GRANDE, COMO ERA GRANDE – Gore Vidal, o iconoclasta, morreu

Para além das obras históricas, Vidal escreveu obras iconoclastas como “Live From Golgotha,” (1992), uma revisão dos Evangelhos, abertamente provocadoras, de tal forma que um crítico ironizou: “Se Deus existe e Jesus é o seu filho, então Gore Vidal vai para o inferno.”

Gore Vidal, escritor iconoclasta americano, morre aos 86 anos

Por Bill Trott e Bob Tourtellotte

LOS ANGELES, 1 Ago (Reuters) – O escritor Gore Vidal, que encheu seus romances e ensaios com observações agudas sobre política, sexo e cultura nos Estados Unidos, e que travou duras disputas com rivais literários de alto nível, morreu na terça-feira na sua casa, em Los Angeles, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Ele tinha 86 anos.

O legado literário de Vidal inclui uma série de romances históricos – “Burr”, “1876”, “Lincoln” e “Era Dourada” –e também a grotesca comédia sexual de “Myra Breckinridge”.

Vidal começou a escrever aos 19 anos, quando servia como soldado no Alasca e usou suas experiências da Segunda Guerra Mundial como base para “Williwaw”. Seu terceiro livro, “A Cidade e o Pilar”, causou sensação em 1948, por ter um homossexual assumido como protagonista.

Ao confirmar sua morte, o site oficial do escritor publicou duas fotos dele, uma como jovem primeiro-sargento durante a Segunda Guerra Mundial, e a outra como o iconoclasta escritor que ele se tornaria.

Cáustico e ególatra na mesma proporção em que era elegante e brilhante, Vidal conviveu com alguns dos grandes escritores da sua época, e também bateu cabeça com vários deles. Considerava Ernest Hemingway uma piada, e comparava Truman Capote a um “animal imundo que conseguiu entrar na casa”.

Mas seus maiores inimigos literários foram o guru conservador William F. Buckley Jr. e o romancista Norman Mailer, a quem Vidal certa vez comparou ao assassino fanático Charles Manson.

Mailer deu uma cabeçada em Vidal antes de uma aparição televisiva, e em outra ocasião o atirou no chão.

Com Buckley, o bate-boca chegou a ser transmitido ao vivo para todo o país, quando ambos comentavam a Convenção Nacional Democrata de 1968. Vidal acusou Buckley de ser um “pró-criptonazista”, e Buckley chamou Vidal de “queer” (algo como “bicha louca”) e ameaçou socá-lo.

Vidal nunca pareceu fazer questão de controlar seu abundante ego. Numa entrevista de 2008 à revista Esquire, Vidal disse que as pessoas sempre ficaram impressionadas por ele ter conhecido tanta gente famosa, de Jacqueline Kennedy a William Burroughs.

“As pessoas sempre colocam essa frase ao contrário”, disse ele. “Quer dizer: por que não colocar da forma verdadeira: que essas pessoas vieram a me conhecer, e queriam isso?”

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Gore Vidal (1925-2012)

Considerado um dos maiores escritores dos EUA no século XX, faleceu aos 86 anos. Autor de romances, roteiros de filmes, peças teatrais, foi ator ocasional e candidato derrotado a cargos eletivos. E um crítico feroz da guerra do Afeganistão e do Iraque e da administração Bush.

Faleceu na noite desta terça-feira em Los Angeles, nos Estados Unidos, o escritor e ensaísta Gore Vidal, aos 86 anos, de complicações decorrentes de uma pneumonia.

Considerado um dos mais importantes escritores americanos do século XX, é o autor de 25 romances, dois livros de memórias e vários volumes de ensaios. Escreveu também peças de teatro, guiões de televisão e de cinema, chegando mesmo a ser contratado pela famosa produtora MGM de Hollywood.

Eugene Luther Gore Vidal nasceu no dia 3 de outubro de 1925 num hospital militar em West Point, no estado de Nova York. Era filho de um tenente da aeronáutica e de uma atriz da Broadway, e neto de um senador democrata de Oklahoma. O avô teve uma forte influência sobre a sua visão do mundo, sempre pautada por uma acérrima crítica ao intervencionismo americano.

Os seus romances sobre a história dos Estados – “Washington, D.C.,” “Burr” (1973), “1876” (1976), “Lincoln” (1984), “Hollywood” (1990) e “The Golden Age” (2000), tiveram um enorme sucesso. A combinação do relato rigoroso dos factos com uma escrita atraente e contemporânea levaram o Prémio Nobel Gabriel Garcia Márquez a dizer que não sabia se se tratava de romances históricos ou de história romanceada. Outros romances históricos foram “Criação” (1981) ou “Juliano” (1964), sobre o imperador romano que tentou regressar do cristianismo ao paganismo, considerado por muitos o seu melhor romance.

Para além das obras históricas, Vidal escreveu romances satíricos, como “Myra Breckenridge” (1968). Obras iconoclastas como “Live From Golgotha,” (1992), uma revisão dos Evangelhos, são abertamente provocadoras, de tal forma que um crítico ironizou: “Se Deus existe e Jesus é o seu filho, então Gore Vidal vai para o inferno.”

Entre os seus guiões de cinema mais famosos estão os dos filmes “Ben-Hur”, “Calígula”, ou “Paris já está a arder?”

Como ator, participou em filmes como “Roma”, de Fellini, ou “Gattaca”, de Andrew Niccol.

Os seus ensaios valeram-lhe o National Book Award em 1993.

Um dos primeiros romances com um personagem abertamente gay

A carreira literária do Vidal correu um sério risco quando publicou o seu terceiro romance, “A Cidade e o Pilar”, uma das primeiras obras a apresentar personagens abertamente gays. A obra suscitou protestos num país onde a sodomia era ilegal, e provocou um boicote ao escritor por parte de jornais como o The New York Times.

Em 1950, Vidal conheceu Howard Austen, seu parceiro por toda a vida, com quem morou muitos anos em Ravello, Itália.

Por duas vezes tentou a carreira política, candidatando-se ao Congresso em 1960 pelo partido Democrata, e ao senado em 1982, mas foi derrotado em ambas, apesar de obter honrosos resultados.

Opositor violento da administração Bush, considerava que este tinha roubado a eleição e que a “Junta Bush” usou os ataques do 11 de setembro como pretexto para pôr em prática planos já existentes de invadir o Afeganistão, acusando o regime de “altos crimes contra a Constituição dos Estados Unidos”.

Frases

“A inveja é um facto central da vida americana”.

“Cinquenta por cento das pessoas não votam, e cinquenta por cento não leem jornais. Espero que sejam as mesmas cinquenta por cento.”

“Quanto mais dinheiro acumula um americano, menos interessante se torna.”

“Devíamos parar com o palavreado de que somos a maior democracia do mundo, quando nem sequer somos uma democracia. Somos uma espécie de república militarizada.”

“Nunca perco uma possibilidade de fazer sexo e de aparecer na TV.”

(Traduzidas do The Guardian)

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