GRANDE, COMO ERA GRANDE – Há 20 anos, morria o poeta gaúcho Mário Quintana. “Quem busca unicamente a glória, não a merece”, disse ele, certa vez, em sua coluna, no jornal Correio do Povo. Mario Quintana desafiou o passar do tempo com uma poesia renovadora e definitivamente marcada pelo humor jovem.

Mario-Quintana20 anos sem Mario Quintana

 Milton Ribeiro, do SUL21

Não sou tão velho assim – ou sou? – , mas conheci Mario Quintana. Ou melhor, falei com ele casualmente uma vez. Conversamos numa Feira do Livro a respeito de algo tão prosaico que não lembro bem do assunto. Acho que ele estava procurando um livro numa banca e me perguntou se eu tinha visto. Sim, foi isso. E eu saí procurando sem encontrar. Fim.

Ele foi uma figura conhecida em Porto Alegre. Era o discreto dono da pequena celebridade possível a um autor gaúcho. Sua única extravagância era a de habitar um hotel do centro onde atualmente é a Casa de Cultura Mario Quintana. No seu quarto havia pouco de seu, o que era de Quintana estava espalhado em livros e jornais.

Quintana fazia pouco caso dos críticos que, aliás, costumavam tratá-lo muito bem. Dizia que escrevia suas poesias (e suas crônicas eram também poesia) por sentir necessidade de escrever. Nunca saiu do Rio Grande do Sul, mas era um esplêndido tradutor. Suas traduções Balzac, Virginia Woolf, Voltaire e Proust são exemplos de perfeição e senso de estilo.

Quintana nasceu em Alegrete (RS) em 30 de junho de 1906 e faleceu em Porto Alegre no dia 5 de maio de 1994, há 20 anos. Abaixo, alguns exemplos de sua poesia.

Mario Quintana

Dos Milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…
Nem mudar água pura em vinho tinto…
Milagre é acreditarem nisso tudo!

Da Discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…

O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

(sem título)

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Canção do Dia de Sempre

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

——

Exposição em Porto Alegre lembra os vinte anos de morte de Mario Quintana

Poeta retratou seu próprio mundo em obras poéticas e livros infantis

Ubiratan Brasil – O Estado de S. Paulo

O poeta Mario Quintana gostava de dizer que foi um menino por trás de uma vidraça, tamanha sua adoração pelos livros infantis, cujas ilustrações coloridas contrastavam com a rotina de sua cidade, a gaúcha Alegrete, tão tediosa que parecia produzir imagens em preto e branco. Pouco disposto a entrevistas, Quintana, que morreu em 1994, espalhou histórias de sua vida ao longo dos textos, que tanto retratavam seu mundo interior como investigavam sua própria história.

Autor de 'Poeminha do Contra' morreu aos 87 anos - Liane Neves/ Divulgação
Liane Neves/ Divulgação
Autor de ‘Poeminha do Contra’ morreu aos 87 anos

Em lembrança às duas décadas sem o poeta, a Casa de Cultura Mario Quintana nesta segunda-feira, 5, em Porto Alegre, a exposição Saudade: 20 anos sem Mario Quintana, que reúne uma seleção de poemas, fotos, manuscritos e textos, alguns deles publicados no antigo Caderno H do jornalCorreio do Povo.

O local é apropriado – o acervo Mario Quintana, sob a gestão da CCMQ, é constituído por mais de 400 documentos, entre fotografias, caricaturas, manuscritos e outros. Essa coleção passa atualmente por um processo de inventário e digitalização, procedimentos realizados pelo Núcleo de Acervo e Memória da Casa de Cultura, para ser posteriormente disponibilizada ao público.

Veja vídeo com rara entrevista de Mario Quintana

Mario Quintana nasceu em Alegrete, no dia 30 de julho de 1906, e, com 20 anos, foi para Porto Alegre, onde morou, entre 1968 e 1980, no Hotel Majestic. Publicou mais de 20 livros, sem contar as antologias. O primeiro, aos 34 anos, A Rua dos Cataventos. O último, em 1990, Velório sem Defunto. Com Sapato FloridoPé de PilãoCaderno H,Esconderijos do Tempo, Lili Inventa o Mundo, consagrou-se como poeta do cotidiano e lirismo, e um dos ícones da literatura brasileira.

Poeta, jornalista e tradutor, trabalhou nos Jornais O Estado do Rio Grande e no Correio do Povo (com sua coluna Caderno H). Como tradutor, notabilizou-se com sua impecável tradução de Proust. Traduziu a literatura europeia, como Giovani Papini, Virginia Woolf, Voltaire, entre outros. Morreu em 5 de maio de 1994, aos 87 anos.

Se sua visão da realidade era muito marcada pela nostalgia, Quintana demonstrou em sua poesia qualidades básicas do modernismo, como o humor, a brevidade e o coloquialismo. Em textos mais maduros, atingiu um grau de precisão comparável aos mestres do verso brasileiro, como no famoso Poeminha do Contra, pertencente ao livro Caderno H: “Todos esses que aí estão /Atravancando o meu caminho, /Eles passarão… / Eu passarinho!” – se nos dois primeiros versos predomina uma certa agressividade, essa atmosfera se desmancha nos seguintes.

Mesmo quando tratava de assuntos sérios, como a morte, Quintana descobria uma forma de encerrar a poesia com uma fina ironia, o que não apenas permite uma rápida identificação com o leitor como permite que o tema seja tratado de uma forma nada acadêmica. Depois da estreia editorial, o poeta viveu uma fase de grande estímulo em que sempre procurou manter, em cada livro, uma unidade de composição. Daí o lançamento deCanções, em 1946, e, no ano seguinte, de Sapato Florido, uma coletânea de epigramas, isto é, de curtos poemas em prosa anteriormente publicados na revista Província de São Pedro, da famosa Livraria do Globo.

Em 1948, lançou Espelho Mágico, com alguns quartetos que agradaram a Monteiro Lobato. E a série se encerra com Aprendiz de Feiticeiro, de 1950, seu primeiro volume em que não se prende a um gênero poético em especial, o que fazia até então e que passaria a marcar seu trabalho. Ao mesmo tempo, tornava-se um poeta popular ao publicar textos em uma página literária do jornal Correio do Povo, especialmente por não ser um homem dominado pela fama – “Quem busca unicamente a glória, não a merece”, disse ele, certa vez, em sua coluna. Mario Quintana desafiou o passar do tempo com uma poesia renovadora e definitivamente marcada pelo humor jovem.

Obra poética
A Rua dos Cataventos, 1940
Canções, 1946
Sapato Florido, 1948
O Aprendiz de Feiticeiro, 1950
Espelho Mágico, 1951
Inéditos e Esparsos, 1953
Poesias, 1962
Caderno H, 1973
Apontamentos de História Sobrenatural, 1976
Quintanares, 1976
A Vaca e o Hipogrifo, 1977
Esconderijos do Tempo, 1980
Baú de Espantos, 1986
Preparativos de Viagem, 1987
Da Preguiça como Método de Trabalho, 1987
Porta Giratória, 1988
A Cor do Invisível, 1989
Velório Sem Defunto, 1990
Água, 2011

Livros infantis
O Batalhão das Letras, 1948
Pé de Pilão, 1968
Lili inventa o Mundo, 1983
Nariz de Vidro, 1984
O Sapo Amarelo, 1984
Sapato Furado, 1994

Dez frases:

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

A amizade é um amor que nunca morre.

A arte de viver é simplesmente a arte de conviver … simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!

A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando a vidas dos insetos…

Esses padres conhecem mais pecados do que a gente…

Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e … os amigos, que são os nossos chatos prediletos.

Há uns que morrem antes; outros depois. O que há de mais raro, em tal assunto, é o defunto certo na hora exata.

 

 

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