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SEBASTIÃO CARLOS: Profeta canonizado em vida, Pedro Casaldáliga, como poucos, levou até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo

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Sebastião e Pedro18

Profeta e poeta – I

POR SEBASTIÃO CARLOS

Às mais de cem mil mortes provocadas pela terrível pandemia, que cresceu auxiliada pela desídia do poder, se junta uma que, embora não diretamente ligada, potencializa a emoção. Ao sofrimento de tantas famílias enlutadas, o manto negro da dor cobre a nossa História nacional. Às 09h40min do sábado (8) partiu em definitivo da vida terrena um profeta e poeta. Profeta canonizado em vida que, como poucos, levaram até as últimas consequências a fé profunda na palavra do Cristo. Poeta instigante, combativo, de vibrante telurismo que fez dos versos livres um canto perene em busca da Justiça e a serviço da Liberdade. Nos versos, via o Evangelho, no Evangelho encontrava a poesia. A voz era mais forte que o corpo magro e frágil e a presença física tornou-se mais imensa que a floresta em que habitava e defendia. Assim era Dom Pedro Casàldaliga. Mais que Dom Pedro, Pedro simplesmente como apreciava. Mais que bispo, irmão dos deserdados da Terra.

Pere Maria Casaldàliga i Pla nasceu na pequena localidade de Balsareny, região nordeste da Espanha, pertencente à Província de Barcelona, Comunidade Autônoma da Catalunha. Balsareny é um município com área inferior a 40 Km2 e que em 2018 tinha menos que 4 mil habitantes. De família de agricultores pobres, em 1943 ingressou na Congregação Claretiana e em maio de 1952 foi ordenado sacerdote. Nos anos seguintes lecionou e foi assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris. Em 1968, o ano do AI 5 e do inicio do endurecimento do regime militar, o padre Pedro Casaldàliga, já adaptando o primeiro nome ao português, chega ao Brasil. Vinha para Mato Grosso. Missionário, fundaria uma missão claretiana às margens do Araguaia.

E foi então que, estudante de História na Universidade Federal de Goiás e militante estudantil em Goiânia, fui conhecê-lo na Paroquia São José Operário, no Setor Oeste, na querida capital de Goiás. Eram anos de intensa movimentação estudantil e política, que a idade estimulava o idealismo e o consequente radicalismo politico. O padre espanhol, franzino e elétrico, com voz firme, falando em politica, no sofrimento dos pobres da Amazônia com os quais dividia a luta diária e brandindo poemas flamejantes logo conquistou o pequeno grupo de jovens universitários goianos com os quais começou a manter contatos. No ano seguinte, Paulo VI o nomearia bispo prelado e administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia, sendo sagrado bispo em 23 de outubro de 1971.

Daí para frente a relação com os poderosos da região e com a ditadura militar iria se tornar cada vez mais difícil e ácida. Combativo, contundente, compromissado até o cerne com os desvalidos da terra, num desafio desabrido, num permanente profetismo missioneiro e, digo, quase místico, Casaldàliga se agigantou entre as forças que se opunham à ditadura militar. Destacou-se também como defensor de índios, tendo sido um dos fundadores do CIMI – Conselho Indigenista Missionário que, mais que em anos anteriores, estavam sendo empurrados cada vez mais para o sertão imenso até serem encurralados e se encontrarem em face da doença, da miséria total, da morte. Também co-fundador da CPT – Comissão Pastoral da Terra, que atuaria destemidamente em favor dos posseiros.

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A tríade implacável constituída por latifundiários, garimpeiros, policia, sempre apoiada, acintosamente ou não, por políticos e governos presenciou a um Casaldàliga enfrentá-los com destemor. A região era de extrema marginalização social, extensos latifúndios, alto grau de analfabetismo e muitos conflitos pela terra, onde os assassinatos e os desaparecimentos de desafetos eram o instrumento usual.

O bispo do Araguaia esteve entre os militantes da Teologia da Libertação, que então dividia a Igreja, e ao lado de um grupo de padres, bispos e arcebispos, entre os quais o corajoso Dom Tomás Balduíno, bispo da antiga capital de Goiás, e a quem tive o prazer de conhecer de perto, arrostou os conservadores da Igreja, enfrentou os poderosos da região e desafiou a ditadura militar.

As ameaças de morte lhe eram constantes e não raro estiveram muito próximas da concretização. Em 11 de outubro de 1976, Casaldàliga e o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier [12/06/17 – 12/10/76] passavam por Ribeirão Cascalheira. Visitavam os moradores quando populares os procuraram para denunciar que duas mulheres estavam sendo barbaramente espancadas na delegacia de policia. Os gritos desesperados eram ouvidos na rua. Tal fato não era incomum. De imediato, os dois sacerdotes acorreram ao local.

Tem então inicio uma forte discussão com os policiais. Inesperadamente, Pedro é brutalmente empurrado e Burnier agredido com coronhadas e na sequencia alvejado com um tiro na nuca. A comoção é geral. O jesuíta é transferido para Goiânia e lá falece no dia seguinte. Terminada a missa de sétimo dia, a população segue em passeata até a delegacia, liberta todos os presos e coloca fogo no prédio. Nesse local seria erguida uma capela. Os policiais nunca foram punidos. Nenhuma novidade nesse desfecho. Com a redemocratização, o “caso do Padre Burnier” foi apresentado à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça para que o reconhecesse como crime político. Mas em abril de 1997 o requerimento foi indeferido. Somente em 25 de novembro de 2009, trinta e três anos depois, o CEMDP reconheceu a responsabilidade do Estado Brasileiro pela morte, sendo, pois definido como crime politico.

Aqueles foram os anos duros da repressão politica e social. Os anos de chumbo. A violência no quotidiano era acobertada por poderes maiores. Tudo e todos que, de alguma forma, pudesse ser apodado de “comunista” “precisavam ser castigados”. O bispo catalão – matogrossense não estava excluído desse rol nefasto. Em cinco ocasiões, o Governo, por instancia do Conselho de Segurança Nacional, abriu contra ele processos de expulsão do país. O bravo arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, em diferentes ocasiões saiu publicamente em sua defesa, mobilizou a ala progressista da Igreja e, por fim, o próprio Vaticano fez gestões diretas, o que impediu o prosseguimento da ação expulsória. A ditadura também temia um desgaste maior para a sua imagem no exterior. Ainda assim, a situação do prelado do Araguaia estava periclitante tanto que quando o pai faleceu ele desistiu de ir à Espanha para a despedida final pelo temor de ser impedido de retornar.

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A ação solidária de Casáldaliga para com os esquecidos da terra e o seu espirito intrépido e desafiador muito incomodavam os poderosos numa época em que o silêncio e o acocoramento moral a que muitos se entregaram era o mais conveniente. Não por outros motivos foi logo denominado de “subversivo”, de “padre vermelho”, enfim, de comunista. Ele se juntava então ao rol de um punhado de curas e prelados brasileiros. A verdade é que a crença profunda no Evangelho e a exigência ética existencial dessa fé originária permitia a esses bravos cristãos adotar como suas, tal como Pedro o fez, uma citação atribuída à aquele que, por muitos anos, foi o símbolo da resistência católica no Brasil. Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”. E assim era, porque não se pode confundir a verdadeira solidariedade como uma forma de caridade. Nesse conceito, não se trata de consolar a alma do caridoso, mas de buscar a Justiça dos justos.

Em 1971 fui realizar estudos em Madrid. Recebi de Casàldaliga o endereço dos Claretianos na capital espanhola e ele insistiu para que os procurasse. Lá, entre tantos, conheci e me tornei amigo do padre Benjamin Forcano, que anos depois se tornaria um importante teólogo, igualmente ligado à Teologia da Libertação. Nesse ano, Forcano havia lançado seu primeiro livro, ¿Amor y natalidad en conflicto? [Valencia, 1971], que me presentearia autografado. Era um dos articulistas mais destacados, depois diretor, da revista Missión Abierta, que acolhia os pensadores irmanados pelo Concilio Vaticano II.

Posteriormente dirigiria a revista Êxodo e anos depois o editorial Nueva Utopia. Todas publicações que se colocavam na dianteira do pensamento católico europeu, engajados na linha do aggiornamento empreendida pelo grande pontífice João XXIII. Tive a alegria de, por suas mãos, e ainda nos meus vinte e poucos anos, conhecer uma plêiade de pensadores cristãos de vanguarda. Em todos eles testemunhei uma admiração, quase reverencial, por D. Pedro Casáldaliga e enorme curiosidade em saber como ele vivia e como agia o regime militar. Os espanhóis viviam os estertores do regime franquista.

Pedro Casaldàliga não foi somente o militante do Evangelho, o homem que levou às ultimas consequências práticas as palavras do seu Salvador, porque poucos como ele souberam ser tão fieis ao lema que elegeu para seu serviço pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”. Poucos foram, como ele, um verdadeiro Homem de Cristo, na vivencia mais profunda da mística evangélica. Ele exercitou até as ultimas consequências a denúncia arriscada e temerária, deu o seu testemunho corajoso e realizou a profecia cristã aqui mesmo na Terra. A sua figura mística se agiganta e encarna uma espiritualidade que configura o verdadeiro anunciar do Sermão da Montanha.

Mas o catalão foi também poeta e, por extensão, historiador, sociólogo, antropólogo, ecólogo.

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador em Cuiabá, Mato Grosso.

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Assim caminha a Humanidade

MÁRIO SERGIO CONTI: Nos 80 anos do assassinato de Trótski, as ideias do arauto da revolução

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Trotsky

Nos 80 anos do assassinato de Trótski, as ideias do arauto da revolução

Mario Sergio Conti

Na próxima sexta-feira, dia 21, será o 80º aniversário do assassinato de Leon Trótski, o líder do soviete de Petrogrado na Revolução Russa. Depois ele dirigiu o Exército Vermelho, venceu a guerra civil e consolidou a União Soviética, que criou um partido mundial da revolução, a Internacional.

Aí foi caçado como um cão pelos seus ex-companheiros e novos inimigos. Vagou pelo mundo sem ter pouso até ser morto, no México, pela picaretada de um agente de Stálin —o ditador do Estado sem patrões nem propriedade nem democracia do qual ele, Trótski, foi essencial na criação.

Sua obra soçobrou no funesto maremoto onde se atropelam o passado e a derrota. A União Soviética naufragou. O comunismo foi a pique. O marxismo mal se mantém à tona em botes esburacados. Trótski morreu para sempre?

Talvez continue mortinho da silva até que a revolução deixe de ser uma ideia anacrônica e vire de novo algo palpável. Agitações, motins e até insurreições ocorrem hoje com sofreguidão frenética: gilets jaunes, Chile, Argélia, Hong Kong, Estados Unidos, Líbano, Belarus.

São revoltas contra aquilo que ele também lutou: a exploração, a desigualdade, a opressão, o racismo, a casta política podre. Mas não são revoluções. Estas se definem pela derrubada, violenta e popular, de uma ordem social e sua troca por um novo sistema político e econômico.

Trótski participou de duas revoluções. Elas lhe definiram a vida e renderam seus melhores livros. Em 1905, ele era o que o Brasil bem pensante chama de extremista. Tinha 26 anos e estava fora de partidos quando começou o quebra-quebra.

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Viu o movimento de trabalhadores que, para pasmo da esquerda, criou espontaneamente os sovietes —os conselhos populares eleitos diretamente. Com a derrota da revolução, foi banido para a Sibéria; fugiu e se exilou.

Publicou “Balanço e Perspectivas”, uma síntese da revolução com uma ideia formidável, a do desenvolvimento desigual e combinado. O capitalismo é um sistema mundial, disse, mas contraditório e assimétrico. O progresso se alimenta do atraso e vice-versa.

A escravidão, ou a servidão, ou a condição colonial, são momentos presentes da sociedade do capital. Os países periféricos não são quistos do passado nem estão fadados a seguir etapas retilíneas no rumo do progresso. Poderiam passar direto do arco e flecha para a dinamite.

Trótski concluiu da tese que as conquistas das revoluções burguesas —igualdade perante a lei, república, reforma agrária, independência nacional, industrialização— só poderiam ser obtidas pelos trabalhadores, e apenas no quadro da construção do socialismo: a revolução permanente.

Veio 1917 e ele voltou para a Rússia e liderou a tomada do poder. A experiência lhe valeu sua opus magnum, “História da Revolução Russa”. O livro não tem equivalente. Seria como se Robespierre narrasse o 1789-1794 francês.

É um afresco de 1.200 páginas que circula entre o geral e o particular. Expõe o período, mas flagra um cossaco a cavalo piscando para um operário rebelde. Usa economia, história, sociologia e jornalismo para captar a coletividade trabalhadora em movimento.

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Seu mote é o de Spinoza: não rir nem chorar, mas compreender. Nesse espírito, aceita e até elogia pontos de vista dos conservadores. Seus parágrafos comportam perspectivas antagônicas e buscam uma síntese que as supere.

Assim, diz com ironia que, na derrubada do czar, os liberais eram convincentes, “mas como é lamentável que o liberalismo, que conhecia tantos remédios infalíveis para salvar a monarquia, não encontrou meios de salvar a si mesmo”.

Afirma que é enganoso comparar figuras históricas —e logo esmiúça a personalidade de Luis 16 e Maria Antonieta, contrastando-as com as de Nicolau 2º e da czarina Alexandra. Diz que a revolução foi feita pelas massas, mas demonstra que sem Lênin ela não venceria.

História da Revolução Russa” foi escrito num novo exílio, depois de Trótski ter perdido o poder. Era o início de uma série de derrotas políticas cujos motivos se reduzem a um só: a revolução permanente não vingou na Rússia nem em lugar algum.

Já o desenvolvimento desigual e combinado ainda descreve a marcha destruidora do capitalismo triunfante. Só que agora numa situação mais complexa. A velha concentração da riqueza convive com hecatombes ambientais; vagas de migrantes; reclamos identitários; crises da democracia; armas nucleares.

É uma crise permanente. Revoluções, se e quando vierem, serão bem diferentes das que Trótski viveu.

Mario Sergio Conti, jornalista, é autor de “Notícias do Planalto”. Artigo publicado na Folha de S.Paulo

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