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GIBRAN LACHOWSKI: Não aceitar que se sabe muito, sobretudo se nem bem 40 anos se fez. Esse é um bom começo para enxergar-se em contínua fase de aprendizado, transcendentalmente, filosoficamente ou apenas profissionalmente falando. Nessa toada trago algumas lições aprendidas e reaprendidas durante o 10º Simpósio de Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)/campus de Alto Araguaia, ocorrido entre 27 e 29 de outubro

Gibran Lachowski

Gibran Lachowski

Algumas lições para o exercício do jornalismo

Por Gibran Luis Lachowski

Não aceitar que se sabe muito, sobretudo se nem bem 40 anos se fez. Esse é um bom começo para enxergar-se em contínua fase de aprendizado, transcendentalmente, filosoficamente ou apenas profissionalmente falando. Nessa toada trago algumas lições aprendidas e reaprendidas durante o 10º Simpósio de Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)/campus de Alto Araguaia, ocorrido entre 27 e 29 de outubro.

Diversidade de fontes e humanismo

É velha e surrada a recomendação ao jornalista de que ouça o maior número de fontes de informação a fim de que o coletado resulte em material capaz de dar uma ampla dimensão dos atores sociais envolvidos e dos pontos de vista que o assunto em questão compreende. Contudo, mais do que um bom volume de pessoas, entidades e documentos – na medida do tempo que se dispõe e de outras condições de produção jornalística –, faz-se necessário procurar vozes diferentes, quando não opostas umas às outras.

Porque é muito comum ouvir um razoável conjunto de cidadãos, mas que compõe um mesmo campo de pensamento, com discordâncias apenas em detalhes e funcionando como complemento e reforço de uma ideia central. Ou não é isso o que ocorre quando, para falar de ocupação de latifúndios por movimentos sociais, ouve-se um ente do aparato jurídico ou policial, um parlamentar ruralista e, para fechar, assiste-se ao performático apresentador-comentarista dizer “Isto é uma vergonha!”?

Por isso vale ressaltar a ponderação da cientista social e pós-doutoranda do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), San Romanelli Assumpção, de que é fundamental que os jornalistas ouçam e deem vazão ao maior número de lugares de fala. Para a pesquisadora, isso é possível se os profissionais têm o humanismo como forma de capacitação para atuar sobre a realidade. A cientista social foi uma das palestrantes da mesa de debate intitulada “Jornalismo, memória e política”, realizada na noite de 28 outubro.

Foi “esse” humanismo que lhe deu base para atuar como assessora da Comissão Nacional da Verdade, instância que funcionou entre maio de 2012 e dezembro de 2014 e levantou crimes cometidos pelo Estado brasileiro de 1944 a 1988, com especial destaque ao período da ditadura civil-militar (de 1964 a 1985). Sabe-se que entre as técnicas de tortura praticadas na ditadura contra presos políticos estiveram as mutilações, os estupros, os choques nos genitais e a retirada de recém-nascidos dos braços das mães.

Foi “esse” humanismo que deu condições emocionais e técnico-teóricas a San de conduzir o trabalho de ouvir cerca de 600 vítimas da violência cometida pelo Estado e depois transcrever trechos dos depoimentos.

A dimensão política da notícia

A outra palestrante que participou da mesa referente à discussão sobre jornalismo, memória e política – e que merece destaque pela reflexão que fez – foi a jornalista, doutoranda em Comunicação e Semiótica da PUC/SP e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)/campus de Cuiabá, Janaina Sarah Pedrotti.

Conforme a pesquisadora, ainda que o produtivismo oriente grande parte dos veículos de comunicação (e, acrescento eu, que este ritmo, de certa forma, seja reproduzido no espaço da academia), é necessário pensar para além do fato. Afinal, toda notícia, em última instância, é mais uma consequência do que um ato inaugural, pois o acontecimento, assim como o trabalho de percepção, planejamento, captação, elaboração e edição, remete a um processo e não a um fato isolado, ou seja, subentende algo mais amplo e complexo.

Buscar a dimensão política da notícia é algo que deve ser feito diariamente e que inclui questionar o próprio modo de funcionamento dos meios jornalísticos, recorrendo a antecedentes históricos e comparações, entre outros mecanismos, para conseguir inserir a matéria dentro de um contexto social.

Significa perceber, por exemplo, qual é o ganho democrático da sociedade com a aprovação pelo Senado do projeto de lei de Roberto Requião (PMDB-PR) que regulamenta o direito de resposta na mídia, ainda que veículos do oligopólio da comunicação e entidades patronais do setor insistam em classificar a proposta como um atrapalho para a liberdade de imprensa.

E significa também, portanto, promover um ensino do jornalismo capaz de se pautar a partir de uma perspectiva crítica que possua maturidade para estimular a concepção de produtos e formas de fazer que, além de apontar erros, projete modelos mais consistentes, plurais e participativos.


Gibran Luis Lachowski, jornalista e professor do curso de Comunicação da Unemat/Alto Araguaia

Categorias:Cidadania

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