GRANDE, COMO ERA GRANDE: Brasil perde Bellini, o capitão da seleção brasileira campeã do mundo em 58. Com 1,82m, 80 quilos, olhos azuis, Bellini era considerado, em seu apogeu, um verdadeiro galã. O jogador, que há três anos já não falava, morreu nesta quinta-feira aos 83 anos.

  • Zagueiro bicampeão do mundo em 58 e 62 tinha 83 anos
  • Estátua no Maracanã relembra conquista da Taça Jules Rimet
  • Gesto foi criado por acaso, a pedido de fotógrafos 

O GLOBO

 

SÃO PAULO – Quando, a pedido de alguns fotógrafos brasileiros, Hideraldo Bellini levantou a Jules Rimet acima da cabeça, em direção ao céu, logo após o Brasil conquistar seu primeiro título mundial, em 1958, na Suécia, o capitão da seleção brasileira não sabia que seu gesto seria repetido desde então por todos os capitães campeões do mundo. Tornou-se uma marca registrada dos vencedores. E não só do futebol. Em qualquer esporte, o capitão campeão ergue o troféu para os céus, mesmo aqueles que nunca ouviram falar do brasileiro.

 

O gesto de Bellini seria eternizado dois anos depois no Rio de Janeiro, mais precisamente na entrada principal do Maracanã. É lá que fica a estátua com ex-jogador de Vasco, São Paulo, Atlético-PR e seleção brasileira repetindo o gesto que fez em Estocolmo. Hoje, a “Estátua do Bellini” é o principal ponto de encontro dos torcedores cariocas. Poucos sabem que a estátua é uma homenagem ao jogador brasileiro, simbolizado pelo capitão de 58 no seu momento mais sublime.

Jogador de poucos recursos técnicos, Bellini ganhou a faixa de capitão das mãos de do técnico Vicente Feola por sua seriedade e determinação dentro de campo. O zagueiro tinha 28 anos e há seis era titular absoluto do Vasco, onde chegara em 1952. Ninguém contestou o treinador quando ele escolheu o homem que o representaria em campo.

Com a conquista do título mundial, os campeões viraram celebridades da noite para o dia. Passaram a ser paparicados onde quer que fossem. Os mais bonitos foram convidados a fazer propaganda dos mais diversos produtos. Logicamente, Belinni foi o mais assediado. O capitão estrelou até fotonovela e, diz a lenda, chegou a ser convidado  para filmar em Hollywood.

Quatro anos depois, Bellini sagrou-se bicampeão mundial no Chile, desta vez na reserva de Mauro, que fora seu reserva na Suécia. Os dois se tornaram mutio próximos e mantiveram por quase 40 anos uma sólida amizade, que só terminou com a morte de Mauro em 2002. Em 1966 já com 36 anos, disputou a Copa da Inglaterra e sucumbiu com a seleção brasileira, que não passou da primeira fase da competição.

Com 1,82m, 80 quilos, olhos azuis, Bellini era considerado um verdadeiro galã. Solteiro quando foi campeão mundial, tornou-se o sonho das meninas brasileiras no fim da década de 50. Só se casou em 1963 com Giselda, mãe de seus dois filhos, Carla e Júnior. Um ano antes tinha retornado a São Paulo — era paulista de Itapira — para defender o tricolor do Morumbi, onde ficou até 1967. De lá seguiu para o Atlético-PR, seu último clube. Em Curitiba reencontrou seu velho amigo Djalma Santos, que também estava prestes a pendurar as chuteiras. Duas temporadas depois, aos 39 anos, encerrou sua carreira, no dia 20 de julho de 1969, mesmo dia em que o homem pisou pela primeira vez na lua.

Há dez anos Bellini lutava contra o Mal de Alzheimer. Ele foi internado várias vezes neste período. Na última ficou 60 dias no hospital. Apesar do estado crítico, foi liberado para voltar para sua casa. Mas seu estado se agravou e Bellini acabou retornando ao Hospital 9 de julho. O capitão de 58, que há três anos já não falava, morreu nesta quinta-feira aos 83 anos. Ele será enterrado nesta sexta em sua cidade natal.

— Ele era excepcional na liderança. Um cara grande e sério. Todo mundo gostava dele — lamentou Zito, seu companheiro em 1958 3e 1962.

 

 

 

Morre Bellini, capitão do primeiro título mundial do Brasil

Ex-jogador de 83 anos sofria de Mal de Alzheimer e estava internado desde quarta-feira em São Paulo

Wilson Baldini Jr e Ciro Campos – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Na nublada tarde de 29 de junho de 1958, em Estocolmo, Hideraldo Luiz Bellini, capitão da seleção brasileira, eternizou o gesto de erguer a taça de campeão após a conquista do primeiro título mundial do Brasil. A pequena Jules Rimet, de apenas 30 centímetros de altura e quatro quilos, foi levantada sobre sua cabeça com a mesma determinação em que defendeu seus clubes.

Naquele momento histórico para a torcida brasileira, Bellini deve ter recapitulado momentos duros da seleção, como a Copa de 1938, perdida pelos geniais Domingos da Guia e Leônidas da Silva, a infância vivida na pequena Itapira, sua cidade natal, a derrota doída no Maracanã em 1950, o técnico Flávio Costa, que sempre o incentivou a jogar sério e ainda os 60 milhões de brasileiros que queriam aquele caneco.

bellini ergue a taça

 

Bellini, que eternizou o gesto repetido depois por todos os capitães campeões no futebol, morreu nesta quinta-feira chuvosa em São Paulo, aos 83 anos, após lutar contra o Mal de Alzheimer com a mesma bravura e raça com que atuou 21 anos no futebol brasileiro.

Seu estilo rude e eficiente foi incentivado pelos técnicos que teve e nos clubes em que passou: Vasco, São Paulo e Atlético-PR. “Jogar bem, você não sabe. Trate de despachar a bola e deixe que seus companheiros façam as jogadas”, disse Flávio Costa, técnico vascaíno em 1952 ao então zagueiro da equipe. Bellini aceitou a orientação. “Quando o senhor resolver escalar este rapaz, por favor, me avise para que eu não vá ao estádio”, cansou de dizer Ciro Aranha, que assumira a presidência do clube de São Januário naquela época. “Então é melhor o senhor ficar em casa aos domingos”, rebateu Flávio Costa, ao se recusar a colocar Bellini no banco de reservas de uma equipe supercampeã, base da seleção brasileira e que reunia lendas como Barbosa, Danilo e Ademir de Menezes.

O ex-zagueiro fez parte da seleção brasileira que ganhou o primeiro Mundial do País em 1958. AP

O ex-zagueiro fez parte da seleção brasileira que ganhou o primeiro Mundial do País em 1958. AP

Líder nato em campo, Bellini foi escolhido de forma unânime pelo elenco como o capitão do fantástico time de 1958, superando mestre Nilton Santos, o estilista Didi e uma brilhante promessa chamada Pelé. “Levanta e vamos jogar”, disse Bellini a Mazzola, que sofria com fortes cãibras no jogo contra a Áustria em 1958. Nem o companheiro de zaga, Orlando Peçanha, de estilo clássico e refinado, era poupado de críticas, ao se exibir e tocar de letra dentro da área brasileira. “Para com isso, moleque!”, mandava Bellini.

 

 

NO MORUMBI
Em 1964, pelo São Paulo, Bellini não concordou com o toque de bola excessivo dos companheiros, que “humilhavam” os adversários. Acabou com a festa dos colegas dando um bico para a arquibancada. Nem mesmo quando atuava pelo Milionários, equipe que reunia veteranos célebres, Bellini deixou de lado a seriedade em campo. Brigou com Dorval, ex-ponta-direita do eterno Santos de Pelé, por ele ter tomado uns golinhos antes de um amistoso.

Em 1990, o capitão do Brasil passou ensinar sua determinação para 200 garotos de 10 a 16 anos, em uma escolinha de futebol da Prefeitura no bairro do Ibirapuera, em São Paulo. “É bom trabalhar com a criançada”, disse, feliz da vida na ocisão.

EX-COMPANHEIROS
Quem foi contemporâneo de Bellini no futebol exalta a liderença e o caráter do ex-zagueiro, atributos que justificaram a ele o posto de capitão e homem de confiança do técnico Vicente Feola na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. “Ele era excepcional na liderança, um cara grande e muito sério. Todos gostavam dele”, disse o zagueiro Zito, campeão também em 1962.

Como líder da seleção brasileira, Bellini teve o papel também de dar confiança e receber os mais novatos daquele elenco, como Pelé. “Na Copa de 58, ele foi um dos jogadores que me deram muitas orientações, porque era um dos mais experientes. Eu tinha 17 anos, era muito jovem e tudo para mim era novidade. É uma perda muito grande para o futebol brasileiro”, comentou Pelé. Na época, o atacante tinha apenas 17 anos e após começar o Mundial como reserva, ganhou espaço e foi um dos destaques do time.

Ao ser campeão em 1958, Bellini influenciou uma geração de zagueiros e iniciou uma era muito vitoriosa do futebol brasileiro. Defensor titular da seleção de 1970, Wilson Piazza destacou a importância do ex-capitão para propiciar o título e a conquista definitiva da Jules Rimet, concretizada no México. “Foi uma figura de destaque pela elegância, companheirismo, caráter e personalidade. Sem ele, o Brasil não teria iniciado a saga de títulos mundiais”, elogiou.

Em 2008, o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, homenageou os atletas campeões do mundo.

Em 2008, o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, homenageou os atletas campeões do mundo.

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