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GILNEY VIANA E O CONGRESSO DO PT: Lulismo com Lula e o contraponto pela esquerda

Gilney

Lulismo com Lula e o contraponto pela esquerda
Gilney Viana


A intervenção presencial do Lula salvou o Congresso do PT da mesmice da maioria construída sem política e do reducionismo burocrático da disputa da direção por agrupamentos internos. Seu discurso de abertura demarcou o campo de debate, firmou tendências políticas, explicitou seus limites e ao mesmo tempo valorizou o contraponto das minorias que pensam e ousam falar diferente.

Reestabeleceu a hegemonia do original lulismo com Lula em detrimento do genérico lulismo sem Lula.


A fala de Lula na abertura e a reeleição de Gleisi Hoffmann para presidente ao final do congresso mostraram a força e a hegemonia do lulismo. O contra ponto não hegemônico se expressou no discurso de José Genoíno e nas falas dos representantes das teses que apoiaram as candidaturas ou de Valter Pomar ou de Margarida Salomão a presidente. Essa dialética interna não determinará o curso da luta social e política nacional, mas pode determinar o protagonismo do partido nesta conjuntura e o seu caráter democrático e socialista no futuro. Vamos discutir.


O ponto principal do discurso do Lula foi a formatação do enfrentamento ao projeto ultraliberal e conservador de Bolsonaro, o que fez de forma competente e convincente. Ao declarar que “nós não somos meia oposição, somos oposição e meia” ao governo Bolsonaro e sua agenda ultraliberal e conservadora, Lula deu a linha para o partido.

De forma consequente situou historicamente a polarização econômica, social e política existente na sociedade brasileira e se colocou no polo da classe trabalhadora, do povo e da soberania nacional. Corretamente, não se dobrou às cobranças de não polarização e de rendição propostas pelas classes e elites dominantes a título de “autocrítica do PT”.


Dois limites. Primeiro, reduziu o programa do partido ao programa executado pelos governos liderados pelo PT e não o articula, em nenhum momento à perspectiva socialista. Segundo, ao negar corretamente a autocrítica cobrada pelos adversários, não desenvolveu um balanço dos erros e acertos do partido, que vão além dos erros de governo, reduzindo a autocrítica cobrada pela militância à constatação de um genérico e insuficiente “erro maior que nós cometemos foi não ter feito mais e melhor, de uma forma tão contundente que jamais fosse possível esse país voltar a ser governado contra o povo”.


O contraponto mais eloquente das minorias às teses da maioria foi feito por José Genoíno, ex-presidente nacional do partido, falando em nome da coligação das chapas “Optei pelo Socialismo, Lula Livre”, “Em Tempos de Guerra a Esperança é Vermelha” e em defesa da candidatura Valter Pomar a presidente do PT. Quatro destaques. Primeiro, a reavaliação (autocrítica) da “não ter disputado corações e mentes do povo brasileiro”; da ilusão do consenso “com quem na primeira oportunidade nos golpeou”, que acreditou em uma “democracia estabilizada” e em “alianças com setores da classe dominante”. Segundo, ao defender uma “oposição a essa nova ordem que nasceu do golpe” a partir de “aliança com setores amplos do povo e das classes populares”. Terceiro, a “defesa, neste processo de acumulação de forças, das bandeiras do socialismo democrático”. Quarto, “que a luta libertária é inseparável da luta contra o capitalismo, fundamental para afirmar a luta socialista”.


Este padrão político e programático não se reproduziu nos grupos de debate, caraterizado por marcação de posições dos agrupamentos e aprovação burocrática das emendas. Ao retornar à plenária a discussão foi reduzida a algumas emendas à Tese Guia (elaborada pelo agrupamento interno Construindo um Novo Brasil), dentre as quais ressalto três.

Primeira e mais polêmica, a emenda que propunha a palavra de ordem “Fora Bolsonaro”, apresentada pela tese “Lula Livre! Fora Bolsonaro” Governo Democrático e Popular” e apoiada por outras teses de esquerda, que foi rejeitada. A segunda, “Contra Bolsonaro, Por um Governo de Esquerda”, sobre a tática. E a terceira, “Socialismo Democrático, sustentável, feminista, anti-racista e contra todas as formas de opressão”, sobre o programa, apresentadas pela chapa Optei Pelo Socialismo. Lula Livre, da qual participou este articulista.


Na disputa pela direção a novidade foram os votos dados à CNB em número inferior aos seus delegados, perdendo a maioria absoluta, revelando suas contradições internas e as manobras sutis para manter a maioria. Há um descompasso entre essa maioria ajustada da direção do PT operando no defasado modo lulismo sem Lula e a grande maioria formada pelos 71,5% dos votos conseguidos por Gleisi Hoffmann para presidente sob a orientação de Luís Inácio Lula da Silva, que opera no renovado modo lulismo com Lula.


Agora, a prática social afirmará ou negará a justeza das decisões partidárias, inclusive as posições das minorias, a partir de uma situação de defensiva porque as oposições sociais e políticas até agora não conseguiram barrar a ofensiva do regime bolsonarista. Não há mais espaço e tempo para dúvida sobre o caráter ultraliberal e conservador do novo regime e tão pouco da capacidade da aliança golpista para implementa-lo, combinando convencimento, coerção e terror. Não há espaço para ilusões nem tempo para conciliações. O tempo é de resistência, ou parodiando Lula, não de meia resistência, mas de resistência e meia.

Gilney Vianna é médico e militante do PT em Brasil. Foi deputado estadual e federal pelo PT em Mato Grosso


Brasília, 29/11/2019.

Categorias:Cidadania

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