Ganhador do prêmio Camões, Dalton Trevisan renovou prosa urbana

Mestre das narrativas curtas, Trevisan renovou a prosa urbana

Escritor venceu Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa
MANUEL DA COSTA PINTO

Dalton Trevisan com secretário de Estado de Cultura Francisco José Viegas, em Lisboa

COLUNISTA DA FOLHA

Vencedor do Prêmio Camões deste ano, entregue na última segunda, Dalton Trevisan é um mestre da narrativa curta, do microconto reduzido a uma única cena, a um único parágrafo, às vezes a uma única frase, com tramas macabras nas quais vingança e perversão parecem ora uma compulsão, ora uma danação bíblica.

Redução e repetição. A essas duas palavras, recorrentes nas análises sobre o autor de “A Polaquinha” (seu único romance, de 1985) e “Pico na Veia” (miniaturas de prosa que receberam o Prêmio Portugal Telecom de 2003), podemos acrescentar uma gama relativamente limitada de tipos literários.

Órfãs seduzidas e moças obrigadas a se prostituir; bêbados rastejantes e casais de velhos desdentados remoendo suas vidas; mulheres que passam as tardes costurando e maridos ciumentos de suas fantasias sexuais; funcionários públicos suarentos, à espera do golpe de misericórdia, que pode ser tanto um ataque cardíaco quanto um tiro disparado pelo assaltante da esquina.

CURITIBA

A personagem mais frequente em sua obra, porém, é a cidade de Curitiba, na qual vive de modo quase anônimo, encerrado numa casa com janelas sempre fechadas, avesso à vida literária, recusando-se a dar entrevistas e ignorando as honrarias que foi acumulando.

Isso lhe valeu o epíteto de “O Vampiro de Curitiba”, título do livro de contos publicado em 1965, com as peripécias do tarado Nelsinho, que persegue virgens, professoras e velhas prostitutas.

A Curitiba de Trevisan está longe de ser a “cidade-modelo”, laboratório de experiências urbanísticas vendidas como prova de um Brasil “viável”, primeiro-mundista e antitropical.

Ao contrário, a cidade que começou a emergir em livros como “Novelas Nada Exemplares” (1959) e “Cemitério de Elefantes” (1964) é um espaço cinzento, habitado por personagens dominadas por um lirismo desesperado, por impulsos maníacos e sentimentos persecutórios.

“A vida, que é a vida, ó minha princesa? Um sórdido corredor de pensão curitibana, mil olhos vigiando cada vez que você entra no banheiro”, já escreveu ele.

BRASILEIRO

Dalton Trevisan é simultaneamente o mais brasileiro e também o menos brasileiro dos escritores da literatura contemporânea.

Os “malandros” de João Antonio e os “marginais” de Rubem Fonseca (escritores com os quais renovou a prosa urbana dos anos 1960 e 1970), por exemplo, ainda trazem a sombra de uma idealização do excluído que viola as regras da sociedade.

Na literatura de Trevisan, ao contrário, não há nem delinquentes nem “outsiders”, apenas pobres diabos.

Existe algo de “cor local” em personagens como a costureirinha ou a normalista e no uso do diminutivo, que o escritor desloca do linguajar familiar-afetivo para um contexto bastante perverso (mulheres de sexualidade infantilizada e febril pedindo que lhe suguem “o biquinho dos seios” ou então o dedo “mindinho”).

Ao mesmo tempo, por força de sua recorrência obsessiva, essas cenas obscenas vão se descolando de seu cenário original, rompem um círculo limitado de ruelas e casinhas provincianas para transformar o mundo todo numa enorme Curitiba, monótona e intranscendente.

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