GRANDE, COMO ERA GRANDE: Morre, aos 83 anos, escritora Rose Marie Muraro, uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Eu, Enock Cavalcanti, perco uma amiga muito querida – e a sociedade brasileira, notadamente as mulheres brasileiras, perdem uma grande aliada

Se algum motivo para orgulho posso ter na vida, é o orgulho de um dia ter sido apresentando, em algumas rodas do movimento comunitário, como “Enock, esse meu amigo feminista” por essa mulher, essa intelectual, esta feminista, esta lutadora de esquerda, essa brasileira exemplar que foi Rose Marie Muraro. As lembranças se embaraçam em minha cabeça de velho, misturo datas, locais, pessoas, mas me lembro que naqueles dias sorri, sorri muito, envolvido nas andanças com Rose Marie, pela Baixada Fluminense, para impulsionar a organização das mulheres naqueles bairros empoeirados de Nova Iguaçu. Gorda, quase cega, com dificuldades nas pernas, Rose Marie muitas vezes tinha que se apoiar nas pessoas para seguir em frente. A última vez que a encontrei, num desses eventos do Congresso Nacional, lá estava ela, se apoiando, apalpando, mas sempre seguindo em frente, discursando com argumentos sempre contundentes. Hoje, com a noticia da morte desta mulher tão importante para a sistematização das luta das mulheres no Brasil, só posso chorar e lamentar, como muitas e muitos, certamente, também estão chorando e lamentando neste momento, pelo Brasil e pelo mundo afora. A Teologia da Libertação deve muito a ela. Rose Marie não será esquecida, ela soube viver uma vida preciosa. Confira o noticiário. (EC)

 

Morre aos 83 anos no Rio a escritora e feminista Rose Marie Muraro

Ela estava internada por causa de um câncer na medula óssea.
Rose Marie é uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil.

Do G1 Rio

Rose Marie Muraro morreu aos 83 anos (Foto: CARLO WREDE/AJB/FUTURA PRESS)Rose Marie Muraro morreu aos 83 anos (Foto: CARLO WREDE/AJB/FUTURA PRESS)

Morreu neste sábado (21), no Rio de Janeiro, a escritora e feminista Rose Marie Muraro, aos 83 anos. De acordo com a filha, Tonia Muraro, ela tinha câncer na medula óssea há 10 anos e, desde o dia 15 de junho, estava internada no CTI do Hospital São Lucas, em Copacabana. Ela teve complicações após um tratamento de quimioterapia.

Rose Marie Muraro foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil entre a década de 70 e 80. Foram mais de sessenta anos de dedicação e luta nas conquistas pelos direitos das mulheres. Ela é autora de mais de 40 livros e também atuou como editora em 1600 títulos, quando foi diretora da Editora Vozes, ao lado do teólogo e escritor Leonardo Boff. Os dois trabalharam juntos por 17 anos. Ao lado de Boff, ela também lutou pela teologia da libertação.

Formada em física e economia, ela também trabalhou na Editora Rosa dos Tempos. Em 2009,  inaugurou o Instituto Cultural Rose Marie Muraro onde trabalhava até a piora do estado de saúde.

O velório da escritora está marcado para às 8h deste domingo (22), no Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária do Rio. O corpo será cremado às 16h em uma cerimônia para a família.

Emocionada, a filha da escritora disse que a mãe tinha o sonho de construir um mundo mais solidário e lutou por isso. ” A partir dos seus livros, muitos deles com Leonardo Boff, ela ofereceu essa condições mas a gente ainda tem uma grande luta pela frente”, disse. Rose Marie tinha cinco filhos, 12 netos e quatro bisnetos.

Em uma rede social, a presidente Dilma Rousseff lamentou a notícia. “Foi com tristeza que soube da morte de Rose Marie Muraro, ícone da luta pelos direitos das mulheres. Intelectual notável, Rose Mariue foi uma mulher determinada em tudo, na luta contra a barreira da cegueira, na luta pelas suas ideias. Somos todas gratas à dedicação incansável de Rose Marie”, escreveu.

Perdemos uma genial mulher de visão antecipadora: Rose Marie Muraro

Rose Marie Muraro partiu. Mulher fora de todos os parâmetros, lúcida, implacável, sempre atualizada, leitora incansável, superando as limitações da visão.


Luiz Alberto Gómez de Souza, da Agencia Carta Maior

Arquivo

Rose Marie Muraro partiu. Mulher fora de todos os parâmetros, lúcida, implacável e sempre atualizada, leitora incansável, superando as limitações de sua visão (“nasci quase cega”). Infatigavelmente acompanhando os  temas emergentes e abrindo  novos e surpreendentes horizontes. Nos anos sessenta reformulou , com Leonardo Boff, a Editora Vozes e transformou uma insossa revista franciscana, na então moderna Painel Brasileiro. Ali tive minha coluna internacional, com Alceu Amoroso Lima, Heloneida Studart e tantos outros. Durante anos lutara pelo feminismo, na sua Editora Rosa dos Tempos. Em Seis meses em que fui homem (Rosa dos Tempos, 1990), candidata a deputado, denunciava uma maneira de fazer política masculina e excludente. Com Leonardo Boff escreveu, Feminino e Masculino: uma nova maneira de entender as diferenças (Sextante, 2004).

Seu livro profético, Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade. Querendo ser Deus?(Vozes,2009), explorou os limites futuros de um pós-humano, pelos caminhos da física quântica,da engenharia genética, da nanotecnologia, até a fusão entre o homem e a máquina, num videogame quântico,  com os novos e enormes problemas éticos que se colocam para a humanidade nas próximas décadas; “quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas já intuímos desde sempre” (p. 354). Imaginava uma governança mundial sustentável. Apostava em moedas complementares para superar o capital dinheiro. Antes de tudo, acreditava no ser humano e em Gaia, a Mãe Terra, infinitamente maior do que todos nós. “A nossa espécie é tão vulnerável que homens e máquinas podem se extinguir ao menor suspiro da Mãe Terra” (p. 353). Temos Rose Marie de corpo inteiro em Memórias de uma mulher impossível (Rosa dos ventos, 1999). Ali indicava que trocara a felicidade pelo impossível. Traçou então um belíssimo itinerário, incansável e provocador. Nos últimos anos, com graves problemas de saúde, não parou um só instante, no Instituto Rose Marie Muraro, um dos espaços de enorme criatividade e valentia.

O Instituto Rose Marie Muraro enviou a seguinte mensagem no domingo 21 de junho, que reproduzo:

Rose Marie Muraro acaba de nos deixar e partir para outra dimensão. Lutou por sua vida até o ultimo fôlego e neste momento:

A família perde sua matriarca

As mulheres perdem uma amiga e

A sociedade brasileira perde uma grande aliada.

Os mais de sessenta anos de dedicação ao nosso País, sua luta e conquistas pelos direitos das mulheres, seu sonho de construir um mundo mais humano e solidário, o seu imensurável amor pela vida, nos revelam que Rose além de um exemplo de superação foi realmente Uma Mulher Impossível! Mas agora nos deixa na condição de órfãos de sua beleza, de sua cabeça fascinante, de sua capacidade de criar o impossível para uma realidade palatável,  de onde sua sensibilidade e profundidade podiam vislumbrar a grande beleza neste planeta.

Os seus últimos quinze anos de vida foram preenchidos de muitas batalhas, mas também engrandecida com uma linda história de Um Grande Amor. E nos deixou, mais este apaixonado e inédito poema:

O Pássaro de Fogo

Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.

Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.

Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento,
Ligando o instante à sua profundidade eterna.

Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.

Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.

Rose Marie Muraro

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