GRANDE, COMO ERA GRANDE: Aos 91 anos, a música popular brasileira perde a cantora e atriz Marlene. Ela foi a única artista que conseguiu fazer a passagem de cantora do rádio, adorada pelo auditório da Rádio Nacional dos anos 50, a estrela da MPB, prestigiada por críticos e público sofisticado dos teatros da Zona Sul carioca, nas décadas de 60 e 70. Ao vivo, em seus shows, Marlene oferecia mais do que sua bela voz ao público. Sua presença, domínio de palco e magnestismo com o público criou um estilo único. Gravou mais de 4 mil canções. Não foi à toa que foi chamada de Rainha

Morre a cantora Marlene, estrela da era de ouro do rádio

Ela estava internada por conta de uma queda, e sofreu falência múltipla dos órgãos na sexta (13)

POR O GLOBO
Marlene canta no palco da Rádio Nacional do Rio, em 2007 Foto: Steferson Faria / Divulgação
Marlene canta no palco da Rádio Nacional do Rio, em 2007 – Steferson Faria / Divulgação

RIO — A cantora Marlene, grande estrela da era do rádio no Brasil, morreu nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, por volta das 17h15. Marlene, cujo nome verdadeiro era Victória Delfino dos Santos, estava internada há alguns dias no hospital Casa de Portugal por conta de uma queda, e nesta sexta teve falência múltipla dos órgãos. Ela tinha 91 anos.

— Ela era uma artista vigorosa e forte. Trabalhou no teatro, cinema, cantou Chico Buarque… Fez de tudo, e não só rádio — disse o compositor, poeta e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, amigo de Marlene.

Assim que soube da morte da cantora, o escritor Ruy Castro comentou:

— Nunca entendi como o mundo podia se dividir entre Marlene e Emilinha. Como era possível não torcer por Marlene?

Nascida Victoria de Martino Bonaiute, em 22 de novembro de 1922, no estado de São Paulo, a cantora Marlene começou a cantar na adolescência, aos 16 anos, no programa “Hora do Estudante”, da Rádio Bandeirantes. Foi lá que ela adotou o nome artístico que carregaria até o fim da vida — seus colegas de rádio passaram a chamá-la assim, por conta de sua semelhança com a estrela Marlene Dietrich.

Foi contra a vontade da família que Marlene mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1940 e passou a trabalhar no Cassino Icaraí. Na sequência, tornou-se uma das principais crooners do Cassino da Urca e com a proibição do jogo enveredou por outras boates e locais famosos da noite carioca, como a Boate Casablanca e o Copacabana Palace, que a tornou uma das mais admiradas vozes da elite da cidade.

As ambições de Marlene, no entanto, não se restringiam ao restrito — por mais que requintado — circuito de boates, bares e teatros. Seu sonho era alcançar o grande público na Rádio Nacional, o que aconteceu em 1947. Mas ao vivo, em seus shows, Marlene oferecia mais do que sua bela voz ao público. Sua presença, domínio de palco e magnestismo com o público criou um estilo único. A aposta num repertório eclético, marcado por canções dos mais variados estilos e compositores, além de abordar temas como a pobreza e o cotidiano do povo brasileiro foram, aos poucos, aproximando Marlene das camadas mais populares.

RAINHA DO RÁDIO

Sucessos como “Lata d’água na cabeça”, “Zé Marmita”, “Sapato de pobre” entre outros hits foram de fundamental importância para tal mudança, e marcaram seu nome de modo definitivo na História da música popular brasileira.

Ao passo que tornava-se conhecida e amada por todo o Brasil, Marlene também passou a colecionar inveja e desafetos, já que, aos poucos, tomou o lugar da até então mais famosa cantora do país, Emilinha Borba. Foi em 1949 que Marlene destronou Emilinha, a superando na predileção dos ouvintes no concurso Rainha do Rádio. A vitória da cantora foi inesperada e inaugurou uma das mais históricas rivalidades da canção popular do país. Donas dos fãs-clubes mais inflamados e passionais do país, Emilinha e Marlene era motivo de discussão e disputas acirradas, e chegou a ser tratada pelo jornalista Mário Filho como “o fla-flu dos que não gostam de futebol”.

— Marlene é um mito das artes no Brasil, pois era do tipo que jogava nas onze — definiu o pesquisador musical Rodrigo Faour. — Fez de tudo que se possa imaginar. Foi cantora e atriz de cinema (das poucas que além de cantar, também atuou como atriz nas chanchadas), teatro (de revista e teatro sério) e televisão (como apresentadora, atriz de novela e cantora). Foi das pioneiras a cantar temas de crítica social no carnaval. Foi Rainha do Rádio em 1949 e dona de uma das maiores popularidades da história radiofônica, ao lado de Emilinha Borba, Angela Maria, Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto. Foi a primeira cantora a puxar um samba-enredo na avenida (em 72, no Império Serrano). Gravou em todos os formatos que conhecemos, do 78 rpm ao DVD.

Imponente em cena, com dotes físicos notáveis e explorados ao máximos, Marlene era alvo de alguns críticos da época, que de modo pouco justo insinuavam ou sugeriam que sua voz era “pequena” se comparada a de outras divas. Mas isso não impediu que ela fosse a primeira cantora brasileira a apresentar-se no Olympia de Paris, arrebatando a plateia francesa e, em especial, o ícone Edith Piaf, que a convidou para dividir o palco com ela durante uma série de shows que durou mais de seis meses.

A força de sua interpretação expressionista não demorou a chamar a atenção de produtores de teatro, e Marlene passou a receber e a aceitar convites diversos para estrelar peças e musicais. Fez também cinema, TV e apresentou seu próprio programa de rádio, “Marlene, meu bem”.

Marlene em editorial de moda para a revista ‘Radiolândia’ – O Globo

Ao longo da carreira, Marlene gravou mais de quatro mil canções e colecionou prêmios e títulos diversos, entre eles “A Favorita da Aeronáutica”, “A que canta e dança diferente”, “A Incomparável” e “É a maior”.

Um de seus mais recentes trabalhos foi o CD e DVD “Marlene, a Rainha e os Artistas do Rádio”, lançado em 2007. Em 2011, Marlene também foi homenageada no musical “Emilinha e Marlene — As rainhas do rádio”, com direção de Antonio de Bonis e texto de Thereza Falcão e Julio Fischer . No elenco Solange Badin interpretava Marlene e Vanessa Gerbelli vivia Emilinha.

— Com a morte da Marlene uma época se despede de nós brasileiros. Ela foi uma das mais destacadas cantoras do rádio. Soube como ninguém no período pós Carmen Miranda reinar junto com Emilinha no Carnaval Brasileiro! Corajosamente enveredou por outros gêneros e estilos mas foi imbatível encarnando com muito glamour o papel de diva fatal da Era do Rádio, midia que ela soube explorar magistralmente. É um triste adeus de uma época inesquecível e historicamente decisiva para os rumos que música popular veio a trilhar depois — disse a pesquisadora musical Stella Caymmi.



 

 

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marlene cantora

Marlene era a maior!

Ela foi a única artista que conseguiu fazer a passagem de cantora do rádio a estrela da MPB

POR ARTUR XEXÉO, em O Globo

Marlene tem um papel peculiar na história da música brasileira. Ela foi a única artista que conseguiu fazer a passagem de cantora do rádio, adorada pelo auditório da Rádio Nacional dos anos 50, a estrela da MPB, prestigiada por críticos e público sofisticado dos teatros da Zona Sul carioca, nas décadas de 60 e 70. Na longa disputa que manteve com Emilinha Borba pelo posto de cantora mais popular do país, ela se destacou com sucessos populares como o sambão “Apito no samba” , de Luís Antônio e Luís Bandeira; o baião “Que nem jiló”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga; ou o samba “Lata d’água”, de Luís Antônio e J. Júnior. Ao mesmo tempo, foi das primeiras cantoras de sucesso a gravar uma bossa nova (“Brigas, nunca mais”, de Tom e Vinicius, em 1959), registrou em disco “Coração vagabundo”, de Caetano Veloso; e, interpretando várias composições de Gonzaguinha, foi uma das responsáveis pela aceitação do cantor e compositor pelo grande público. E também cantou Milton Nascimento e Fernando Brant, e João Bosco e Aldir Blanc. Marlene era versátil.

Marlene cantava com grande carga dramática, muito antes de Maria Bethânia pisar descalça num palco. Exagerava nos gestos com os braços e as mãos muito antes de Elis Regina ganhar um festival cantando “Arrastão”. Fez sucesso no exterior, apresentando-se ao lado de Edith Piaf no Olympia de Paris, muito antes de o mercado brasileiro descobrir o Japão. Quando os sambas-enredos ainda não faziam parte do repertório dos grandes cantores, Marlene foi puxadora da Império Serrano, em 1972, quando a escola desfilou na Avenida Graça Aranha com o enredo “Alô alô, tai, Carmen Miranda”. Marlene acostumou-se a ser pioneira.

Marlene era tão grande que a música era pouco para ela. Foi também atriz. E boa atriz. Nos tempos da Rádio Nacional, fez sucesso em comédias de cinema ao lado de Luiz Delfino, seu marido na época. Nos tempos de ídolo da MPB, ganhou prêmios como atriz de teatro por seus desempenhos em “Botequim”, de Gianfrancesco Guarnieri; “A dama de copas e o rei de Cuba”, de Timochenco Wehbi; e na temporada paulista de “Ópera do malandro”, de Chico Buarque. Ela se identificou com o teatro de vanguarda e com os dramaturgos que faziam política de oposição com seus textos. A ditadura ficou com raiva de Marlene. E se vingou proibindo os gestos que ela fazia na música “Bloco do Crioulo Dodô”, num festival de canções carnavalescas da TV Tupi. A Censura determinou que o gestual da cantora era sexual demais. Talvez ela tenha sido a única artista brasileira a ter gestos censurados.

O tempo passa e nossa tendência é simplificar a trajetória de nossos ídolos. Tomara que Marlene não entre para a história apenas como a grande rival de Emilinha Borba. Ela foi muito mais que isso. Marlene era a maior.

 

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