no “Primeiro Jornal”. Teve uma longeva carreira na imprensa televisual (e escrevia artigos em jornais). Ele foi âncora do Canal Livre, fazia comentários diários no canal BandNews e participava dos programas “Jornal Gente” e “Três Tempos”, na Rádio Bandeirantes. Trabalhou nas tevês Gazeta, Record e Globo.

Antes de Joelmir, o jornalismo econômico na televisão era insosso e seco. Na maioria das vezes, era preciso convocar economistas para destrinçar a linguagem técnica dos planos dos governos e dos problemas da economia privada. O resultado é que especialistas falavam para especialistas e os telespectadores pouco entendiam do que estava acontecendo. Joelmir de certo modo mudou esse quadro, ao traduzir para a linguagem coloquial, mas sem banalização, o economês. Depois dele, pode-se dizer que economia passou a ser quase futebol — daí seu enorme sucesso. Ele, que adorava futebol, era, digamos assim, um craque. Uma espécie de Neymar do jornalismo econômico — uma comparação que Beting, mesmo com seu jeito levemente jocoso, aprovaria.

Beting se tornou praticamente uma lenda do jornalismo econômico. Primeiro, porque entendia o que estava falando — não era um mero “leitor” de teleprompter. Segundo, sabia, como poucos, traduzir a linguagem cifrada da economia para a linguagem das ruas. Ele, por assim dizer, levou a economia da sala para a cozinha e vice-versa. Os enganadores planos dos governos — sempre muito bonitos no papel, desenvolvimentistas mesmo quando monetaristas — eram explicados passo a passo e, em seguida, criticados duramente.

Não é fácil comparar Beting a qualquer outro jornalista, sobretudo de economia. Luis Nassif é competente, mas está perdendo credibilidade, como analista, ao se portar como ideólogo da esquerda. Lillian Witte Fibe é uma comentarista qualificada, mas não tem o humor de Beting — faz o estilo “general” da economia. Comparo-o a outro jornalista, comentarista não de economia, mas “de tudo”. Beting era uma espécie de Paulo Francis do jornalismo econômico. Porque, além de apresentar a informação e, ao mesmo tempo, criticá-la, tinha humor. Sua ironia era fina, à inglesa, embora, fisicamente, parecesse tão alemão quanto Francis. Noutras palavras, Beting tinha bossa.

Abaixo, transcrevemos artigo de Mauro Beting, filho do jornalista, publicado no seu blog no jornal “Lance!”.

Babbo, 21/12/1936 – ET/ER/NO

por Mauro Beting em 27.nov.2012 às 11:51h

Nunca falei com meu pai a respeito depois que o Palmeiras foi rebaixado. Sei que ele soube. Ou imaginou. Só sei que no primeiro domingo depois da queda para a Segunda pela segunda vez, seu Joelmir teve um derrame antes de ver a primeira partida depois do rebaixamento. Ele passou pela tomografia logo pela manhã. Em minutos o médico (corintianíssimo) disse que outro gigante não conseguiria se reerguer mais.

No dia do retorno à segundona dos infernos meu pai começou a ir para o céu. As chances de recuperação de uma doença autoimune já não eram boas. Ficaram quase impossíveis com o que sangrou o cérebro privilegiado. Irrigado e arejado como poucos dos muitos que o conhecem e o reconhecem. Amado e querido pelos não poucos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Meu pai.

O melhor pai que um jornalista pode ser. O melhor jornalista que um filho pode ter como pai.

Preciso dizer algo mais para o melhor Babbo do mundo que virou o melhor Nonno do Universo?

Preciso. Mas não sei. Normalmente ele sabia tudo. Quando não sabia, inventava com a mesma categoria com que falava sobre o que sabia. Todo pai é assim para o filho. Mas um filho de jornalista que também é jornalista fica ainda mais órfão. Nunca vi meu pai como um super-herói. Apenas como um humano super. Só que jamais imaginei que ele pudesse ficar doente e fraco de carne. Nunca admiti que nós pudéssemos perder quem só nos fez ganhar.

Por isso sempre acreditei no meu pai e no time dele. O nosso.

Ele me ensinou tantas coisas que eu não sei. Uma que ficou é que nem todas as palavras precisam ser ditas. Devem ser apenas pensadas. Quem fala o que pensa não pensa no que fala. Quem sente o que fala nem precisa dizer.

Mas hoje eu preciso agradecer pelos meus 46 anos. Pelos 49 de amor da minha mãe. Pelos 75 dele.

Mais que tudo, pelo carinho das pessoas que o conhecem – logo gostam dele. Especialmente pelas pessoas que não o conhecem – e algumas choraram como se fosse um velho amigo.

Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa. Com ele aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas.

Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela família, Palmeiras, amores, dores, cores, canções.

Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Meus pais (que também deveriam se chamar minhas mães) sempre foram presentes. Um regalo divino. Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão e eu. Filhos do rádio.

Filhos de um jornalista econômico pioneiro e respeitado, de um âncora de TV reconhecido e inovador, de um mestre de comunicação brilhante e trabalhador.

Meu pai.

Eu sempre soube que jamais seria no ofício algo nem perto do que ele foi. Por que raros foram tão bons na área dele. Raríssimos foram tão bons pais como ele. Rarésimos foram tão bons maridos. Rarissíssimos foram tão boas pessoas. E não existe outra palavra inventada para falar quão raro e caro palmeirense ele foi.

(Mas sempre é bom lembrar que palmeirenses não se comparam. Não são mais. Não são menos. São Palmeiras. Basta).

Como ele um dia disse no anúncio da nova arena, em 2007, como esteve escrito no vestiário do Palmeiras no Palestra, de 2008 até a reforma: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”.

A ausência dele não tem nome. Mas a presença dele ilumina de um modo que eu jamais vou saber descrever. Como jamais saberei escrever o que ele é. Como todo pai de toda pessoa. Mais ainda quando é um pai que sabia em 40 segundos descrever o que era o Brasil. E quase sempre conseguia. Não vou ficar mais 40 frases tentando descrever o que pude sentir por 46 anos.

Explicar quem é Joelmir Beting é desnecessário. Explicar o que é meu pai não estar mais neste mundo é impossível.

Nonno, obrigado por amar a Nonna. Nonna, obrigado por amar o Nonno.

Os filhos desse amor jamais serão órfãos.

Como oficialmente eu soube agora, 1h15 desta quinta-feira, 29 de novembro. 32 anos e uma semana depois da morte de meu Nonno, pai da minha guerreira Lucila.

Joelmir José Beting foi encontrar o Pai da Bola Waldemar Fiume nesta quinta-feira, 0h55

2 Comentários

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  1. - IP 177.17.204.169 - Responder

    eu gostava muito dos comentários dele. ele não levava este brasil dos caciques políticos muito a séria. Pena que era palmeirense

  2. - IP 189.31.3.177 - Responder

    Acho que ele morreu de desgosto por ser palmeirense.

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